Missa e carrinhos… com alguns pecados

Não havia manhã de domingo sem missa nem carrinhos.

Não era escolha. Era condição de um dia diferente. Mãos adultas seguravam uma criança de cada lado e a caminhada fazia parte de um programa que terminava em almoço de família.
Às vezes com o padre, que tinha décadas de Portugal mas o sotaque galego mantinha-se cerrado para alegria dos mais novos. E à hora da missa havia casa cheia, menos pela fé do que pela bonomia e sentido de graça do prior, homem grande que não escondia o gosto pela mesa farta e por uma boa gargalhada.

Foi ele quem me fez acreditar que o castigo de deus não devia ser assim tão mau como me diziam sempre que o nome dele era dito para assustar. Era um deus menos papão pela voz daquele galego que rezava de olhos para o céu ignorando o chão, onde o rapaz conduzia os carros. A estrada era o genuflexório e o ritmo o da ladainha da reza que não deixava ouvir o vruuumm vruuummm que ele impunha à condução. A avó fingia que não via enquanto lhe dava toques com o pé. “Sossega!” O silêncio da oração levava ao abrandar da rodagem, mas quando era tempo de cânticos a corrida acelerava.

Eu esperava pela hóstia e esperava desafinanços no coro. Ouvia uma frase do padre, perdia-me nas coisas da semana e fixava-me na condução concentrada do meu primo, na impaciência da minha avó que rezava bem alto para apagar o barulho dos carros na madeira, a impertinência do neto mais novo a quem ela queria passar a catequese como fizera aos outros. Ele, volta e meia, vigiava-a por cima dos óculos que lhe escorregavam pelo nariz, de cócoras, joelhos esfolados a sair dos calções. E eu de olho num e noutro e nas velhas que fingiam não ver nem ouvir os carrinhos. Seria pecado? Tanto a teimosia do meu primo como a falsidade das velha. Eu a dar-me para a filosofia sem saber o que isso era. Tudo por uma hóstia… e também o medo do castigo. O bem e o mal, a vida e a morte embrulhadas na naftalina dos casacos guardados em armários que eu imaginava conterem mistérios,como o chapéu do meu avô dentro de uma caixa de cartão. Era fácil perder-me nestas andanças. Também o silêncio é como as cerejas e eu já dava por mim a duvidar baixinho, entretida com a coreografia do sentar e levantar que eu já sabia de outras missas.  Aprender a história do cristianismo contada a crianças não era sacrifício. fazia perguntas que eram respondidas como devia ser segundo a liturgia, e eu perguntava outra vez em casa a uma mãe paciente que nem sempre respondia de acordo. Nessas falhas de discurso ia construindo a minha própria tese, sabendo que se quisesse continuar a tomar a hóstia tinha de confessar pecados e aquilo era o que mais me confundia.  Dava por mim a pensar no pecado em geral e aquilo era uma enormidade que eu não conseguia alcançar, confesso agora, só comparável ao acto de ir roubar hóstias à sacristia no intervalo da catequese. Pecado mortal, dissera a senhora que tinha a chave da capela. Os joelhos tremeram mas a morte não era para já.

Gritar com a mãe, não comer a sopa toda, portar-me mal, mentir. Isso também era pecado. Mas parecia pecado de criança. Como seriam os pecados dos adultos? Não os verdadeiros, que desses eu suspeitava, mas aqueles que eram levados ao padre. Não acreditava que a mulher à frente da minha avó, com casaco de gola de pele de bicho falso, fosse dizer que não tinha comido a sopa ou gritara com a mãe. Se calhar já nem tinha mãe.

O padre falava e pousava as mãos no cimo da barriga. Mentir, roubar, matar pareciam-me exageros inconfessáveis. A minha fé não ia ao ponto de acreditar que alguém que matasse alguém fosse dizer ao padre e ele ficasse calado… Bom, mas mentir era pecado. Um pecado mais ou menos, talvez. Dependia do tamanho da gente.  Mentir chegaria para mandar alguém para o inferno? Os pecados que mandavam pessoas para o Inferno era o pior que podia acontecer. O meu primo estava de certeza a pecar quando fazia corridas no sítio onde as pessoas se ajoelham, mas acho que ele não sabia bem o que era o inferno. Talvez ele parasse se eu lhe dissesse que era um sítio onde as pessoas ardiam para sempre. Mas, segundo a minha medida de pecados, o pecado dele não era de inferno e ele também não sabia como eram boas as hóstias para ter de se arrepender.

Bem que eu perguntava à minha avó quais eram os pecados dela. Ela fazia “shhh, os pecados não se dizem”. E eu ficava entregue a mim quando chegava a minha vez de contar os pecados. Decidi seguir a via diplomática. Nada que não se pagasse com meia dúzia de avé marias e pais nossos. Lá ia, os joelhos sempre a juntarem-se, e quando vinha o meu primo perguntava: “O que é que disseste?” Eu punha o indicador nos lábios e dizia “shhhhh, não se fala na igreja.” Ele convencia-se e voltava às corridas.

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