Num Inverno, o viajante

Em Lisboa, Olivier Rolin fala das paisagens e do quanto elas o estimulam na escrita. No seu último livro, a viagem foi o pretexto para um jogo irónico com a morte. “Baku, últimos dias é um exercício muito íntimo de um homem com os lugares.

Rosto vincado, cada ruga um percurso, marca de sol e frio. O espanto, o êxtase. Há caras que são boas a guardar memórias, trajectos estampados na pele e o conjunto como um atlas. Olivier Rolin, escritor de muitas geografias, ensaiou a sua morte literária em Baku, a capital do Azerbeijão. Foi no livro anterior, “Suite no Hotel Crystal” (Sextante), uma série de histórias passadas em quartos de hotel. Ficou aí escrito que morreria em Baku, em 2009, no quarto número 1123 do Hotel Apcheron. “Baku, últimos dias” é um jogo literário, um desafio irónico a uma morte anunciada pelo próprio autor, que decide partir ao seu encontro. “Vou desafiar o destino sem pensar que corro o risco.” Se ela tivesse de acontecer em Baku, em 2009, aconteceria, não faria nada para o impedir. Não iria fugir. Ao contrário, iria até Baku, ao encontro com a própria morte e, como ele confessa, “sem medo” nem qualquer espécie de mística na bagagem onde seguiram livros de W.G. Sebald, George Perec, Carlos Drummond de Andrade, Virgínia Woolf e “Mrs Dollaway”, quase todos tendo a morte como tema, mas nunca mencionada por Rolin pela sua negrura.

“Este é um livro sobre tudo o que desaparece”, conta Rolin. Como uma cidade que desaparece por baixo de outra, como o tempo apaga a escrita. “Quanto tempo me sobreviverão os meus livros?”. A cor da sua pele contrasta com o branco do sofá onde insiste em não se recostar. Fala olhando o interlocutor, óculos nas mãos, de costas para o Tejo que o faz sentir Lisboa como uma das suas geografias, a que volta quando pode. Por isso aprendeu a ler português. Não há uma tradução de um livro seu que não seja revista por ele. Gosta dessa familiaridade com a língua. Sente-se menos estrangeiro, menos só, por exemplo, do que em Baku, onde tentava domar qualquer coisa entre o árabe e o russo. “Sempre tive uma relação difícil com as línguas. Amo-as, elas atraem-me, gostaria de as possuir, mas escapam-me (nada de erótico nisso, porém)”, pode ler-se na página 50 e, pouco mais à frente, um desabafo: “Quando eu morrer – talvez dentro em breve em Baku –, uma das coisas que lamentarei será esta: não fui mais do que um apalpador de línguas, nunca fiz de nenhuma a minha amante.” Depois a constatação antes o ruído, o sem sentido de sons que não são entendidos como palavras e é limitativo “Conheço menos pessoas, chego a sentir-me extremamente só, como numa prisão, prisioneiro da minha ignorância da língua. Terei de observar, de adivinhar ou tentar adivinhar uma série de coisas e as relações. Andar, andar, andar, tirar notas.”

É num francês cerrado, que Olivier Rolin, nascido a 17 de Maio de 1947, conta a sua relação com as paisagens, algo que faz dele um viajante, mas não necessariamente um escritor de viagens “O que é isso?”, interroga-se sem esperara reposta. Daí a dificuldade de classificar este livro. Não cabe em nenhuma categoria clássica. Ele, Olivier Rolin, ex-jornalista, formado em filosofia na prestigiada École Normale Supérieure, membro da juventude comunista, autor de cerca de vinte livros, o primeiro dos quais publicado em 1983. Assume-se também como o próprio narrador e se há o que chamar a estas quase 200 páginas é algo de muito íntimo. “Sim, este é o mais íntimo dos meus livros”, assume com um sorriso quase tímido. Estão lá as suas angústias, as suas referências, os remorsos, as alegrias, memórias que transporta e revive com um despudor que se adquire com a experiência. Saber contar algo sem que pareça excessivo. Adequar o discurso, torná-lo elegante, explosivo, agarrar o leitor e levá-lo numa viagem interior pela geografia da humanidade.

Ele explica as razões do jogo que o levou de volta a Baku, em 2009, depois de lá ter estado em 2003. Andava então a “escrever um livro composto por umas quarenta histórias mais ou menos absurdas ou extravagantes, todas elas passadas em quartos de hotel do mundo inteiro, maniacamente descritos. O nome do hotel, tão próximo do do rio dos mortos grego, sugeriu-me a ideia de encenar, no meu quarto de hotel Apcheron, o meu próprio suicídio, ou de uma personagem com o meu nome e que é o autor das histórias publicadas em Suite no Hotel Crystal. A ideia de me suicidar, mesmo em Baku, não tem nada de delirante nem extravagante, mas o que já o era é que a nota biográfica na capa do livro, editado em 2004, mencionava a minha data de nascimento e morte: ‘Boulogne-Billancourt, 1947 – Baku, 2009’.”

Let’s play the game, um jogo cheio de memórias, de frases anotadas num caderno que leva sempre no bolso, de conversas transcritas de modo resumido. “O difícil nisto de escrever sobre paisagem é apanhar o seu centro, o que interessa nessa imensidão, o que lhe dá a essência, o que a faz falar”, fala agora Rolin, não parando com os óculos entre os dedos. “Sem a reconstituir completamente através das palavras, encontrar o que fala. Isso é difícil.” O bom é o partir em viagem. “São os encontros, os pensamentos, os cafés e as pessoas, as minhas referências a encontrar sentido no meio de tudo isso.” E em tudo isso, desde que sai de França até chegar a Baku, no Cáspio, ou nas montanhas, “deixar de saber exactamente o que são as minhas coisas.” E também inventar passados pelo caminho, ou conforme os caminhos. Aqui inventou duas filhas e construiu-lhes uma identidade. “Não são só razões literárias. É verdade que muitas vezes hesito em responder se tenho ou não filhos. Por exemplo, quando estive pela primeira vez em Lima, o taxista perguntou-se se tinha família em França e eu disse que sim. Há uma pena e um remorso em não ter filhos. É o custo da minha liberdade, seu sei. O preço. Mas tenho a impressão de que deveria contribuir para o futuro do meu mundo com filhos”. O sorriso agora é de alguma nostalgia, um sentimento que tem tudo a ver com a viagem e que tantas vezes quis transmitir para os livros sem saber muito bem como. Esse é o desafio. Encontrar a palavra e com ela conseguir qualquer coisa de belo. Como quando vai para a Sibéria, esse lugar inóspito onde qualquer tipo de vida é um desafio. “Gosto de paisagens extremas”, precisa. São essas paisagens que o espicaçam e sobretudo elas que levam este auto-denominado cosmopolita a sentar-se na escrita à procura do fabrico do belo. Afinal uma das funções da literatura, a mais nobre. Além de transmitir conhecimento, sentimentos, informação, aquilo que a arte consegue mais algumas coisas.

E essa palavra, quando acontece, a palavra certa para uma paisagem? Rolin levanta-se. Põe as mãos nos bolsos das calças, olha o chão, caminha pela sala, passa os dedos pelo cabelo. “É isto que acontece, um êxtase.”

 Entrevista publicada na revista Fora de Série

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