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O Outubro de Cardoso Pires

José Cardoso Pires nasceu há 88 anos e este texto tem cinco.

O escritor nasceu faz hoje 83 anos. Cultivou a palavra de forma lenta, como quem dança a valsa do adeus.

Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morreu, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.

A conversa foi em Dezembro. Demorada, no tom rouco da voz. Dezembro, numa tarde fria com a pouca luz do Inverno a entrar pela janela que dava para a igreja de Alvalade. Vestia uma camisola amarela, de um amarelo desmaiado que contrastava com o amarelo dourado do copo de whisky misturado com água que ia levando à boca. Acabara de editar Lisboa, Livro de Bordo, dedicado à cidade onde só não nasceu por acaso porque, como dizia, a sua mãe tinha qualquer coisa de salmão “e ia desovar a norte”. E só por isso foi nascer a Peso, na Beira, a 2 de Outubro de 1925. Cardoso Pires conversava e falava dos seus ódios e amores. De como detestava o Natal e o campo, do politicamente incorrecto confessar que não achava Torga assim um tão grande escritor; de como embirrava com o adjectivo; da sua paixão por Lisboa e por uma boa briga; por longas conversas em bares; por se isolar na casa da Costa da Caparica, virada para o mar, onde ia desenhando na parede as movimentações das personagens, numa espécie de mapa narrativo em que se perdia como quem perde a identidade para dar identidades às personagens.

Cardoso Pires conversava, mas temia o modo como essa palavra falada podia aparecer escrita. É que para ele, a palavra escrita tinha outro ritmo. Tinha de ser escolhida. Não era ao acaso. Dizia e emendava, como quem escreve outra versão de um romance. Dizia e rescrevia o dito com um letra miudinha, pensada, limpando adjectivos, substantivando. E aquilo lido parecia rápido. Veloz como os seus romances. Engano. Cardoso Pires era lento, muito lento na escrita e fazia ironia com os escritores rápidos. Em 50 anos, publicou 18 títulos. O Delfim, Alexandra Alpha, A Balada da Praia dos Cães ficarão como textos maiores da literatura. Saíram lentos, com tantas versões até sair a certa. Cada palavra tinha de ser certeira. Nem a mais, nem a menos. E nesse medir de palavras disse: “Estou convencido de que um dia parto uma unha do pé e morro.”

Nem mais uma palavra.

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inimigos íntimos

A edição espanhola da revista Esquire de Maio traz um especial a que chamou “inimigos íntimos”. Na capa está um Gabriel García Márquez jovem, de olho negro, resultado de um soco histórico que levou do seu amigo íntimo, o também escritor Mario Vargas Llosa. Os dois Nobel da Literatura eram inseparáveis até aquele dia, num cineclube da cidade do México. Recordei a história dessa zanga a propósito da edição comemorativa do livro “Cem Anos de Solidão”, em Janeiro de 2007, e agora recupero-a a propósito deste artigo onde a foto conta mais que as palavras. Outros inimizades íntimas ali recordadas: Ronald Reagan vs Mijaíl Gorbachov; Paul Simon vs Art Garfunkel; Fidel Castro vs Che Guevara; John McEnroe vs Bjorn Borg; Noel vs Liam Gallagher

Tão amigos que afinal eles não voltaram a ser

A história veio na edição de quarta-feira, dia 10, do jornal britânico The Guardian. Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa iriam estar juntos, num só livro – uma edição comemorativa dos 40 anos do romance Cem Anos de Solidão a sair no próximo mês de Março. O título falava em “sinais de degelo” numa “contenda” com três décadas. Era o anúncio do fim de uma zanga mítica que terminou com aquela que foi apelidada a mais famosa das amizades da literatura.
Segundo o jornal, o peruano Mario Vargas Llosa assinaria o prólogo de uma edição especial do mais famoso romance do colombiano Gabriel García Márquez. E citava um porta-voz da Real Academia Espanhola – entidade que irá publicar a edição – segundo o qual os dois escritores tinham chegado a acordo sobre o assunto. Um acordo alcançado apesar de ambos não se falarem desde o dia em que Llosa deu um soco a Márquez num cinema na cidade do México.
A introdução seria um excerto de História de um Deicídio, livro elogioso que Vargas Llosa escreveu em 1971 e que tinha por tema o seu então amigo. O mesmo que Llosa impediu de ser reeditado após a zanga, em 1976, e que se transformaria em raridade literária com preços a atingir os 500 euros. No ano passado, Llosa surpreendeu ao incluir o título nas suas obras completas (Alfaguara) e explicou as razões numa entrevista publicada na edição de 6/10 do suplemento 6ª(ver excerto na pág. 37).
A notícia desta suposta edição conjunta apanhou de surpresa Plínio Apuleyo de Mendonça, embaixador da Colômbia em Portugal, amigo pessoal dos dois escritores zangados e autor do livro O Aroma da Goiaba (uma conversa com García Márquez publicada em 2005 pela Dom Quixote). “Não pode ser, é impossível. Eu saberia disso se fosse verdade”, declarou ao DN o homem a quem Gabo – diminutivo pelo qual o autor de Cem Anos de Solidão é conhecido entre os mais próximos – chama de a sua “memória”. A novidade que Plínio Apuleyo tinha para revelar era outra. García Márquez acabava de lhe comunicar a decisão de avançar com a escrita do segundo volume de memórias Viver para Contá-la (o primeiro foi editado em 2002) para o qual conta com a colaboração do embaixador e amigo pessoal, por se tratar de um período da vida que ambos partilharam e que inclui precisamante o momento da zanga com Vargas Llosa.
O 2.º volume de memórias
A decisão foi tomada após alguma resistência do escritor, que chegou mesmo a ponderar não continuar as memórias. E especulou-se que um dos motivos era a necessidade de revelar as razões de uma zanga que permanece um mistério. Foi a 12 de Fevereiro de 1976. Num cinema na cidade do México, após a exibição de um filme que não ficaria para a História – Sobreviventes dos Andes, de René Cardona – Mario Vargas Llosa agrediu Gabriel García Márquez depois deste o tentar abraçar. As razões da agressão nunca foram divulgadas, nem pelo peruano nem pelo colombiano. Falou-se de motivos sentimentais, falou-se de divergências políticas que o futuro viria a vincar. O colombiano sempre se manteve próximo de Fidel Castro, enquanto Llosa seria alguns anos mais tarde candidato de direita à presidência do Peru. Os jornais publicaram a frase que acompanhou o soco, dita por Llosa: “Como te atreves a abraçar- -me depois do que fizeste a Patrícia em Barcelona?”
Era o culminar de oito anos de tertúlias literárias, de partilha de ideias sobre o papel da literatura latino-americana, de viagens em conjunto, do projecto de escrever um romance a quatro mãos. Uma amizade tão forte que Márquez é padrinho do filho de Llosa.
Amigo de um e de outro, Plínio Apuleyo de Mendonza acompanhou o silêncio entre ambos durante os últimos 30 anos e estranhou, por isso, o inusitado fim da zanga. Após consultar a agente literária de García Márquez e de Vargas Llosa – que acontece ser a mesma – e de falar com o “amigo Gabo”, disse ao DN tratar-se da “invenção de um jornalista de Barcelona”.
A verdade da história é que a Real Academia Espanhola vai de facto editar uma edição comemorativa de Cem Anos de Solidão e um volume que reúne textos de vários escritores sobre o mais famoso dos livros de García Márquez. Entre eles está Mario Vargas Llosa. “Nada mais”, declarou o embaixador, que acrescentou ainda que “Gabo está a ser questionado por jornalistas de todo o mundo que querem saber o que se passa. Uma confusão. De tal maneira, que me confessou: ‘Estou tão irritado com isto que tenho vontade de falar com Llosa e fazer as pazes'”.
E o que pode haver de verdade nessa frase, dita, como afirmou Plinio Apuleyo , “em desespero”? O embaixador arrisca uma resposta: “Gabo gosta muito de brincar.”

artigo publicado no DN, a 12 de Janeiro de 2007

Luiz Pacheco, um ser ficcional


Por fim, pego na biografia de Luiz Pacheco. Folheei páginas ao acaso, parei em vários parágrafos, escolhi citações do escritor, um longo namoro que só agora passou a uma relação mais profunda.  Abri o livro na primeira página. “Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade”, escreve, a abrir, João Pedro George, o biógrafo de “Puta que os Pariu“, título retirado da uma entrevista que Pacheco deu à revista Ler, em 1995, conforme se explica na contracapa desta edição da Tinta da China. Talvez seja esse desarme que mais me seduza em Luiz Pacheco, uma capacidade invulgar de surpreender e que fez dele uma das figuras mais ricas da literatura portuguesa do século XX. Tive o prazer de o conhecer, um privilégio que na altura me intimidou. Por detrás das lentes de fundo de garrafa os olhos de Luiz Pacheco não escondiam o lado mordaz e altivo. Foi esse olhar que recordei mais uma vez no dia em que tive de escrever sobre a sua morte, um texto feito com a ajuda de João Pedro George que já então trabalhava nesta biografia. Foi em Janeiro de 2008.

Via-se como um ser ficcional

Um homem avançava pelo corredor de uma redacção. Passos incertos. Expressão imperceptível por detrás dos óculos de aros grossos. Atrás, outro homem, mais novo, saco de plástico na mão e o ar de quem está ali por acréscimo. Luiz Pacheco e um dos seus oito filhos, Paulo Pacheco, chegavam para uma entrevista. Era em meados dos anos 90 e as dificuldades financeiras que sempre marcaram a existência deste escritor que nunca escreveu um romance – dizia ele que por falta de disciplina – eram as de sempre. Luiz Pacheco falou, o gravador gravou e no fim da conversa, sem que houvesse nenhum acordo tácito, o estender, pelo jornalista, de uma nota de cinco contos logo conduzida pelo olhar de Pacheco para as mãos do filho Paulo. “Ele tinha uma moral muito própria, ou não tinha mesmo moral nenhuma”, refere o crítico João Pedro George.

Para quem conviveu de perto com Luiz Pacheco esta é uma história banal na vida de um homem invulgar cujo percurso e personalidade são impossíveis de comprimir num artigo de jornal. “Ele era tudo menos o lugar-comum”, diz João Pedro George, professor universitário a terminar uma tese de doutoramento sobre Luiz Pacheco. “Não será uma biografia tradicional. É uma tese de sociologia literária. Interessa-me partir da trajectória do escritor maldito para desconstruir a ideia de que isso tem uma carga negativa.” É uma reprodução de um meio literário a partir do percurso individual de um homem que foi o seu principal biógrafo, alguém que dizia que primeiro se vive e depois se escreve sobre o que se vive: um escritor que nunca escreveu um romance e se fez a si mesmo personagem romanesca. Ele via-se assim. Os outros viam-no assim: um ser ficcional.

João Pedro George conheceu-o de perto. Trabalhou directamente com ele nos últimos dois anos e é ele quem o descreve como a personagem do romance que foi a sua própria vida. A última vez que o viu foi no dia 26 de Dezembro, no lar onde estava, no Montijo. Queria ouvir dele o nome da rapariga para colocar na dedicatória de “O Crocodilo que Voa”, uma antologia de entrevistas de Luiz Pacheco organizada por João Pedro George, e a editar este mês pela Tinta da China. Encontrou um homem “bastante debilitado, numa cadeira de rodas”, com uma voz inaudível. Não conseguiu saber o nome da rapariga, mas sabe a história que a acompanha e a fez ser motivo de homenagem do homem que morreu na noite do passado sábado aos 82 anos de idade. A dedicatória será “A …, açoriana, poetisa, excelente.” Uma espécie de agradecimento na sequência de uma confissão polémica numa entrevista a Baptista Bastos. Pacheco afirmava ter tido relações sexuais com uma cadela. A seguir, a única voz de compreensão a essa frase “maldita” foi a de uma mulher que o visitou no lar e lhe terá dito que tal atitude revelava uma enorme solidão.

Era assim Luiz Pacheco. Desarmante, de “alguém que nunca perdeu a sua pureza artística, desconfiava das pessoas e tinha uma visão um pouco cristã do mundo no sentido em que achava que todos somos culpados até prova em contrário.” Palavras de João Pedro George, mais uma vez, sobre alguém que não correspondia a um tipo convencional.

Por isso, na hora da sua morte, evitem-se palavras de circunstância. Luiz Pacheco, escritor excêntrico, maldito, bem-amado pelo crítica, morreu e deixou mais obra por publicar do que aquela que foi publicada. Sobretudo diários e cartas, uma correspondência que em quantidade se assemelhará à deixada por Camilo Castelo Branco. “Todos os dias escrevia cartas”, sublinha Pedro George.

Natural de Lisboa, onde nasceu na Rua da Estefânea, a 7 de Maio de 1925, Luiz José Gomes Machado Guerreiro foi o melhor aluno do seu ano no Liceu Camões. Média de 18 que o levou a cursar Filologia Românica na Faculdade de Letras. Desistiu devido a dificuldades financeiras que o acompanharam ao longo da vida. Ainda foi funcionário público, mas preferiu a liberdade da condição de desempregado à segurança da rotina como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.

Escreveu artigos em vários jornais e revistas, dedicando-se, sobretudo, à crítica literária. Em 1950 fundou a editora Contraponto, que publicou principalmente obras de autores surrealistas, autores como Mário Cesariny, Herberto Helder ou António Maria Lisboa. Faliu. Como autor, destacou–se em 1964 com o conto Comunidade, que valeu o elogio da crítica (ver caixa). Mas seria a sua condição de crítico irreverente e a vida de libertino “com regras” a darem-no a conhecer às autoridades do Estado Novo. Esteve preso, viveu de esmolas, andou por albergues e quartos alugados. Dizia que tinha sete filhos e meio. Teve, de facto, oito, de várias relações, e a literatura sempre como projecto de vida.

Janeiro 2008 in Diário de Noticias

Um livro vive sete semanas. E as livrarias quantas mais?

Na cidade onde eu nasci e cresci, compravam-se livros no mesmo sítio onde se compravam cadernos, canetas, sapatilhas e bolas de futebol, fatos de ginástica e de treino. Era fácil encontrar fundos de catálogo; nunca procurei um clássico que não encontrasse enquanto fui, ali, aluna do liceu. Não entro há anos nessa papelaria,livraria, discoteca e muito mais. Um supermercado de cultura e desporto antes de se sonhar com Fnacs. Repito: não sei como estará. Presumo que sobreviva, mas não à conta dos livros. Lembro, já em Lisboa, de ir lá ao fim de semana na certeza de que, entre o pó de tantos livros, haveria o tal que estava esgotado nas livrarias de Lisboa. E não me enganava, e era mais barato e tudo. Estava amarelo nas pontas. Que importava? Dava-lhe um toque raro entre lombadas brancas que me aborreciam de tão novas nas minhas prateleiras então quase despidas.
Não voltei lá. Há muitos anos que não me vendem um livro. Nem voltei à Portugal, nem à Sá da Costa, nem a Ferin… Entristeço-me sempre que fecha uma livraria, mas eu, que compro livros, não me desvio da rota do costume, a que me leva à Fnac, às Bertrand… Sinto que também por aqui os livros demoram muito menos. Sete semanas de vida em livraria é a média para um livro novo. Vida curta, vidra tão breve. Não admira que as livrarias vão fechando. Eu fico triste, mas faço mea culpa e prometo que quando for a Torres hei-de ir à União.

falta de memória

Escrevi isto em 2003

“Há dez anos, quando pela primeira vez tive lugar numa redacção, sempre que me entregavam um trabalho, apontavam-me um jornalista capaz de me ajudar a fazer a reconstituição de um acontecimento. À distância de umas secretárias e em poucos minutos, eu tinha o background da minha história e a informação mínima para poder levantar dúvidas e questionar os interlocutores que iria enfrentar (…). Não falo de um passado longínquo. São apenas dez anos. Mas desde então as redacções foram ficando despovoadas de memória, a memória dos jornalistas com anos de profissão que, em nome da produtividade e da contenção de custos, foram sendo dispensados pelos novos conselhos de administração a quem cumpre gerir os meios de comunicação social como empresas que têm de dar lucro sob pena de fecharem. Não questiono isso. Provavelmente não haverá outro modo e os jornais têm de funcionar e existir como empresas. Mas há uma função inerente à existência de jornais e jornalistas: informar. E a informação não é feita apenas do imediato. Não existe notícia sem um passado que a justifique. Com jornalistas cada vez mais novos, com editores sucessivamente menos experientes, informar é cada vez mais dizer o que acabou de acontecer e as notícias surgem a quem as recebe como actos isolados. A investigação quase desapareceu porque tem custos que as administrações consideram incomportáveis. Há excepções. Mas a regra é a da perda da memória. Uma memória que a Internet não preenche, apesar de ser uma ferramenta essencial à actividade dos jornalistas”.

Este artigo foi publicado na revista Jornalismo e Jornalistas em Dezembro de 2003. Chamei-lhe “Falta de memória” Mais de oito anos depois pareceu-me o princípio de qualquer coisa que está a acabar

O próximo mito, à sua revelia

Maria Gabriela Llansol é uma escritora de leitores fiéis. Rompeu com as normas da escrita e conseguiu uma singularidade invulgar. Já lhe chamam o próximo mito da literatura portuguesa. Quando morreu, em 2008, aos 76 anos, deixou 29 livros publicados e mais de 70 cadernos inéditos. O Brasil está a descobri-la. Portugal continua a tentar conhecê-la.

Pode-se dizer que escreveu um único livro ao longo da sua vida. Uma parte desse imenso volume, do qual ainda há muitos inéditos por sair, chegou recentemente ao leitor brasileiro. São três diários, Um Falcão no Punho, Finita e Inquérito às Quatro Confidências (a que se juntou um tomo de entrevistas), ponto de partida que funciona quase como um manual de instrução para uma leitura que exige tanto fôlego quanto aquele que Llansol usou para escrever. O fôlego de uma vida que gerou “o próximo grande mito literário da literatura portuguesa”, a seguir a Fernando Pessoa, conforme vaticinou o pensador Eduardo Lourenço a propósito de uma exposição sobre a escritora realizada em 2011 em Lisboa.

A casa amarela com uma buganvília à porta, no centro da vila de Sintra, onde Gabriela viveu parte da sua vida, ecoa a sua ausência. Não estão lá mais os gatos que sempre a acompanharam. Ou melhor: Melissa ainda lhe sobreviveu. Mais uma gata, um nome a juntar aos outros que foram deixando o rasto e a memória. Foi adotada por Hélia Correia, escritora, amiga de Llansol, que só escreve com chuva, ao contrário da autora dos Diários, que gostava da luz e dos seus efeitos, ainda que esses fossem sombra.

A casa transformou-se no Centro de Estudos Llansolianos, que trabalha na catalogação de seus escritos e é responsável pela divulgação da obra da autora. Estão lá as cerca de 30 mil páginas do seu legado. Escrita miúda, letra corrida, páginas pontuadas de desenhos que ajudam a ilustrar o contágio que lhe vinha de fora, de todas as coisas.

Carlos Santos é um llansoliano. Não um especialista, mas um apaixonado por aquela que considera ser a melhor escritora em português. Descobriu-a em 2006, o ano em que venceu um dos mais prestigiados prêmios literários em Portugal, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores. Foi com o romance Amigo e Amiga. Ele era estudante de Direito. “Uma colega de curso estava nas escadas da faculdade concentrada num livro”, lembra ele ao Sabático. “Perguntei-lhe o que lia e ela mostrou a capa. ‘Não conheces?’ Eu não conhecia e ela respondeu-me que tinha de conhecer, que era ‘fabuloso’.” Carlos seguiu o conselho – e deu no que deu. Depois daquele romance, viajou no tempo e foi até Herbais, um dos locais míticos da escritora quando viveu o exílio na Bélgica. Leu O Livro das Comunidades, o título que se seguiu aos diários agora editados no Brasil. Vieram os outros, quase todos. 29 publicados em vida da escritora, mais o primeiro volume do Livro de Horas, e o primeiro póstumo, aparecido no mesmo ano da morte dela.

“Culto?”, interroga Carlos Santos, repetindo a minha pergunta, enquanto caminha ao meu lado rumo a uma livraria no centro de Lisboa. “A haver, talvez seja por não sermos muitos”, lamenta. João Barrento, um dos responsáveis pelo Centro de Estudos Llansolianos, também quer quebrar a ideia de “seita” que muitas vezes é associada aos apaixonados pela escrita de Llansol. Escritores, pintores, escultores, músicos, etc., que partem para outras obras a partir de Llansol. E o leitor comum, quase sempre conquistado na juventude, quando a disponibilidade para o “novo” é maior. “A obra dela não é um objeto exótico”, afirma Barrento. “Nem tem um caráter esotérico, como muitas vezes se sugere.”

Talvez a estranheza esteja na singularidade que ela foi capaz de criar e que ajudou a sedimentar pela sua necessidade de isolamento, a fama de ser esquiva com a comunicação social, que não gostava de dar entrevistas, mas que se revelou nas poucas que concedeu e que estão compiladas na edição brasileira dos Diários. Uma vez perguntaram-lhe por que escrevia. Ela respondeu apenas porque sim. E prossegui até ao fim com “esse manuscrito aberto”, como lhe chama João Barrento. “Antes que o meu destino termine, tenho necessidade de escrever o que falta”, anotou ela.

A passagem está no Caderno I, Um Falcão no Punho e é sublinhada por Barrento. Não é o livro que Carlos Santos procura quando chegamos, enfim, à livraria. Ele passa pela fila da caixa, olha para as prateleiras que anunciam autores portugueses. A ordem é alfabética, mas o “L” parece não ter nada de Llansol. Não desiste. Ajoelha-se, olha mais de perto e descobre um volume. É o único. A prateleira fica agora despida dessa escritora a que querem chamar mito contra a sua vontade.

Ela escrevia sobre as coisas grandes e pequenas com o mesmo fervor. Carlos Santos segura nas mãos Um Arco Singular. Uma edição de 2010, saída do trabalho das pessoas que agora vão habitando a casa amarela. É o segundo volume do Livro de Horas. Reúne manuscritos de 1977 e 1978. Ele abre na primeira página, como que para reconhecer. Lá está Llansol: “Na profusão do silêncio suspendeu os ramos. E sua nostalgia provocava em seu companheiro um impacto profundo. Começaram a falar, como andavam.” Carlos Santos vai ter tempo de o ler antes de Livro de Horas, cuja edição está saindo neste início de ano. Trata-se do terceiro volume póstumo – todos com o mesmo título, Livro de Horas – de uma escrita que Augusto Joaquim, o viúvo de Maria Gabriela Llansol, classificou como um olhar “que procura a luz que emerge, algures, entre a ética da responsabilidade, a procura intransigente do belo e o dito rasante e justo”.

artigo publicado no jornal Estado de São Paulo, no suplemento Sabático

11 de Setembro para colorir

Colorir os acontecimentos do 11 de Setembro,  como dizem os autores, editores e promotores de We Shall Never Forget 9/11: The Kids’ Book of Freedom: que não se pode esquecer.
Como tal, as crianças podem pintar com todas as cores o atentado às torres gémeas e, dez anos depois na história, a execução de Osabma Bin Laden.
Mas quem não gostou mesmo nada da história foram os muçulmanos americanos. Os responsáveis pela Really Big Coloring Books, que publicou o livro apressaram-se a justificar a edição alegando que foi concebida para que os pais a usem para ajudar as crianças a entender os factos à volta do dia 11 de Setembro de 2011. A história vem toda contadinha na edição de ontem do “Guardian

We Shall Never Forget 9/11: The Kids’ Book of Freedom é apenas um só título dos que enchem as livrarias em véspera do aniversário do 9/11, o dia que mudou o mundo.  A contabilidade é quase impossível de fazer. Cada publicação, cada blog, faz listagens por tema, por grau de interesse, por relevância literária ou histórica. Uma olhada ao site da Barnes & Noble, por exemplo, é uma vertigem, um labirinto onde qualquer um que queira eleger uma leitura sobre o assunto se perde. Um site ajuda e faz uma selecção dos livros mais populares até agora publicados sobre a matéria. Um best-of de 250 títulos que contempla ficção, ensaio, história eonde destaco obras como “O Homem em Queda”, de Don DeLillo, “Sábado” de Ian McEwen ou “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, de Jonathan Safran Foer. Por cá há, entre as imensas novidades de lá, apenas uma pequena amostra. Num olhar rápido pelas livrarias, salta um livro dos escaparates: “Um História do Mundo depois do 11 de Setembro, assinado pelo jornalista Dominic Streatfeild. Uma reportagem que o crítico do “Telegraph” diz ler-se como um thriller. Folheio-o apressada e aposta em perceber melhor como é que esse acontecimento de há uma década mudou não apenas o mundo mas o modo de o olhar. Para isso, a arte ajuda um pouco. Onde estão os 11 de Setembro na música, no cinema, na ficção, nas artes plásticas e performativas? Vou ver.

Depois conto o que encontrei enquanto as crianças americanas pintam esse 9/11.

Grossman depois da morte de Uri

Descobri-o com “Ver: Amor”, romance magnífico, onde um menino, Momik,  filho de judeus sobreviventes à II Guerra Mundial, tenta perceber o que viveram os seus familiares através das conversas que ouve, dos silêncios mais ou menos pesados que escuta, das coisas nunca ditas. Estamos na década de 50 e ele vai construindo a sua identidade num mundo cheio de contradições. Lembro que comecei esse livro num dia de Agosto e acho que a partir daí apanhei tudo que pude desse escritor grande chamado David Grossman. Quando escrevia o sétimo romance, este israelita que, a par de Amos Oz, por exemplo, é um dos grandes biógrafos do seu país através das ficções, recebeu a mais atroz das notícias: o seu filho, o soldado Uri, morrera em combate. A “Lire” de Setembro entrevistou o escritor na sua casa de Mevasserat Zion, Jerusalém, a propósito da edição deste romance em França. Nela, Grossman confessa que fez algumas alterações à história que aqui conta, também ela dolorosa, também ela de vida e morte.”…j’ai continué à écrire pendant un an et demi après ce qui se passé. Et à chaque foi que j’écris une nouvelle version – j’en écris une nouvelle version — e change, je change. Il ne s’agit pas de copier/coller sur le ordinateur. Je réécris entièrement. Chaque mot. J’y gagne la sensation de comprendre soudainement chaque scène ou chaque personnage sous un nouvel angle…” Quem conhece a escrita de Grossman, a sua atenção a todos os aspectos humanos, sabe que não podia ser diferente. O livro chama-se “A Mulher que Foge”, já está disponível em português desde 2009… no Brasil, pela Companhia das Letras. Quem já teve o privilégio de o ler entende bem esta conversa onde o escritor fala da escrita como salvação da própria vida. Quem ainda não leu o livro, que comece já agora pela entrevista.

De volta a Conrad

Volto a Joseph Conrad e a “Nostromo”, um autor que me faz sempre viajar para os sítios que quero, mesmo quando não são os melhores, e da forma que desejei mas nunca consegui, e a um livro que mais do que todos os outros de Conrad me liga ao mar, o meu elemento desejado. Gostava de ser do mar.

Não sou marinheira, e lembro-me de o meu pai me dizer, na choradeira de fim de férias, que se eu quisesse ficar os doze meses por ano de toda a minha vida ao pé do no mar ou casava com um pescador ou com um homem rico. Passaram-se muitos anos desde esse conselho; não vivo os 12 meses do meu ano junto ao mar, e o homem que melhor consegue essa aproximação continua a ser Joseph Conrad, o escritor que nasceu Józef Teodor Konrad Korzenieowski, em 1857, na Polónia, e que em 1904 publicou este “Nostromo”.

Só o conheci anos depois da famosa tirada paterna que me deixou a pensar, talvez pela primeira vez, no lado interesseiro de concretizar o sonho. Não fosse isso e teria atirado com “Nostromo” para os braços do meu pai.

Conheci-o pouco depois da faculdade, num Verão como tantos outros, cheio de ruído onde encontrava o meu silêncio nas páginas que guardava cheias de grãos de areia. No fim, entretinha-me a abrir página a página a correr com eles, ao sopro ou com as pontas dos dedos, uma sensação semelhante à de cortar as páginas coladas dos livros com as velhas facas. Manias.

Hoje voltei a Nostromo, uma edição nova, limpa de areia e não quis deixar de assinalar este dia.  Agora vou-me a ele. Sem a surpresa da primeira vez, mas com a mesma emoção de quem se senta numa esplanada a sentir a maresia, haja sol, ou uma manta nos joelhos.

“No tempo do domínio espanhol, e ainda por muitos anos, a cidade de Sulaco, cuja beleza luxuriante dos laranjais dá testemunho da sua antiguidade, não passava de uma cidade portuária…” e lá vou eu, por Costaguana, um lugar que só existiu na imaginação de Conrad, na costa ocidental da América Latina, entre a prata da mina de San Tomé e os seus efeitos nas vidas dos que lá moram. Para já, os outros livros que esperem. Apeteceu-me mais deste.