A gota de água

A gota era grande e refletia a rua. Caia iluminada pelo sol e com a lentidão do sonho. Pairava, como se de ar e não de água. Era uma gota espelho, mas não havia Alice do outro lado. Era toda um núcleo e nele estava eu. Tive tempo para me ver lá dentro, inteira, à distância, tridimensional. Eu, outra, aquela que caia suspensa pelo repentino silêncio dos minutos que pareciam não passar. Não havia pressa. Eu e a gota e eu na gota com a rua. E eu estranhei-me, como se estranha o som da própria voz quando gravada.

Não nos vemos como somos, tal como não nos ouvimos como soamos. Aquela imagem de mim não tinha nada a ver com a imagem de uma foto, de um filme. Era eu recortada. Eu para mim. “Vês-te? É assim que te veem? É assim que queres que te vejam? É esta a imagem que achas que passas ou queres fazer passar?”
A gota interpelava, desafiante. E eu só tinha o choque porque não me revia naquele núcleo apesar de me ter reconhecido de imediato. Era eu. Seria eu agora, eu daqui a uns tempos? Será que eu já fui assim? A gota caia sustendo-se à minha frente num momento em que eu queria saber mais de mim e devolveu-me como eu achava que não era. Não sabia se gostava ou não. Só o espanto e algum desconforto, claro. Se fosse uma bola de sabão eu rebentava-a e seguia em frente. Mas era de uma solidez líquida indiferente à gravidade.
Não sei quanto tempo esteve ali. O suficiente para eu ver o filme da minha vida e projectar nela, na gota, um futuro. E a minha imagem sempre lá, como uma boneca numa caixa de líquido, daquelas onde há neve ou brilhantes a cair e se vendem nas feiras ou agora nas lojas dos museus onde o kitsch virou trendy. Mas eu estava só, na rua, com as casas de sempre, eu na tal da minha circunstância.
Sei que a gota me queria provocar não sei mandada por quem. Terá chovido para mim, só para haver aquela gota? Ela interpelava-me e eu procurava respostas.
Dei-lhe tempo para cair. Havia uma mala para fazer, decidi. E agora tinha pressa. Eu. E foi como se a deixasse cair. Quando ela caiu olhei para o relógio e vi então que foi ela quem me deu tempo a mim. Aquele filme todo e não passou um segundo até a gota cair, como sempre, como com todas as gotas. Só que aquela fez o tempo parar até eu me decidir.

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