Category Archives: Livros

Vicente Jorge Silva

1467229_10201986936308968_1818893931_n

“Gostava de cultivar a tal fantasia infantil, a de que vivia num mundo em que a ilha era o único universo real e tudo o que se passava fora dele era imaginário. E que os jornais que traziam as notícias do exterior eram como invenções dos Ficheiros Secretos, com situações produzidas por uma central de informação.”

Assim vão as conversas num livro que chega amanhã às livrarias. O jornalismo, o cinema, a política, os livros, a pintura, as viagens, os muitos interesses, a frontalidade, as paixões e desilusões de Vicente Jorge Silva, fundador do Publico, da Revista do Expresso, do Comércio do Funchal

Advertisements
Aside

Hoje comecei a leitura de O Verão de 2012, um livro que antes de o abrir já me fez viajar. Fixo-me na capa. Revivo marés-baixas, banhos gelados e de sol. Leituras e livros cheips de areia de uns meses tão … Continue reading

Férias para um domingo

Procurei o que ler. Nada do que estava começado ou quase por acabar me apetecia. Apetece-me um livro como me apetece comida. Peguei num pequeno volume, páginas amarelas, uma edição da Arcádia de 1965. Abri-o e entrei no mar. É por aí que tudo começa: “Quem eram os meus companheiros daqueles tempos não me recordo. Viviam numa casa da aldeia, parece-me que em frente da nossa, uns rapazes farroupilhas – dois -, talvez irmãos. Um chamava-se Pale, de Pasquale, e pode ser que esteja a atribuir o seu nome a outro. Mas eram tantos os rapazes que conhecia por aqui e por ali.”

Ao primeiro parágrafo o livro deixou de cheirar a papel amarelo para me trazer iodo e feno, urze, chorões que pisava até os desfazer. Cada um sabe a que cheiram as suas férias, as minhas têm estes e como as de Cesare Pavese, eram em Agosto. Este é o livro, “Férias de Agosto“, uma tradução de Ana Hatherly, que vou tentar ler sem que as folhas se separem e muito grata a quem mo ofereceu.

Livros com música IV

A Pista de Gelo
de Roberto Bolaño
Quetzal

“A música que se ouvia era o Dança do Gogo, de Manuel de Falla, e ao ritmo dessa música pude ver o busto da patinadora com os braços erguidos, mimando muito mal (embora algo houvesse por dentro daquela falta de jeito) o ato de dar uma oferenda a uma divindade minúscula e invisível.”

Ironia segundo Farrell

 

Porventura não será o romance que apetece. Assistir ao limite da sobrevivência numa civilização em fim de linha. Estão lá os limites do humano, mesmo que a pose mande esquecer que se só há baratas para comer e se continue a beber o chá às cinco.

Estamos em 1857, no período pós-victoriano, um momento em que os indianos se revoltam contra os ingleses numa cidade literariamente imaginada para narrar a queda de um império, o britânico, na Índia. “Qualquer pessoa que nunca tenha visitado Krishnapur, e que se aproxime vinda de leste, deve pensar que terá chegado ao fim da sua viagem alguns quilómetros mais cedo do que esperava. Estando ainda a alguma distância de Krishnapur, começa a subir uma cordilheira baixa. Daqui avistará ao longe o que parece ser uma cidade distorcida pelo calor. Verá o brilho o brilho branco das paredes e dos telhados e um generoso arvoredo, até porventura a cúpula do que poderia ser um templo. A toda a volta, há a interminável quietude da planície, exactamente como tinha sido ao logo de muitos quilómetros; um sórdido oceano de terra agreste, na imensidão do qual se perde um esporádico campo de cana-de-açúcar e ou de mostarda.”

São as primeiras linhas de “O Cerco de Krishnapur“, o melhor teste aos resistentes a entrar no romance. A capacidade de sedução da escrita do seu autor, J. G. Farrell, a elegância com que ao longo desta narrativa vai intercalando cenas do mais absoluto horror com uma ironia tudo menos incómoda, ou metida a ferros, fez deste livro de 1973 um dos finalistas ao melhor Booker dos Bookers, prémio conquistado por Salman Rushdie, com “Filhos da Meia Noite”. Ficou em segundo lugar e é o sinal do crescente reconhecimento que existe á volta de um escritor que desapareceu cedo de mais, aos 44 anos, mas mesmo assim conseguiu o feito de ser, com Peter Carey e J.M. Coetze, um dos três autores a vencer duas vezes o mais cobiçado prémio literário de língua inglesa. A primeira vez, com este romance, há 39 anos, e a segunda com “Hotel Majestic”, no original “Troubles”, que acontece ter sido publicado três aos antes e é o primeiro volume da trilogia do Império a que pertence “O Cerco de Krishnapur”.

Confuso? talvez para quem não tenham andado a par das peripécias do Booker que não foi entregue em 1970, justamente o ano de publicação de “Troubles”. A organização do Booker quis repor a falha e mais de 40 anos depois eleger o Booker de 1970. E o prémio foi para “Troubles”, publicado pela Porto Editora no ano passado. A mesma editora que agora traz para português um livro em falta, o segundo de uma trilogia que terminou com “The Singapore Grip” (1978).

Reparada a falha, não há desculpas para não conhecer melhor a obra do escritor natural de Liverpool que um dia, no início de 1979, decidiu comprar uma casa na costa da Irlanda e descobrir que havia coisas que o estavam a distrair da escrita. Nesse mesmo ano, a 11 de Agosto, morria derrubado por uma onda enquanto pescava, o seu corpo esteve desaparecido durante um mês

Livros com música III

Um Dia

David Nicholls
Civilização

“E então é The Smiths, ‘There’s a Light That Never Goes Out’, e embora nunca tenha apreciado particularmente os Smiths, continua a bambolear-se de um lado para o outro, com a cabeça para baixo, outra vez com vinte anos, bêbado numa discoteca de estudantes. Esta a cantar bastante alto, é embaraçoso, mas ele não se importa. No pequeno quarto de dormir de um casa em banda, dançando com a filha ao som de música que sai de um comboio de brinquedo, tem de súbito uma intensa sensação de contentamento. Mais do que contentamento – júbilo” .

Assis Pacheco

O tempo desfaz-se em pó por cima do livro esquecido. Quantos anos? Antes de passar o dedo tento adivinhar a capa. Parece rosa, mas está velho. Luz e pó deformam uma cor. As telhas são vãs neste sótão de aldeia. Passo o dedo e confirmo ser o livro que há muito achava perdido. “Retratos Falados”, uma edição da Asa, uma relíquia que não sei como foi parar à pilha do esquecimento. Pego num trapo ainda mais velho do que o rosa da capa e limpo o tempo a um dos livros que me fez querer ser qualquer coisa.

Saber perguntar assim, ter aquela língua de perguntador, certeira, irónica, curiosa, capaz de criar no outro um grau de cumplicidade que o leva, ao perguntado, a deixar cair as armas, ao desconcerto. E saber a deixa, sempre, ser interlocutor numa conversa mais do que ser entrevistador.

Foi naquele livro que li pela primeira vez Fernando Assis Pacheco. Li-o nas perguntas e nas respostas a que elas levavam e eu quis saber fazer aquilo.

Aprende-se? Alguma vez se aprende a ser assim, a fazer assim? Mas tarde soube que se pode tentar, mas só ele sabia ser assim. Li-lhe depois os poemas, todos os livros. Fui ver como uma das suas filhas lhe ilustrou capas de obras póstumas. Amigos que privaram com ele contaram-me que ia em reportagem, e não tomava uma nota e era capaz de contar a história como ninguém. Cada vez o admirava mais.
Quando comecei  também a perguntar quis um dia poder perguntar-lhe, mas a vergonha ia-me impedindo até que ele um dia, cedo de mais, não voltou a perguntar nem a contar, nem a fazer poemas com a vida. Sem nunca o ter conhecido pessoalmente, chorei. Confesso agora sem vergonha das lágrimas, mas envergonhada pelo meu orgulho, a pena de nunca ter tido coragem de lhe perguntar o que quer que fosse mesmo que tivesse feito triste figura.

Volto ao pó. Peguei no livro e limpei-lhe o tempo depois de ter lido a biografia que a Tinta da China acaba de editar sobre Assis Pacheco. Quis voltar a ler-lhe as perguntas e sabia que esse livro tinha de existir. “Trabalhos e paixões de Fernando Assis Pacheco”, de Nuno Costa Santos, título inspirado em “Benito Prada” e na Galiza que corria no sangue do coimbrão.

Voltei às entrevistas de papel amarelo, feitas a gente que já morreu ou já perdemos ao vasto horizonte do tempo. Só ele, Assis, escapou ao pó.

Os meus livros

Não sei quantos livros li em 2011. Já vai o tempo em que contava. Mais do que em 2010, quase de certeza. Sei também que muitos dos livros que li em 2011 não foram publicados em Portugal nesse ano. Sei ainda que fiz poucos sacrifícios de leitura. Só aqueles a que fui obrigada por razões profissionais. Não há muito tempo para que a leitura não seja um prazer. Faço o meu balanço afectivo. Os de 2011 em que mais me envolvi, que foram um imenso prazer ler. Escolhi onze, para ficar com a mesma terminação do ano que acabou.

Dublinesca“, Enrique Villa-Matas, Teorema
O Retorno“, Dulce Maria Cardoso, Tinta da China
O Colosso de Maroussi“, Henry-Miller, Tinta da China
O Quarto de Jack“, Emma Donoghue, Porto Editora
A Ilha de Sukwan“, David Vann, A Ahab
C“, Tom McCarthy, Presença
A Cidade de Ulisses“, Teolinda Gersão, Sextante
Contos dos Subúrbios“, Shaun Tan, Contraponto
A Contradição Humana“, Afonso Cruz, Caminho
O Filho do Desconhecido“, Allan Hollinghurst. D. Quixote
O Homem que Gostava de Cães“, Leonardo Padura, Porto Editora

E para 2012 trouxe 12 livros que não consegui ler em 2011. Hei-de arranjar tempo, pelo menos para estes. Outros virão porque os livros têm a mania de se acumular e há sempre mais olhos que barriga.

As Luzes de Leonor“, Maria Teresa Horta,Dom Quixote
Puta que os Pariu! a biografia de Luiz Pacheco“, João Pedro George, Tinta da China
Vida e Destino“, Vassili Grossman, Dom Quixote
O Museu da Rendição Incondicional“, Dubravka Ugrešić, Cavalo de Ferro
O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente“, João Paulo Cuenca, Caminho
Apenas Miúdos“, Patti Smith, Quetzal
O Livro dos LivrosA.C. Grayling, Lua de Papel
Vieram como Andorinhas“, William Maxwell, Sextante
Macedo – Uma biografia da infâmia“, António Mega Ferreira, Sextante
Contos Completos“, Gabriel García Márquez, D. Quixote
Comissão das Lágrimas“, António Lobo Antunes. D. Quixote
Canções Mexicanas“, Gonçalo M. Tavares. Relógio d’Água

Não, não passei o ano em Time Square

A mão no bolso trouxe areia da praia. Havia meses que não a pisava.

O cachecol ficara em casa e, encolhida, voltava às luvas com o verão a sair-me da algibeira. Em West Village, subo a Broadway e empurro a porta na esquina com a 12. Último dia de um ano que todos parecem querer ver pelas costas, mesmo na certeza de que o que aí vem será talvez pior. Mas se é para vir, que venha logo. De cor, fazem-se balanços. Estão por todo o lado para quem quer estas coisas em self-service e cada um veste o balanço que lhe serve.
Penso nos meus. Nos rostos, sobretudo. Ganhos e perdas. Quem chegou e quem foi. Onde estive, onde quis ir e não fui, onde falhei, o que ganhei. Os pensamentos andam soltos como as emoções e entro assim na Strand.

O frio do nariz derrete naquele calor feito de 18 milhas de livros. É a maior colecção de livros usados, antigos, o maior fundo de catálogo de uma livraria, a perdição dos viciados em papel impresso. Gula diante do banquete. Os novos, os velhos, os sucessos, os best-off, os malditos, os alternativos… A certeza de que vai faltar sempre tempo é física e arrepia mais do que a temperatura lá fora. Vários pisos de lombadas que mais parecem um depósito de velha biblioteca do que uma livraria contemporânea. Só o merchandizing e as primeiras ilhas tentam os espíritos mais consumistas. O resto são livros arrumados mais ou menos por géneros, segundo uma lógica que ficou do seu fundador, Ben Bass, em 1927, e que os seus sucessores conservaram mais de oito décadas depois.

Uma rapariga abre um livro e cheira. Chama o pai e partilham o aroma de uma velha edição de “Proud and Prejudice” no escaparate dos clássicos e há quem se perca na “Americana”, estreitas alamedas de prateleiras dedicadas à ficção nacional. Parece uma caminhada rumo a uma decadência desejada que se acentua no piso de baixo, piso de betão cru onde o amarelo das folhas guarda fórmulas matemáticas e teorias sociais novas ou em desuso.
E há gente por todo o lado, atropelos por uma descoberta, uma pechincha.

Volto às escadas, agora para subir até ao princípio de tudo, à entrada. E no princípio lá está uma perda, recente, ainda muito viva, raiva que já tinha serenado. A da impotência perante a mais cobarde das doenças. Sorrateira, leva-nos alguns dos melhores. Christopher Hitchens, o jornalista que quase todos os jornalistas viam como referência, fora vítima dela aos 62 anos, o momento em que o seu faro e a sua qualidade de escrita estavam no ponto. Ali está Hitchens na sua ausência. Agora memória em quase todos os seus livros editados ou reeditados. Pego em alguns na esperança de algum contágio de talento.

Como era ser Hitchens? O escritor, o repórter de guerra, o apaixonado narrador de uma actualidade sobre a qual não abdicava de ter uma posição. Polémico, arguto, activista contra as religiões que um dia escreveu que “Deus não é Grande”, romance best-seller, alguém que desde que soube que tinha um cancro passou a falar da morte nos seus artigos na “Vanity Fair”, onde escrevia desde 1992 depois de ter chamado “sexy” à rainha de Inglaterra e ter escolhido a América para viver. O menino de Oxford e Cambridge que achava que não tinha jeito para nada acabou por ser uma estrela das palavras. Não das palavras vazias, mas das que geram reacções apaixonadas. A mãe ensinara-lhe que não havia nada pior do que ser aborrecido,a mãe que um dia aparecera morta. Esse aborrecimento era o maior medo deste boémio, conversador, fumador e bebedor convicto.

Sigo de um livro para o outro. Ponho todos num monte. Abro o de citações, recomendado pelo seu melhor amigo, o escritor britânico Martin Amis. Decido-me por “Hitch-22: a Memoir”, um jogo de palavras entre o seu nome e o romance de Joseph Heller, “Catch-22”. Foi o seu último livro, uma autobiografia que estava a escrever quando soube da doença. Foi editado em 2010, na Primavera. A tempo de ser comentando e promovido pelo próprio jornalista; a tempo de terem sido publicadas críticas e recensões em vida do autor. Trouxe-o comigo. Hitchens por Hitchens. Interessa-me.

É uma das minhas memórias de 2011. Está por abrir. Espero o momento, o sofá, a companhia para uma conversa. Sei que vou encontrar lá dentro alguns grãos de areia que tinha nas mãos quando o folheei. Areia de um dia de sol em 2011. Vou encontrar também o cheiro a papel da Strand e aquele outro dia desse mesmo ano em que subi a Broadway de mãos dadas.

Livros com música II

Deixa o Grande Mundo Girar
Colum McCann
Civilização

“Joshua gostava dos Beatles, costumava ouvi-los no seu quarto, conseguia ouvir-se o ruído mesmo através dos grandes auscultadores de que ele gostava tanto. Let it Be. Uma canção idiota, de facto. Se deixares andar as coisas, elas voltam. Essa é a verdade. Se deixares andar as coisas és arrastado para o chão. Se deixares arrastaras coisas, elas trepam pelas tuas paredes.”