Category Archives: Crónicas

Suspensa.

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Os pés pisavam a geometria do passeio. Tinham de caber no quadrado da lage ou perdiam, como no jogo da macaca.

O corpo que transportavam era uma ausência. Sem tempo nem lugar.
Cabeça a digerir informação e totalmente entregue aos pés. Eles que guiem porque transporto, fresca, uma personagem que anda e não me quero afastar dela. Mahler soa. O homem que o escritor inventou gostava de andar e de música e de pássaros e queria saber dos outros.
Vou com Julius e ausento-me. O truque é deixar-se levar e ser como um voo.

Sigo os pés que pisam o passeio com o olhar, como sigo os rostos. Desvio-me do rapaz de corpo imenso, mais um corpo que não cabe em si. Procuro-lhe expressão. É igual à de outros corpos, como se na sua desmesura perdessem a capacidade de revelar outra coisa além de um enorme “estou aqui”. Tudo é excesso excepto a expressão. Olhos encovados, lábios salientes e um olhar para a frente que não é em frente. Vão rua acima, atravessando a ilha, e eu sempre a desviar-me daquele compacto. Encontro outro rapaz de skate a descer a Maddison, e outros skateboards com rapazes e algumas raparigas em Union Square. Nevou, mas não chega. Uns turistas com sotaque russo perguntam-me que edifício é aquele e fico muda por segundos. Não era eu a estranha? Central Station, digo. Ahhhhs e ohhhhhs e o flash a disparar e eu a desviar-me do frio. Um desvio para nada.

Os pés andam, mas não sinto o resto e a dormência ajuda a seguir. Ainda tenho fresca a conversa com o escritor que falava de Pessoa, que dizia que queria andar na cidade de Pessoa para saber mais do escritor. A geografia nunca é alheia, penso na minha dormência. Esta ajuda ao passo, instiga ideias. Deambular é criar. Pelo menos para mim, aqui, como no mar. E agora era andar até me perder… talvez me encontre ou alguém me procure. Não é bem isso. É voltar a ter de saber onde pertenço. Que expressão levo eu, agora de café na mão, a aquecer o passo perdido mas que sabe o caminho? Olho-me nas montras, mas vejo uma imagem distorcida. Não me reconheço mas sei que sou eu e alguém me sorri lá de dentro. Sorrio. Uma rapariga de leggings e ténis de corrida, corre. Não me vê. Olha o chão. Olho-o também. O mimetismo sempre a intrometer-se.

Não sei há quantas horas ando. Deixei de olhar para o relógio e essa é outra perdição. Boa. Não me apetece encontrar-me nas horas, que alguém me alerte para elas. Estou suspensa. E por agora é onde me apetece estar. A terra está cheia de vontade de nos expulsar.

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In a big jet plain

Levo uma música. Não me lembro de a ter escolhido…  Gonna take you for a ride in a big jet plane.

Angus & Julia Stone a picar-me os miolos como quando os ouvi pela primeira vez numa estrada larga, a caminho do mar na costa leste da América. Foi desde aí. Um frio de rachar, eu a fazer anos e a querer esquecer que fazia.

Bela música para fugir. Pelo menos naquele dia era. Bom som para sair da idade. Agora cola-se, nostálgica, miudinha. Lá está ela enquanto os seguranças me mandam fazer tudo o que não quero.
Penso nos pés sem sapatos. A revelação pública das meias irrita-me mais do que a mulher polícia que me manda pôr os braços para cima enquanto os dela seguem para baixo, na direcção das meias. Eu ali, exposta, e vale-me a música que ganhou direito a beatificação e me iludiu nesse tempo. Para mim, a meia é mais íntima do que o pé. Nada a fazer. Gonna take you  for a ride  in a big jet plane… Não olho para os pés, ou melhor, para as meias. Angus e Julia continuam e se o pensamento tivesse headphones emprestava um à senhora que me pede agora um teste às mãos. Vestígios de quê? Posso ir detida? E assim descalça, ou melhor, de meias?

copiar receitas

 Menina escrevendo
Henriette Browne, óleo sobre tela

Os primeiros escritos voluntários foram cópias de receitas.

Sentava-me à mesa da cozinha e passava horas esquecida num mundo mágico onde entravam:
– formas
– ovos
– farinha
– açúcar
– salazares
– almofarizes.

E acontecia o milagre de chegar ao fim e “servir quente, com chocolate derretido por cima”.

O processo repetia-se. Leite-creme escrito a caneta azul, com a mão pequena a carregar bem, viagem lenta a sulcar o papel, folhas de linhas, folhas separadas que a mãe comprava em resmas à medida do vício. Ainda não andava na escola e aquele exercício juntava duas paixões: a vontade de aprender a cozinhar numa altura em que não lhe era permitido aproximar do fogão, e a de aprender a escrever. Devia ser capaz de dominar a escrita à custa de tanta cópia de coisas boas e fixar as coisas boas até não precisar mais do papel.

Noutro dia descobriu o dossier onde a mãe ainda guarda esses escritos. A letra floreada a tentar não sair da linha, a capa florida, a imitar papel de parede inglês, os aros de ferro meio enferrujados, o nome desenhado na contra-capa, nome completo, a sua pertença.

E a constatação ante aquele arquivo: salivou ao ler o que escreveu com cinco anos.

Uma balada de nova iorque

Joe Gould, bohemian artist
Philippe Halsman, USA. NYC. 1943.

Procurei por Joe Gould. Sabia-o morto, mas mesmo assim.

Não era bem eu, era eu feita personagem de um tempo que não foi um meu, de uma história que não foi minha, mas da qual me apossei.

E aquele seria um lugar provável. Mesas de madeira compridas gastas pelas mãos, pelos cotovelos, pela escrita. Procuro-lhe os sinais sem na altura perceber que pensava em alguém baixinho e enfezado, escondido debaixo de uma barba tão desfiada quanto ruiva. Talvez fossem os rostos gastos pela boémia… outros mais pela destruição pura, a que resultou da ausência de qualquer alusão ao prazer. Escrevem ou fingem que escrevem, ou fingem que lêem. Eu também finjo, afinal.
Só volto a mim quando nos olhos perdidos dos outros, aqueles cujo horizonte não vai além das imagens que lhes vão dentro. Só volto quando olho os olhos deles e eles nem pestanejam. Mas continuo sem ver Joe Gould. Vejo gente a aquecer-se numa biblioteca pública, nada mais. Lá fora gela-se. E outros que teclam e estão ali porque não podem pagar um café que lhes daria direito a uma mesa e algum tempo num lugar com vista para uma rua de gente cheirosa. Aqui, onde não está Joe Gould, cheira a pobreza e são os pobres que ali vão. Joe Gould não era de todo pobre. É chocante? O cheiro a suor e roupa suja e descuido? Pode ser, mas só para os que não sabem nada desses sítios, onde os pobres existem entre as lombadas dos livros que como eles, já poucos ou ninguém consulta. Cheiro a abandono. Joe Gould não era assim.

Mas Joe Gould não está. Claro que não, morreu.
Nunca li o obituário. Talvez vá à procura, mas distraio-me.
Sempre os outros, os que estão à volta. Escuto-lhes as conversas como Gould as escutava, seguindo o que li na vida que dele contou Joseph Mitchell, esse homem com tanto saber de jornalismo para contar de gente, e que, como Sorayan, Freeman ou Cummings, estava destinado a encontrar e deixar-se infectar por Joe Gould, o boémio assumido e tímido relutante a quem o álcool limpava a vergonha. O historiador da nossa redundância que vivia com o que tinha num saco de papel e que tantas vezes jantava ketchup antes de adormecer onde a cabeça o tombava.

Li acerca de Joe Gould antes de conhecer Nova Iorque e isso é a mesma coisa. Não é o mesmo saber dele sem saber do Village, do Bowery, do Harlem e das margens do Battery. Adivinhar-lhe os bares, ver outros, esperar encontrá-lo com o seu livro infinito debaixo do braço, pagar-lhe um café escuro sem açúcar, à cowboy, como ele gostava. Como eu gosto, lembrou-me alguém que me conhece melhor do que o Joseph Mitchell conhecia o Joe Gould. Pagar-lhe um café e ficar a ouvi-lo… Fantasia.

Vou outra vez de Nova Iorque sem ver o Joe. Lamento. Claro que continuo a olhar em volta. E no Village, justamente ali numa das ruas por onde andava, lá está ele, mas sem eu saber que ele estaria lá, dentro de um livro numa pequena livraria. “Up in the old Hotel“, uma compilação de textos escritos por Joseph Mitchell para a New Yorker, a preço de saldo. A pechincha vai comigo para casa, pelo preço de um café enfeitado por um barista de segunda. Mas só dias depois descubro, nela, Gould. O “Professor Sea Gull” constantemente a escrever a “sua” “História Oral”, e Mitchell, o maravilhoso contador de histórias verdadeiras que não lhe resiste. Porque é irresistível um homem que desdenha o dinheiro e tudo o que ele pode comprar, que vive nas ruas entre o que pede e o que lhe dão para continuar a coleccionar o que se diz, o que ouve por onde anda naquela Nova Iorque dos anos vinte, de um século que já passou inteiro. Mitchell descobriu-o em 1942 e fez-lhe o perfil, o primeiro de dois, que publicou na The New Yorker. Anos depois tornou a história mais completa e “O Segredo de Joe Gould“, assim lhe chamou, tornou-se um hino ao jornalismo e à literatura. Li-o assim, em Lisboa, há uns anos, uma edição de capa cor de rosa editada pela D. Quixote e tornou-se um dos meus livros e Joe Gould uma das minhas personagens, daquelas com quem de vez em quando dou por mim a trocar ideias. Tantos anos e ele ainda possível fora da literatura, com o seu sotaque de Harvard, onde se formou, e agora escritor de oralidades. E pode lá haver escrita melhor? 20 mil conversas tão desconexas como universais fervorosamente passadas a papel, contou Mitchell. Gould nem sempre dizia, calava mais e foi calando cada vez mais. Às vezes fingia que falava para dizer só o que queria.

No Village. Há uma toada que guia os passos. Frio, muito frio. Abro a boca para apanhar um floco de neve. Não vejo Joe Gould, alguns parecidos, mas não me lembram Joe; para falar a verdade, ninguem se compara a esse imitador de gaivotas que, como eu, gostava do rio e do grandes corpos de água, abraçadores de alma.

E estou quase a ir embora. Longe de Gould, longe do nosso Village — apropriei-me –, para longe de uma cidade que partilhamos por razões tão opostas, em tempos tão distantes em circunstancias tão diferentes.

Uma voz embala-me. Conta-me a história que Mitchell escreveu, e eu oiço, sem saber que seria um dia um embalo, uma história para eu adormecer. Mas enquanto langueio no meu embalo, vou despertando. Porque reconheço a figura de Gould, estão lá os traços, a rebeldia, mas parece que não era bem bem assim, mas também não deixava de ser assim. Era possível que fosse. Embalo, pois. A voz tem o timbre do Village, podia ser Gould. Quem sabe se não seria. Contava e contou, e no fim o título “Professor Sea Gull”… Emoção da grande.

Encontrei Gould, de facto, fora do Village, não na biblioteca. O Gould antes de eu o conhecer, graças a uma voz, e Gould tornou-se ainda mais uma das minhas baladas de Nova Iorque.

santa gula

Se há um motivo. Ter crescido na cozinha com várias mulheres que faziam da cozinha a sua vida. A comida era o centro de tudo, até o meu centro, pelas piores razões. Aos três anos uma hepatite exilou-me em paladares que eu rejeitava quase sensorialmente e faziam-me fugir do prato. A consequência imediata foi a de estimular a criatividade da minha mãe que inventava mil maneiras para me seduzir com a dieta médica. Quase consigo ver o meu ar enfastiado a comer um puré de cenoura enquanto os outros, os crescidos, se debruçavam sobre um arroz de peito feito pela minha avó. Era um prato que se confeccionava pela matança do bicho, preparado a partir da carne mais tenra e suculenta do peito do porco, um arroz muito malandro temperado a cravinho e hortelã, que se comia com colher e cheirava a jardim. Branco, com lascas de carne desfiada, e um ramo de verde. Salivava de olhar para eles enquanto era acusada de não gostar de comer. Não gostava da minha comida, isso sim, e adivinhava naquela o prazer que via em toda a expressão dos que tinha a sorte de a poder comer sem hepatites.

Era magra, niquenta, como me chamavam, e tinha na minha avó, beata, mas de uma bondade extrema, a cumplicidade na satisfação pontual do pecado da minha gula. Deixava-me ir à talha das azeitonas e tirar um punhado delas que eu saboreava como se nunca mais fosse comer uma azeitona; provava uma fatia transparente de toucinho retirado do lombo do porco mais gordo que acompanhava com uma fatia bem robusta do pão que ela amassava e cozia no forno.

A metafísica dos chocolates dizia-me pouco. Eu queria a comida que via fazer com demora, esmero, pôr a mão na massa dos rissóis que se recheavam de um creme feito de pescada que eu ajudava a desfiar; na massa dos bolos que pediam descanso para crescer, espécie de milagre a que queria assistir, levantando o pano de linho que a cobria durante algumas horas, como quem quer ver uma flor a abrir. Espreitava com o medo de violar uma intimidade.

Não gostava muito do soco na nuca do coelho, confesso, mas a partir do momento em que ele morria, ia-se a piedade e voluntariava-me para o ajudar na esfola. Não via a faca a passar pelo pescoço da galinha, mas gostava de olhar o sangue a escorrer para a taça de onde haveria de sair uma cabidela. A minha avó abria a ave e tirava-lhe pedaços de gordura amarela, a que chamava enxúdias, e que usava para temperar arrozes, enriquecer guisados e assados de carne. Dividia-a em pequenas porções e guardava-as do frigorífico. Eu ia-me deliciando com as canjas com ovos pequeninos, moelas cortadas e patas a que roía a cartilagem com toda a demora de quem não pensa no tempo. Niquenta, continuava a ouvir por causa do pouco despacho. Mas elas, as avós, as tias velhas, gostavam de me ver comer como quem debica e gostavam de me ter a ajudar. A perguntar como se fazia o queijo enquanto via a Tia Lucinda espremer as tetas das vacas. Era esse leite que eu bebia em casa. A minha mãe pedia-me para tomar conta enquanto fervia, e eu ficava vigilante e feliz com a responsabilidade que me era dada; uma mão no botão do fogão, a outra a deixar o branco chegar até ao cimo do fervedouro para só então apagar o lume, no limite de entornar. E quando entornava, a nata queimada tinha o mesmo cheiro do ferro a queimar o leite creme. Depois era esperar que arrefecesse, pegar numa colher de chá, e para a nata agarrada ao alumínio. Como eu gostava daquela gordura amarela que comia como se um pudim. Lembro-me de estar de joelhos, num banco de madeira, debruçada sobre a mesa, e de chegar o meu primo na hora exacta em que eu comia a nata e ele ter uma espécie de espasmo. Quase nenhuma criança gostava de nata. Eu adorava.

Como adorava descascar favas e ervilhas à sombra da parreira nos primeiros dias quentes do ano e ouvir alguém chamar-me para lanchar. Os olhos viajavam então pelos pacotes de alimentos. Foi neles que aprendi as letras, que li as primeiras palavras, que muitas vezes ia depois descobrir nos meus livros de gente pequena, encontrando paralelos entre os dois mundos. Escrevia ‘acucar’ até me falarem de cedilhas e de acentos. A minha mãe explicava. Eu ouvia, chupando o dedo cheio da mousse de chocolate que ela deitava na taça.
Não havia doces só em dias de festa. Se as galinhas tinham muitos ovos, havia pão-de-ló. Se as maçâs começavam a amadurecer, faziam-se tartes; no fim da vindima, a uvada que a outra minha avó mexia com uma colher de pão gigante numa espécie de banheira de cobre, sobre um lume de lenha, no quintal. Não havia cozinha para aquilo. E a fruta ia alourando até ficar de um castanho escuro, tinto, com que depois se barraria o pão, de um agridoce como não há.

Era na mesma altura da tomatada. Muitos alguidares de tomate cortado, a fermentar até serem passados pelo passe-vite, temperados com muito sal e postos em sacas de pano a escorrer água vermelha, vários dias, nas sombras do pátio. De lá, saía uma parta bem vermelha e consistente que era deitada em frascos, acondicionados com uma folga de papel vegetal e tapados de formar a que o ar não entrasse. haveria tomatada para o ano todo.

Foi por causa de tudo isto. De ver os caçadores chegarem da caça e ajudar a depenar perdizes depois de escaldadas em água a ferver. De fugir do guincho do porco na altura de lhe ser espetada a faca, para voltar logo depois para junto de homens e mulheres, cada um com tarefa bem definida, e gostar do cheiro da pele chamuscada, de gostar de ver deitar o vinagre no sangue para que não coagulasse, de ver cada corte como uma cirurgia, certeiro a separar peças e provar as primeiras febras assadas ali, pouco tempo depois. No dia seguinte haveria a grande iguaria: sarrabulho feito pela minha avó. Sem arroz, sem batatas. E não lhe chamassem papa que ela “ia-se aos arames”, ia avisando o meu avó. O dela era feito com o sangue, os fígados e o baço e quadradinhos de broa de milho. Tudo acompanhado de fatias de broas de milho fritas. Confesso que por essa altura, tinha eu menos de um metro, não me aventurava no sangue, ficava-me pelo pão naquela molho bem temperado.
Deve ter sido por tudo isto que não se consegue contar com a fidelidade ao cheiro da sopa de ervilhas acabadas de apanhar, das favas com entrecosto. Nem do sabor de uma lasca de bacalhau tirada de uma posta a demolhar. Poderia ficar aqui o resto do tempo, mas deu-me vontade de um arroz doce a sair do tacho…

no fio da navalha

A lâmina passava na pele e eu ficava suspensa no movimento. Era certeiro. Sem falhas nem hesitações, mão esquerda firme a segurar-lhe o pescoço e a outra a deslizar suave no rosto, ela fazia-lhe a barba. Se estivesse sol era no pátio, ao pé das rosas, do jasmim, à sombra das telhas onde crescia arroz de jardim, rasteiro, florido. Ele sentava-se num banco e ficava quieto, obediente às instruções que eram sempre as mesmas, havia anos, mas que nem assim deixavam de ser repetidas e acatadas como da primeira vez.

Com uma toalha ao ombro, que contrastava com o luto eterno de três filhos perdidos, ela colocava-se atrás, bacia de esmalte branco com água ao lado. Ounha-lhe outra toalha brança à volta do pescoço e desfazia o conteúdo de uma bisnaga, também branca, numa taça de porcelana. Um pincel e muita prática faziam o resto. Verificava se a navalha estava bem afiada fazendo passar o fio pela pele dos seus dedos e eu não sabia onde ela ia buscar mãos para tudo, nem como não se cortava. Agarrava-me àquele ritual como a um filme de suspense. Primeiro sentava-me a um canto, como ela, a minha avó, me instruía, para não apanhar sol, mas a impaciência e a curiosidade pelo detalhe faziam-me aproximar e dava por mim quase ao colo do meu avô, o dócil avô de poucas palavras, ali mais parado do que nunca, pernas cruzadas, boca fechada até para o cigarro sempre a queimar. À volta tudo era sereno. Os gatos deitavam-se e o silêncio tomava conta do cenário com o meu avô ao centro, sem pestanejar.
Então, o creme da taça era-lhe passado no rosto e transformava-o num homem de cara branca e lábios cor-de-rosa, como um palhaço triste. Era o que me parecia.

O meu avô perdia a identidade por uns tempos até a lâmina a devolver, cada vez mais limpa em cada passagem pelo queixo, pelo pescoço, pelas maças do rosto. Ninguém olhava para mim. A minha avó concentrava-se no gesto, o meu avô entregava-se ao prazer de ser cuidado e a um ensimesmar tão dele que ninguém sabia. E por cada passagem da navalha, o limpar da espuma na toalha, os dedos a dirigirem a cabeça na direcção certa, o corte sempre, sempre ameaçador que nunca acontecia, que nunca vi acontecer. Eu ficava entre o encantamento e a aflição. Onde aprendera ela a fazer a barba sem cortes? Nunca perguntei e ela nunca me contou. Ele entregava-se. Ela cuidava. Foi sempre assim.

saiu-me a lotaria

A bandeira é a do cartão verde para a emigração num país de sucesso.

– Sabe quantos milhões de candidatos temos por ano para entrar nos EUA?”
– Pois.
– Muitos. Da China, Índia, Brasil, Inglaterra, mas este ano estamos a dar preferência a portugueses e a pessoas com elevado grau de qualificações como é o seu caso.”
A conversa corre solta. Houve um email que foi enviado e um contra-relógio para uma oportunidade que se podia perder. Como não houve resposta houve telefonema. Um telefonema que tentava confirmar informações e dizer que estavam reunidas todas as condições para receber um green card por quatro anos. Para isso só tinha de pagar 650 dólares, assim ditos como quem tosse um número, e no segundo seguinte já perguntava o nome completo, se usava mais visa ou mastercard…?
Quando disse a profissão houve um pequeno silêncio quase imperceptível, mas a conversa prosseguiu, com a voz do outro lado a sublinhar todas as vantagens de trabalhar e coleccionar conhecimentos nos EUA.
– Anote a password. Vai ser contactada pela embaixada dos EUA em Lisboa para um teste de inglês, ‘business level’. Já agora o número do cartão de crédito e o código.
– Para quê?
– Pagamento.
– De quê?
– Dos nossos serviços?
– Que serviços, o cartão verde?
– Não, não damos o cartão verde, apenas damos apoio.
– A quê?
– A todos os problemas que possam ocorrer durante o processo.
– Mas não fui sorteada?
– Sim, para ter os nossos serviços que lhe dão melhor acesso a esse cartão. Já agora o código…
– Não pode ligar mais tarde?
– Para quê?”
– Porque sim.
– E vai perder esta oportunidade?
– Ai vou?!
– Espere que vou chamar a minha gerente.
E ela veio, falinhas mansas, simpatia a jorros, piadas sobre fraudes e a tirada de que não brincam em serviço e que isso dá cadeia nos EUA.
– Pois.
– Então, vai dar-me o código e ter os nossos serviços?
– Que serviços?
– Ser nossa cliente.
– Para quê?
Do outro lado a mulher impacientava-se, insistia. Tinha eu um computador à frente? Não, menti.
– Quando vai ter?
– Não sei, mais tarde. Não posso pagar na embaixada”, atirei.
– Não, eles só a vão chamar para um exame de inglês.
– Pois.
– Quer que ligue mais tarde, quando tiver um computador à frente? Se não tiver o dinheiro no banco nós facilitamos…
Silêncio.
– Permite-me que ligue mais tarde?
– Ok.
Desliguei o telefone, liguei para a embaixada dos EUA em Lisboa que já tinha os serviços fechados, mas havia alguém para urgências. Nunca tinha ouvido falar da USAFIS, assim se chama esta organização que se anuncia como promotora de uma espécie de lotaria de cartões verdes. Está on-line, com o site usafis.org. Facilita cartões verdes a troco de umas centenas de dólares, mas não garante. É um jogo que muitos estão dispostos a jogar e onde Portugal parece estar bem cotado, ou seja, com boas entradas.
Fui ver e não faltavam avisos sobre uma fraude com este nome usafis. Não é de agora. Tem a idade da massificação da internet. Porque é que ainda existem, pergunto eu, assim de repente?

Azul com nuvens

O homem saiu do hotel de calções e escorregou ao por o pé na chuva. Lisboa estava vazia naquele domingo de manhã. O céu de fundo azul tinha todas as tonalidades de cinza e a água caia quando queria surpreendendo quem olha apenas em frente quando quer saber do tempo, distraído sobre a importância de olhar para cima.

A manhã era nova mas já vira muito. O mendigo encolhia-se cada no vão de escadas da Rodrigo da Fonseca sem se emocionar com o cheiro a terra molhada que fizera um casal aos beijos demorar-se na varanda.

Ao som dos Tindersticks na Radar, a voz de Stuart Staples em “Slippin’ Shoes”, um carro avança na estrada e aquele melancolia tem tudo a ver. A música sabe como tirar as palavras a quem tem muito para dizer e resumir tudo num olhar.

Lá em cima, os aviões já voam sem saber que cá em baixo há um homem novo que segura uma criança no colo enquanto a outra se lhe agarra às calças. Uma mulher olha. Fortaleza que controla emoções. O homem tem os olhos a brilhar, as crianças o riso de quem ainda não sabe. Está assim o aeroporto, cheio dos novos emigrantes portugueses. Homens que vão sozinhos escondendo a vergonha e o embaraço de quem não sabia destas lágrimas. Ele é um desses, camisa de ganga fora das calças, emoções engolidas em seco. Só se desmancha quando dá um beijo na mulher. Despedida de mãos vazias. A mala já foi. Tem bilhete de ida e perde na fila da segurança.

Há mais como ele. Histórias que imagino esquecendo-me da minha e fingindo-me repórter num sítio onde não sou. E o carro corre devagar pelas ruas desertas. Sabia bem café com leite e torradas. Talvez um ramo de flores frescas. Há um avião que sobe e emudece o som da rádio.

Escuto Nocturno

As pedras estão molhadas pela cacimba de uma noite quente. Há um candeeiro a projectar sombras, a sublinhar um efeito de água que é pouco mais do que o brilho do alcatrão da estrada. O silêncio tomou conta da cidade, mesmo quando já é dia. Sassetti morreu. Não é fácil repetir a frase até a assimilar, tomar-lhe o sentido brutal. Ouço “Nocturno” apesar do sol, do bafo quente quando abro a janela. Penso no riso dele, nos olhos dele quando fixavam o piano e o piano era tudo, ainda nas mãos dele ontem, quando ouvi dizer que morreu sem ouvir no ecrã da televisão de um restaurante. Havia demasiado barulho, mas a notícia estava escrita no telejornal. Bernardo Sassetti morreu aos 41 anos. Li aquilo enquanto lhe via as mãos, adivinhando um som.

A morte enquanto impossibilidade e logo real. O embate. E a música dele que tantas vezes me acompanhou lágrimas, sorrisos. Que levei, que guardo. E as palavras, as primeiras que lhe ouvi já lá vão anos numa entrevista de rádio. As palavras depois do nome, depois da música.

Anos depois tomámos café numa casa de chá ao Carmo. Ouvi-lhe projectos com o entusiasmo dos inquietos, os que querem sempre fazer e para os quais a vida nunca tem tamanho que chegue. Nem que vivesse cem anos Sassetti conseguiria fazer tudo. Viveu 41. E é impossível não escutar no silêncio da sua música genial toda a possibilidade do génio que não chegou a acontecer por falta de tempo. E foi tanto o que aconteceu.

Escuto Nocturno enquanto o sol entra pela casa.

A gota de água

A gota era grande e refletia a rua. Caia iluminada pelo sol e com a lentidão do sonho. Pairava, como se de ar e não de água. Era uma gota espelho, mas não havia Alice do outro lado. Era toda um núcleo e nele estava eu. Tive tempo para me ver lá dentro, inteira, à distância, tridimensional. Eu, outra, aquela que caia suspensa pelo repentino silêncio dos minutos que pareciam não passar. Não havia pressa. Eu e a gota e eu na gota com a rua. E eu estranhei-me, como se estranha o som da própria voz quando gravada.

Não nos vemos como somos, tal como não nos ouvimos como soamos. Aquela imagem de mim não tinha nada a ver com a imagem de uma foto, de um filme. Era eu recortada. Eu para mim. “Vês-te? É assim que te veem? É assim que queres que te vejam? É esta a imagem que achas que passas ou queres fazer passar?”
A gota interpelava, desafiante. E eu só tinha o choque porque não me revia naquele núcleo apesar de me ter reconhecido de imediato. Era eu. Seria eu agora, eu daqui a uns tempos? Será que eu já fui assim? A gota caia sustendo-se à minha frente num momento em que eu queria saber mais de mim e devolveu-me como eu achava que não era. Não sabia se gostava ou não. Só o espanto e algum desconforto, claro. Se fosse uma bola de sabão eu rebentava-a e seguia em frente. Mas era de uma solidez líquida indiferente à gravidade.
Não sei quanto tempo esteve ali. O suficiente para eu ver o filme da minha vida e projectar nela, na gota, um futuro. E a minha imagem sempre lá, como uma boneca numa caixa de líquido, daquelas onde há neve ou brilhantes a cair e se vendem nas feiras ou agora nas lojas dos museus onde o kitsch virou trendy. Mas eu estava só, na rua, com as casas de sempre, eu na tal da minha circunstância.
Sei que a gota me queria provocar não sei mandada por quem. Terá chovido para mim, só para haver aquela gota? Ela interpelava-me e eu procurava respostas.
Dei-lhe tempo para cair. Havia uma mala para fazer, decidi. E agora tinha pressa. Eu. E foi como se a deixasse cair. Quando ela caiu olhei para o relógio e vi então que foi ela quem me deu tempo a mim. Aquele filme todo e não passou um segundo até a gota cair, como sempre, como com todas as gotas. Só que aquela fez o tempo parar até eu me decidir.