Cópias e galinhas

Seria por agora, o tempo de apanhar as ervas, limpar o terreno.

Mãos pequeninas enfiavam os dedos na terra e catavam raízes, troncos, juntavam tudo num monte. Iam e vinham numa ordem atrapalhada que ninguém lhes ditava. Botas cheias de lama, calças com joelheiras. Para muitas, melhor aquilo que uma cópia, um ditado cheio de erros, contas que não batiam certo depois de feita a prova dos nove e a consequente cana da índia na cabeça. Antes a comichão das urtigas que o ardor da reguada. Mas bastava um raio de sol, o espreitar de Março, e a professora desistia de ensinar os meninos a desenhar uma letra bonita, redonda, sem inclinações nem bolinhas em cima dos ii.

De bata branca, conduzia um bando de crianças, tão brancas quanto ela, para o recreio onde a brincadeira era fazer uma horta, construir uma capoeira para galinhas e depois cuidá-las, alimentá-las, tirar os ovos, colher alfaces e cenouras. A professora Maria José era o que se chamava uma regente.

Tinha a quarta classe, baton vermelho a ultrapassar em muito a fronteira dos lábios. Vestia sempre de preto, punha rolos no cabelo grisalho e vivia com um “amigo” numa das casas velhas da parte velha da aldeia. À sexta-feira, apanhava a camioneta e só voltava na segunda de manhã. Ia para a terra, mas nunca disse qual. Diziam que tinha vindo de África, ficado viúva muito cedo, mas ninguém lhe conhecia a história nem a idade. Ela também não contava. Mas contava o dono da mercearia como quem conta um segredo, que ela gastava muito pouco, que ia tudo para os medicamentos do “amigo”, um homem sem nome numa cadeira de rodas que ela trazia para o sol de onde só o tirava quando descia a ladeira de regresso a casa, perto das cinco . Ela não fez o Magistério Primário.

Na idade dela, a quarta classe, e uma educação acima da média eram qualificações suficientes para ser colocada numa escola a ensinar a ler e a fazer contas, a cantar a tabuada, a apontar rios, linhas de comboio, montanhas e fronteiras. Depois veio a revolução e ela continuou, revoltada, ultrapassada por normas que não foram feitas para pessoas como ela, apesar de haver muitas pessoas como ela.  Vivia numa linha que apenas a separava da reforma baixa que haveria de receber e da professora do lado, mais nova, direita, roupas coloridas e carro à porta. Não morriam de amores uma pela outra, às vezes até discutiam, e nesses momentos as crianças paravam de arrancar ervas daninhas, não tanto para saberem o motivo da discussão, mas porque as professoras não discutem, pois não? Pois sim. A escola ensina mais do que letras. Cada nódoa negra é uma marca, cada conta errada no quadro, uma gargalhada da turma. Dor e humilhação. Dor da humilhação.

Na horta da professora Maria José havia quem se redimisse das chamadas a quadro mostrando destreza com a enxada. Seria tudo aquilo conforme? Mas seria também conforme ser cada uma das crianças responsável por dar à manivela com toda a velocidade para que a roda girasse e a água saísse do poço. Enchia-se o balde e era carregá-lo aos pares, braços trémulos,  para limpar as casas de banho, para deitar na retrete, para regar a horta.

Era assim e ninguém questionava. Maria José precisava das alfaces, das cenouras, dos ovos que as galinhas punham e que o aluno com a melhor cópia do dia tinha direito a ir recolher à capoeira. No fim do ano lectivo, precisava também da canja, mas isso as crianças não viam.  Era depois de saírem, de passarem de classe, de deixarem a escola limpa, a brilhar, cera nas carteiras, quadro lavado com água e sabão, limpar o pó ao velho atlas e ao mapa de um império que já não existia, e onde só Maria José encontrava o seu lugar.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s