copiar receitas

 Menina escrevendo
Henriette Browne, óleo sobre tela

Os primeiros escritos voluntários foram cópias de receitas.

Sentava-me à mesa da cozinha e passava horas esquecida num mundo mágico onde entravam:
– formas
– ovos
– farinha
– açúcar
– salazares
– almofarizes.

E acontecia o milagre de chegar ao fim e “servir quente, com chocolate derretido por cima”.

O processo repetia-se. Leite-creme escrito a caneta azul, com a mão pequena a carregar bem, viagem lenta a sulcar o papel, folhas de linhas, folhas separadas que a mãe comprava em resmas à medida do vício. Ainda não andava na escola e aquele exercício juntava duas paixões: a vontade de aprender a cozinhar numa altura em que não lhe era permitido aproximar do fogão, e a de aprender a escrever. Devia ser capaz de dominar a escrita à custa de tanta cópia de coisas boas e fixar as coisas boas até não precisar mais do papel.

Noutro dia descobriu o dossier onde a mãe ainda guarda esses escritos. A letra floreada a tentar não sair da linha, a capa florida, a imitar papel de parede inglês, os aros de ferro meio enferrujados, o nome desenhado na contra-capa, nome completo, a sua pertença.

E a constatação ante aquele arquivo: salivou ao ler o que escreveu com cinco anos.

2 responses to “copiar receitas

  1. Parabéns por este texto tão saboroso!

    Beijim!😉
    Giuseppe
    O meu blog
    O meu facebook

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