Ao telefone com Amos Oz

 

Um dia, no ano em que o estado de Israel celebrava seis décadas de existência, marquei um número sem esperar grande coisa. Era minha obrigação tentar fazer algo com aquele contacto privilegiado que me viera parar às mãos. Depois do toque de chamada, aparece do outro lado uma voz rouca, afável. Era Amos Oz, o grande escritor, pacifista como David Grossman, um e outro tão imensos quanto polémicos, judeus que não se conformam com a guerra. Quando em Portugal acaba de sair “A Caixa Negra“, uma edição da D. Quixote, deixo aqui um resumo do que foi uma conversa que não hei-de esquecer. Foi publicada no Diário de Notícias, em Junho de 2005.


Só tenho um desejo a cada ano: a paz

Amos Oz. Ao telefone, a partir da sua casa no deserto do Neguev, em Israel, o mais famoso dos autores israelitas, há muito candidato ao Nobel da Literatura, falou em exclusivo ao DN. Quando Israel celebra 60 anos, uma conversa sobre memória, de política, de religião, de vida e de morte com um homem que um dia quis ser um livro

Vive no deserto do Negueve. Como é a sua rotina diária aí?
Faço uma caminhada no deserto de manhã cedo, por volta das seis, e depois tomo uma chávena de café e escrevo toda a manhã. Paro para almoçar e à tarde volto para o meu estúdio, muitas vezes para destruir tudo o que fiz de manhã.

Escreve sempre aí, no deserto?
Sim.

Para alguém que nasceu em Jerusalém e viveu num kibbutz durante tantos anos, esse não é um sítio demasiado solitário?
Gosto do deserto por isso. Sou um homem solitário e gosto da solidão deste lugar.

Como explica que os seus livros, escritos por um homem isolado no deserto, sejam tão universais?
Quanto mais provinciana é a literatura, mais universal consegue ser.

Considera-se um provinciano?
Sou um provinciano. Vivo na província, vivo numa pequena cidade, nunca vivi numa cidade grande. Penso que muita da literatura mundial foi escrita por autores provincianos.

O romance que está a escrever neste momento é um livro político?
Todo o livro é político, o que não significa que seja um manifesto.

Disse, inclusive, que não queria que os seus livros fossem olhados enquanto tal, enquanto manifestos políticos.
Nenhum dos meus romances é um manifesto político.

Mas neles o público e o privado estão muito próximos.
Escrevo sobre a vida e na vida a experiência política faz parte do mundo.

Em Um Conto de Amor e Trevas, o seu último livro editado em Portugal, relata o nascer de um país, o seu, através do olhar de um rapaz. Este é um livro de memórias. Como reconstituiu essa memória tão distante no tempo?
Esse é o trabalho de um romancista. Não nos lembramos de tudo e há coisas que temos de reconstruir por camadas, recorrendo à memória. Falei com muita gente, recolhi dados, mas foi sobretudo um trabalho sobre a memória.

E que imagem guarda Amos Oz desses tempos?
Tenho uma memória muito forte do nascimento de Israel. Vivi naquele tempo intensamente e sou testemunha desse nascimento.

Do nascimento de um país e de uma espécie de renascer de uma língua, o hebraico. Como explica esse renascer?
Porque este país nasceu de gente vinda de muitos, muitos países. De 136 países. E não havia uma língua comum, excepto uma língua ancestral, a Tora. Ela renasceu da necessidade de comunicar.

Algo comparável a um eventual ressurgir do latim, por exemplo?
Se pusesse mil portugueses numa ilha com mil polacos, eles começariam a falar latim e o latim regressaria a essa ilha.

Houve necessidade de adaptar essa língua à actualidade. Assistiu ao nascimento de muitas palavras, experiência única para um escritor…
Sim. E eu mesmo inventei uma ou duas palavras dessa língua e que fazem agora parte do dicionário e são usadas pelas pessoas e estão nos livros. É uma experiência fantástica. É o mais próximo da imortalidade que um mortal pode atingir.

Que palavras foram essas?
O equivalente a noite estrelada.

E a outra?
É para referir alguém que se torna oportunista.

Este ano, esse país a cujo nascimento assistiu faz 60 anos. Há algum desejo especial?
Só tenho um desejo para este ano, para cada ano e para todos os anos em Israel: paz.

Escreveu sobre o tema da imortalidade, quando disse que em pequeno gostaria de ter sido um livro.
Sim, queria que quando crescesse tornar-me num livro e não num homem. Muita gente morria, muitas crianças nunca chegavam a adultos e eu achava que tinha mais hipóteses de sobreviver se me tornasse um livro. Eu vivia aterrorizado, achando que um dia talvez viesse alguém para me levar. Havia um sentimento de medo generalizado, de insegurança na atmosfera.

Uma criança, hoje, não tem esse sentimento?
Depende de onde esteja. Há sítios no mundo onde esse pânico existe, é muito real.

Refiro-me a Israel.
Não no Israel de hoje. Israel não é tão inseguro como era nesse início.

E quando dizia que queria ser um livro, pensava num livro em especial?
Não. Queria apenas ser um livro para não morrer.

Viveu muito tempo, a partir dos 14 anos, num kibbutz. Foi lá que começou a escrever numa espécie de clandestinidade.
Sim. Dividia o tempo entre a escrita, o ensino e trabalhando como condutor de tractor.

E nessa altura o que queria era ser um condutor de tractor.
Sim, é verdade. Eu rebelei-me contra o meu mundo privado e contra o meu pai quando tinha 14 anos e deixei a minha casa em Jerusalém e decidi viver por conta própria no kibbutz, onde tentei mudar tudo na minha vida, ser uma pessoa diferente. Nascer outra vez.

Não conseguiu?
Claro que não. Não havia como. Eu continuava a ter o meu quarto cheio de livros, muitos livros à minha volta tal como o meu pai tinha o quarto dele cheio de livros.

Como explica isso?
É a ironia por detrás de todas as rebeliões e de todas as revoluções. Começar do zero… Isso é impossível.

Numa entrevista disse que na sua infância foi uma espécie de Tom Sawyer ou Huckleberry Fynn.
Por causa das muitas aventuras que vivi, algumas delas fruto da minha imaginação. Mas essas também não deixam de ser aventuras.

Nessa entrevista referiu que não queria ser visto como autor de ficção. Porquê?
Não gosto da palavra ficção. A palavra ficção significa algo que não é verdade e não acho que o que escrevo seja ficção. É prosa. Não é ficção.

Dois dos seus livros estão traduzidos em arábico e publicados em países árabes.
No Egipto e na Jordânia. Agora Um Conto de Amor e de Trevas está a ser traduzido para arábico e vai ser publicado na Arábia. Para mim é a mais importante de todas as traduções, porque irá ajudar, espero, a construir mais pontes para a resolução deste conflito.|

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