O Chapéu

O chapéu de palha girava-lhe nos dedos. Como se chamava o modelo? Fez um esforço, mas não sabia nada de chapéus. Ele é que sabia dos fedoras, dos panamás e de todos os outros.

O chapéu girava nos dedos e ela pensava na falta que ele lhe fazia. E não lhe venham dizer que falta é o mesmo que vazio. Isso é o que a ponta do cigarro aceso faz no guardanapo de papel. Um buraco que alastra e consome até não restar nada. Foi ele quem usou a metáfora para lhe dizer do perigo do desgaste, do que o tempo e o não dito e mal dito podem fazer entre duas pessoas que se amam.

A falta dele não era o vazio. Era uma enorme ausência. Quase tudo e não quase nada. O chapéu que lhe girava nos dedos, de palha amarela, diz que tecida à mão, aumentava essa ausência. Lá fora, a tarde era de inverno, mas o tempo igual ao de verão, como no dia em que aquele chapéu fazia todo o sentido e não lhe girava nos dedos.

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