santa gula

Se há um motivo. Ter crescido na cozinha com várias mulheres que faziam da cozinha a sua vida. A comida era o centro de tudo, até o meu centro, pelas piores razões. Aos três anos uma hepatite exilou-me em paladares que eu rejeitava quase sensorialmente e faziam-me fugir do prato. A consequência imediata foi a de estimular a criatividade da minha mãe que inventava mil maneiras para me seduzir com a dieta médica. Quase consigo ver o meu ar enfastiado a comer um puré de cenoura enquanto os outros, os crescidos, se debruçavam sobre um arroz de peito feito pela minha avó. Era um prato que se confeccionava pela matança do bicho, preparado a partir da carne mais tenra e suculenta do peito do porco, um arroz muito malandro temperado a cravinho e hortelã, que se comia com colher e cheirava a jardim. Branco, com lascas de carne desfiada, e um ramo de verde. Salivava de olhar para eles enquanto era acusada de não gostar de comer. Não gostava da minha comida, isso sim, e adivinhava naquela o prazer que via em toda a expressão dos que tinha a sorte de a poder comer sem hepatites.

Era magra, niquenta, como me chamavam, e tinha na minha avó, beata, mas de uma bondade extrema, a cumplicidade na satisfação pontual do pecado da minha gula. Deixava-me ir à talha das azeitonas e tirar um punhado delas que eu saboreava como se nunca mais fosse comer uma azeitona; provava uma fatia transparente de toucinho retirado do lombo do porco mais gordo que acompanhava com uma fatia bem robusta do pão que ela amassava e cozia no forno.

A metafísica dos chocolates dizia-me pouco. Eu queria a comida que via fazer com demora, esmero, pôr a mão na massa dos rissóis que se recheavam de um creme feito de pescada que eu ajudava a desfiar; na massa dos bolos que pediam descanso para crescer, espécie de milagre a que queria assistir, levantando o pano de linho que a cobria durante algumas horas, como quem quer ver uma flor a abrir. Espreitava com o medo de violar uma intimidade.

Não gostava muito do soco na nuca do coelho, confesso, mas a partir do momento em que ele morria, ia-se a piedade e voluntariava-me para o ajudar na esfola. Não via a faca a passar pelo pescoço da galinha, mas gostava de olhar o sangue a escorrer para a taça de onde haveria de sair uma cabidela. A minha avó abria a ave e tirava-lhe pedaços de gordura amarela, a que chamava enxúdias, e que usava para temperar arrozes, enriquecer guisados e assados de carne. Dividia-a em pequenas porções e guardava-as do frigorífico. Eu ia-me deliciando com as canjas com ovos pequeninos, moelas cortadas e patas a que roía a cartilagem com toda a demora de quem não pensa no tempo. Niquenta, continuava a ouvir por causa do pouco despacho. Mas elas, as avós, as tias velhas, gostavam de me ver comer como quem debica e gostavam de me ter a ajudar. A perguntar como se fazia o queijo enquanto via a Tia Lucinda espremer as tetas das vacas. Era esse leite que eu bebia em casa. A minha mãe pedia-me para tomar conta enquanto fervia, e eu ficava vigilante e feliz com a responsabilidade que me era dada; uma mão no botão do fogão, a outra a deixar o branco chegar até ao cimo do fervedouro para só então apagar o lume, no limite de entornar. E quando entornava, a nata queimada tinha o mesmo cheiro do ferro a queimar o leite creme. Depois era esperar que arrefecesse, pegar numa colher de chá, e para a nata agarrada ao alumínio. Como eu gostava daquela gordura amarela que comia como se um pudim. Lembro-me de estar de joelhos, num banco de madeira, debruçada sobre a mesa, e de chegar o meu primo na hora exacta em que eu comia a nata e ele ter uma espécie de espasmo. Quase nenhuma criança gostava de nata. Eu adorava.

Como adorava descascar favas e ervilhas à sombra da parreira nos primeiros dias quentes do ano e ouvir alguém chamar-me para lanchar. Os olhos viajavam então pelos pacotes de alimentos. Foi neles que aprendi as letras, que li as primeiras palavras, que muitas vezes ia depois descobrir nos meus livros de gente pequena, encontrando paralelos entre os dois mundos. Escrevia ‘acucar’ até me falarem de cedilhas e de acentos. A minha mãe explicava. Eu ouvia, chupando o dedo cheio da mousse de chocolate que ela deitava na taça.
Não havia doces só em dias de festa. Se as galinhas tinham muitos ovos, havia pão-de-ló. Se as maçâs começavam a amadurecer, faziam-se tartes; no fim da vindima, a uvada que a outra minha avó mexia com uma colher de pão gigante numa espécie de banheira de cobre, sobre um lume de lenha, no quintal. Não havia cozinha para aquilo. E a fruta ia alourando até ficar de um castanho escuro, tinto, com que depois se barraria o pão, de um agridoce como não há.

Era na mesma altura da tomatada. Muitos alguidares de tomate cortado, a fermentar até serem passados pelo passe-vite, temperados com muito sal e postos em sacas de pano a escorrer água vermelha, vários dias, nas sombras do pátio. De lá, saía uma parta bem vermelha e consistente que era deitada em frascos, acondicionados com uma folga de papel vegetal e tapados de formar a que o ar não entrasse. haveria tomatada para o ano todo.

Foi por causa de tudo isto. De ver os caçadores chegarem da caça e ajudar a depenar perdizes depois de escaldadas em água a ferver. De fugir do guincho do porco na altura de lhe ser espetada a faca, para voltar logo depois para junto de homens e mulheres, cada um com tarefa bem definida, e gostar do cheiro da pele chamuscada, de gostar de ver deitar o vinagre no sangue para que não coagulasse, de ver cada corte como uma cirurgia, certeiro a separar peças e provar as primeiras febras assadas ali, pouco tempo depois. No dia seguinte haveria a grande iguaria: sarrabulho feito pela minha avó. Sem arroz, sem batatas. E não lhe chamassem papa que ela “ia-se aos arames”, ia avisando o meu avó. O dela era feito com o sangue, os fígados e o baço e quadradinhos de broa de milho. Tudo acompanhado de fatias de broas de milho fritas. Confesso que por essa altura, tinha eu menos de um metro, não me aventurava no sangue, ficava-me pelo pão naquela molho bem temperado.
Deve ter sido por tudo isto que não se consegue contar com a fidelidade ao cheiro da sopa de ervilhas acabadas de apanhar, das favas com entrecosto. Nem do sabor de uma lasca de bacalhau tirada de uma posta a demolhar. Poderia ficar aqui o resto do tempo, mas deu-me vontade de um arroz doce a sair do tacho…

2 responses to “santa gula

  1. Delicioso. Obrigado.

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