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Os remorsos de Urbano

26 de Agosto de 2007, Urbano Tavares Rodrigues surge-me sentado numa cadeira, a uma janela de Lisboa, a brincar com o seu filho António. Estava a recuperar de um susto cardíaco. Não sabia se iria continuar a escrever. A vida provou que sim e António já deve saber ler a escrita do pai. Fica a entrevista que então publiquei, resultado de uma conversa sobre memórias.

Sempre fui um predador

Vai sair em Outubro um romance seu sobre D. António, prior do Crato, um homem que foi rei dois dias e lutou para manter a coroa portuguesa independente de Castela. O livro sai pouco depois de outro escritor, seu camarada de partido, o PCP, ter declarado que Portugal e Espanha vão ser, mais cedo ou mais tarde, um único país. Partilha esta ideia com José Saramago? 
Não. Não concordo de maneira nenhuma. Há muito que o meu herói era o prior do Crato e também tenho simpatia por Aljubarrota. Tenho um grande apreço pela cultura espanhola, mas não aceito a invasão espanhola. Não aceito ver Portugal transformado numa região de Espanha.

Em Ao Contrário das Ondas (Dom Quixote, 2006)traça um retrato negro do País. O que pensa do momento que Portugal atravessa actualmente?
Olho para Portugal com tristeza. O capitalismo neoliberal está a ser aplicado com características autoritárias pelo Governo que se diz socialista e que não tem nada uma política socialista. Tudo isso me entristece profundamente.

Este ano comemoram-se os 80 anos da Revolução Russa. Que sentido faz ser comunista hoje?
Ser comunista é, antes de mais, apreciar e admirar a atitude do Partido Comunista, a que pertenço em Portugal: defender os direitos dos trabalhadores até ao limite do possível. Essa é a missão de um partido comunista neste momento.

Continua a definir-se como um comunista?
Sim, continuo a definir-me como um homem comunista, mas não sei o que o futuro me reserva, que tipo de democracias haverá. O capitalismo neoliberal irá explodir, porque cada vez há mais bolsas de miséria, formas diversas de escravatura e há pessoas de direita que começam a sentir, com um desejo reformista, que isto possa transformar-se…

No seu entender, em quê?
Pois, não é a minha ideia. Mas não é possível fazer voltar a social-democracia.

E é possível fazer regressar o comunismo?
O comunismo da União Soviética nunca mais regressará.

Que comunismo então?
Terá de ser qualquer coisa nova. Não sou futurólogo, mas penso que haverá caminhos diversos, consoante os continentes, as condições e a vontade dos próprios povos; consoante as suas experiências. Quando falo em democracias, não falo em falsas democracias, como acho que neste momento é a nossa, mas numa democracia, por exemplo, como a que foi praticada em Porto Alegre quando houve a união do PT e do Partido Comunista dos Trabalhadores. Era uma experiência nova de democracia socialista.

É um modelo, para si?
Foi uma hipótese. Há muitas hipóteses. Não sei como vão surgir. Mas penso absolutamente que vão surgir. Há muito descontentamento.

A sua obra literária foi prejudicada pelo facto de sempre ter manifestado abertamente a sua ideologia, de ser um comunista?
Sim. Durante muito tempo o meu nome foi afastado dos meios de comunicação, até que a idade, o prestígio, o facto de nós deixarmos de ser perigosos… Tudo isso fez com que me dessem atenção.

Já não é um homem perigoso?
Os comunistas não são considerados, neste momento, homens perigosos.
Apesar da luta política, sempre disse que o amor foi o seu grande tema…
De facto. Os meus grandes temas foram o amor, a morte e o tempo.

Como é que o homem Urbano Tavares Rodrigues lida com cada um desses temas?
O tempo é o grande inimigo. Corrompe os sentimentos, degrada-os, especialmente o amor. O tempo faz apodrecer o amor. Mas o tempo também traz sabedoria, um conhecimento cada vez mais aprofundado dos seres humanos e das té-cnicas literárias, das formas de contar, o virtuosismo da narração.

E a relação com a morte, ou com o tempo que dura a vida?
Estamos sempre morrendo, mas, a certa altura, há uma revolta contra essa sombra… Normalmente na adolescência, quando a existência parece prometer-nos tudo. O Albert Camus dá muito bem isso na obra dele; esse sentimento de que a vida nos promete tudo e o que nos dá realmente é a condenação à morte.

Depois, há uma aceitação progressiva e que leva a olhar a morte com serenidade.
Tem medo de não ter tempo para fazer tudo o que lhe apetece, ou isso não o angustia?

Não me angustia, embora gostasse de deixar cá fora mais coisas. O que me angustia mais é deixar a minha mulher e os meus filhos, que precisam de mim. Tanto o António Urbano como a Isabel precisam do apoio material que lhes dou.

Para já, vai sair com um novo romance sobre o seu herói, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato. O que tem este homem de tão especial para lhe chamar herói?
Um patriota que num país vendido a Castela levanta um exército popular, pega no que resta da cavalaria de Alcácer Quibir, um exército vestido e armado à pressa que, mesmo assim, obriga os castelhanos a recuar. Mais tarde, a força numérica impõe-se e é uma derrota. Ele é um homem de múltiplas dimensões. É uma figura apaixonante. E este é o meu romance de que mais gosto. O prior do Crato é um homem erótico que teve muitas mulheres, dez filhos. É um homem religioso, que mantém sempre um diálogo com Deus, embora aos 16 anos ele tenha recusado as ordens de castidade. É também um intelectual. Fui escrevendo, escrevendo e vi surgir ali a História de Portugal, até a história da Europa, e vendo aparecer esta figura fantástica em todas as dimensões. Ele é o patriota puro, que se opõe à traição e que é ferido por um português traidor. É um homem também religioso no sentido da paixão quase panteística pela terra. Quanto terminei e reli as provas achei que tinha conseguido escrever um grande romance e um romance em que, neste momento em que há novamente uma invasão de Castela, sobretudo económica .

Acha que há paralelismo entre os dois momentos da História?
É evidente. Portugal está numa decadência extrema. Perdemos o orgulho, o sentimento patriótico. O prior do Crato levanta tudo isso.

Revê-se nesse homem?
O meu irmão Miguel [Urbano Rodrigues], quando leu o livro, disse-me: “Este é um grande livro, mas este prior do Crato tem muito de Urbano Tavares Rodrigues.”

Porquê?
Tive sempre qualquer coisa de cavaleiro andante, desde a adolescência. Antes de tomar o rumo, de querer transformar o mundo e transformar a vida e pôr a minha acção ao serviço disso, tive quase o amor do risco pelo risco. Era um homem de aventura em todos os sentidos, do acto gratuito, quase quixotesco. Há muita coisa que conduz ao grande perdedor.

Considera-se um grande perdedor?
Eu fui um grande perdedor. Em muitas coisas. Fui preso, fui torturado…

É como perdedor que se vê hoje?
(Silêncio) Sou alguém com uma obra que fica depois de mim.

Falava dos remorsos que o prior do Crato teve em relação a certas mulheres. Esse remorso também existe em si?
Sim. Sim. A minha relação com o sexo feminino limita-se hoje à milha mulher (risos). Mas eu olho e olhei sempre com encantamento para a mulher. A mulher como amiga, como namorada, como amante. A mulher foi sempre, para mim, uma forma de compreender melhor o mundo, de ir às raízes da vida. A experiência da mulher é, para mim, uma experiência erótica ou foi muito uma experiência erótica, mas algumas vezes pensei que estava a usar mulheres um pouco como instrumentos.

Instrumentos de quê?
A sugar tudo o que elas me podiam trazer de compreensão mais ampla do mundo.

Foi egoísta?
Sim, fui e acusei-me disso a mim próprio. Mas, por outro lado, desculpava-me. Era a altura do make love not war. Havia uma grande liberdade e nem sempre era eu que me aproximava das mulheres. Eram elas que se aproximavam de mim também.

E era difícil resistir?
Era. (risos)

Lembra-se de todas as mulheres que passaram pela sua vida?
Não, não me lembro. (Silêncio) Às vezes penso nisso. É a memória. Não me lembro de coisas muito fugazes. Às mais importantes, com quem tive um envolvimento afectivo e erótico, não se pode fugir. Nem com a memória. |

Os últimos dois anos foram especialmente ricos para si. Traduziu Decameron, escreveu um romance, lançou as suas obras completas, teve um filho e vem aí outro romance…
Exacto, mas em relação ao filho passamos ao de cima que não gosto de sensacionalismo. Isso é uma coisa que atrai muito as revistas de moda… Mas adoro o menino. É um encantamento.

É verdade que já quase não sai de casa?
Por causa destes andares. São dois, quase três.

Nem para férias?
Pensei nisso por causa deles. Tinha pensado ir para o pé do mar…

Nadava todos os dias…
Sim, gostava imenso de nadar, mas agora não posso por causa da insuficiência cardíaca que me detectaram. Nadei toda a vida.

O que planeia ainda escrever?
Tenho um livro de contos pronto. Não sei quando será publicado. Chama-se A Última Colina e uma coisa que se chama O Cornetim Encarnado, onde tenho reflexões, bocados de diário, poemas, pequenos contos, memórias até. Está para aí.

Não vai publicar?
Não sei.

O que ocupa mais espaço nessas memórias?
O lembrar-me… Por exemplo, uma evocação dos meus encontros com Vinícius de Moraes. Eu era professor na Sorbonne, muito jovem, e encarregado de curso, e o Vinícius era secretário da embaixada. Comecei a falar com ele numa festa de Carnaval em que ele esteve a tocar violão. Lembro-me de amigos que tive e evoluíram diferentemente na vida e foram figuras marcantes na minha obra. Estão no princípio e, quem souber ler, vê que continuam lá. Albert Camus, Jean-Paul Sartre, André Malraux. Fui amigo do Camus, conheci um pouco Sartre, dei-me com ele, estivemos juntos num congresso para a liberdade da cultura em Florença. Com o Malraux dei-me pouco mas é como se me tivesse dado sempre. Livros como A Esperança ou A Condição Humana marcaram para sempre a minha personalidade e a minha obra

O que lê, agora?
Continuo a ler muito. Li recentemente um livro muito interessante que recomendo, do Santiago Gamboa, A Síndrome de Ulisses

A sua escrita tem um sítio…
O Alentejo, Lisboa, Paris…

Mantém uma rotina diária de escrita?
Não consigo. Escrevo de vez em quando num caderno.

Escreve nesta secretária?
Muitas vezes. Mas não tenho sítio fixo. Quando a luz é boa venho para aqui, outras vezes escrevo lá dentro… Temos um living e tenho lá o meu cantinho com o candeeiro.

É um homem de hábitos?
Nunca fui um homem de hábitos. Agora tenho alguns. Deve ser por estar em casa.

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santa gula

Se há um motivo. Ter crescido na cozinha com várias mulheres que faziam da cozinha a sua vida. A comida era o centro de tudo, até o meu centro, pelas piores razões. Aos três anos uma hepatite exilou-me em paladares que eu rejeitava quase sensorialmente e faziam-me fugir do prato. A consequência imediata foi a de estimular a criatividade da minha mãe que inventava mil maneiras para me seduzir com a dieta médica. Quase consigo ver o meu ar enfastiado a comer um puré de cenoura enquanto os outros, os crescidos, se debruçavam sobre um arroz de peito feito pela minha avó. Era um prato que se confeccionava pela matança do bicho, preparado a partir da carne mais tenra e suculenta do peito do porco, um arroz muito malandro temperado a cravinho e hortelã, que se comia com colher e cheirava a jardim. Branco, com lascas de carne desfiada, e um ramo de verde. Salivava de olhar para eles enquanto era acusada de não gostar de comer. Não gostava da minha comida, isso sim, e adivinhava naquela o prazer que via em toda a expressão dos que tinha a sorte de a poder comer sem hepatites.

Era magra, niquenta, como me chamavam, e tinha na minha avó, beata, mas de uma bondade extrema, a cumplicidade na satisfação pontual do pecado da minha gula. Deixava-me ir à talha das azeitonas e tirar um punhado delas que eu saboreava como se nunca mais fosse comer uma azeitona; provava uma fatia transparente de toucinho retirado do lombo do porco mais gordo que acompanhava com uma fatia bem robusta do pão que ela amassava e cozia no forno.

A metafísica dos chocolates dizia-me pouco. Eu queria a comida que via fazer com demora, esmero, pôr a mão na massa dos rissóis que se recheavam de um creme feito de pescada que eu ajudava a desfiar; na massa dos bolos que pediam descanso para crescer, espécie de milagre a que queria assistir, levantando o pano de linho que a cobria durante algumas horas, como quem quer ver uma flor a abrir. Espreitava com o medo de violar uma intimidade.

Não gostava muito do soco na nuca do coelho, confesso, mas a partir do momento em que ele morria, ia-se a piedade e voluntariava-me para o ajudar na esfola. Não via a faca a passar pelo pescoço da galinha, mas gostava de olhar o sangue a escorrer para a taça de onde haveria de sair uma cabidela. A minha avó abria a ave e tirava-lhe pedaços de gordura amarela, a que chamava enxúdias, e que usava para temperar arrozes, enriquecer guisados e assados de carne. Dividia-a em pequenas porções e guardava-as do frigorífico. Eu ia-me deliciando com as canjas com ovos pequeninos, moelas cortadas e patas a que roía a cartilagem com toda a demora de quem não pensa no tempo. Niquenta, continuava a ouvir por causa do pouco despacho. Mas elas, as avós, as tias velhas, gostavam de me ver comer como quem debica e gostavam de me ter a ajudar. A perguntar como se fazia o queijo enquanto via a Tia Lucinda espremer as tetas das vacas. Era esse leite que eu bebia em casa. A minha mãe pedia-me para tomar conta enquanto fervia, e eu ficava vigilante e feliz com a responsabilidade que me era dada; uma mão no botão do fogão, a outra a deixar o branco chegar até ao cimo do fervedouro para só então apagar o lume, no limite de entornar. E quando entornava, a nata queimada tinha o mesmo cheiro do ferro a queimar o leite creme. Depois era esperar que arrefecesse, pegar numa colher de chá, e para a nata agarrada ao alumínio. Como eu gostava daquela gordura amarela que comia como se um pudim. Lembro-me de estar de joelhos, num banco de madeira, debruçada sobre a mesa, e de chegar o meu primo na hora exacta em que eu comia a nata e ele ter uma espécie de espasmo. Quase nenhuma criança gostava de nata. Eu adorava.

Como adorava descascar favas e ervilhas à sombra da parreira nos primeiros dias quentes do ano e ouvir alguém chamar-me para lanchar. Os olhos viajavam então pelos pacotes de alimentos. Foi neles que aprendi as letras, que li as primeiras palavras, que muitas vezes ia depois descobrir nos meus livros de gente pequena, encontrando paralelos entre os dois mundos. Escrevia ‘acucar’ até me falarem de cedilhas e de acentos. A minha mãe explicava. Eu ouvia, chupando o dedo cheio da mousse de chocolate que ela deitava na taça.
Não havia doces só em dias de festa. Se as galinhas tinham muitos ovos, havia pão-de-ló. Se as maçâs começavam a amadurecer, faziam-se tartes; no fim da vindima, a uvada que a outra minha avó mexia com uma colher de pão gigante numa espécie de banheira de cobre, sobre um lume de lenha, no quintal. Não havia cozinha para aquilo. E a fruta ia alourando até ficar de um castanho escuro, tinto, com que depois se barraria o pão, de um agridoce como não há.

Era na mesma altura da tomatada. Muitos alguidares de tomate cortado, a fermentar até serem passados pelo passe-vite, temperados com muito sal e postos em sacas de pano a escorrer água vermelha, vários dias, nas sombras do pátio. De lá, saía uma parta bem vermelha e consistente que era deitada em frascos, acondicionados com uma folga de papel vegetal e tapados de formar a que o ar não entrasse. haveria tomatada para o ano todo.

Foi por causa de tudo isto. De ver os caçadores chegarem da caça e ajudar a depenar perdizes depois de escaldadas em água a ferver. De fugir do guincho do porco na altura de lhe ser espetada a faca, para voltar logo depois para junto de homens e mulheres, cada um com tarefa bem definida, e gostar do cheiro da pele chamuscada, de gostar de ver deitar o vinagre no sangue para que não coagulasse, de ver cada corte como uma cirurgia, certeiro a separar peças e provar as primeiras febras assadas ali, pouco tempo depois. No dia seguinte haveria a grande iguaria: sarrabulho feito pela minha avó. Sem arroz, sem batatas. E não lhe chamassem papa que ela “ia-se aos arames”, ia avisando o meu avó. O dela era feito com o sangue, os fígados e o baço e quadradinhos de broa de milho. Tudo acompanhado de fatias de broas de milho fritas. Confesso que por essa altura, tinha eu menos de um metro, não me aventurava no sangue, ficava-me pelo pão naquela molho bem temperado.
Deve ter sido por tudo isto que não se consegue contar com a fidelidade ao cheiro da sopa de ervilhas acabadas de apanhar, das favas com entrecosto. Nem do sabor de uma lasca de bacalhau tirada de uma posta a demolhar. Poderia ficar aqui o resto do tempo, mas deu-me vontade de um arroz doce a sair do tacho…

choque

O choque deu-se, frontal, lateral, mas em vez de sangue saltou comida de gato.
A vida tem acessos de humor negro