Monthly Archives: February 2012

Passei-me. Passa

Escrevo a quente. Hoje estou irritada. Acontece. E ainda não foi nada comigo. Aconteceu quando alguém me pôs a mão no ombro e disse adeus, pedindo um livro para ler na fila dos desempregados. Alguém que conheço há muitos anos. Foi o golpe de misericórdia. É que no dia anterior, ao jantar, já tinha sabido que um amigo vai ter de emigrar. Há meses sem trabalho, as economias foram-se, a família vive com o ordenado da mulher e a vida ditou-lhe: sair ou faltar comida em casa aos dois filhos. Ele, engenheiro, vai sair. Dias antes, alguém que também conheço há muito tempo, contou-me que o marido ficou sem emprego e agora vivem com o salário de 600 euros dela. Ok. É a vida. É a crise. Mudam-se para um T1 que na verdade é um T0. Apertam-se. Felizmente não há crianças.

A minha mãe, que trabalhou a vida inteira em casa e uns anos numa empresa farmacêutica, foi pedir reforma. Não tem direito, disseram-lhe. A nada, continuaram, nem um tostão. Tem um marido que ganha mais de 700 euros e uma filha que não lhe há-de negar “um prato de sopa, pois não minha senhora?!” Pois não. Isto foi dito assim num balcão da segurança social à mesma pessoa que tem uma doença congénita rara e direito a transporte gratuito para o único hospital de Lisboa onde tratam a dita doença. Tinha. Agora paga 35 euros por viagem de ambulância porque não pode fazer os 40 quilómetros que a separam do médico de outro modo. É. Não se trata de uma urgência, explicam-lhe. Pois não, mas de ir ao único sítio onde a podem tratar da tal doença com nome esquisito. Já veio e já pagou. Ela ou quem pode por ela.

Há alguém que entregou a casa e se mudou para longe porque viu-lhe ser cortado o ordenado em trinta por cento. Aos 40 anos voltou para casa dos pais. Sim, alguém que conheço. Alguém que também conheço reza para a patroa não ficar na lista dos “a dispensar” numa empresa que anunciou despedimentos. Alguém que sei muito bem quem é, viu um rendimento complementar crucial ir à vida porque uma empresa faliu e quem lhe pagava o aluguer voltou para onde veio, sem emprego, agora corre ela o risco de ficar sem casa. É longe.

Estou chateada. Vejo os nervos à flor da pele de quem me rodeia, sinto o medo à minha volta como nunca senti. Cheira a comida onde não devia porque antes eram sítios onde não se comia. Há quem pergunte por lancheiras bonitas. Há que nos adaptarmos, não é? Pois. E duas senhoras da Emel caçam multas à porta do café. E sei de quem este ano ainda não ligou o aquecedor porque a conta da luz não permite luxos contra o frio. Haja cobertores.

Eu sei destas pessoas e de mais umas quantas. Números? Também toda a gente parece saber de alguém e as estatísticas da crise engordam. À custa de quem?

Estou irritada, perdoem o desabafo. E no meio de tudo isto parecem capricho os cabelos brancos de repente na cabeça de uma amiga. Foi a crise. O orçamento não resistiu ao envelhecimento e deixou de haver dinheiro para tintas. Encolhe-se os ombros. Está a ficar feio este país e eu estou um bocado chateada. Hoje.

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O Chapéu

O chapéu de palha girava-lhe nos dedos. Como se chamava o modelo? Fez um esforço, mas não sabia nada de chapéus. Ele é que sabia dos fedoras, dos panamás e de todos os outros.

O chapéu girava nos dedos e ela pensava na falta que ele lhe fazia. E não lhe venham dizer que falta é o mesmo que vazio. Isso é o que a ponta do cigarro aceso faz no guardanapo de papel. Um buraco que alastra e consome até não restar nada. Foi ele quem usou a metáfora para lhe dizer do perigo do desgaste, do que o tempo e o não dito e mal dito podem fazer entre duas pessoas que se amam.

A falta dele não era o vazio. Era uma enorme ausência. Quase tudo e não quase nada. O chapéu que lhe girava nos dedos, de palha amarela, diz que tecida à mão, aumentava essa ausência. Lá fora, a tarde era de inverno, mas o tempo igual ao de verão, como no dia em que aquele chapéu fazia todo o sentido e não lhe girava nos dedos.

“Eu tenho pudor em inventar situações”

Foram para guardar todas as conversas que tive com Ruy Duarte de Carvalho, o poeta, dramaturgo, prosador, antropólogo, fotógrafo, fazedor de filmes que escolheu África para terra e lá morreu, cedo, de mais, em 2010. Não faz hoje anos, mas não fico à espera de efemérides para lembrar e partilhar esta. O pretexto é ele, o autor. 

Entrevista com Ruy Duarte de Carvalho a respeito de Lavra

Na introdução apresenta Lavra como um livro de memórias. Não é comum associar a poesia à memória.
Este livro corresponde a experiências situadas no tempo, remete–me a memórias, a várias fases da vida e da escrita; a várias atitudes em relação à própria experiência. São muitos anos de Angola, desde antes da independência. Isso marca vários tempos de uma experiência de Angola através da minha expressão. Chegou a altura de publicar o conjunto. Não pensei que efeito poderia ter sobre o leitor. Acho que não vou fazer mais uma coisa assim.

É uma despedida da poesia?
Acabou, acho. Continuam a acontecer-me coisas que poderiam conduzir a poemas, mas meto-os nos outros escritos.

Porquê?
Não sei explicar muito bem.

Não foi uma decisão?
Não. A última recolha são extractos de um diário e cada vez mais se parece menos com a configuração da poesia, dos poemas às escadinhas. Também a articulação da linguagem foi sendo cada vez menos isso. Mas a substância poética acho que está lá, é a mesma. Como livro de poesia acho que é o último.

Reviu alguns poemas. Com que intenção?Dei uns toques a alguns, mas não para os transformar mais em poesia ou modificar a substância. Foi para os tornar mais iguais a eles mesmos, mesmo nos defeitos. A gente acaba por saber como lhes dar a volta.

Quanto mais nos aproximamos no tempo mais visível é o cuidado com o poema do ponto de vista plástico.A expressão plástica sempre me interessou. Nunca a pratiquei muito porque a vida não apontou para aí. Mesmo no que escrevo há muito que se revela através de imagens. O que faço é traduzir as imagens para outra linguagem. Mesmo na prosa. A imagem faz parte da minha maneira de me situar: apreender as imagens. Fiz bastante cinema e ele gera uma maneira de compensar a necessidade de expressão plástica.

Isso revela-se na forma do poema.
É. A organização do texto na página conduz a uma maneira de leitura, as cisões dos versos, as deslocações… É para funcionar um pouco como uma pauta de música.

E o desenho do poema é feito à mão?
Depende. Tiro muitas notas. A fase final é organizá-las. O modo como o poema surge corresponde logo à sua organização no espaço do papel. Mesmo em relação à escrita continuada, à prosa, acontece ter de quebrar uma linha. É uma questão de respiração. A poesia escrita é para ler. Funciona quase sempre mal a dicção pública de poemas. Procuro induzir o leitor na cadência que acho que traz mais rendimento à palavra.

Em Da Lavra Alheia (1977-80), o quinto livro deste volume, passa para poema testemunhos da expressão oral africana. O poeta aproveita o trabalho do antropólogo?
Esse livro foi feito antes da formação de antropólogo. Fiz-me antropólogo para saber com o que estava a lidar. Havia um património de expressão africana que não estava disponível para o consumo da literatura porque a recolha era feita por especialistas, por antropólogos que traduziam tendo em conta o interesse da informação e sem extrair rendimento de uma carga poética que para mim era evidente e que estava aniquilada. É um património de sabedoria universal. Decidi dar a volta a esse património de sabedoria universal. Pus notas no fim para não perturbar a leitura e porque me parecia abusivo recorrer a fontes e não as referir, mas os poemas são da minha inteira autoria. Decorrem da experiência de contacto.

Lavra é uma palavra recorrente na sua obra poética.
Fui sempre fazendo lavras. A Lavra Paralela (1983-86) nasceu no fim da minha tese sobre pescadores em Luanda. Quando arrumei os papéis tinha bué de poemas. Estava cansado da ciência e fui descobrindo que havia imensas coisas à margem do texto. Lavra é o labor da terra, uma expressão da condição humana! Remete para coisas lá de Angola. No tempo do entusiasmo revolucionário e da Aliança Operária Camponesa foi necessário dar nome a um jornal literário da União de Escritores. Tinha de ter a alusão a operários e camponeses. Alguém lembrou ‘oficina’. Eu lembrei-me de ‘lavra’. A partir daí comecei a usar a palavra. É a minha lavra poética. A palavra funda e a poesia atribui sentidos novos às palavras. Há ideias que só se apreendem com a palavra certa. Quando não a encontramos, a ideia não se agarra.

É esse o seu objectivo enquanto escritor?
É. Mais do que veicular ideias, é configurar expressões que às vezes são ideias. A ideia não precede, necessariamente, a palavra. Na poesia é a palavra que dá acesso à ideia e não a palavra que vem dar cobertura à ideia. É a palavra que desencadeia a ideia. Há-de haver filósofos que sabem disto muito mais do que eu, porque analista de literatura não sou.

Mas tem reflectido sobre isso.
Como antropólogo o meu ofício é a análise.

Diz que não é um ficcionista.
Sim, digo isso porque comecei pela poesia. A minha acção de escrita visa a síntese, não a análise. No fim, todos andamos atrás do mesmo: fundar percepções e apreensões novas. É aí que funciona a poesia. Desde que se reconheça que se passa num determinado tempo e que as marcas do lugar lhe confiram substantividade… Tem de se conseguir alguma substantividade. A palavra é que é; esse é que é o ofício do escritor. Não é o conceito. Isso é do filósofo. Isto é imagem e metáfora. Não sai disso, senão é outra coisa. Mas cada um escreve na sua onda. Eu tenho pudor em inventar situações.

É o pé na realidade do antropólogo?
Pode ser. Talvez por isso me tornei antropólogo com tanta facilidade. Posso buscar as situações que me convêm. Nada é inocente. Quando se está no terreno vamos à procura do que se sabe que é provável encontrar. Agora sentar-me a inventar implicações, não. Não sou capaz, tenho vergonha. Mas aproveitar situações e depois deixá-las ir sozinhas, isso acontece. Cada vez mais escrevo nesta meia ficção, meia viagem, meia poesia.

_16-05-2006 Diário de Notícias

Como gente grande

Queria escrever como gente grande.

Mesmo quando me sentava à minha secretária onde os pés não chegavam ao chão. Rabiscava, gatafunhos que só tinham sentido para mim. Lia neles o que queria e sabia que mais ninguém entenderia. Eles falavam baixo e eu sabia que não era para mim. Pequena, baixava os meus olhos e criava o meu mundo. O mundo dos adultos era o meu grande mistério. A maturidade das conversas que eu tentava descobrir quando sussurradas, os movimentos dos lábios em rostos sérios ou sorridentes. Que diriam? Coisas que eu podia lá saber, mas decerto inteligentes, sábias, certeiras. Lembro de me por ao espelho a imitar expressões, a movimentar os lábios e a gesticular como os via. A repetir com voz grossa a frase desafiadora do meu avô: “Agora és a última a falar e a primeira a ficar calada.” Dizia aquilo só porque sabia que me irritava, e passava a grande mão pela minha cabeça num sorriso que eu não via. O importante não era parecer-me com eles, era saber o mistério das suas cabeças. Quando me sentava a escrever era a esse mundo que queria chegar, mesmo quando o que saia ainda não eram letras. No meu alfabeto muito pessoal, arrependia-me de frases, refazia parágrafos, editava a narrativa. Que sabia eu? Ia lendo o que já tinha sido escrito, colocando ênfase em alguns momentos. Era uma música que eu relia sempre numa auto-intimação a aprender a ser grande.

Nada de muito sério

O frio do mármore na mão acordou-a da leitura.

Há quanto tempo está naquela realidade paralela? O necessário para o arrepio na pele. Um arrepio nada literário, real, que a fez pedir um chá e uma torrada com pouca manteiga, se fizesse favor. Lembrou-se do poeta dos cafés, de um café em particular, o Central, em Viena, de Altenberg, a quem chamavam “o poeta sem casa”, estava espectadora de um livro num palco real que a gelara.

Nada de muito sério. O que lia mesmo? De repente esqueceu. Olhou à volta.

Havia quem rabiscasse num caderno, quem retardasse o acender de um cigarro. Já foi tempo em que estar num café era morar numa espécie de penumbra que matava cerimónias para grandes demoras. Ficar horas, ler, pensar e só pagar um café era um luxo reservado a poucos lugares.

A mão fria no mármore da mesa fazia-a crer que por ali ainda era possível perder-se, sair para fora de si, experimentar os outros, olhando para eles, imaginando-lhes existências, lendo-os por quem os sabe escrever como se fossem realmente. E quem nos diz que não são.

Veio o chá. Um gole e o frio a diluir-se e com ele o sentimento de ausência. Na rua, para lá das vidraças, andavam mulheres de gorro e saltos altos, homens de mãos nos sobretudos. Olhos no chão, apressados. À sua frente, o livro esperava, aberto, um lápis entre as páginas para sublinhados, não se fosse esquecer.

Esquecia. Fazia parte do jogo de tentar andar por várias existências, mas ficava sempre algo, ela sabia. Um ambiente, uma cor, a marca de um dedo na papel, uma mensagem… porque quando o poeta de Viena existia e falava da ‘encenação do colectivo’ ainda não existiam redes sociais, mundos virtuais a baralhar ainda mais o que somos, a imagem que temos de nós, a que têm de nós. Nós e os outros e tantas coisas pelo meio, a filtrar, a mediar.

A torrada tem manteiga a mais. Esse paladar era só dela. Não partilhado a não através de um ligeiro esgar de enjoo. Podia reclamar e intervir na realidade de outro. Não o fez. Comeu e calou.

A mão já estava quente. O homem da mesa ao lado saiu para finalmente acender o cigarro. Na sua mesa sentou-se um rapaz com um iPad. Pediu um café e um copo de água. Ela resistu a pedir a conta. Foi na boleia dele e enfiou os olhos no seu livro. Ia ter companhia naquela ausência de si.

Livros com música IV

A Pista de Gelo
de Roberto Bolaño
Quetzal

“A música que se ouvia era o Dança do Gogo, de Manuel de Falla, e ao ritmo dessa música pude ver o busto da patinadora com os braços erguidos, mimando muito mal (embora algo houvesse por dentro daquela falta de jeito) o ato de dar uma oferenda a uma divindade minúscula e invisível.”

Os cabelos da pastora

Há histórias demasiado boas para não serem verdade. Como esta. Passou-se há muito tempo. Décadas. Ela era uma menina que os pais não deixaram ir à escola. Os caminhos eram de cabras e ela a única rapariga entre macholice de rapazes até à aldeia mais próxima. Aprender as letras não convenciam nenhum pai com juízo a ter menos cautelas.  Entre pinheiros e montes restava-lhe pouco mais do que inventar e pastar vacas, duas actividades mais do que compatíveis.

Contava ela, a menina, muitos anos depois, que num dia de muita chuva, tanta que nem as copas dos pinheiros seguravam a água, ela ficou ensopada. Os cabelos compridos escorriam, o vestido colou-se-lhe e ela desatou a chorar, um choro abafado, envergonhado, de humilhação e não saber o que fazer. Sentou-se na sama molhada, o cajado que segurava n mão a servir de apoio ao rosto. “Estava com a alminha em sangue, até que uma vaca, muito minha amiga, começou a secar-me o cabelo com a língua.”

Ela contava e eu ouvia, encantamento de Grimm. Nem ele. “A língua dela massajava-me a cabeça e foi-me aquecendo.” Ela contava e eu fixa, a imaginar o verde do campo, o castanho da terra, um vestido que para mim sempre foi às fores em fundo azul. “E eu fui-me acalmando, até adormecer. Quando acordei estava sol. A vaca estava deitada a meu lado, e o meu cabelo em caracóis que pareciam bolas de sabão.”

Ela contava e eu via-a, em arco-íris, a seguir com as vacas atrás, o cajado a indicar-lhe o caminho até à casa de telhado vermelho, no meio de uma clareira com cogumelos. Era assim, dizia, a casa onde vivia.

No dia seguinte estava de cama, o cabelo caiu e o que nasceu foi aos caracóis por causa da baba da vaca que a secou. Por isso as ondas que ainda tem nos cabelos negros que prende atrás num coque.

Há belezas que têm explicações simples. Puramente verdadeiras.

Drummond

O livro Baku, de Olivier Rolin, deu-me vontade de reler este poema do brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Não resisti a transcrevê-lo

Carlos Drummond de Andrade

Morte no avião

Acordo para a morte.
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.
Não morrerei agora. Um dia
inteiro se desata à minha frente.
Um dia como é longo. Quantos passos
na rua, que atravesso. E quantas coisas
no tempo, acumuladas. Sem reparar,
sigo meu caminho. Muitas faces
comprimem-se no caderno de notas.
Visito o banco. Para que
esse dinheiro azul se algumas horas
mais, vem a polícia retirá-lo
do que foi meu peito e está aberto?
Mas não me vejo cortado e ensangüentado.
Estou limpo, claro, nítido, estival.
Não obstante caminho para a morte.
Passo nos escritórios. Nos espelhos,
nas mãos que apertam, nos olhos míopes, nas bocas
que sorriem ou simplesmente falam eu desfilo.
Não me despeço, de nada sei, não temo:
a morte dissimula
seu bafo e sua tática.

Almoço. Para quê? Almoço um peixe em outro e creme.
É meu último peixe em meu último
garfo. A boca distingue, escolhe, julga,
absorve. Passa música no doce, um arrepio
de violino ou vento, não sei. Não é a morte.
É o sol. Os bondes cheios. O trabalho.
Estou na cidade grande e sou um homem
na engrenagem. Tenho pressa. Vou morrer.
Peço passagem aos lentos. Não olho os cafés
que retinem xícaras e anedotas,
como não olho o muro de velho hospital em sombra.
Nem os cartazes. Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,
embora vá morrer.

O dia na sua metade já rota não me avisa
que começo também a acabar. Estou cansado.
Queria dormir, mas os preparativos. O telefone.
A fatura. A carta. Faço mil coisas
que criarão outras mil, aqui, além, nos Estados Unidos.
Comprometo-me ao extremo, combino encontros
a que nunca irei, prununcio palavras vãs,
minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.
Declino a tarde, minha cabeça dói, defendo-me,
a mão estende um comprimido: a água
afoga a menos que dor, a mosca,
o zumbido… Disso não morrerei: a morte engana,
como um jogador de futebol a morte engana,
como os caixeiros escolhe
meticulosa, entre doenças e desastres.

Ainda não é a morte, é a sombra
sobre edifícios fatigados, pausa
entre duas corridas. Desfale o comércio de atacado,
vão repousar os engenheiros, os funcionários, os pedreiros.
Mas continuam vigilantes os motoristas, os garçons,
mil outras profissões noturnas. A cidade
muda de mão, num golpe.

Volto à casa. De novo me limpo.
Que os cabelos se apresentem ordenados
e as unhas não lembrem a antiga criança rebelde.
A roupa sem pó. A mala sintética.
Fecho meu quarto. Fecho minha vida.
O elevador me fecha. Estou sereno.

Pela última vez miro a cidade.
Ainda posso decidir, adiar a morte,
não tomar esse carro. Não seguir para.
Posso voltar, dizer: amigos,
esqueci um papel, não há viagem,
ir ao cassino, ler um livro.

Mas tomo o carro. Indico o lugar
onde algo espera. O campo. Refletores.
Passo entre mármores, vidro, aço cromado.
Subo uma escada. Curvo-me. Penetro
no interior da morte.

A morte dispôs poltronas para o conforto
da espera. Aqui se encontram
os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
pequenos serviços cercam de delicadeza
nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas
meu fim particular e limitado,
somos vinte a ser destruídos,
morreremos vinte,
vinte nos espatifaremos, é agora.

Ou quase. Primeiro a morte particular,
restrita, silenciosa, do indivíduo.
Morro secretamente e sem dor,
para viver apenas como pedaço de vinte,
e me incorporo todos os pedaços
dos que igualmente vão parecendo calados.
Somos um em vinte, ramalhete
dos sopros robustos prestes a desfazer-se.

E pairamos,
frigidamente pairamos sobre os negócios
e os amores da região.
Ruas de brinquedo se desmancham,
luzes se abafam; apenas
colchão de nuvens, morres se dissolvem,
apenas
um tubo de frio roça meus ouvidos,
um tubo que se obtura: e dentro
da caixa iluminada e tépida vivemos
em conforto e solidão e calma e nada.

Vivo
meu instante final e é como
se vivesse há muitos anos
antes e depois de hoje,
uma contínua vida irrefrável,
onde não houvesse pausas, sonos,
tão macia na noite é esta máquina e tão facilmente ela corta
blocos cade vaz maiores de ar.
Sou vinte na máquina
que suavemente respira,
entre placas estelares e remotos sopros de terra,
sinto-me natural a milhares de metro de altura,
nem ave nem mito,
guardo consciência de meus poderes,
e sem mistificação eu vôo,
sou um corpo voante e conservo bolsos, relógios, unhas,
ligado à terra pela memória e pelo costume dos músculos,
carne em breve explodindo.

Ó brancura, serenidade sob a violência
da morte sem aviso prévio,
cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico
golpe vibrado no ar, lâmina de vento
no pescoço, raio
choque estrondo fulguração
rolamos pulverizados
caio verticalmente e me transformo em notícia.

Um livro vive sete semanas. E as livrarias quantas mais?

Na cidade onde eu nasci e cresci, compravam-se livros no mesmo sítio onde se compravam cadernos, canetas, sapatilhas e bolas de futebol, fatos de ginástica e de treino. Era fácil encontrar fundos de catálogo; nunca procurei um clássico que não encontrasse enquanto fui, ali, aluna do liceu. Não entro há anos nessa papelaria,livraria, discoteca e muito mais. Um supermercado de cultura e desporto antes de se sonhar com Fnacs. Repito: não sei como estará. Presumo que sobreviva, mas não à conta dos livros. Lembro, já em Lisboa, de ir lá ao fim de semana na certeza de que, entre o pó de tantos livros, haveria o tal que estava esgotado nas livrarias de Lisboa. E não me enganava, e era mais barato e tudo. Estava amarelo nas pontas. Que importava? Dava-lhe um toque raro entre lombadas brancas que me aborreciam de tão novas nas minhas prateleiras então quase despidas.
Não voltei lá. Há muitos anos que não me vendem um livro. Nem voltei à Portugal, nem à Sá da Costa, nem a Ferin… Entristeço-me sempre que fecha uma livraria, mas eu, que compro livros, não me desvio da rota do costume, a que me leva à Fnac, às Bertrand… Sinto que também por aqui os livros demoram muito menos. Sete semanas de vida em livraria é a média para um livro novo. Vida curta, vidra tão breve. Não admira que as livrarias vão fechando. Eu fico triste, mas faço mea culpa e prometo que quando for a Torres hei-de ir à União.

mata-borrões

Transmitir para a escrita a dor, a raiva, a saudade, o medo, a tristeza… e cada letra como um reservatório e a cabeça e o coração ficariam livres. Em êxtase ou em pranto, escrevo sabendo que a escrita não mata os meus borrões. Apenas os acolhe, cúmplice, e já é tanto.