Luiz Pacheco, um ser ficcional


Por fim, pego na biografia de Luiz Pacheco. Folheei páginas ao acaso, parei em vários parágrafos, escolhi citações do escritor, um longo namoro que só agora passou a uma relação mais profunda.  Abri o livro na primeira página. “Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade”, escreve, a abrir, João Pedro George, o biógrafo de “Puta que os Pariu“, título retirado da uma entrevista que Pacheco deu à revista Ler, em 1995, conforme se explica na contracapa desta edição da Tinta da China. Talvez seja esse desarme que mais me seduza em Luiz Pacheco, uma capacidade invulgar de surpreender e que fez dele uma das figuras mais ricas da literatura portuguesa do século XX. Tive o prazer de o conhecer, um privilégio que na altura me intimidou. Por detrás das lentes de fundo de garrafa os olhos de Luiz Pacheco não escondiam o lado mordaz e altivo. Foi esse olhar que recordei mais uma vez no dia em que tive de escrever sobre a sua morte, um texto feito com a ajuda de João Pedro George que já então trabalhava nesta biografia. Foi em Janeiro de 2008.

Via-se como um ser ficcional

Um homem avançava pelo corredor de uma redacção. Passos incertos. Expressão imperceptível por detrás dos óculos de aros grossos. Atrás, outro homem, mais novo, saco de plástico na mão e o ar de quem está ali por acréscimo. Luiz Pacheco e um dos seus oito filhos, Paulo Pacheco, chegavam para uma entrevista. Era em meados dos anos 90 e as dificuldades financeiras que sempre marcaram a existência deste escritor que nunca escreveu um romance – dizia ele que por falta de disciplina – eram as de sempre. Luiz Pacheco falou, o gravador gravou e no fim da conversa, sem que houvesse nenhum acordo tácito, o estender, pelo jornalista, de uma nota de cinco contos logo conduzida pelo olhar de Pacheco para as mãos do filho Paulo. “Ele tinha uma moral muito própria, ou não tinha mesmo moral nenhuma”, refere o crítico João Pedro George.

Para quem conviveu de perto com Luiz Pacheco esta é uma história banal na vida de um homem invulgar cujo percurso e personalidade são impossíveis de comprimir num artigo de jornal. “Ele era tudo menos o lugar-comum”, diz João Pedro George, professor universitário a terminar uma tese de doutoramento sobre Luiz Pacheco. “Não será uma biografia tradicional. É uma tese de sociologia literária. Interessa-me partir da trajectória do escritor maldito para desconstruir a ideia de que isso tem uma carga negativa.” É uma reprodução de um meio literário a partir do percurso individual de um homem que foi o seu principal biógrafo, alguém que dizia que primeiro se vive e depois se escreve sobre o que se vive: um escritor que nunca escreveu um romance e se fez a si mesmo personagem romanesca. Ele via-se assim. Os outros viam-no assim: um ser ficcional.

João Pedro George conheceu-o de perto. Trabalhou directamente com ele nos últimos dois anos e é ele quem o descreve como a personagem do romance que foi a sua própria vida. A última vez que o viu foi no dia 26 de Dezembro, no lar onde estava, no Montijo. Queria ouvir dele o nome da rapariga para colocar na dedicatória de “O Crocodilo que Voa”, uma antologia de entrevistas de Luiz Pacheco organizada por João Pedro George, e a editar este mês pela Tinta da China. Encontrou um homem “bastante debilitado, numa cadeira de rodas”, com uma voz inaudível. Não conseguiu saber o nome da rapariga, mas sabe a história que a acompanha e a fez ser motivo de homenagem do homem que morreu na noite do passado sábado aos 82 anos de idade. A dedicatória será “A …, açoriana, poetisa, excelente.” Uma espécie de agradecimento na sequência de uma confissão polémica numa entrevista a Baptista Bastos. Pacheco afirmava ter tido relações sexuais com uma cadela. A seguir, a única voz de compreensão a essa frase “maldita” foi a de uma mulher que o visitou no lar e lhe terá dito que tal atitude revelava uma enorme solidão.

Era assim Luiz Pacheco. Desarmante, de “alguém que nunca perdeu a sua pureza artística, desconfiava das pessoas e tinha uma visão um pouco cristã do mundo no sentido em que achava que todos somos culpados até prova em contrário.” Palavras de João Pedro George, mais uma vez, sobre alguém que não correspondia a um tipo convencional.

Por isso, na hora da sua morte, evitem-se palavras de circunstância. Luiz Pacheco, escritor excêntrico, maldito, bem-amado pelo crítica, morreu e deixou mais obra por publicar do que aquela que foi publicada. Sobretudo diários e cartas, uma correspondência que em quantidade se assemelhará à deixada por Camilo Castelo Branco. “Todos os dias escrevia cartas”, sublinha Pedro George.

Natural de Lisboa, onde nasceu na Rua da Estefânea, a 7 de Maio de 1925, Luiz José Gomes Machado Guerreiro foi o melhor aluno do seu ano no Liceu Camões. Média de 18 que o levou a cursar Filologia Românica na Faculdade de Letras. Desistiu devido a dificuldades financeiras que o acompanharam ao longo da vida. Ainda foi funcionário público, mas preferiu a liberdade da condição de desempregado à segurança da rotina como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.

Escreveu artigos em vários jornais e revistas, dedicando-se, sobretudo, à crítica literária. Em 1950 fundou a editora Contraponto, que publicou principalmente obras de autores surrealistas, autores como Mário Cesariny, Herberto Helder ou António Maria Lisboa. Faliu. Como autor, destacou–se em 1964 com o conto Comunidade, que valeu o elogio da crítica (ver caixa). Mas seria a sua condição de crítico irreverente e a vida de libertino “com regras” a darem-no a conhecer às autoridades do Estado Novo. Esteve preso, viveu de esmolas, andou por albergues e quartos alugados. Dizia que tinha sete filhos e meio. Teve, de facto, oito, de várias relações, e a literatura sempre como projecto de vida.

Janeiro 2008 in Diário de Noticias

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