Sarah

Sarah apontou e a garça levantou voo nesse preciso momento. Antes estava estátua em cima de uma pedra, imóvel, cabeça levantada, confundia-se com a paisagem. Tinha a mesma cor cinza azulada do contra-luz numa hora em que a luz fere os olhos. Era Fevereiro, mas quem diria? O verde estava amarelo, o pântano, ao fundo, seco. Nem vento nem frio, um sol que queima. Só as arvores sem folhas indiciam uma contradição na natureza.

Sarah aponta enquanto guia um velho range rover branco pelos altos e baixos de um terreno que comprou há dez anos e quer. Hectares a perder de vista entre oliveiras, chaparros, arbustos para os quais não encontro nome e um ribeiro, ao fundo. É o som da água que comanda os outros e soa a verão neste inverno alentejano.

Sarah é uma mulher de 46 anos, londrina que se fartou de Londres e da ambição dos outros e procurou refúgio perto de S. Teotónio, a uns dez quilómetros da Zambujeira do Mar. Primeiro anda experimentou Cascais e a Quinta da Marinha. Pouco tempo para perceber que mudar de país não chega para mudar de ambiente. O sonho de Sarah está prestes a tornar-se real. Transformar aquele pedaço de terra num lugar onde os outros possam encontrar o mesmo que ela. Campo. Passou estes anos a recolher móveis simples, de preferência portugueses. Admirou-se com a dificuldade da tarefa. “Aqui as pessoas ou deitam as coisas velhas para o lixo ou vendem-mas a preços impensáveis.” Recuperou velhas casas de montes espalhas pela propriedade, um moinho, quer fazer um pequeno museu agrícola.

Sarah aponta e conta e é muito bom ouvi-la falar bem daquele campo português. Ela foi conquistada por ele. Não sabe até quando. Para já são dez anos em que aprendeu a língua por necessidade. “Aqui ninguém fala inglês”. E ali, o mais próximo que há, a uns dois quilómetros, é uma pequena aldeia com um café, onde Sarah entra e já alguém lhe pagou o café, onde fala com as mulheres sentadas ao sol, cumprimenta os homens que lhe levantam o chapéu ou  boné e quer ser como eles, confundir-se com a paisagem. Ali não haverá campos de golfe relvados, garante.

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