O próximo mito, à sua revelia

Maria Gabriela Llansol é uma escritora de leitores fiéis. Rompeu com as normas da escrita e conseguiu uma singularidade invulgar. Já lhe chamam o próximo mito da literatura portuguesa. Quando morreu, em 2008, aos 76 anos, deixou 29 livros publicados e mais de 70 cadernos inéditos. O Brasil está a descobri-la. Portugal continua a tentar conhecê-la.

Pode-se dizer que escreveu um único livro ao longo da sua vida. Uma parte desse imenso volume, do qual ainda há muitos inéditos por sair, chegou recentemente ao leitor brasileiro. São três diários, Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências (a que se juntou um tomo de entrevistas), ponto de partida que funciona quase como um manual de instrução para uma leitura que exige tanto fôlego quanto aquele que Llansol usou para escrever. O fôlego de uma vida que gerou “o próximo grande mito literário da literatura portuguesa”, a seguir a Fernando Pessoa, conforme vaticinou o pensador Eduardo Lourenço a propósito de uma exposição sobre a escritora realizada em 2011 em Lisboa.

A casa amarela com uma buganvília à porta, no centro da vila de Sintra, onde Gabriela viveu parte da sua vida, ecoa a sua ausência. Não estão lá mais os gatos que sempre a acompanharam. Ou melhor: Melissa ainda lhe sobreviveu. Mais uma gata, um nome a juntar aos outros que foram deixando o rasto e a memória. Foi adotada por Hélia Correia, escritora, amiga de Llansol, que só escreve com chuva, ao contrário da autora dos Diários, que gostava da luz e dos seus efeitos, ainda que esses fossem sombra.

A casa transformou-se no Centro de Estudos Llansolianos, que trabalha na catalogação de seus escritos e é responsável pela divulgação da obra da autora. Estão lá as cerca de 30 mil páginas do seu legado. Escrita miúda, letra corrida, páginas pontuadas de desenhos que ajudam a ilustrar o contágio que lhe vinha de fora, de todas as coisas.

Carlos Santos é um llansoliano. Não um especialista, mas um apaixonado por aquela que considera ser a melhor escritora em português. Descobriu-a em 2006, o ano em que venceu um dos mais prestigiados prêmios literários em Portugal, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores. Foi com o romance Amigo e Amiga. Ele era estudante de Direito. “Uma colega de curso estava nas escadas da faculdade concentrada num livro”, lembra ele ao Sabático. “Perguntei-lhe o que lia e ela mostrou a capa. ‘Não conheces?’ Eu não conhecia e ela respondeu-me que tinha de conhecer, que era ‘fabuloso’.” Carlos seguiu o conselho – e deu no que deu. Depois daquele romance, viajou no tempo e foi até Herbais, um dos locais míticos da escritora quando viveu o exílio na Bélgica. Leu O Livro das Comunidades, o título que se seguiu aos diários agora editados no Brasil. Vieram os outros, quase todos. 29 publicados em vida da escritora, mais o primeiro volume do Livro de Horas, e o primeiro póstumo, aparecido no mesmo ano da morte dela.

“Culto?”, interroga Carlos Santos, repetindo a minha pergunta, enquanto caminha ao meu lado rumo a uma livraria no centro de Lisboa. “A haver, talvez seja por não sermos muitos”, lamenta. João Barrento, um dos responsáveis pelo Centro de Estudos Llansolianos, também quer quebrar a ideia de “seita” que muitas vezes é associada aos apaixonados pela escrita de Llansol. Escritores, pintores, escultores, músicos, etc., que partem para outras obras a partir de Llansol. E o leitor comum, quase sempre conquistado na juventude, quando a disponibilidade para o “novo” é maior. “A obra dela não é um objeto exótico”, afirma Barrento. “Nem tem um caráter esotérico, como muitas vezes se sugere.”

Talvez a estranheza esteja na singularidade que ela foi capaz de criar e que ajudou a sedimentar pela sua necessidade de isolamento, a fama de ser esquiva com a comunicação social, que não gostava de dar entrevistas, mas que se revelou nas poucas que concedeu e que estão compiladas na edição brasileira dos Diários. Uma vez perguntaram-lhe por que escrevia. Ela respondeu apenas porque sim. E prossegui até ao fim com “esse manuscrito aberto”, como lhe chama João Barrento. “Antes que o meu destino termine, tenho necessidade de escrever o que falta”, anotou ela.

A passagem está no Caderno I, Um Falcão no Punho e é sublinhada por Barrento. Não é o livro que Carlos Santos procura quando chegamos, enfim, à livraria. Ele passa pela fila da caixa, olha para as prateleiras que anunciam autores portugueses. A ordem é alfabética, mas o “L” parece não ter nada de Llansol. Não desiste. Ajoelha-se, olha mais de perto e descobre um volume. É o único. A prateleira fica agora despida dessa escritora a que querem chamar mito contra a sua vontade.

Ela escrevia sobre as coisas grandes e pequenas com o mesmo fervor. Carlos Santos segura nas mãos Um Arco Singular. Uma edição de 2010, saída do trabalho das pessoas que agora vão habitando a casa amarela. É o segundo volume do Livro de Horas. Reúne manuscritos de 1977 e 1978. Ele abre na primeira página, como que para reconhecer. Lá está Llansol: “Na profusão do silêncio suspendeu os ramos. E sua nostalgia provocava em seu companheiro um impacto profundo. Começaram a falar, como andavam.” Carlos Santos vai ter tempo de o ler antes de Livro de Horas, cuja edição está saindo neste início de ano. Trata-se do terceiro volume póstumo – todos com o mesmo título, Livro de Horas – de uma escrita que Augusto Joaquim, o viúvo de Maria Gabriela Llansol, classificou como um olhar “que procura a luz que emerge, algures, entre a ética da responsabilidade, a procura intransigente do belo e o dito rasante e justo”.

artigo publicado no jornal Estado de São Paulo, no suplemento Sabático

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