Monthly Archives: March 2012

Ilusão com algemas

 

Vi passar a carrinha amarela. Das que costumam estar à porta dos tribunais. Levam presos para serem ouvidos. Já os vi sair de lá, mãos atrás das costas, cabeça quase sempre baixa. O que vêem? Os pés, o chão? A vida em flashes? Talvez ceguem com a vergonha se a tiverem. Penso nisso como penso no que fazem na penumbra da carrinha. Talvez olhem as mãos algemadas, talvez pensem no que ouviram, disseram ou não. Calaram. Talvez, como eu, imaginem o que possam estar a fazer as pessoas fora da carrinha, sem algemas nas mãos.

Os presos saem para a rua, mas da rua só recebem barulhos de motores, buzinas, frases que lhes chegam cortadas, sem sentido, e umas riscas bem finas de sol. Vão à rua, mas talvez preferissem não ir. Horas de interrogatório ou nem isso porque o juiz faltou, a testemunha não foi, o advogado pediu adiamento. Talvez só queiram voltar à cela. Talvez não e aquela saída valha muito, quebra na rotina, ilusão de normalidade. A não ser as algemas e uma penumbra que nunca se ilumina. Talvez tenham, como eu, ficado um dia num cruzamento a ver passar uma carrinha amarela imaginando como é estar lá dentro.

A língua portuguesa tem um efeito sedativo

No momento em que está a ser filmada em Lisboa a adaptação do romance de Pascal Mercier, recupero uma conversa que tive com o autor de “O Comboio Nocturno para Lisboa

Entrevista com Pascal Mercier, pseudónimo de Peter Bieri, escritor e professor de Filosofia

Prefere ser tratado por Pascal, o pseudónimo, ou por Peter?
Peter.

Porque escolheu então outro nome para assinar ficção?
Porque no início tive medo da rejeição. Ser professor de Flosofia numa universidade alemã e começar a escrever romances é perigoso.

Porquê?
É considerado qualquer coisa baixa, pouco respeitável. Deixa-se de ser sério do ponto de vista académico. Era como se a vida académica não fosse suficiente para mim e eu tivesse de fazer mais qualquer coisa e as sanções podem ser severas. Quando se escreve um primeiro romance não estamos seguros de nós. Falta confiança, tememos ser magoados facilmente com reacções negativas e queremos proteger-nos. Quis ver o que acontecia com o livro com uma certa distância. No segundo romance achei que devia revelar a minha identidade, mas psicologicamente falando, o nome Pascal passou a fazer parte de mim.

Este seu livro já vendeu mais de dois milhões de cópias no mundo. Começa com um professor de filosofia que muda de vida fascinado com uma mulher, com a sonoridade da música portuguesa. Foi a música da língua que o levou a escrever Comboio Nocturno para Lisboa?
Exactamente. No princípio fui motivado pelo som da língua, a melodia das frases. Flaubert, quando escreveu Madame Bovary, enviou uma carta importante a um amigo. Dizia que desejava não ter de ter um enredo e poder escrever um livro sobre nada, mostrando apenas a melodia e a poesia das palavras em francês. Quando li estas frases tive a sensação de que tinha descoberto o veículo para desenvolver os meus tópicos filosóficos: a solidão, a morte, a decepção, lealdade… É muito difícil escrever sobre estes tópicos. É preciso uma certa musicalidade. Achei que eu, suíço, criado na cidade de Berna, não conseguia ter estofo para fazer sair de mim as frases que saem da pena de Amadeu de Prado. Eu era muito pequeno e insignificante. Não é coqueteria. A solução era inventar uma personagem que pudesse dizer frases como aquelas e essa pessoa foi Amadeu de Prado. Quando isso aconteceu, psicologicamente falando, eu vi a fotografia do jovem Anton Chékov. Pensei que ele escreveria essas frases. Recortei a foto, pu-la numa moldura e coloquei-a na minha secretária e por cima dessa cara pus o nome de Amadeu de Prado. Chékov era alguém de temperamento religioso, mas intelectualmente céptico, que arriscava algo ao mesmo tempo que era vulnerável. E Prado parecia ser o nome certo para aquele rosto.

E porquê um português, escritor da resistência, para desenvolver essas ideias?
Sim. Porque havia Pessoa, o som da língua que adoro e lamento não ter tempo para a aprender a falar. E Lisboa como cidade que assenta perfeitamente em “Mundus” [nome da personagem do professor de filosofia que deixa tudo para ir atrás da escrita misteriosa de Amadeu de Prado]. É uma cidade lenta, com ares de século XIX, tirando os carros; um pouco decadente. Precisava ainda de um ditador para ter o tópico político da resistência no livro. Para se ter uma movimento de resistência é preciso haver um ditador e entre o ditador e aquele resistente queria que houvesse um conflito do tipo pai e filho, tinha de ser um ditador especial, com a imagem de paternidades. Não podia ser Franco, nem Hitler nem Mussolini ou Estaline. Salazar era um tipo diferente de homem. Um intelectual, professor de economia, não era alguém que gostasse da brutalidade. Claro que cometeu actos brutais, mas nada como Estaline ou Hitler. Portanto foi Pessoa, o som da língua, Lisboa como cidade e o ditador certo. Tudo isto me levou a Portugal e a Lisboa.

Fala muito do som da língua. A que soa a língua portuguesa?
É o shhhhhh, o ççççç (Pausa para pensar). É suave, terno, sedativo, que não seduz facilmente. Consigo ouvir a melodia do português durante todo o dia. Em minha casa tenho um canal de televisão português e consigo ouvir aquilo durante horas, ainda que muitas vezes não perceba nada. É como uma bela paisagem e entramos naquela paisagem e esquecemos tudo.

Lê português?
Leio. Não consigo falar, mas sei ler. É fácil. Não é fácil é ouvir porque vocês engolem as letras… E li o seu jornal (DN), que entra no meu livro (risos)…

Também leu Pessoa em português?
Sim. É o único escritor português que conheço realmente bem. Mas vou ler mais portugueses. Li traduções de António Lobo Antunes. Parece-me um escritor excêntrico e incrivelmente poético. Como Flaubert, gosta de escrever só para usar as palavras. Não precisa de enredo. Está muito perto dos poetas. Como dizia o Pessoa, a poesia é um canto sem música. Acho que a escrita de Lobo Antunes é assim. Um canto sem música.

O livro está a ser adaptado ao cinema…
É uma experiência terrível. Quero separar muito bem o livro do filme. Tenho muitas dúvidas de que consigam fazer um filme deste livro, mas os direitos foram vendidos… Eles mudaram as personagens, o enredo, a atmosfera, tudo…

Está mais próximo de “Mundus” ou de Prado?
De ambos. Sou uma pessoa muito aborrecida, vagarosa, que tem boa memória, sou trabalhador, disciplinado. Aí sou “Mundus”. Por outro lado, sou emotivo, rebelde, aventureiro, romântico, o Prado.

Se vivesse em Lisboa, que sítio escolhia?
Acho que no Bairro Alto, pelas ruas, as cores, a atmosfera. De preferência numa sala da qual se visse a água. A água é tão importante quanto o som ou os nomes.

Entrevista publicada a 26 de Março de 2008 no Diário de Notícias

Cópias e galinhas

Seria por agora, o tempo de apanhar as ervas, limpar o terreno.

Mãos pequeninas enfiavam os dedos na terra e catavam raízes, troncos, juntavam tudo num monte. Iam e vinham numa ordem atrapalhada que ninguém lhes ditava. Botas cheias de lama, calças com joelheiras. Para muitas, melhor aquilo que uma cópia, um ditado cheio de erros, contas que não batiam certo depois de feita a prova dos nove e a consequente cana da índia na cabeça. Antes a comichão das urtigas que o ardor da reguada. Mas bastava um raio de sol, o espreitar de Março, e a professora desistia de ensinar os meninos a desenhar uma letra bonita, redonda, sem inclinações nem bolinhas em cima dos ii.

De bata branca, conduzia um bando de crianças, tão brancas quanto ela, para o recreio onde a brincadeira era fazer uma horta, construir uma capoeira para galinhas e depois cuidá-las, alimentá-las, tirar os ovos, colher alfaces e cenouras. A professora Maria José era o que se chamava uma regente.

Tinha a quarta classe, baton vermelho a ultrapassar em muito a fronteira dos lábios. Vestia sempre de preto, punha rolos no cabelo grisalho e vivia com um “amigo” numa das casas velhas da parte velha da aldeia. À sexta-feira, apanhava a camioneta e só voltava na segunda de manhã. Ia para a terra, mas nunca disse qual. Diziam que tinha vindo de África, ficado viúva muito cedo, mas ninguém lhe conhecia a história nem a idade. Ela também não contava. Mas contava o dono da mercearia como quem conta um segredo, que ela gastava muito pouco, que ia tudo para os medicamentos do “amigo”, um homem sem nome numa cadeira de rodas que ela trazia para o sol de onde só o tirava quando descia a ladeira de regresso a casa, perto das cinco . Ela não fez o Magistério Primário.

Na idade dela, a quarta classe, e uma educação acima da média eram qualificações suficientes para ser colocada numa escola a ensinar a ler e a fazer contas, a cantar a tabuada, a apontar rios, linhas de comboio, montanhas e fronteiras. Depois veio a revolução e ela continuou, revoltada, ultrapassada por normas que não foram feitas para pessoas como ela, apesar de haver muitas pessoas como ela.  Vivia numa linha que apenas a separava da reforma baixa que haveria de receber e da professora do lado, mais nova, direita, roupas coloridas e carro à porta. Não morriam de amores uma pela outra, às vezes até discutiam, e nesses momentos as crianças paravam de arrancar ervas daninhas, não tanto para saberem o motivo da discussão, mas porque as professoras não discutem, pois não? Pois sim. A escola ensina mais do que letras. Cada nódoa negra é uma marca, cada conta errada no quadro, uma gargalhada da turma. Dor e humilhação. Dor da humilhação.

Na horta da professora Maria José havia quem se redimisse das chamadas a quadro mostrando destreza com a enxada. Seria tudo aquilo conforme? Mas seria também conforme ser cada uma das crianças responsável por dar à manivela com toda a velocidade para que a roda girasse e a água saísse do poço. Enchia-se o balde e era carregá-lo aos pares, braços trémulos,  para limpar as casas de banho, para deitar na retrete, para regar a horta.

Era assim e ninguém questionava. Maria José precisava das alfaces, das cenouras, dos ovos que as galinhas punham e que o aluno com a melhor cópia do dia tinha direito a ir recolher à capoeira. No fim do ano lectivo, precisava também da canja, mas isso as crianças não viam.  Era depois de saírem, de passarem de classe, de deixarem a escola limpa, a brilhar, cera nas carteiras, quadro lavado com água e sabão, limpar o pó ao velho atlas e ao mapa de um império que já não existia, e onde só Maria José encontrava o seu lugar.

Tabucchi, o homem que escrevia de pé


Vê-mo-lo ao longe. Uma figura debaixo de um imenso pinheiro manso a
 fazer gestos com os braços para indicar o lugar certo. É ali, naquele refúgio alentejano perto do mar, que António Tabucchi aceita ser o anfitrião de uma conversa que nem ele sabe onde o irá levar. É uma conversa solta, com a informalidade dos calções que traz vestidos e insiste trocar por umas calças para as fotografias. “Assim pareço mais sério”, diz, irónico. O italiano mais português da literatura sente-se alentejano no Alentejo e gosta de se perder a olhar o céu ou a mergulhar na água fria do Atlântico. Sente-se em casa e espera um amigo para cozinhar um jantar para outros amigos. Há convidados e uma casa cheia como gosta neste país que chama de seu.

António Tabucchi, italiano com várias pátrias, escolheu Portugal como refúgio. Sabe o país quase de cor. Conhece-o quase a palmo. Sabe os cantos onde melhor se come, os livros que guardam a melhor escrita. Atento, risonho, afável, escolhe cada palavra que usa na fala como se a estivesse a escrever. É isso um escritor. Saber pôr no lugar cada palavra, a única, aquela que encaixa perfeita na sintaxe.

Quanto tempo passa neste refúgio?
Aqui, pouco. Gosto de vir cá sobretudo no Inverno para escrever. É uma maravilha, uma calma… Só cá estão as pessoas da aldeia.

Toda a gente o conhece por aqui?
Sim, sim. Somos familiares. São uma simpatia de pessoas. O clima pode ser um bocadinho rígido, mas é um refúgio.

Precisa de silêncio para escrever?
Eu? Não necessariamente. Posso escrever nos cafés. Gosto de escrever nos cafés quando estou em Paris. Sentir as pessoas. Escrever é uma profissão solitária que pode dar muita solidão, de maneira que intuir, sentir pessoas à nossa volta não é nada mau.

Sempre de cigarro na mão?
Eu fumo com moderação.

É um homem solitário?
Não. Não. Gosto de companhia. Mas há várias fases da escrita. Quando se está a pensar numa primeira fase, quando uma história está a nascer, até se pode escrever em companhia, com sons, ruídos, vozes, mas depois há uma fase mais artesanal. Isto é para desmistificar um pouco a ideia da escrita. Há um cliché e não se pensa muito no trabalho, no labor que a escrita requer.

É um trabalho de oficina?
Exactamente. E naquele momento, depois de ter lançado uma história no papel, é preciso trabalhar como faz um carpinteiro, porque as peças têm de encaixar e as palavras também. Às vezes uma palavra não chega e é preciso outra e outra. Creio que isso se passa com todos os escritores. Trabalhamos com palavras. O texto é feito de palavras, substancialmente, e portanto as palavras merecem respeito. É como um pintor que trabalha com as cores. Ele quer um azul,mas há vários tipos de azul, de maneira que nesta grande área semântica que uma palavra fornece é preciso escolher com cuidado aquela que é justa, justa para aquela frase. “Animais doentes as palavras, também elas”, dizia o Alexandre O’Neill. Às vezes as palavras adoecem.

Adoecem em que sentido?
Não sei. Por vezes vejo palavras serem muito mal tratadas, com pouco cuidado. E adoece-me a linguagem adoece.

É por isso que está sempre a experimentar fórmulas novas para a sua escrita?
É. Escrever é uma maneira de pesquisa de perceber, ou tentar perceber a alma humana, as nossas complicações. E qual é o instrumento que o escritor tem? As palavras.

O que é para si um romance? Tem que ter uma história, uma narrativa?
Acho que na modernidade, e o Kundera tem um ensaio lindo sobre isso, o romance é uma forma muito aberta e tem já muito pouco a ver com o romance tradicional do século XIX. Como Eça de Queiroz ou o Stendhal ou o Victor Hugo ou o Balzac. É uma forma muito aberta e muito hospitaleira. É uma forma elástica onde se podem deixar vários tipos de textos, diálogos, cartas, enfim, na modernidade… “O Processo” ou “O Castelo” de Kafka serão romances de horror, romances de mistério, romances de ódio… A obra completa do Pessoa, pensando bem, o que é senão uma grande, gigantesca e curiosa forma romanesca. É um grande romance. Parece a “Comédia Humana” só que é escrita em poesia.

E que história acha que conta?
Conta várias, como pode contar uma obra-prima.

Conta um país?
Claro. Conta um país, conta o amor, conta os vários amores. Conta os amores de Álvaro de Campos, mas conta a pobre corcunda que escreve a carta ao homem que passa pela rua, como conta a filosofia de um doido que está numa clínica em Cascais, como conta as metafísicas de um guarda-livros que se chama Bernardo Soares que vive numa mansarda na Baixa de Lisboa… Tem um respiro gigantesco. Só os génios têm esta capacidade de respiração. Devia ter uns pulmões deste tamanho… É “Goethiano” é Goethe, é Homero, é homérico. É titânico. É gigante.

Traduziu a poesia de Pessoa. Não se acha um poeta?
Não! [Fala sobre a Bea, a “neta linda” e poliglota de cinco anos]

O António é um homem de muitos humores?
Todos nós somos, todos nós. Há pessoas mais estáveis que outras. Sim, os escritores são mais humorais, acho. Se calhar estou enganado…

“Tristão Morre”, o seu último romance, é um livro muito forte devido à temática da dor e da morte. São coisas que o atormentam?
A morte é agonia e sofrimento, também. Ele tem uma gangrena que está a roer-lhe uma perna, um homem no fim da sua vida, é atormentado pela dor. Isto implicava falar e escrever não só sobre a morte mas também sobre o sofrimento.

Foi difícil escrever esse livro?
Bastante. Porque precisa de um esforço, de um salto bastante alto. Para uma pessoa de uma certa idade e com uma certa experiência é difícil pôr-se no papel de um homem de 80 anos… Todo o século dele, as histórias que eu não vivi, e está a ser atormentado pela dor. É difícil descrever a dor alheia embora eu possa ter experiência de ver sofrer pessoas,mas o sofrimento é uma coisa muito difícil. Pôr no papel aquilo que é a essência de quando o corpo adoece ou é atormentado, ainda pior. O que mais me horroriza não é só a dor, mas a dor que os outros possam infligir ao nosso corpo. A tortura… uma coisa desumana. E curiosamente ainda não a conseguiram eliminar. Há muitos países debaixo da tortura. Qual deve ser o papel do intelectual? Suspeitar. Ter suspeitas, ter dúvidas. A dúvida é importante. Pensar que há verdades que podem ser mentirosas. Estar com muita atenção e informar-se. Percebemos que há verdades que são mentiras. É uma forma de vigilância, digamos assim. Não pertence só ao escritor mas a qualquer intelectual que tenha possibilidade e capacidade de comunicar com os outros de forma pública. E nós sabemos que a mentira continua a circular. Circula nos países mais democráticos do mundo, como a América, como a Inglaterra, como Itália, porque a mentira é intrínseca a qualquer forma política e até à democracia. Portanto acho que o papel de um escritor é vigiar. Depois, se esta atenção não chega, ter dúvidas, ter dúvidas.

Foi Pessoa que o trouxe a Lisboa?
No fundo, foi. Mas não foi ele que me fez ficar.

O que o fez ficar?
Outras pessoas. A literatura pode ser…

A primeira vez que vem a Lisboa é em 1965?
Sim, com uma bolsa. Estava inscrito no primeiro ano da Universidade, em Itália. Mas descobri o Pessoa em Paris… na altura nem fazia bem ideia de onde ficava Portugal. Naquela altura, a Europa não sabia muito bem onde ficava Portugal. Portugal tinha virado as costas à Europa e a Europa tinha-lhe virado as costas. O que interessava a Portugal era a Guerra colonial. As colónias, sobretudo, e a guerra colonial. Sabia mais alguma coisa de Espanha porque Espanha tinha tido uma guerra civil violentíssima que tinha, digamos assim, colado na Europa inteira no mapa mundial. Portugal era um país pequenino, fechado, com grandes colónias e a Europa não sabia nada dele. De maneira que li um poema… “A Tabacaria”.

Era estudante nessa altura.
Estudante é dizer muito. Fingia que era estudante. Estudava filosofia. É uma estória simples, um acaso, um imprevisto, está a ver? Como dizia um filósofo “o inevitável nunca acontece, o imprevisto acontece sempre”, o que é bonito. Bom, depois quando cheguei a Itália inscrevi-me na faculdade de Letras, em filosofia, vi que havia um departamento de Filologia – eu sou filólogo, como profissão – e também havia um ensino de Língua e Literatura portuguesa e aí ouvi também aquele magnífico poema que eu tinha lido no comboio. Inscrevi-me no curso. Também acidentalmente, e como era um dos melhores estudantes, ofereceram-me uma bolsa para passar aqui o Verão e fazer o curso de estudantes estrangeiros. É assim que venho a Portugal. Encontrei pessoas, fiquei muito tocado por um Portugal que era um Portugal de 65.

Que Portugal era esse?
Era um Portugal muito pobre. Muito melancólico, muito solitário, muito deixado sozinho, com muitos escritores – conheci vários escritores – sobretudo de uma geração que não era a minha.

Mais velhos?
Sim. Os meus primeiros amigos foram o Alexandre O’Neill, Cardoso Pires, pessoas daquela geração. Porque também havia…

…uma partilha de ideais…
Não, não propriamente. Seria demais dizer isso. Havia uma comparticipação sentimental e humana muito forte. Um pano de fundo muito claro: todos eles eram anti-salazaristas e esse era o pano de fundo fundamental. Mas, pelo que me diz respeito, conheci alguns deles porque havia amigos ou familiares deles que viviam em Roma, exilados, alguns trabalhavam, e havia um professor que conheci na Universidade e que me encarregou de levar umas cartas… Enfim, tive possibilidade de conhecer pessoas, escritores e artistas que tinham assumido uma posição democrática e anti-totalitária, anti-salazarista,muito evidente e levavam uma vida muito difícil, modesta. A Pide andava sempre de olho neles. Era o Portugal de 65.

Foi esse Portugal triste que o seduziu?
Se eu tivesse andado assim, comestes sapatos que tenho agora (de pano) pela rua fora, as pessoas olhariam para mim com ar escandalizadíssimo. Era um Portugal que a Isabel não pode imaginar. Era realmente arcaico, mais arcaico do que sou eu agora. Muito mais. E respirava-se uma atmosfera muito pesada. Ao mesmo tempo havia umas pessoas com uma inteligência absolutamente brilhante; com uma generosidade enorme e um companheirismo muito grande. Aquilo foi, obviamente, um‘coup de foudre’. E nasceu uma solidariedade muito forte. Falta dizer que conheci a Maria José. Ela era uma estudante mais ou menos da minha idade. Mais nova. Conheci a mulher da minha vida… Foram todas estas circunstâncias que me fizeram ficar e também o facto de Portugal ser aquele Portugal, com aquela situação. Eu era um estudante que vinha de Paris onde tinha passado um ano. Se calhar, se tivesse ido para Estocolmo, não teria acontecido o mesmo encaixe. Teria encontrado uma cidade muito bonita, muito democrática, teria conhecido uma senhora, loura, pela qual se calhar não me teria apaixonado – estou a fazer a história ao contrário–mas é a vida que se encarrega de fazer as coisas. Há um filósofo que diz que nós pensamos, mas que sobretudo somos pensados porque é o pensamento que está a pensarnos como se o pensamento fosse autónomo. E a vida tem uma tal autonomia…!

E o António deixa-se embalar por ela.
É preciso tambémtentar dar o mínimo de rumo às coisas. Se não seria um rio sem margens.

E o que é isso de ser um vagabundo?
Ser um vagabundo significa ser uma pessoa que se aborrece e que gosta de
mudar de sítio.

E é por isso que hoje está aqui, depois está em Itália, em Paris?
Também porque gosto de viajar.

Falou-me há pouco de quando chegou a Portugal, do Portugal que viu em 65.
Passaram muitos anos.

Neste momento que Portugal é que vê?
Muito melhor. Felizmente. Portugal é um país inserido perfeitamente na Europa. Conservou muitas características mas acolheu, até com bastante desenvoltura, a modernidade. É um país onde as pessoas podem ter uma vida digna. Onde as pessoas não são presas sem razão, onde não se cometem abusos, onde há uma democracia a funcionar. Onde há eleitores. E quando os eleitores não gostam do tipo de administração, têm a possibilidade de dizer “agora os senhores vão para casa que vamos eleger outro”.

Não vota em Portugal. Poderia votar. Decidiu não o fazer.
É que às vezes quando há eleições não me encontro em Portugal.

Encontra uma família política com a qual se identifique aqui em Portugal?
Famílias políticas, exactamente não. Eu nunca tive etiquetas. Famílias políticas,hoje em dia, para mim, são aquelas que mais representam um comportamento ético mais do que ideológico. Aliás, fala-se muito do fim das ideologias. Acho que as ideologias, sobretudo, as que tornaram trágico o século passado, o XX, é bom que já não tenham razão de existir. Mas as razões éticas são fundamentais. O que interessa é ‘surveiller, pas punir’ mas, vigiar uma classe política ou o poder, seja qual for.

Esquerda ou direita?
Se for um tipo de direita que se inspira em doutrinas fascizantes como o século passado, é óbvio que é um tipo de direita que não tem nada a ver comigo, que eu rejeito. Estão a verificar-se várias manifestações em Itália, como na Hungria, e em vários países do bloco comunista; estão a voltar neo-nazis, um anti-semitismo muito rigoroso… Portanto esta Europa… neste momento a democracia europeia…

Está em risco?
Não, não está em risco, tem algumas febres passageiras. Parece-me que o Conselho da Europa não presta suficiente atenção a fenómenos que podem ser perigosos e que podem vir a dar problemas muito grandes. Há um continente, que é a Europa, que inventou o fascismo. Os outros não inventaram, fomos nós. É um ‘made in Europe’. Eu sou um europeísta convencido e sempre o fui. Mas queria chamar o CE a maiores responsabilidades.

Posso dizer que é de esquerda.
De direita não sou de certeza. Esquerda, depende. A esquerda, em geral… democrático liberal, talvez. Mas é evidente que um democrático liberal, votando.

Está a escrever actualmente?
Neste momento, nada. Neste momento, leio porque também é outra forma de escrever, é outra face da medalha.

E lê o quê?
Eu leio tudo.

Lê os escritores portugueses da actualidade?
Olhe, comecei a ler um romance de um escritor que conheci recentemente e que se chama Rui Cardoso Martins mas simultaneamente leio muitas outras coisas.

Gostou desse livro?
Muito bonito, muito interessante, muito curioso. Com uma grande força. Eu gosto de tudo, quer dizer, não sou sistemático nas minhas leituras.

Foi um conselho de alguém?
Não, foi uma descoberta minha porque eu tinha lido um livro anterior de contos do qual tinha gostado. E portanto saiu este e comprei e o Rui mandou-mo mas não é obrigatório ler todos os livros que me mandam. Simultaneamente estou a reler um outro livro magnífico que é “Os Detectives Selvagens”, de Roberto Bolaño. Sabe, depende da hora do dia.

A escrita também tem horas, rotinas?
Quando escrevo, sim, tenho. Quando escrevo a primeira versão das minhas coisas gosto de escrever entre as seis da tarde e as dez da noite. Mas quando entro na segunda fase, a fase da oficina, sou um operário muito sério. Trabalho desde manhã até à noite.

Já se pode dizer de si que é escritor profissional?
Há anos, dizia que não. Isto não é profissionalidade. É gostar de fazer as coisas, é aderência ao texto, é respeito por nós próprios, é muita coisa… Estou a insistir com a metáfora do carpinteiro. Passar a noite na loja, no ‘atelier’ do carpinteiro, à noite, quando está quase a fechar, e olhar para o chão e ver quantas coisinhas de madeira estão lá é um bocadinho a mesma coisa que escrever um livro. É preciso também preencher com páginas, não diria falhadas, mas em tentativas diria não satisfatórias. O cesto dos papéis que está ao nosso lado espelha isso mesmo.

No seu caso é mesmo assim. Não escreve em computador.
Eu escrevo à mão.

Por isso diz que é um homem arcaico…
Sou do ‘cromagnon’. Sim, escrevo à mão mas depois há uma passagem no computador.

Feita por si?
Há quem me ajude. Sou muito lento.

A escrita que sai da sua cabeça, sai à mão.
À mão. Depois há uma fase de transcrição, tem que haver. Antigamente fazia eu próprio na minha Olivetti 22. Agora não, tambémpor razões físicas porque passar muitas horas sentado… Eu escrevo de pé…

A sério?
Sim, é melhor. É uma postura mais confortável. Claro que quando vou para um café tenho de estar sentado. Mas depois de passar muitas horas sentado para transcrever um texto é fisicamente negativo e em termos de tempo, também, porque sou lento. Se há alguém que me ajude, melhor. Mas a primeira transcrição, normalmente não resulta, preciso de trabalhar sobre ela. Trabalho à mão, como quem pintou um quadro e depois quer dar uma pincelada, outra pincelada, e outra, porque normalmente um quadro não sai à primeira a não ser a alguns génios. Mas eu não sou um génio. Não sou o Picasso. O Picasso fazia “tic” e já está.

Escreveu um livro em português. O “Requiem”. Foi diferente esse trabalho de oficina?
Tive essa ousadia.

Consegue pensar em português?
Sim, claro. Traduzir-se a si próprio, do cérebro até à mão, seria demasiado complicado.

Esse livro foi pensado e escrito em português.
Sim, senhor. Depois a primeira questão que se pôs era limpar o texto dos meus eventuais erros no português, pequenos ou grandes, inevitavelmente ficam na página. Mas tinha depois fazer o mesmo trabalho que faço sempre quando escrevo em italiano, ou seja, procurar uma palavra que sirva melhor, modificar uma frase, sei lá, mudar de um relativo para um gerúndio. É mais fácil, resulta mais bonito, estas coisas.

Fernando Pessoa, que tão bem conhece, dizia “a minha Pátria é a minha língua”. Qual é a sua pátria?
Substancialmente é o italiano. Espontaneamente a minha pátria é o italiano, mas há pátrias adoptivas, também. O Pessoa, embora a sua pátria fosse a língua portuguesa, nunca deixou de escrever em inglês, o que significa que era um homem que tinha mais do que uma pátria. Acho que termais do que uma pátria é melhor do que não ter nenhuma. Como acontece hoje em dia, aliás, e fora da metáfora, há muita gente que não tem pátria. Coitados, não pertencem a nada.Pertencem a uma pátria ideal mas essa pátria não é conhecida. São vagabundos pelo mundo, são párias. E esta pátria adoptou-me e eu também a adoptei.

Sente-se adoptado por Portugal? Sente-se um escritor português?
Sinto-me adoptado por Portugal mas acho um bocadinho evasivo definir-me como escritor português. Sou um escritor português mas de passagem- no fundo somos todos de passagem, com pausas mais ou menos largas neste tempo reduzido que alguém nos deu a viver.

E que relação tem com essa entidade, com esse alguém que agora referiu?
Não sei. Gosto de olhar para o Céu, no Alentejo, e pensar que o Universo é vasto. Prefiro não me pôr a pergunta, se este Universo foi criado por si próprio ou se foi criado por alguém.

Porquê?
Porque acho que não há respostas.

Mas procura outras. Procura respostas para o amor, por exemplo.
Claro! Para a nossa vida terrena não há dúvidas… Mas para a eventual ultraterrena tenho pouquíssima relação, se não do ponto de vista individual, psicológico, etc., não, digamos assim, de uma forma metafísica mas com as recordações, os defuntos, algo ou alguém que pertenceu também à nossa vida humana e terrestre.

É isso que chama memória?
É memória, claro. Eu poderia até dizer que a literatura é a memória.

Insisto. Uma das suas grandes questões é o amor. Há um livro onde essa interrogação é feita através de várias relações, várias cartas…
Sim, sim. “Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde”.

Exactamente, onde aborda o amor e o fim do amor.
A literatura, como forma de conhecimento, dentro da experiência humana, é fundamental. Por exemplo, o amor. A Isabel falou do amor que é um dos sentimentos muito complexos e muito vasto. E depois uma pessoa tem um amor, encontrou uma pessoa e não sei quê, mas depois? Há vários tipos de amor com várias facetas. O que é que poderíamos saber sobre o amor se não conhecêssemos “Tristão e Isolda”, “Julieta e Romeu”, “Madame Bovary”, enfim… A literatura é a possibilidade de conhecer através de experiências alheias, de estórias alheias, um sentimento tão vasto e complexo para o qual a nossa pobre vida humana não seria suficiente em alguns sentimentos humanos, uma fonte de informação fundamental.

O amor é a grande fonte da literatura?
O ódio, também. As paixões humanas, até os vícios capitais, pode dizer-se. Aquilo a que a Igreja Católica chama de vícios capitais. É tudo o que pertence à criatura humana e é universal. E pode ser no Alentejo, pode ser em Paris, no século XIX, pode ser na China actual, pode ser em qualquer lado porque o comportamento e os sentimentos humanos são absolutamente idênticos. Uma lágrima de um italiano, de um chinês ou de um português, coincidem, têm a mesma quantidade de sal. É por esta razão que, no fundo, a arte, a literatura, a pintura, a música, são formas universais de conhecimento e de comparticipação

O António é um viajante. Gosta de se definir como tal. O que encontra na viagem que o seduz tanto?
A viagem é o imprevisto. É óbvio que o imprevisto também pertence ao nosso dia-a-dia. A nossa vida é feita de imprevistos, mas a viajem fornece um quociente maior de imprevisto e, portanto, pode ver uma coisa que não estava à espera de ver, ter um encontro que não… conhecer uma pessoa que não… É abrir mais sobre o imprevisto. E também a simples curiosidade, a legítima curiosidade, de conhecer o que ainda não conheceu.

A diferença?
Sim, a diferença, para chegar, se calhar à conclusão de que tudo é igual. Mas por que não? ‘Vive la diference’. É por esta razão que o mundo é bonito. É diferente. Se fosse tudo igual seria extremamente monótono.

Sendo Itália um país com a tradição humanista e cultural que tem, como explica a deriva governativa, com executivos pouco duráveis e agora esta permanência que é Sílvio Berlusconi?
A Itália está tão à direita que caiu naquele estado deplorável. Os historiadores desde 45, quando acabou a guerra, que fazem a mesma pergunta: como é que um país que tinha Bach, Kant, Thomas Mann, etc., gostou daquela gente? Mistérios. O pior, normalmente, tem mais adesão do que o melhor.

Berlusconi é uma figura romanesca?
Para romances de péssima categoria. Nem para o satírico. Nemum romance de quiosque. Era preciso atribuir-lhe muita coisa que acho que ele não tem.

Mas os italianos continuam a escolhê-lo.
Como estava a dizer, o pior,muitas vezes… é como o “pimba”. O “pimba” pega. É mais fácil pegar o “pimba” do que o Schubert. Já pensou nisto? É porque é simples. O “pimba” é fácil e o Schubert é difícil. O melhor precisa de educação, respeito pelos outros, compreender o que é um contrato social, precisa de esforço, de estudo… Para nos tornarmos pessoas sérias e civilizadas temos de fazer um esforço. Para sermos selvagens não é preciso esforço nenhum. E é por esta razão que este tipo de acções políticas são reversíveis do ponto de vista da humanidade. É fácil abrir uma janela, se há uma plateia que está a ouvir, e dizer palavrões. Então eu também posso dizer palavrões, diz a plateia. O “pimba” pega. Se uma pessoa abre a janela e começa a recitar um poema de Shakespeare ou um poema do Pessoa, se calhar…

Então qual é a responsabilidade de políticos que têm este poder?
É a de lançar ‘el peor del dia’ como diria o Almodóvar. O pior do dia.

Gosta do Almodóvar?
Gosto muito de Almodóvar.

Muitos dos seus livros deram filmes. É um cinéfalo?
Gosto muito de cinema. Considero o cinema uma linguagem perfeitamente à parte. Seria pretensioso ou, de qualquer modo, uma leitura errada, ir ver um filme inspirado num filme meu à espera que seja o meu livro. Porque o meu livro é o meu livro e o meu filme é o meu filme.

Qual acha que foi a melhor adaptação que fizeram dos seus livros?
Gostei muito de “O Fio do Horizonte”, do Fernando Lopes. É um filme magnífico.

É seu amigo.
Sim, é um grande amigo mas não digo isto por ele ser meu amigo. Digo porque é um realizador de primeira categoria. Foi um dos inventores deste Cinema Novo português. Mas continua a ter uma linguagem cinematográfica magnífica. Mas também gosto do “Requiem” do Alan Tanner, é muito interessante.

Quais são os seus grandes prazeres?
Gosto muito de conversar.

A comida é outro prazer?
É. Sim, sim.

Gosta de cozinhar?
Gosto mais quando cozinha a Maria José.

Mas gosta da cozinha portuguesa?
Adoro. A cozinha portuguesa, a popular que, daquelas coisas que sobraram, consegue fazer um prato. Aí é que é preciso génio, sabe? O senhor Gervásio, ali do café, estava agora a comer caracóis.

Gosta?
Sim, sim. Na Toscânia, caracóis é um prato da minha infância. Gosto muito. Estes são mais para petiscar. Um bom prato de caracóis não é nada mau. Com alho e salsa. Estava a pensar nas coisas culinárias e, no fundo, os nossos países do sul têm a inteligência, o génio de saber transformar o que ficou, as sobras, num prato.

Pode dizer-se que é um homem totalmente virado a Sul?
Sim. Sempre procurei o Sul. Sinto-me melhor. Corresponde mais à minha maneira de ser. Se calhar, fisicamente, não sou muito do sul. Mas, internamente, humanamente ou até gastronomicamente, sou um homem do Sul.

Entrevista publicada no Outlook, do Diário Económico de 8.8.2009

conjugo-me

Quantos verbos para me conjugar?
Pretéritos, mais que perfeitos, muitos imperfeitos,
presente do indicativo, infinitos, futuros condicionais.
Mudam-se os tempos, muda-se a conjugação

a verdade

Olhem só para a pergunta. O que é a verdade? O que vejo, o que me contam? Mas como me contam, porque me contam, de onde me contam? O que é gritado ou o silêncio, o murmúrio, o segredo. Talvez o megafone, a câmara, clara ou escura, a cores ou sem cor nenhuma? Continuo, quero saber a verdade, mas chegam-me contradições. Será a verdade contraditória. Será a verdade mentirosa? Se for, que se veja, se mostre, se revele. Talvez seja cobarde. Mas falam dela como sendo de coragem. A coragem da verdade. Vejo imagens, revejo, contam-me, calam, não me calam. Pergunto. Espreito, pode ser que não se tenha prevenido. Cautelosa, verdade tímida, discreta? Ou sem vergonha, inconveniente e incómoda, verdade sem jeito, improvável, inverosímil. Ver para crer. Terá a verdade algo a ver com fé? Vejo o que me mostram e acredito? E se a verdade não se revelar? O que sei eu? Procuro a verdade, é verdade, mas não terei ido na mentira apresentando-a como um facto? Talvez seja ilusão, mas isso não é o contrário de verdade? A não ser que a verdade aspire a ser uma ilusão. Mas sonhei que era verdade e isso não foi mentira. Então porque acordo com a certeza desfeita só porque vi um vídeo diferente. Fico à espera para compor a minha verdade. Talvez seja só um puzzle.

Arrumado

O escritor deixou de fazer sentido. Leio-o e encontro malabarismos, piruetas, emoções a martelo. Um bocejo. Escrita à medida de uma expectativa fabricada pelos fabricantes de livros, cada título uma encomenda. É preciso fazer chorar, fazer rir, fazer bonito, mostrar que se sabe, citar… O escritor deixou de olhar para dentro, de observar cá fora, para se ver a ele num espelho gigante, corpo inteiro de sucesso, músculo ganho à conta de vendas. Nada contra as vendas, bem entendido, mas… Continuo a olhar as páginas como para encontrar a razão da perda do tal sentido. Achar nelas o talento de fazer diferente com as mesmas palavras sem trair a essência da escrita: o tal espelho onde cada um é capaz de se ver e não apenas encontrar o reflexo do escritor musculado. O meu escritor tornou-se banal, papagaio sem penas nem fado. Fecho o livro e arrumo-o na prateleira, ao lado dos outros livros dele que me fizeram segui-lo, e passo à letra seguinte.

Férias para um domingo

Procurei o que ler. Nada do que estava começado ou quase por acabar me apetecia. Apetece-me um livro como me apetece comida. Peguei num pequeno volume, páginas amarelas, uma edição da Arcádia de 1965. Abri-o e entrei no mar. É por aí que tudo começa: “Quem eram os meus companheiros daqueles tempos não me recordo. Viviam numa casa da aldeia, parece-me que em frente da nossa, uns rapazes farroupilhas – dois -, talvez irmãos. Um chamava-se Pale, de Pasquale, e pode ser que esteja a atribuir o seu nome a outro. Mas eram tantos os rapazes que conhecia por aqui e por ali.”

Ao primeiro parágrafo o livro deixou de cheirar a papel amarelo para me trazer iodo e feno, urze, chorões que pisava até os desfazer. Cada um sabe a que cheiram as suas férias, as minhas têm estes e como as de Cesare Pavese, eram em Agosto. Este é o livro, “Férias de Agosto“, uma tradução de Ana Hatherly, que vou tentar ler sem que as folhas se separem e muito grata a quem mo ofereceu.

A propósito de últimos pedidos

A literatura está sempre a colocar-nos em frente do nosso espelho. Ontem continuava a minha leitura dos ensaios de Orham Pamuk a propósito da arte do romance reunidos no volume “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (onde ele falava disso mesmo e hoje vejo a minha figura reflectida). Aconteceu ao abrir o blog  do Bruno Vieira Amaral.  Vinte anos para trás e lá estava eu, ao lado de uma cama de hospital diante daquela mulher bonita, tão bonita, que quase sem ar me pedia para lhe levar a bolsa da maquilhagem na próxima visita. “Claro que sim, claro.” Cerrei os dentes não fosse uma lágrima trair a minha expressão de que amanhã ainda existe para aquela mulher de 49 anos, sorriso generoso, na sua vaidade de querer apresentar-se bem a quem a visitava naquela cama asséptica. “Está por horas”, disse-me o médico à saída. Acho que ela sabia. Só queria ter o prazer de se arranjar mais uma vez. Uma última vez e orgulhei-me dela. Também queria ser assim quando chegasse a minha vez. Haveria de pedir a bolsa a alguém. E procurei a bolsa. Ficou na mesa da entrada para quando eu saísse. Só a tirei de lá quando no dia seguinte dei com ela ao abrir a porta.

Já sei namorar


1931, Luiz Brandão, São Paulo, Brasil

Naquele dia, ele ganhou coragem e encostou-a à parede. Surpreendida, ela correspondeu e deitou-lhe a mão. Este beijo tem 82 anos, é brasileiro, mas ninguém lhe reconhece sotaque nem lhe dá essa idade.