Monthly Archives: May 2012

‘M’ de meus livros


Ao fim de uma hora de arrumação, a pilha dos “M” não se aguentou e desmoronou-se. Um desastre doméstico que me faz concluir acerca da importância literária de ter um apelido que comece pela mesma letra de Musil. O “B”, de Bessa-Luís, segue-lhe o rasto, mas a uns bons três palmos de distância, logo seguido do “C” de Camões. É mais uma viagem pelos meus livros, em mais uma mudança de lugar. Na estante e na geografia da cidade.

no fio da navalha

A lâmina passava na pele e eu ficava suspensa no movimento. Era certeiro. Sem falhas nem hesitações, mão esquerda firme a segurar-lhe o pescoço e a outra a deslizar suave no rosto, ela fazia-lhe a barba. Se estivesse sol era no pátio, ao pé das rosas, do jasmim, à sombra das telhas onde crescia arroz de jardim, rasteiro, florido. Ele sentava-se num banco e ficava quieto, obediente às instruções que eram sempre as mesmas, havia anos, mas que nem assim deixavam de ser repetidas e acatadas como da primeira vez.

Com uma toalha ao ombro, que contrastava com o luto eterno de três filhos perdidos, ela colocava-se atrás, bacia de esmalte branco com água ao lado. Ounha-lhe outra toalha brança à volta do pescoço e desfazia o conteúdo de uma bisnaga, também branca, numa taça de porcelana. Um pincel e muita prática faziam o resto. Verificava se a navalha estava bem afiada fazendo passar o fio pela pele dos seus dedos e eu não sabia onde ela ia buscar mãos para tudo, nem como não se cortava. Agarrava-me àquele ritual como a um filme de suspense. Primeiro sentava-me a um canto, como ela, a minha avó, me instruía, para não apanhar sol, mas a impaciência e a curiosidade pelo detalhe faziam-me aproximar e dava por mim quase ao colo do meu avô, o dócil avô de poucas palavras, ali mais parado do que nunca, pernas cruzadas, boca fechada até para o cigarro sempre a queimar. À volta tudo era sereno. Os gatos deitavam-se e o silêncio tomava conta do cenário com o meu avô ao centro, sem pestanejar.
Então, o creme da taça era-lhe passado no rosto e transformava-o num homem de cara branca e lábios cor-de-rosa, como um palhaço triste. Era o que me parecia.

O meu avô perdia a identidade por uns tempos até a lâmina a devolver, cada vez mais limpa em cada passagem pelo queixo, pelo pescoço, pelas maças do rosto. Ninguém olhava para mim. A minha avó concentrava-se no gesto, o meu avô entregava-se ao prazer de ser cuidado e a um ensimesmar tão dele que ninguém sabia. E por cada passagem da navalha, o limpar da espuma na toalha, os dedos a dirigirem a cabeça na direcção certa, o corte sempre, sempre ameaçador que nunca acontecia, que nunca vi acontecer. Eu ficava entre o encantamento e a aflição. Onde aprendera ela a fazer a barba sem cortes? Nunca perguntei e ela nunca me contou. Ele entregava-se. Ela cuidava. Foi sempre assim.

saiu-me a lotaria

A bandeira é a do cartão verde para a emigração num país de sucesso.

– Sabe quantos milhões de candidatos temos por ano para entrar nos EUA?”
– Pois.
– Muitos. Da China, Índia, Brasil, Inglaterra, mas este ano estamos a dar preferência a portugueses e a pessoas com elevado grau de qualificações como é o seu caso.”
A conversa corre solta. Houve um email que foi enviado e um contra-relógio para uma oportunidade que se podia perder. Como não houve resposta houve telefonema. Um telefonema que tentava confirmar informações e dizer que estavam reunidas todas as condições para receber um green card por quatro anos. Para isso só tinha de pagar 650 dólares, assim ditos como quem tosse um número, e no segundo seguinte já perguntava o nome completo, se usava mais visa ou mastercard…?
Quando disse a profissão houve um pequeno silêncio quase imperceptível, mas a conversa prosseguiu, com a voz do outro lado a sublinhar todas as vantagens de trabalhar e coleccionar conhecimentos nos EUA.
– Anote a password. Vai ser contactada pela embaixada dos EUA em Lisboa para um teste de inglês, ‘business level’. Já agora o número do cartão de crédito e o código.
– Para quê?
– Pagamento.
– De quê?
– Dos nossos serviços?
– Que serviços, o cartão verde?
– Não, não damos o cartão verde, apenas damos apoio.
– A quê?
– A todos os problemas que possam ocorrer durante o processo.
– Mas não fui sorteada?
– Sim, para ter os nossos serviços que lhe dão melhor acesso a esse cartão. Já agora o código…
– Não pode ligar mais tarde?
– Para quê?”
– Porque sim.
– E vai perder esta oportunidade?
– Ai vou?!
– Espere que vou chamar a minha gerente.
E ela veio, falinhas mansas, simpatia a jorros, piadas sobre fraudes e a tirada de que não brincam em serviço e que isso dá cadeia nos EUA.
– Pois.
– Então, vai dar-me o código e ter os nossos serviços?
– Que serviços?
– Ser nossa cliente.
– Para quê?
Do outro lado a mulher impacientava-se, insistia. Tinha eu um computador à frente? Não, menti.
– Quando vai ter?
– Não sei, mais tarde. Não posso pagar na embaixada”, atirei.
– Não, eles só a vão chamar para um exame de inglês.
– Pois.
– Quer que ligue mais tarde, quando tiver um computador à frente? Se não tiver o dinheiro no banco nós facilitamos…
Silêncio.
– Permite-me que ligue mais tarde?
– Ok.
Desliguei o telefone, liguei para a embaixada dos EUA em Lisboa que já tinha os serviços fechados, mas havia alguém para urgências. Nunca tinha ouvido falar da USAFIS, assim se chama esta organização que se anuncia como promotora de uma espécie de lotaria de cartões verdes. Está on-line, com o site usafis.org. Facilita cartões verdes a troco de umas centenas de dólares, mas não garante. É um jogo que muitos estão dispostos a jogar e onde Portugal parece estar bem cotado, ou seja, com boas entradas.
Fui ver e não faltavam avisos sobre uma fraude com este nome usafis. Não é de agora. Tem a idade da massificação da internet. Porque é que ainda existem, pergunto eu, assim de repente?

inimigos íntimos

A edição espanhola da revista Esquire de Maio traz um especial a que chamou “inimigos íntimos”. Na capa está um Gabriel García Márquez jovem, de olho negro, resultado de um soco histórico que levou do seu amigo íntimo, o também escritor Mario Vargas Llosa. Os dois Nobel da Literatura eram inseparáveis até aquele dia, num cineclube da cidade do México. Recordei a história dessa zanga a propósito da edição comemorativa do livro “Cem Anos de Solidão”, em Janeiro de 2007, e agora recupero-a a propósito deste artigo onde a foto conta mais que as palavras. Outros inimizades íntimas ali recordadas: Ronald Reagan vs Mijaíl Gorbachov; Paul Simon vs Art Garfunkel; Fidel Castro vs Che Guevara; John McEnroe vs Bjorn Borg; Noel vs Liam Gallagher

Tão amigos que afinal eles não voltaram a ser

A história veio na edição de quarta-feira, dia 10, do jornal britânico The Guardian. Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa iriam estar juntos, num só livro – uma edição comemorativa dos 40 anos do romance Cem Anos de Solidão a sair no próximo mês de Março. O título falava em “sinais de degelo” numa “contenda” com três décadas. Era o anúncio do fim de uma zanga mítica que terminou com aquela que foi apelidada a mais famosa das amizades da literatura.
Segundo o jornal, o peruano Mario Vargas Llosa assinaria o prólogo de uma edição especial do mais famoso romance do colombiano Gabriel García Márquez. E citava um porta-voz da Real Academia Espanhola – entidade que irá publicar a edição – segundo o qual os dois escritores tinham chegado a acordo sobre o assunto. Um acordo alcançado apesar de ambos não se falarem desde o dia em que Llosa deu um soco a Márquez num cinema na cidade do México.
A introdução seria um excerto de História de um Deicídio, livro elogioso que Vargas Llosa escreveu em 1971 e que tinha por tema o seu então amigo. O mesmo que Llosa impediu de ser reeditado após a zanga, em 1976, e que se transformaria em raridade literária com preços a atingir os 500 euros. No ano passado, Llosa surpreendeu ao incluir o título nas suas obras completas (Alfaguara) e explicou as razões numa entrevista publicada na edição de 6/10 do suplemento 6ª(ver excerto na pág. 37).
A notícia desta suposta edição conjunta apanhou de surpresa Plínio Apuleyo de Mendonça, embaixador da Colômbia em Portugal, amigo pessoal dos dois escritores zangados e autor do livro O Aroma da Goiaba (uma conversa com García Márquez publicada em 2005 pela Dom Quixote). “Não pode ser, é impossível. Eu saberia disso se fosse verdade”, declarou ao DN o homem a quem Gabo – diminutivo pelo qual o autor de Cem Anos de Solidão é conhecido entre os mais próximos – chama de a sua “memória”. A novidade que Plínio Apuleyo tinha para revelar era outra. García Márquez acabava de lhe comunicar a decisão de avançar com a escrita do segundo volume de memórias Viver para Contá-la (o primeiro foi editado em 2002) para o qual conta com a colaboração do embaixador e amigo pessoal, por se tratar de um período da vida que ambos partilharam e que inclui precisamante o momento da zanga com Vargas Llosa.
O 2.º volume de memórias
A decisão foi tomada após alguma resistência do escritor, que chegou mesmo a ponderar não continuar as memórias. E especulou-se que um dos motivos era a necessidade de revelar as razões de uma zanga que permanece um mistério. Foi a 12 de Fevereiro de 1976. Num cinema na cidade do México, após a exibição de um filme que não ficaria para a História – Sobreviventes dos Andes, de René Cardona – Mario Vargas Llosa agrediu Gabriel García Márquez depois deste o tentar abraçar. As razões da agressão nunca foram divulgadas, nem pelo peruano nem pelo colombiano. Falou-se de motivos sentimentais, falou-se de divergências políticas que o futuro viria a vincar. O colombiano sempre se manteve próximo de Fidel Castro, enquanto Llosa seria alguns anos mais tarde candidato de direita à presidência do Peru. Os jornais publicaram a frase que acompanhou o soco, dita por Llosa: “Como te atreves a abraçar- -me depois do que fizeste a Patrícia em Barcelona?”
Era o culminar de oito anos de tertúlias literárias, de partilha de ideias sobre o papel da literatura latino-americana, de viagens em conjunto, do projecto de escrever um romance a quatro mãos. Uma amizade tão forte que Márquez é padrinho do filho de Llosa.
Amigo de um e de outro, Plínio Apuleyo de Mendonza acompanhou o silêncio entre ambos durante os últimos 30 anos e estranhou, por isso, o inusitado fim da zanga. Após consultar a agente literária de García Márquez e de Vargas Llosa – que acontece ser a mesma – e de falar com o “amigo Gabo”, disse ao DN tratar-se da “invenção de um jornalista de Barcelona”.
A verdade da história é que a Real Academia Espanhola vai de facto editar uma edição comemorativa de Cem Anos de Solidão e um volume que reúne textos de vários escritores sobre o mais famoso dos livros de García Márquez. Entre eles está Mario Vargas Llosa. “Nada mais”, declarou o embaixador, que acrescentou ainda que “Gabo está a ser questionado por jornalistas de todo o mundo que querem saber o que se passa. Uma confusão. De tal maneira, que me confessou: ‘Estou tão irritado com isto que tenho vontade de falar com Llosa e fazer as pazes'”.
E o que pode haver de verdade nessa frase, dita, como afirmou Plinio Apuleyo , “em desespero”? O embaixador arrisca uma resposta: “Gabo gosta muito de brincar.”

artigo publicado no DN, a 12 de Janeiro de 2007

Azul com nuvens

O homem saiu do hotel de calções e escorregou ao por o pé na chuva. Lisboa estava vazia naquele domingo de manhã. O céu de fundo azul tinha todas as tonalidades de cinza e a água caia quando queria surpreendendo quem olha apenas em frente quando quer saber do tempo, distraído sobre a importância de olhar para cima.

A manhã era nova mas já vira muito. O mendigo encolhia-se cada no vão de escadas da Rodrigo da Fonseca sem se emocionar com o cheiro a terra molhada que fizera um casal aos beijos demorar-se na varanda.

Ao som dos Tindersticks na Radar, a voz de Stuart Staples em “Slippin’ Shoes”, um carro avança na estrada e aquele melancolia tem tudo a ver. A música sabe como tirar as palavras a quem tem muito para dizer e resumir tudo num olhar.

Lá em cima, os aviões já voam sem saber que cá em baixo há um homem novo que segura uma criança no colo enquanto a outra se lhe agarra às calças. Uma mulher olha. Fortaleza que controla emoções. O homem tem os olhos a brilhar, as crianças o riso de quem ainda não sabe. Está assim o aeroporto, cheio dos novos emigrantes portugueses. Homens que vão sozinhos escondendo a vergonha e o embaraço de quem não sabia destas lágrimas. Ele é um desses, camisa de ganga fora das calças, emoções engolidas em seco. Só se desmancha quando dá um beijo na mulher. Despedida de mãos vazias. A mala já foi. Tem bilhete de ida e perde na fila da segurança.

Há mais como ele. Histórias que imagino esquecendo-me da minha e fingindo-me repórter num sítio onde não sou. E o carro corre devagar pelas ruas desertas. Sabia bem café com leite e torradas. Talvez um ramo de flores frescas. Há um avião que sobe e emudece o som da rádio.

o João

Estou a despedir-me dele e talvez por isso lhe sorria mais. Ele retribui com um aceno e um semicerrar dos olhos ainda muito azuis. Tem ar de rufia, do menino bonito que foi. Cabelo louro, ainda aos caracóis que corta quando o dinheiro sobra ou um vizinho manda. É o anjo da rua, guarda que lá mora, sabe de quem chega, desconfia dos estranhos, finge ignorar quem passa com a pose de um snob que nunca perde a não ser quando cumprimenta o doutor que vai beber sumo de laranja à pastelaria da esquina com a mulher, uma loira sabe-se lá há quanto tempo, pelo na gola do casaco.
O João vive numa das caves e tem as chaves de quase todos os prédios. Entra neles como em casa. Por uns trocos, leva e traz os caixotes do lixo, quase sempre de mini na mão e cigarro na boca, a franzir o sobrolho, mangas da camisa polo RL arregaçadas, um malandro com a malandragem dos sobreviventes. “Menina, quer ajuda?” Para os sacos, para arrumar o carro, para o que for que ele está ali é para isso.
Ainda há pouco lhe conquistei a simpatia e já me estou a despedir dele, do João dos olhos azuis, gingão como só os alfacinhas. Magro, seco. Ali não há droga. Há ilusões que se foram e que o álcool ajuda a esquecer entre gente boa que por vezes se esquece que o é e trata o João como um empregado. Ele deixa. O doutor que se afaste e vai ver a praga. Eu sei, já ouvi. Mas ele sabe viver. Quem foi bonito não perde o jeito. Há qualquer coisa de confiante que fica ainda que quase tudo se vá.
Não lhe vou dizer que vou embora. Vou sorrir mais nesse dia. Talvez ele pergunte se notar o movimento, mas vou escapulir-me. Quero que ele continue a olhar para a minha janela como quem guarda e se interrogue acerca do dia em que irei regressar. E para onde for vou imaginar o João a guardar-me, com uma mini na mão.

Escuto Nocturno

As pedras estão molhadas pela cacimba de uma noite quente. Há um candeeiro a projectar sombras, a sublinhar um efeito de água que é pouco mais do que o brilho do alcatrão da estrada. O silêncio tomou conta da cidade, mesmo quando já é dia. Sassetti morreu. Não é fácil repetir a frase até a assimilar, tomar-lhe o sentido brutal. Ouço “Nocturno” apesar do sol, do bafo quente quando abro a janela. Penso no riso dele, nos olhos dele quando fixavam o piano e o piano era tudo, ainda nas mãos dele ontem, quando ouvi dizer que morreu sem ouvir no ecrã da televisão de um restaurante. Havia demasiado barulho, mas a notícia estava escrita no telejornal. Bernardo Sassetti morreu aos 41 anos. Li aquilo enquanto lhe via as mãos, adivinhando um som.

A morte enquanto impossibilidade e logo real. O embate. E a música dele que tantas vezes me acompanhou lágrimas, sorrisos. Que levei, que guardo. E as palavras, as primeiras que lhe ouvi já lá vão anos numa entrevista de rádio. As palavras depois do nome, depois da música.

Anos depois tomámos café numa casa de chá ao Carmo. Ouvi-lhe projectos com o entusiasmo dos inquietos, os que querem sempre fazer e para os quais a vida nunca tem tamanho que chegue. Nem que vivesse cem anos Sassetti conseguiria fazer tudo. Viveu 41. E é impossível não escutar no silêncio da sua música genial toda a possibilidade do génio que não chegou a acontecer por falta de tempo. E foi tanto o que aconteceu.

Escuto Nocturno enquanto o sol entra pela casa.

Mais livros

Ontem fui à feira. Um amigo ia tocar guitarra clássica com os alunos e prometi que iria sem voltar carregada de livros. Cheguei à Praça Leya depois de ter passado por quatro ou cinco barraquinhas do outro lado do parque, o direito, quando se desce. Faziam-se horas do pequeno concerto e acelerei o passo até lá.

Entre conversas e champanhe, fiquei a saber, para espanto meu, que apesar da chuva, da crise, este ano as vendas por ali cresceram 40 por cento face ao ano anterior em que as temperaturas andaram muito mais altas. Repeti o número só para me certificar que tinha ouvido bem. Sim, 40 por cento e varias pessoas ao lado, editores, livreiros, a concordarem. O livro parece ser um refúgio em tempos de crise e houve quem se estivesse a guardar para a feira. Não é que a edição esteja a viver os seus melhores dias, longe disso, mas há um alegria nos olhos de muitos editores que esperavam que as quebras fossem além dos onze por então que até agora se registam desde que o ano negro de 2012 começou.

A crise chega a todos mas não afecta todos da mesma maneira. Um livro leva tempo a ler e é preciso matar o tempo mesmo em tempo de crise, viajar com ele mesmo quando as viagens de avião se tornam proibitivas. O entretenimento e casa está em alta quando o da rua fica caro. Ninguém paga 23% de IVA por ficar em casa em vez de ir jantar fora. e há cada vez mais reuniões de amigos para falar de livros. Não é o paraíso por aqui, mas também ainda não é o inferno.

Tantas histórias para contar

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Escolheu aquela livraria porque tinha mesas como as de café e se podia beber qualquer coisa além de água. E tinha de ser à tarde, mas não tão tarde que o seu fim de tarde, como todos os seus fins de tarde, estavam reservados para o Gambrinus, o sítio de há muito tempo onde se demorava nos cigarros, nas conversas, nas bebidas.

Chegou de casaco de bombazina cor de mel e aquele rosto sempre de sorriso desenhado de bonomia, mas era a voz que eu fixava atrás do olhar curioso, de cineasta, lembro-me de ter pensado. Ele pertencia áquele grupo de pessoas que me intimidava, à cabeça das quais eu colocava José Cardoso Pires. Acho que era a pose de uma sabedoria sincera, feita de experiência, de rua, onde entravam longas conversas, discussões, livros e um tipo de boémia que parecia estar em declínio. Íamos falar de livros. Gostos, manias, leituras, casas de venda e consulta de livros, viagens com livros, os de estima e aqueles que depois de muito tempo perderam a glória e se escondem em prateleiras cheias, atrás de outros. Quis saber de mim e eu com quase nada para dizer, enquanto brincava com um cigarro. Não recordo se se podia fumar ali. Foi há muito tempo e talvez sim porque acho que o vejo também de cigarro na boca a dizer poemas de cor. Voz rouca, lenta, um grandioso pano de fundo para as histórias que lhe saiam. Tantas. Grande contador de histórias, quem dera aos ecrãs que as pudesse filmar a todas.

Quando se levantou foi para procurar um livro. Não me disse qual e apareceu com um volume de poemas de W.H. Auden. Abriu numa página ao calhas e começou a ler aquele poeta que nunca mais esqueci e que conheci ali, de que aprendi a gostar ali. Quem bem que a poesia de Auden soava na voz de Fernando Lopes.
A conversa só acabou quando chegou a hora de ele ir até ao Rossio. Apanhamos o metro em Entrecampos e na carruagem as histórias continuaram a sair daqueles olhos risonhos.
Foi depois “Belarminho”, da adaptação de “Uma Abelha na Chuva”, de Carlos de Oliveira, e antes de “O Delfim”, aquele que eu elegeria o melhor filme de Fernando Lopes. Não sei se pelo facto de ser a adaptação de outro grande livro de José Cardoso Pires, se pela sugestão daquela conversa antes tida com o realizador.
Naquele dia ele saiu no Rossio, directo para o Gambrinus.

Voltámos a falar quando estreou “O Delfim”. Mas tínhamos antes falado dele. Em casa, quando fui falar com Maria João Seixas, a mulher. Ele segredou que já escolhera o elenco, que seria uma surpresa enorme. Pediu segredo. Guardei.

A última vez que o vi foi quando entrou no metro, na estação de Roma, a mais próxima de sua casa. Eu vinha a ler e ele sentou-se ao meu lado sem olhar para mim. Vinha de olho no jornal, com o mesmo casaco cor de mel, e seguia para o Rossio. Antes de sair, olhou para o lado e viu-me: “Tá boa?Então não me disse que estava aqui?” Tinha mais umas histórias para me contar, avisou.