Arrumado

O escritor deixou de fazer sentido. Leio-o e encontro malabarismos, piruetas, emoções a martelo. Um bocejo. Escrita à medida de uma expectativa fabricada pelos fabricantes de livros, cada título uma encomenda. É preciso fazer chorar, fazer rir, fazer bonito, mostrar que se sabe, citar… O escritor deixou de olhar para dentro, de observar cá fora, para se ver a ele num espelho gigante, corpo inteiro de sucesso, músculo ganho à conta de vendas. Nada contra as vendas, bem entendido, mas… Continuo a olhar as páginas como para encontrar a razão da perda do tal sentido. Achar nelas o talento de fazer diferente com as mesmas palavras sem trair a essência da escrita: o tal espelho onde cada um é capaz de se ver e não apenas encontrar o reflexo do escritor musculado. O meu escritor tornou-se banal, papagaio sem penas nem fado. Fecho o livro e arrumo-o na prateleira, ao lado dos outros livros dele que me fizeram segui-lo, e passo à letra seguinte.

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