Como gente grande

Queria escrever como gente grande.

Mesmo quando me sentava à minha secretária onde os pés não chegavam ao chão. Rabiscava, gatafunhos que só tinham sentido para mim. Lia neles o que queria e sabia que mais ninguém entenderia. Eles falavam baixo e eu sabia que não era para mim. Pequena, baixava os meus olhos e criava o meu mundo. O mundo dos adultos era o meu grande mistério. A maturidade das conversas que eu tentava descobrir quando sussurradas, os movimentos dos lábios em rostos sérios ou sorridentes. Que diriam? Coisas que eu podia lá saber, mas decerto inteligentes, sábias, certeiras. Lembro de me por ao espelho a imitar expressões, a movimentar os lábios e a gesticular como os via. A repetir com voz grossa a frase desafiadora do meu avô: “Agora és a última a falar e a primeira a ficar calada.” Dizia aquilo só porque sabia que me irritava, e passava a grande mão pela minha cabeça num sorriso que eu não via. O importante não era parecer-me com eles, era saber o mistério das suas cabeças. Quando me sentava a escrever era a esse mundo que queria chegar, mesmo quando o que saia ainda não eram letras. No meu alfabeto muito pessoal, arrependia-me de frases, refazia parágrafos, editava a narrativa. Que sabia eu? Ia lendo o que já tinha sido escrito, colocando ênfase em alguns momentos. Era uma música que eu relia sempre numa auto-intimação a aprender a ser grande.

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