saiu-me a lotaria

A bandeira é a do cartão verde para a emigração num país de sucesso.

– Sabe quantos milhões de candidatos temos por ano para entrar nos EUA?”
– Pois.
– Muitos. Da China, Índia, Brasil, Inglaterra, mas este ano estamos a dar preferência a portugueses e a pessoas com elevado grau de qualificações como é o seu caso.”
A conversa corre solta. Houve um email que foi enviado e um contra-relógio para uma oportunidade que se podia perder. Como não houve resposta houve telefonema. Um telefonema que tentava confirmar informações e dizer que estavam reunidas todas as condições para receber um green card por quatro anos. Para isso só tinha de pagar 650 dólares, assim ditos como quem tosse um número, e no segundo seguinte já perguntava o nome completo, se usava mais visa ou mastercard…?
Quando disse a profissão houve um pequeno silêncio quase imperceptível, mas a conversa prosseguiu, com a voz do outro lado a sublinhar todas as vantagens de trabalhar e coleccionar conhecimentos nos EUA.
– Anote a password. Vai ser contactada pela embaixada dos EUA em Lisboa para um teste de inglês, ‘business level’. Já agora o número do cartão de crédito e o código.
– Para quê?
– Pagamento.
– De quê?
– Dos nossos serviços?
– Que serviços, o cartão verde?
– Não, não damos o cartão verde, apenas damos apoio.
– A quê?
– A todos os problemas que possam ocorrer durante o processo.
– Mas não fui sorteada?
– Sim, para ter os nossos serviços que lhe dão melhor acesso a esse cartão. Já agora o código…
– Não pode ligar mais tarde?
– Para quê?”
– Porque sim.
– E vai perder esta oportunidade?
– Ai vou?!
– Espere que vou chamar a minha gerente.
E ela veio, falinhas mansas, simpatia a jorros, piadas sobre fraudes e a tirada de que não brincam em serviço e que isso dá cadeia nos EUA.
– Pois.
– Então, vai dar-me o código e ter os nossos serviços?
– Que serviços?
– Ser nossa cliente.
– Para quê?
Do outro lado a mulher impacientava-se, insistia. Tinha eu um computador à frente? Não, menti.
– Quando vai ter?
– Não sei, mais tarde. Não posso pagar na embaixada”, atirei.
– Não, eles só a vão chamar para um exame de inglês.
– Pois.
– Quer que ligue mais tarde, quando tiver um computador à frente? Se não tiver o dinheiro no banco nós facilitamos…
Silêncio.
– Permite-me que ligue mais tarde?
– Ok.
Desliguei o telefone, liguei para a embaixada dos EUA em Lisboa que já tinha os serviços fechados, mas havia alguém para urgências. Nunca tinha ouvido falar da USAFIS, assim se chama esta organização que se anuncia como promotora de uma espécie de lotaria de cartões verdes. Está on-line, com o site usafis.org. Facilita cartões verdes a troco de umas centenas de dólares, mas não garante. É um jogo que muitos estão dispostos a jogar e onde Portugal parece estar bem cotado, ou seja, com boas entradas.
Fui ver e não faltavam avisos sobre uma fraude com este nome usafis. Não é de agora. Tem a idade da massificação da internet. Porque é que ainda existem, pergunto eu, assim de repente?

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