Category Archives: Bocas

Mudar

Talvez corte curto, ou pinte de loiro, mude o meu nome para um que copie uma estrela, invente a palavra, encontre a casa, arranje uma sombra porque preciso de sol.
Há dias em que nada pode ser o que já foi

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choque

O choque deu-se, frontal, lateral, mas em vez de sangue saltou comida de gato.
A vida tem acessos de humor negro

‘M’ de meus livros


Ao fim de uma hora de arrumação, a pilha dos “M” não se aguentou e desmoronou-se. Um desastre doméstico que me faz concluir acerca da importância literária de ter um apelido que comece pela mesma letra de Musil. O “B”, de Bessa-Luís, segue-lhe o rasto, mas a uns bons três palmos de distância, logo seguido do “C” de Camões. É mais uma viagem pelos meus livros, em mais uma mudança de lugar. Na estante e na geografia da cidade.

Mais livros

Ontem fui à feira. Um amigo ia tocar guitarra clássica com os alunos e prometi que iria sem voltar carregada de livros. Cheguei à Praça Leya depois de ter passado por quatro ou cinco barraquinhas do outro lado do parque, o direito, quando se desce. Faziam-se horas do pequeno concerto e acelerei o passo até lá.

Entre conversas e champanhe, fiquei a saber, para espanto meu, que apesar da chuva, da crise, este ano as vendas por ali cresceram 40 por cento face ao ano anterior em que as temperaturas andaram muito mais altas. Repeti o número só para me certificar que tinha ouvido bem. Sim, 40 por cento e varias pessoas ao lado, editores, livreiros, a concordarem. O livro parece ser um refúgio em tempos de crise e houve quem se estivesse a guardar para a feira. Não é que a edição esteja a viver os seus melhores dias, longe disso, mas há um alegria nos olhos de muitos editores que esperavam que as quebras fossem além dos onze por então que até agora se registam desde que o ano negro de 2012 começou.

A crise chega a todos mas não afecta todos da mesma maneira. Um livro leva tempo a ler e é preciso matar o tempo mesmo em tempo de crise, viajar com ele mesmo quando as viagens de avião se tornam proibitivas. O entretenimento e casa está em alta quando o da rua fica caro. Ninguém paga 23% de IVA por ficar em casa em vez de ir jantar fora. e há cada vez mais reuniões de amigos para falar de livros. Não é o paraíso por aqui, mas também ainda não é o inferno.

Já sei namorar


1931, Luiz Brandão, São Paulo, Brasil

Naquele dia, ele ganhou coragem e encostou-a à parede. Surpreendida, ela correspondeu e deitou-lhe a mão. Este beijo tem 82 anos, é brasileiro, mas ninguém lhe reconhece sotaque nem lhe dá essa idade.

O cheiro

Já ouvi muitos maníacos dos livros lamentarem-se de que agora os livros têm todos o mesmo cheiro. Hoje decidi finalmente tirar a prova dos nove. Cheirei dez livros, todos novos. Nenhum cheirava ao mesmo que o outro, e alguns eram da mesma editora. Podemos continuar a snifar papel enquanto ele dura, queridos agarrados, e sentir sempre novos aromas.

O pastor

Camille Pissarro, Shepherd and Sheep, 1888

Camille Pissarro, pastor e ovelhas, 1888

Ele estava por tudo, até ser pastor. Há uns dias chamaram-no do centro de emprego. Era para ser pastor, pastar ovelhas numa serra do distrito de Faro. Ele, que vive em Lisboa, passou por Nova Iorque, parou uns tempos em Berlim e nasceu na Roménia. Foi à entrevista. Mas 250 euros por mês era pouco para enlouquecer no pasto e a senhora da repartição disse-lhe que era como quisesse, mas achava que ele tinha qualificações a mais para a tarefa. Ficou de voltar, para o emprego, ou desemprego.

Bloqueio

Muitas folhas de papel amachucadas pelo chão contariam a sua frustração. Mas num computador o bloqueio não se amachuca. Apaga-se.

Passei-me. Passa

Escrevo a quente. Hoje estou irritada. Acontece. E ainda não foi nada comigo. Aconteceu quando alguém me pôs a mão no ombro e disse adeus, pedindo um livro para ler na fila dos desempregados. Alguém que conheço há muitos anos. Foi o golpe de misericórdia. É que no dia anterior, ao jantar, já tinha sabido que um amigo vai ter de emigrar. Há meses sem trabalho, as economias foram-se, a família vive com o ordenado da mulher e a vida ditou-lhe: sair ou faltar comida em casa aos dois filhos. Ele, engenheiro, vai sair. Dias antes, alguém que também conheço há muito tempo, contou-me que o marido ficou sem emprego e agora vivem com o salário de 600 euros dela. Ok. É a vida. É a crise. Mudam-se para um T1 que na verdade é um T0. Apertam-se. Felizmente não há crianças.

A minha mãe, que trabalhou a vida inteira em casa e uns anos numa empresa farmacêutica, foi pedir reforma. Não tem direito, disseram-lhe. A nada, continuaram, nem um tostão. Tem um marido que ganha mais de 700 euros e uma filha que não lhe há-de negar “um prato de sopa, pois não minha senhora?!” Pois não. Isto foi dito assim num balcão da segurança social à mesma pessoa que tem uma doença congénita rara e direito a transporte gratuito para o único hospital de Lisboa onde tratam a dita doença. Tinha. Agora paga 35 euros por viagem de ambulância porque não pode fazer os 40 quilómetros que a separam do médico de outro modo. É. Não se trata de uma urgência, explicam-lhe. Pois não, mas de ir ao único sítio onde a podem tratar da tal doença com nome esquisito. Já veio e já pagou. Ela ou quem pode por ela.

Há alguém que entregou a casa e se mudou para longe porque viu-lhe ser cortado o ordenado em trinta por cento. Aos 40 anos voltou para casa dos pais. Sim, alguém que conheço. Alguém que também conheço reza para a patroa não ficar na lista dos “a dispensar” numa empresa que anunciou despedimentos. Alguém que sei muito bem quem é, viu um rendimento complementar crucial ir à vida porque uma empresa faliu e quem lhe pagava o aluguer voltou para onde veio, sem emprego, agora corre ela o risco de ficar sem casa. É longe.

Estou chateada. Vejo os nervos à flor da pele de quem me rodeia, sinto o medo à minha volta como nunca senti. Cheira a comida onde não devia porque antes eram sítios onde não se comia. Há quem pergunte por lancheiras bonitas. Há que nos adaptarmos, não é? Pois. E duas senhoras da Emel caçam multas à porta do café. E sei de quem este ano ainda não ligou o aquecedor porque a conta da luz não permite luxos contra o frio. Haja cobertores.

Eu sei destas pessoas e de mais umas quantas. Números? Também toda a gente parece saber de alguém e as estatísticas da crise engordam. À custa de quem?

Estou irritada, perdoem o desabafo. E no meio de tudo isto parecem capricho os cabelos brancos de repente na cabeça de uma amiga. Foi a crise. O orçamento não resistiu ao envelhecimento e deixou de haver dinheiro para tintas. Encolhe-se os ombros. Está a ficar feio este país e eu estou um bocado chateada. Hoje.

Às vezes o sapato é o limite

Viu que tinha chegado a um limite quando pôs os sapatos pretos de salto alto na mala de mão. Parou. Já tinha calcado o conteúdo e puxado o fecho, faltavam vinte minutos para o comboio e havia que atravessar uma cidade. Cabia tudo, como quase sempre. Mas agora baixava os braços. O relógio deixou de ter ponteiros, ou a corda partira-se. O tempo sentou-se com ela no sofá, mãos no rosto a aparar lágrimas que não pediram licença para cair.