“Will do Pig, will do…”

Foi com a ponta do nariz gelada e o estômago colado que engolimos em seco. À porta, atrás do balcão, o rapaz de tatuagens coloridas nos braços apontou para hora e meia de espera por uma mesa. Por mim desmaiava já aqui. Depois de atravessar a pesada cortina de veludo encarnado reparei em duas coisas: todas as mesas eram à janela (nada melhor que sol a entrar pelas vidraças em almoços de inverno) e o guloso cheiro de ervas aromáticas e molhos quentes.

Com reservas feitas à porta, quem arrisca habilita-se. No caso, a um passeio mais demorado pelo West Village. “Oh, que chatice!”, quase ouço dizer.
Uma e meia da tarde e muitos quilómetros nas pernas fazem a diferença, e a distância entre o prazer e a penitência aumenta quando se avistam umas batatas fritas cortadas tão finas que parecem atacadores dourados por cima do um naco de Haché suculento com Roquefort. Logo eu que nem sou amiga de hamburgueres… A água já estava na boca quando vi passar saladas leves e altas e fígados de galinha em pão torrado… Desalmados, mas com sorrisos de antecipação de festa, saímos já fieis à casa e ainda sem provar nada.

Toca a andar que o vento do norte não dá tréguas, não convida a paragens e entrar numa loja pode ser o princípio de uma grande depressão para quem chega do país da austeridade, mas o Village é o Village e de roupa usada percebe o Ralph Lauren que mais americano que ele só um hamburguer. Com Roquefort? Seja, e a salivação ia secreta. Chapeux! Um segundo e ele entrou por um porta com sineta, recuou no tempo. Era Al Capone, foi Humphrey Bogart, Miles Davis. Eu, Josephine Baker enquanto pensava em pão quente e manteiga com alho e salsa. Peguei na mão dele. Fome? Confirmou, distraído com um Porcupine, as melhores ironias aparecem refinadas por momentos de atenção selectiva. Nada de esperar pela resposta. Estava mais que decidida, estava fixada num hambúrguer. Sem chapéu na mão nem na cabeça, regelados, regressámos à esquina com o porco malhado pendurado à entrada.

O lugarejo pertence ao Restaurateur Ken Friedman e à Chef inglesa April Bloomfield. Ele desenhou e decorou o estabelecimento. Ela, depois de enaltecer o River Café, o Kensington Place, o Bibendum, O chez Panisse, etc … veio refinar a sua cozinha sazonal anglo-italiana para o The Spotted Pig, o gastro-bar que para espanto dos desatentos, ganhou uma estrela do famoso Guia Michelin. Ambos são tambem sócios do John Dory , mas isso é uma outra história completamente diferente.

Uma cerveja ao balcão e o quente a pedir manga curta até chegar a nossa vez. Mais olhos que barriga, queria experimentar todos os pratos que vi desfilarem numa dança de equilíbrios e tropeções até à frustração de perceber que já passava das três e do menu já sobrava pouco. Estranho, para um lugar em que a cozinha só fecha as duas da manhã. É preciso saber que o período de almoço passa para o período de jantar de forma tão leve e imperceptível como um tanque de guerra. Acabam os ingredientes? Não, acabam os preços diurnos. E com hospitalidade germânica, uma miúda que parecia saída de um concerto dos Joy Division orientou-nos para os melhores pratos que sobraram dos melhores pratos que esgotaram. Venha outra cerveja – Old Speckled Hen Pub Ale (Suffolk, England) – e um torcer de nariz.

Vieram uns fígados de galinha numa tosta de pão provençal. Conjugação perfeita entre o ligeiro amargo da carne e o doce da cebola caramelizada. Tudo desfeito numa mousse onde se pode distinguir os pedaços. Depois deste “soube a pouco”, um arenque fresco servido frio, a enrolar os componentes daquilo que o tornaria num ceviche: cebola, salsa e vinagrete. Durante um gole na cerveja – Six Point Crisp Lager (Brooklyn, NY) – apareceu uma salada de agriões, nozes e queijo de cabra. Partilhámos uma sopa de vegetais de inverno com cogumelos silvestres que chegou rústica e perfumada como as cozinhas sicilianas. Finalmente, e já sem o desespero dos famintos, o fabuloso, maravilhoso e fantástico (perdoem a adjectivação) Chargrilled Burger with Roquefort & Shoestrings fries.

Com uma carta vinhos minimalista mas sofisticada – apenas três opções por cada uma das categorias de tintos, brancos e espumantes – a atenção prendeu-se nas cervejas artesanais e nas cidras locais e francesas. Território fascinante e desconhecido. Desde cerveja de casco a garrafas de litro, passado pelas de pressão, em copo ou caneca, este lugar, a que só abusivamente se pode chamar restaurante, tem o aconchego dos pubs da “velha” York. Há quadros de porquitos, tapeçarias de porquices, fotografias de porqueiros, posters e  porcarias emolduradas. A clientela vem do cinema, da música, da TV e espalha-se sem dress code por mesas que sentam no máximo seis pessoas. O restaurante tem agora a capacidade aumentada para 100 comensais desde que o segundo andar foi passado para o domínio público. Antes, falava-se da sala privada no andar de cima onde April Bloomfield preparava pratos tradicionais para amigos e amigos de amigos.

E a tarde passa para a noite o interior em paredes forradas a madeira, com as conversas a atingirem decibéis que abafam qualquer música. Mas as cadeiras estão longe de ser as mais confortáveis do mundo. Não são para ficar, é para comer e andar, sabendo que The Spotted Pig raramente fecha. Todos os dias há hamburgueres. Todos os dias são de rock-n-roll. Havemos de voltar ainda que de Lisboa a Nova Iorque continuem a ser sete horas de avião, mais 90 minutos de espera no Village. No Verão não custa nada. Mas há que ler o letreiro cá fora:

“Please respect our neighbours and keep noise to a minimum”

314 W. 11th Street
@ Greenwich St.
New York, NY 10014

Tel: (212) 620-0393
info@thespottedpig.com

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