Ilusão com algemas

 

Vi passar a carrinha amarela. Das que costumam estar à porta dos tribunais. Levam presos para serem ouvidos. Já os vi sair de lá, mãos atrás das costas, cabeça quase sempre baixa. O que vêem? Os pés, o chão? A vida em flashes? Talvez ceguem com a vergonha se a tiverem. Penso nisso como penso no que fazem na penumbra da carrinha. Talvez olhem as mãos algemadas, talvez pensem no que ouviram, disseram ou não. Calaram. Talvez, como eu, imaginem o que possam estar a fazer as pessoas fora da carrinha, sem algemas nas mãos.

Os presos saem para a rua, mas da rua só recebem barulhos de motores, buzinas, frases que lhes chegam cortadas, sem sentido, e umas riscas bem finas de sol. Vão à rua, mas talvez preferissem não ir. Horas de interrogatório ou nem isso porque o juiz faltou, a testemunha não foi, o advogado pediu adiamento. Talvez só queiram voltar à cela. Talvez não e aquela saída valha muito, quebra na rotina, ilusão de normalidade. A não ser as algemas e uma penumbra que nunca se ilumina. Talvez tenham, como eu, ficado um dia num cruzamento a ver passar uma carrinha amarela imaginando como é estar lá dentro.

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