A propósito de últimos pedidos

A literatura está sempre a colocar-nos em frente do nosso espelho. Ontem continuava a minha leitura dos ensaios de Orham Pamuk a propósito da arte do romance reunidos no volume “O Romancista Ingênuo e o Sentimental” (onde ele falava disso mesmo e hoje vejo a minha figura reflectida). Aconteceu ao abrir o blog  do Bruno Vieira Amaral.  Vinte anos para trás e lá estava eu, ao lado de uma cama de hospital diante daquela mulher bonita, tão bonita, que quase sem ar me pedia para lhe levar a bolsa da maquilhagem na próxima visita. “Claro que sim, claro.” Cerrei os dentes não fosse uma lágrima trair a minha expressão de que amanhã ainda existe para aquela mulher de 49 anos, sorriso generoso, na sua vaidade de querer apresentar-se bem a quem a visitava naquela cama asséptica. “Está por horas”, disse-me o médico à saída. Acho que ela sabia. Só queria ter o prazer de se arranjar mais uma vez. Uma última vez e orgulhei-me dela. Também queria ser assim quando chegasse a minha vez. Haveria de pedir a bolsa a alguém. E procurei a bolsa. Ficou na mesa da entrada para quando eu saísse. Só a tirei de lá quando no dia seguinte dei com ela ao abrir a porta.

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