Passei-me. Passa

Escrevo a quente. Hoje estou irritada. Acontece. E ainda não foi nada comigo. Aconteceu quando alguém me pôs a mão no ombro e disse adeus, pedindo um livro para ler na fila dos desempregados. Alguém que conheço há muitos anos. Foi o golpe de misericórdia. É que no dia anterior, ao jantar, já tinha sabido que um amigo vai ter de emigrar. Há meses sem trabalho, as economias foram-se, a família vive com o ordenado da mulher e a vida ditou-lhe: sair ou faltar comida em casa aos dois filhos. Ele, engenheiro, vai sair. Dias antes, alguém que também conheço há muito tempo, contou-me que o marido ficou sem emprego e agora vivem com o salário de 600 euros dela. Ok. É a vida. É a crise. Mudam-se para um T1 que na verdade é um T0. Apertam-se. Felizmente não há crianças.

A minha mãe, que trabalhou a vida inteira em casa e uns anos numa empresa farmacêutica, foi pedir reforma. Não tem direito, disseram-lhe. A nada, continuaram, nem um tostão. Tem um marido que ganha mais de 700 euros e uma filha que não lhe há-de negar “um prato de sopa, pois não minha senhora?!” Pois não. Isto foi dito assim num balcão da segurança social à mesma pessoa que tem uma doença congénita rara e direito a transporte gratuito para o único hospital de Lisboa onde tratam a dita doença. Tinha. Agora paga 35 euros por viagem de ambulância porque não pode fazer os 40 quilómetros que a separam do médico de outro modo. É. Não se trata de uma urgência, explicam-lhe. Pois não, mas de ir ao único sítio onde a podem tratar da tal doença com nome esquisito. Já veio e já pagou. Ela ou quem pode por ela.

Há alguém que entregou a casa e se mudou para longe porque viu-lhe ser cortado o ordenado em trinta por cento. Aos 40 anos voltou para casa dos pais. Sim, alguém que conheço. Alguém que também conheço reza para a patroa não ficar na lista dos “a dispensar” numa empresa que anunciou despedimentos. Alguém que sei muito bem quem é, viu um rendimento complementar crucial ir à vida porque uma empresa faliu e quem lhe pagava o aluguer voltou para onde veio, sem emprego, agora corre ela o risco de ficar sem casa. É longe.

Estou chateada. Vejo os nervos à flor da pele de quem me rodeia, sinto o medo à minha volta como nunca senti. Cheira a comida onde não devia porque antes eram sítios onde não se comia. Há quem pergunte por lancheiras bonitas. Há que nos adaptarmos, não é? Pois. E duas senhoras da Emel caçam multas à porta do café. E sei de quem este ano ainda não ligou o aquecedor porque a conta da luz não permite luxos contra o frio. Haja cobertores.

Eu sei destas pessoas e de mais umas quantas. Números? Também toda a gente parece saber de alguém e as estatísticas da crise engordam. À custa de quem?

Estou irritada, perdoem o desabafo. E no meio de tudo isto parecem capricho os cabelos brancos de repente na cabeça de uma amiga. Foi a crise. O orçamento não resistiu ao envelhecimento e deixou de haver dinheiro para tintas. Encolhe-se os ombros. Está a ficar feio este país e eu estou um bocado chateada. Hoje.

19 responses to “Passei-me. Passa

  1. Eugénio Moura Inês

    Sei o que estás a sentir. Sinto o memo. Apetece-me fazer justiça com as minhas próprias mãos. Sei que não resolvia nada, mas ficava mais confortado. O que vai ser de nós ? Estando este País quase à beira do abismo ainda não consegui perceber se a Troika nos está a empurrar para a frente ou a puxar para trás. Já agora, onde estão os tipos que nos tramaram ?

  2. Isabel,
    gostei de ler o seu texto no mesmo dia em que leio na capa do «Público»: «Portugal sai “aprovado” do exame da ‘troika’ com mais recessão e desemprego-recorde».
    Hoje choverão na blogosfera textos a louvar a acção política deste Governo e a realçar o bom trabalho que está a ser levado a cabo pela equipa liderada por Miguel Relvas (esqueça o Passos Coelho: trata-se tão-só de uma cara mais apresentável). E as pessoas? Bem, as pessoas são, como a Isabel escreveu, números — e, afinal, a taxa de desemprego poderia ser sempre pior do que 14,5%, pois 100% é o limite. Porém, eu, que estou nesse número, embora não o faça apenas por isso, agradeço-lhe a sua opção em falar das pessoas, pois acredito piamente que nos definimos também por aquilo que escolhemos acentuar na realidade em que estamos inseridos.
    Um abraço.

  3. Correcção ao meu comentário: evidentemente, não foi a Isabel que escreveu que as pessoas são números; é tão-só o que muitos parecem pensar, designadamente aqueles que irão louvar esta “aprovação”.

  4. Pois é Margarida! Hoje estás chateada…e eu estou contigo! Hoje…Ontem…e quem sabe amanhã … se não conseguir saír muito breve dos números de desempregados que engrossa dia a dia!!
    Beijinhos
    elsa

  5. Pingback: Contar dos que tombam | Âncoras e Nefelibatas

  6. As estatísticas não sangram, são os detalhes que contam, Arthur Koestler dixit, e disto que conta se fazem bons posts.
    Cheguei aqui pelo Vida Breve, tive vontade de deixar um comentário. Depois, dando volta à biblioteca, pensei que talvez gostasse de um comentário mais longo, de inscrever o seu post na melhor das tradições. Talvez goste disto: http://ancorasenefelibatas.wordpress.com/2012/03/01/contar-dos-que-tombam/

    • Ola. Não foi para lamentos nem chorrilhos de desgraças que escrevi. pelo contrário, para uma normalidade um pouco estranha que se está a instalar e afecta todos apesar de muitos olharem para o lado. eu às vezes também olho. mas ontem “passei-me”. Obrigada.
      Não conhecia o seu sítio, passei a gostar🙂 Parabéns!

  7. Excelente texto. Neste momentos somos muitos com demasiadas coisas em comum. Também eu teria desabafos para fazer, muitos, em relação ao desespero de umas boas duas mãos cheias das pessoas que me são mais queridas e próximas. Vou partilhar este teu desabafo. Obrigado.

  8. Vim através do blog “ainda que os amantes se percam”.
    Chocante, sem explicação nem justificação tudo isto!
    Que mundo é este que “escolhemos”? Porque a culpa também foi nossa, infelizmente.
    Deixámo-“los” entrar… E eles estão a dar cabo de nós…
    Abraço
    o falcão

  9. Gostei muito. Porque o que aponta é aquilo que me preocupa, como me preocupa não vermos isso, não nos preocuparmos em ver o caminho que a nossa sociedade está a seguir. E que agora, mais do que nunca temos que pensar em sociedade e lutar pela dignidade da mesma.

  10. O seu post provoca-me sentimentos contraditórios.

    Todos os dias sinto os efeitos desta crise avassaladora.

    São os clientes que não podem pagar porque não recebem dos seus próprios clientes, a começar pelo Estado, caloteiro-mor de Portugal, tendo que adiantar o IVA de facturas não cobradas. E, por via disso, fecham portas, vão para a insolvência e lançam pessoas no desemprego. Porque os tribunais não fazem a sua tarefa de fazer cumprir os contratos – algo de essencial e básico para a economia – criou-se uma impunidade criminosa no incumprimento pecuniário que tem efeito de bola de neve. Mas os tribunais também estão entupidos com dívidas de operadoras móveis e de cartões de crédito. Porque em Portugal há mais telemóveis do que habitantes…
    Mas, será que as empresas têm que se manter em funcionamento, acumulando prejuízos para manter os empregos?

    São as pessoas do meu círculo mais próximo ou mais afastado que me confidenciam angústias, penas, divórcios apressados para “safar” alguma coisa das garras do fisco que confisca; doentes crónicos a trabalhar a recibos verdes que não podem faltar porque não têm direito a baixa e que ao seu lado têm pessoas com as mesmas funções e ganhando três vezes mais e que, ainda por cima, fazem questão de as amarfanhar e de as gozar do alto dos seus direitos adquiridos…

    Tudo isto e muito mais é real e existe.

    Mas não é diferente do que sempre foi. Ou melhor, só é diferente pela dimensão, talvez pela transversalidade e, sobretudo, porque pela primeira vez em quase quarenta anos de subida constante dos níveis de vida, um grupo de pessoas foi toda atingida pela crise e não sabe viver com ela porque … não estava preparada para dificuldades.

    Porque a vida é dificil.
    Ponto. Final. Sem parágrafo.
    Hoje, há 10 anos, há 20, há 30, há 40, há 50, etc
    Todas as gerações tiveram MUITAS dificuldades. Cresceram com elas. Talvez por isso tenham aprendido a enfrentá-las, contorná-las e a aceitá-las como algo inerente à vida.
    Pergunte aos seus pais ou avós como viveram a 2º Guerra, num país que nem sequer estava em guerra. A resposta só poderá ser “muito mal”, a não ser que fossem muito ricos (improvável, havia poucos) ou tivessem casa com lavoura e criação de animais e em que se cozesse pão. Porque havia racionamento. Um pão por dia por pessoa. Margarina rançosa para untar o pão. Chicória a fazer de café. As pessoas andavam quatro horas por dia a pé para irem trabalhar para pouparem os centavos da camioneta. Os sapatos de plataforma (de cortiça) surgiram nessa altura para poupar as meias-solas…
    Num país deslumbrado com NESPRESSOS e Bimbis, sapatarias próprias de Imeldas Marcos, viagens a crédito a resorts no Brasil e Punta Cana mas que desconhece que há entradas grátis nos Museus aos domingos de manhã, é fácil perceber que estas histórias não são jurássicas – são pré-jurássicas…
    O drama maior tem a ver com o afundamento de toda uma classe ou geração que começou a emergir há quarenta anos, a qual, de uma maneira geral, já foi criada com conforto, alguma abundância e, sobretudo, poupada ao desconforto, à dificuldade e, lamento dizê-lo, à exigência. Não é por acaso que a matemática é o bicho papão que acaba por determinar a recusa de cursos de ciências (o que faz com que certas indústrias europeias tenham que começar a recrutar na Índia físicos e geólogos, por exemplo, porque Relações Internacionais ou Jornalismo não dão competências para trabalhar em laboratórios ou em plataformas petrolíferas).
    A sorte dá muito trabalho e normalmente representa 90% de transpiração e 10% de inspiração. Que o digam as caras portuguesas do sucesso: Mourinho, Ronaldo, Damásio, assim como aqueles que, não sendo mediáticos, estão preparados, lutam pela vida e se fazem a ela, cá ou em qualquer parte do mundo.

    Tenho sentimentos contraditórios porque é triste e deprimente ver este afundamento geral mas também tenho consciência de que se chegou aqui porque, as mais das vezes, se escolheu – e se permitiu que essa escolha fosse feita – o caminho da facilidade, pensando. erroneamente, que era o caminho para a felicidade.
    Não é.
    Só damos valor ao que nos custa a ter.
    Talvez a crise nos ajude a valorizar aquilo que de bom vier a seguir.
    Talvez…
    Espero e quero acreditar que sim.
    Espero e quero acreditar que os portugueses, tão maus a planear, consigam ser muito bons no improviso e consigam improvisar maneiras de combater e sair da crise e da depressãoinstalada.

  11. …já não sei improvisar! Fechem as janelas antes que o vento leve o que pouco resta da trova!!!

  12. Obrigada Isabel Lucas por partilhar o seu desabafo. Não pude conter as lágrimas desta revolta que me asfixia.
    Abraço

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