no fio da navalha

A lâmina passava na pele e eu ficava suspensa no movimento. Era certeiro. Sem falhas nem hesitações, mão esquerda firme a segurar-lhe o pescoço e a outra a deslizar suave no rosto, ela fazia-lhe a barba. Se estivesse sol era no pátio, ao pé das rosas, do jasmim, à sombra das telhas onde crescia arroz de jardim, rasteiro, florido. Ele sentava-se num banco e ficava quieto, obediente às instruções que eram sempre as mesmas, havia anos, mas que nem assim deixavam de ser repetidas e acatadas como da primeira vez.

Com uma toalha ao ombro, que contrastava com o luto eterno de três filhos perdidos, ela colocava-se atrás, bacia de esmalte branco com água ao lado. Ounha-lhe outra toalha brança à volta do pescoço e desfazia o conteúdo de uma bisnaga, também branca, numa taça de porcelana. Um pincel e muita prática faziam o resto. Verificava se a navalha estava bem afiada fazendo passar o fio pela pele dos seus dedos e eu não sabia onde ela ia buscar mãos para tudo, nem como não se cortava. Agarrava-me àquele ritual como a um filme de suspense. Primeiro sentava-me a um canto, como ela, a minha avó, me instruía, para não apanhar sol, mas a impaciência e a curiosidade pelo detalhe faziam-me aproximar e dava por mim quase ao colo do meu avô, o dócil avô de poucas palavras, ali mais parado do que nunca, pernas cruzadas, boca fechada até para o cigarro sempre a queimar. À volta tudo era sereno. Os gatos deitavam-se e o silêncio tomava conta do cenário com o meu avô ao centro, sem pestanejar.
Então, o creme da taça era-lhe passado no rosto e transformava-o num homem de cara branca e lábios cor-de-rosa, como um palhaço triste. Era o que me parecia.

O meu avô perdia a identidade por uns tempos até a lâmina a devolver, cada vez mais limpa em cada passagem pelo queixo, pelo pescoço, pelas maças do rosto. Ninguém olhava para mim. A minha avó concentrava-se no gesto, o meu avô entregava-se ao prazer de ser cuidado e a um ensimesmar tão dele que ninguém sabia. E por cada passagem da navalha, o limpar da espuma na toalha, os dedos a dirigirem a cabeça na direcção certa, o corte sempre, sempre ameaçador que nunca acontecia, que nunca vi acontecer. Eu ficava entre o encantamento e a aflição. Onde aprendera ela a fazer a barba sem cortes? Nunca perguntei e ela nunca me contou. Ele entregava-se. Ela cuidava. Foi sempre assim.

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