Category Archives: Livros

Livros com música I

Errata
George Steiner
Relógio d’Água

“A minha incapacidade de cantar ou tocar um instrumento é humilhante. Mas é frequente a música pôr-me ‘fora de mim’, ou mais exactamente, numa companhia muito melhor do que a minha. Materializa o oxinoro do amor, essa fusão de dois indivíduos na unicidade, sendo que cada um deles, mesmo no momento do uníssono espiritual e sexual, conserva e enriquece a sua identidade. Ouvir música com o ser amado é estar numa condição simultaneamente privada, quase autista, e todavia estranhamente envolvida com o outro (a leitura a dois em voz alta não atinge o mesmo nível de fusão).”

A reflexão daquele que é um dos mais brilhantes pensadores da actualidade, George Steiner no livro autobiográfico “Errata: revisões de uma vida), surge na sequência do relato de um facto:, terá sido a música a salvar o filósofo Wittgenstein do suicídio. E que música? “o lento movimento do terceiro quarteto de Brahms.

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Os cafés, a Europa e um dia a morrer de frio

Salvaram-me os cafés de Viena.

Os mesmos agora classificados como Património da Humanidade pela Unesco, e onde além de mim num dia de gelo, se sentaram Sigmund Freud, Thomas Bernhard ou Romy Shneider, a alemã que fixou no cinema o rosto da Imperatriz Sissi.

Calhou-me fazer uma reportagem de rua num dia de vinte graus negativos e a cada meia hora lá estava eu a pedir um ‘brauner’, que é como quem diz um café com leite, e a sentir o degelo no nariz, nos pés, em tudo o que era osso. Bastavam dez minutos. Saboreava cada gole, distraída com as conversas dos outros de que não entendia metade, folheando os jornais presos naquelas molas de madeira como quase já não há, via passar o carrinho dos bolos que pela primeira vez ultrapassavam a minha imaginação que vinha dos livros ilustrados de infância. Aquela madeira, o tinir da campainha na entrada, o cheiro a mocha, as mulheres de longas luvas que mesmo no frio não perdiam a elegância… Sentia-me num romance do início de século. Mesmo por dez minutos que repeti as vezes que pude com a desculpa de não congelar. Sobrevivi graças aos cafés de Viena que procuro em cada cidade europeia ou não, que fiquei feliz de descobrir em Nova Iorque, onde vou sempre que posso em Lisboa. Mas só em Viena são como os de Viena. Mais de mil pequenos territórios a preservar contra a onda do snack que foi praga em Lisboa ou as pastelarias de néons.

Pensei nesse dia e num livro, pequena preciosidade, editada em Portugal em 2005, pela Gradiva. Nele George Steiner discute a ideia de Europa. Uma recorrência cada vez mais urgente de definir como a identidade europeia num momento em que muitos dos seus valores parecem estar em agonia. O desafio é dar respostas, recorrendo o menos possível à abstracção. E George Steiner começou pelas cafetarias e cafés. Onde se incluem as de Viena, as de Lisboa, as de Paris.

É isso que George Steiner faz em A Ideia de Europa, livro que recupera o texto – e o título – de uma palestra que o escritor proferiu no Nexus instituut de Amesterdão, durante a presidência holandesa da União Europeia, em 2004. “Enquanto existirem cafetarias, a ‘ideia de Europa’ terá conteúdo”, escreve um dos homens que mais têm reflectido sobre a cultura europeia e que aponta o café como o primeiro substantivo a associar à ideia de Europa.

A cafetaria com todo o seu peso literário é início de um ensaio que faz a exaltação da cultura e da memória enquanto legado. “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (…). Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘Ideia de Europa'”.

É o primeiro dos cinco axiomas apresentados por Steiner para definir a “ideia de Europa”. “Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino”.

O segundo é a relação entre os europeus e a geografia que habitam, uma relação que encontra nas figuras do pedinte ou do peregrino a sua materialização, metáforas da caminhada que confere uma cadência propícia à teorização. “A Europa foi e é percorrida a pé”, escreve Steiner, aludindo às longas marchas de que é feita a História da Europa e acrescentando “As belezas da Europa são inextricavelmente inseparáveis da pátina do tempo humanizado”. Um “tempo” que remete para a lembrança, terceiro axioma europeu. O passado tornado sempre presente e gravado nas pedras que dão nomes de pessoas a ruas e praças.

Mas é na síntese de duas culturas, a de Atenas e a de Jerusalém, que Steiner encontra a singularidade da cultura europeia. “Muito frequentemente, o humanismo europeu, de Erasmo a Hegel, procura diversas formas de compromisso entre ideais áticos e hebraicos.” E conclui “A ‘ideia de Europa’ é (…) um ‘conto de duas cidades’.”

Há, por fim, a “consciência escatológica” – o “pânico do ano mil” -, que, no entender de Steiner, é exclusiva do modo de ser europeu, “como se a Europa (..) tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História”.

Doseando um desencanto actual com algum optimismo futuro, George Steiner – judeu nascido em Paris em 1938- revela, por vezes, algum ressentimento face ao cristianismo. Um azedume pontual, antes de indicar um caminho para a Europa o do “humanismo secular”.

E tudo isto a propósito de uma memória de um dia em que eu ia morrendo de frio, não fossem os cafés de Viena.

Uma comédia social

De onde vem aquela voz? “Neste momento acho que a Inglaterra está muito contente por não fazer parte da zona euro.” O tom aristocrata, o sotaque cerrado, colocação teatral, timbre de tenor, o silenciar das vogais a remeter para outro tempo, para um cenário vitoriano, precisamente aquele que começa por retratar e questionar no seu mais recente romance, “O Filho do Desconhecido” (D. Quixote) candidato a muitos prémios, entre eles, o Booker, vencedor de uns quantos, aplaudido pela crítica, celebrado pela imprensa mundial. Um livro que tem quase a duração do século XX, vai de antes da I Guerra à década de oitenta. “Se tivesse de o classificar diria que é uma comédia social feita a partir da hipocrisia e da afectação das classes mais altas.”

Alan Hollinghurst , 57 anos, escritor lento, de quatro romances em duas décadas, considerado um dos mais exímios manipuladores da língua inglesa, homem cheio de referências literárias que transporta para os seus romances, alguém que gosta de pegar numa certa realidade e ser cínico com ela, já pôs Margaret Thatcher a dançar numa das suas ficções, justamente em “A Linha da Beleza” com o qual conquistou o Booker em 2004. Aí havia o retrato de uma época de excessos. Agora, em “O Filho do Desconhecido”, há um fresco sobre o escondido, o jogo de segredos em que vive essa mesma aristocracia.

O livro está pousado em cima da mesa ao lado do bule com o chá da tarde. Não o dispensa. E os olhos distraem-se por momentos nos ecrãs de televisão colocados na parede. Interroga-se sobre se é verdadeiro o bigode do entrevistado num dos canais. É José Mário Branco na RTP Memória. Não se fixa no futebol, volta à economia. “Nós não estamos bem, mas vejo uma Europa ainda mais aflita”, comenta este observador de costumes, com a tal voz que parece um ensaio, retirada de uma das personagens dos seus romances. “Como é que os portugueses estão a viver tudo isto?”. Ele é um espectador. Está na posse da informação, mas não do quotidiano, e enquanto escritor é o detalhe que lhe interessa. Descreve-o como poucos. Tanto o detalhe de carácter como o pormenor da arquitectura. Acredita que os ambientes determinam os comportamentos e não foi por acaso que escolheu uma casa e uma família da aristocracia rural dos arredores de Londres para escrever sobre como se derrubam e recuperam costumes, para falar da ambiguidade e questionar o difícil que é saber a verdade sobre uma pessoa. “Se no início do século XX ninguém estava interessado na vida sexual de alguém, no final do século é só isso que se quer saber, e ao mínimo detalhe”.

É a última entrevista em três dias em Lisboa. Dentro de pouco tempo irá apanhar o avião de regresso a Londres. Já perdeu conta às vezes em que falou sobre o que quis quando escolheu para personagem central do livro Cecil Valance, um poeta que vive no ambiente de Cambridge, herdeiro rico, fisicamente perfeito, adorado por homens e mulheres, sedutor, sexualmente ambíguo, que morre na I Guerra aos 25 anos e deixou uma lenda. Matéria para a interrogação que se segue e percorre o resto do livro: “Quem é Cecil?”, o homem que está na capela da casa de família, num túmulo com a sua figura esculpida. “Interessava-me ver o que acontece ao longo do tempo com a reputação de alguém que morre cedo”. Acontece que ela se altera, não apenas no tempo, mas nas interrogações individuais acerca dela. Cada um está na posse de uma verdade. Um monstro ou o homem perfeito? Um ‘gay’ que parece ser um bi-sexual, um artista com poucos princípios. Nenhuma personagem tem a informação toda. Nem o leitor.

Hollinghurst gostou de jogar esse jogo. Por isso fechou portas, conteve-se nas cenas de sexo que eram comuns e bastante explícitas nos livros anteriores. “Se calhar deixei muita gente frustrada, mas não tinha a ver com este livro, nem quis correr o risco de me repetir”, declara o escritor que parece ter-se libertado de vez do rótulo de autor ‘gay’. Não é só isso. É muito mais do que isso. Quanto mais? “Nada de muito interessante”, ri. Se alguém um dia quiser fazer a sua biografia irá aborrecer-se de morte, avisa. “Não há nada de muito excitante.” Segredos? A dificuldade que é sempre reconstituir a vida de alguém, porque há sempre coisas que se calam, como calaram os que conheciam e se envolveram, com Cecil, quando interrogados pelo seu biógrafo. A mentira, a perda da memória, a memória que se reconstrói, a si própria, o ego, os silêncios, o passa-a-palavra. É mais o que se cala do que o que se diz em relação a Cecil. E Hollighurst? Ele que gosta de espreitar os ‘ateliers’ de escrita dos outros escritores nunca revelou o seu. “É um lugar sagrado. Uma espécie de superstição”, ri. Dá um bombom: há uma pilha de CDs, mas quando escreve exige silêncio total. “Jamais conseguiria escrever algo a ouvir REM”.

Passaram sete anos desde que venceu o Booker e sabia que os olhos estavam postos nele. A expectativa era alta. Havia apostas no mundo literário em como ele iria bisar, mas garante que o fantasma do Booker anterior nunca interferiu na escrita deste “O Filho do Desconhecido”. No início, o prémio serviu como estímulo, depois esqueceu-o. O objectivo não deixou de ser o de sempre: escrever um bom livro. Quando saiu houve barulho, foi seleccionado, mas não chegou à ‘shortlist’. Garante que não se incomodou com isso, mas o ponto final da frase é um riso irónico. Leu o romance do vencedor, “O Sentido do Fim” (agora publicado em Portugal pela Quetzal) e gostou. “Merecia estar na ‘shortlist'”. E o seu? “Não vou dizer isso, mas vou dizer que o livro de Edward St. Aubin, ‘At Last’, deveria lá estar, como o de Ali Smith, ‘There but for The’. “E diz também que este ano a ideia era premiar uma literatura mais popular. “A presidente do júri não era propriamente conhecida pelas suas capacidades literárias”. Ponto final parágrafo com uma gargalhada.

Publicado no Diário Económico de 18/10

Guiador de comida

A minha mãe passou a enorme fila de clientes e pediu por tudo que a deixassem telefonar. “Se quiser fique com o meu relógio”, disse. Era a única coisa que tinha depois da porta de casa se ter fechado, deixando-a trancada na rua. Do outro lado do balcão, a mulher com ar de sargento perdeu a fúria, adoçou-se depois do silêncio do desconcerto. E quem conhece, sabe que essa doçura não é fácil. “Fica mas é cá a senhora a lavar pratos”, foi o mais açucarado que lhe saiu.

Os frequentadores sabem dos riscos de furar aquela fila, sobretudo aos sábados de manhã. O Espigasol faz parte da minha vida em Lisboa. Comprar os caseirinhos para o lanche, as areias para ir debicando. Todos os dias, paragem obrigatória a caminho de casa. Era assim e agora vejo-a no “Lisboa à Mesa” e é como ver revelado um segredo à cidade, coisa pessoal.

É assim o guia de que se fala, revelador de intimidades urbanas descobertas ao ritmo de passeios a pé.  Restaurantes, tascas, mercearias e mercados, lojas gourmet e uma drogaria como só aquela, lá para Santos. É o essencial guia para foodies. Gente que gosta de comida, de passeios pela cidade e de se rever nas palavras desse caminhante citadino que o Miguel Pires é e que passou agora para o papel. 50 lugares favoritos onde comer, 25 lugares favoritos onde comprar, 280 entradas escolhidas segundo um critério pessoal, sempre que possível com um factor distintivo face ao resto, o tal factor ‘X’, como lhe chama o autor. Lugares únicos onde comer, onde encher o cesto ou fazer o gosto à gula. não, um, mas antes O petisco, ou pitéu… de se comer.

O meu guia já tem uma nódoa. Sorry. Sinal de uso em sítios de comer. Anda comigo pela cozinha. É onde gosto mais de o consultar. E onde está a nódoa? No Espigasol, mesmo ali no factor X: “se tiver dúvidas, faça uma ou outra pergunta, mas não abuse. Em caso de desespero, peça o mesmo que o cliente anterior. Acima de tudo, não quebre o ritmo do atendimento. A gerência agradece.”

Este guia de Lisboa, agora publicado pela Planeta, e assinado pelo Miguel Pires, estava longe de ser editado quando a minha mãe quase hipotecou o relógio por um telefonema. Por essa altura o Miguel andava pelo mundo da publicidade e comia nas horas vagas. Agora é um dos nomes mais respeitados a escrever sobre lugares de comida e um dos três fundadores do blogue Mesa Marcada, com o Duarte Calvão e o Rui Falcão.

Fez um guia de escolhas. Notam-se faltas. É natural. A ideia não era ser exaustivo. Era seleccionar. E não contempla alguns dos espaços que abriram nos últimos dois meses por razões de produção editorial. O “Lisboa à Mesa” é lançado hoje, na Livraria Ler Devagar da LX Factory, mas já está disponível.

Destaque ainda para o trabalho gráfico de Luís Alvoeiro Quaresma e para as ilustrações de Tiago Albuquerque.

O Ano do Dilúvio

Um dia um poeta canadiano prometeu-me uma entrevista com ela. Era sua amiga e seria tão fácil.

Foi em Itália. Ele estava lá para a entrega de um prémio e eu a assistir. E assim me vi a entrevistar Margaret Atwood, uma das minhas escritoras de eleição. O prémio foi entregue. Vieram buscar-me e eu nunca mais vi o poeta e lá se foi a entrevista. Até hoje. Desde aí, cada vez que abro um novo livro da poeta, ensaísta, crítica literária, intelectual com uma imaginação prodigiosa, activista política qb e imensa romancista dá-me nó na garganta por essa oportunidade perdida. Não sei se ela era ou não mesmo amiga do tal poeta. Não sei se ela me daria a antevista, mas ficou e foi com esse “se” que o li “O Ano do Dilúvio”, leitura que aguenta uma viagem longa sem que a atenção se canse ou os olhos se desviem, mesmo quando a intriga entra numa espiral por vezes a roçar o alucinante. Não quero dizer confuso, embora tivesse por vezes de recuar na página. Claro que a capa prometia este mundo e o outro. “Na voltará a ser como antes depois de ler este livro.” É bom que não, penso eu. Afinal são 473 páginas e raramente me atiro a um livro que espero me deixe exactamente na mesma. Não é a frase para vender que me convence, mas o nome e a qualidade da vasta obra, tantas vezes premiada desta autora natural do Otawa, onde nasceu em 1939 e uma das muitas a ser apontada como candidata ao Nobel. Já apanhei algumas desilusões, apesar de tudo. Acontece. Afinal são mais de 50 títulos os que já publicou. Neste livro A trama recupera alguns dos despojos do livros anterior, Orix e Crax, também editado em Portugal pela Bertrand, e acompanha uma pequena seita saída dessa catástrofe. O resto é a capacidade narrativa de Atwood e a sua argúcia para detectar os pequenos/grandes nós da humanidade e disso de se ser humano que, nos seu caso, nunca é muito separável do animal e muito menos da paisagem. “De manhã cedo, Toby sobe ao terraço para ver o nascer do Sol. Usa um cabo de esfregona para se equilibrar – o elevador deixou de funcionar há algum tempo e as escadas das traseiras estão escorregadias de humidade, pelo que, se ela escorregar e cair, não vai haver ninguém para a levantar.
“À primeira vaga de calor, levanta-se neblina no meio do abate de árvores entre ela e a cidade em ruínas. O ar cheira levemente a queimado, um cheiro a caramelo e alcatrão e churrascos rançosos, e ao odor bolorento, mas gorduroso de um fogo de lixeira depois de ter estado a chover. Ao longe, as torres abandonadas são como o coral de um antigo recife – carcomidas e incolores, desprovidas de vida.”
E Ren há-devir juntar-se a Toby num livro que muito boa gente considerou por vezes caótico na organização. Acho que Atwood gosta disso, de lançar a confusão nas cabeças. Justamente quando este livro foi publicado em língua inglesa, em 2009, os editores sugeriram-lhe que criasse uma conta no Twitter para promover a obra. Atwood estava longe de saber o que era ou como usar essa ferramenta ‘promocional’- Numa entrevista disse que pensava que era coisa de crianças. Hoje tem quase cem mil seguidores, entre ele, e não são poucas as tiradas humorísticas, provocatórias, políticas, desta senhora de 71 anos que não evita uma boa polémica.

Passageiro do fim do dia

Pedro apanha o autocarro ao fim do dia e vai do centro da cidade para a periferia, um bairro chamado Tirol, visitar a namorada, Rosane. É hora de ponta e a viagem demora. Há tempo para ler um dos livros de Charles Darwin sobre as suas viagens ao Brasil e também tempo para deixar correr os pensamentos, entrar em reflexões . Resumindo, esta é a trama que valeu ao brasileiro Rubens Figueiredo o Prémio Portugal Telecom de Literatura com o livro “Passageiro do Fim do Dia”, editado no Brasil pela Companhia das Letras, e já vencedor do Prémio São Paulo de Literatura que elege o melhor livro do ano publicado no Brasil. O português Gonçalo M. Tavares ficou em segundo lugar com o romance “Uma Viagem à Índia”, que lhe valeu cerca de 14 mil euros.
Rubens Figueiredo, professor de português e de tradução na PUC do Rio de Janeiro, sucede ao mediático Chico Buarque que em 2010 ganhou os cem mil reais do prémio (41,7mil euros) não sem alguma polémica. Então, não faltou em considerasse que a decisão tinha sido puramente mediática e não teve em com a qualidade literária dos outros concorrentes. Desta vez, quando foi anunciada a lista dos dez finalistas de um total de 380 concorrentes, os mais ortodoxos não se manifestaram quanto à qualidade das obras a concurso onde estavam dois livros de dois autores portugueses: “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M.Tavares; “As Três Vidas”, de João Tordo.
“Fico muito feliz e só consigo dizer isso. Me desculpem o mau jeito”, disse o autor na cerimónia de entrega do prémio, no passado dia 8, em São Paulo, na Casa Fassano. Mais tarde, ao jornal ‘Público’, o escritor foi mais longe e falou do processo criativo que o levou ao que muitos críticos consideram ser o romance que o afirma como uma das vozes mais sólidas da altura literatura brasileira: “como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus’, especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus’ para ir e dois ‘ônibus’ para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano”.

A negação da banalidade
A atenção ao pormenor, aos pequenos detalhes que ocorrem em situações rotineiras são o ponto alto de um narrativa que vive disso mesmo: da negação da banalização do quotidiano, mesmo que ele seja opressivo, como é qualquer viagem de autocarro de uma centralidade onde tudo acontece para uma periferia onde acontece o que “não deve” ou o que é varrido desse centro. São histórias de violência, de exclusão nas quais Rubens pega com conhecimento de causa. Ou seja, enquanto passageiro frequente de autocarros entre o centro e a periferia. Mas como ele sublinha, esta não é a sua história, nem de um lugar concreto. É a história de Pedro, um rapaz ficcionado, e das suas cogitações e recordações e preocupações. Do ambiente que o envolve enquanto viaja num autocarro. “No quotidiano se concentram os processos mais importantes da dominação social. É onde as relações sociais se produzem, se reproduzem, se justificam e são esquecidas. E também é onde eles mais se empenham em se manter ocultos”, declarou numa entrevista recente, ainda antes de saber que viria a ganha o prémio PT.

O Booker português?
Bastante popular no Brasil, onde tem um prestígio que ainda não atingiu em Portugal, o Prémio PTde Literatura, distingues livros em português publicados no Brasil. E vale quase tudo: poesia, ficção, biografia, dramaturgia ou crónica.
Criado em 2003 com o objectivo de contribuir para a promoção da língua portuguesa, “ainda não é o Man Booker ou o Pulitzer ou o Goncourt português. Mas um dia será. Não desistimos dessa ambição”, disse Henrique Granadeiro, o presidente da PT, durante a cerimónia de entrega de um galardão que tem a ambição de estimular e encorajar “os melhores talentos”. Ao fim de nove edições já premiou nomes como Bernado de Carvalho, Milton Hatoum ou português Gonçalo M. Tavares (em 2007, com “Jerusalém”). Desta vez foi para um romance que pretende ser uma crítica às desiguladades sociais na cidade do Rio de Janeiro onde Rubens Figueiredo nasceu em 1956 e onde vive. Foi lá também que se formou em letras e é lá que ensina.

Duplo Jabuti
Escritor nas horas vagas, como se define, escreveu o seu primeiro livro há 23 anos. Em 1998 venceu o prémio Jabuti, um dos mais prestigiados para autores brasileiros, com o livro de contos “As Palavras Secretas”. Repete o feito em 2002, desta vez com um romance, “Barco a Seco”. Nesseano, fazia um balanço sobre a sua obra: “Os três primeiros romances que escrevi são francamente humorísticos e debochados consigo mesmos. Os três livros seguintes têm outro tom. A mudança não se limita ao desvio do humor. Cada pessoa escreve como pode, à luz do que consegue pensar no momento. O humor, aliás, costuma ser uma defesa que se faz passar por um ataque. Um floreio da mão direita, que desvia nossa atenção daquilo que a mão esquerda está fazendo ou deixando de fazer.”
Não se deslumbrava com a consagração. Perguntava pelos livros esquecidos depois de lidos e premiados. E aí colocava os seus. Quem se lembrava deles? Talvez por isso tenha abandonado o trabalho de tradutor. A qualidade e a profundidade da escrita de Rubens Figueiredo não é decerto alheia ao modo como pratica a tradução. Envolve-se o mais que pode com os autores, do ponto de vista criativo. Quer perceber o processo e a sua perspectiva é a de que o tradutor é também um autor quando passa uma obra de uma língua para a outra. “Traduzir é escrever – em termos concretos, mecânicos e intelectuais, pois transpomos ideias e sentimentos de um idioma para o outro. Mas também vale o oposto: escrever é traduzir, pois transpomos”, diria sobre o assunto depois de ter traduzido Anna Karenina.
O seu percurso conta com mais de 40 livros traduzidos, com destaque para a literatura russa, e concilia isso com as aulas de português. Daí a escrita pertencer às horas vagas e ter começado em 1986. E logo com um romance: “O Mistério da Samambaia Bailarina”. Não demorou até ao segundo título, “Essa Maldita Farinha. Foi no anos seguinte, em 1987. Em 1990 publica “A Festa do Milênio” e em 1999, “O Livro dos Lobos”, que relançaria quase dez anos depois, totalmente reescrito. Pelo meio ficou “Contos de Pedro” e com o mais recente livro foi o que se viu. “Pensei que seria possível questionar, investigar e conhecer aspectos importantes do quadro histórico atual por meio dos recursos oferecidos por um romance. Tomei o cuidado de não mencionar datas nem nomes de lugares reais. Não porque eu pretendesse conferir um cunho universal ao livro. Ao contrário: eu queria que os aspectos concretos e particulares pudessem ser percebidos como partes de uma experiência familiar, vivida e bastante generalizada, mas não universal, nem fora de um tempo. A saber: a experiência de estarmos submetidos a um processo social que precisa a todo custo manter-se oculto.”

Artigo publicado na edição de 11.11.11 do Diário Económico

A harpa

“Quando é que ouvi falar pela primeira vez da harpa de ervas? Muito antes do outono que passámos na amargoseira; num outono anterior, portanto; e, como não podia deixar de ser, foi Dolly que me contou, pois mais ninguém se lembraria de lhe chamar isso, uma harpa de ervas.”

É Truman Capote num dos seus mais belos livros, “A Harpa de Ervas”, que a Sextante reedita em português. Que bom que é reler este Capote. Junte-se as palavras à foto, em cima, de Cartier Bresson, e temos um raro momento de beleza

Na linha de Hollinghurst

 

Comecei hoje bem pela fresca a ler o último romance do britânico Alan Hollinghurst, “O Filho do Desconhecido“. Apontado como um dos favoritos a vencer o Booker Prize, acabaria por perder para outro grande da literatura inglesa, Julian Barnes. Se acontecesse vencer, seria a segunda vez para Hollinghurst. Já o tinha ganho em 2004 com “A Linha da Beleza“. Uns meses depois conversei com ele e parte dessa conversa foi publicada num texto no DN. Recupero-o agora enquanto já estou agarrada a este novo livro

Aventuras no país do luxo e da extravagância
10 Julho 2005

“- Primeira-ministra, quer dar-me a honra de uma dança? – Sabe, aí está uma coisa de que eu gostaria muito – disse a primeira-ministra, com os seus tons de peito, o contralto da convicção. À volta dela, os homens trocavam risinhos desdenhosos e horrorizavam-se perante uma audácia que os ultrapassara. Nick ouvia todo o episódio acumulando já o seu comentário, a sua história, enquanto saía da sala com ela no meio de esgares de surpresa, da súbita mudança do centro de gravidade, um efeito que nenhum deles poderia ter causado e a que nenhum deles era capaz de resistir. Quanto à reacção dele, traduzia-se por um sorriso, a cabeça um nada baixa, um nada de lado; ignorava todos os presentes, intimamente preso ao que a primeira-ministra lhe dizia e à brilhante ousadia das suas réplicas. (…) Não é todos os dias que se é convidado para dançar por um professor universitário – disse a primeira-ministra.”
Nick Guest é o protagonista do romance, um jovem homossexual movido pela ambição e influenciado pelo ambiente londrino onde se instala. A primeira-ministra é Margaret Thatcher, a imagem da Inglaterra dos anos 80 que Alan Hollinghurst não resistiu em transpor para a ficção. São eles o par desta dança improvável, metáfora irónica da década que glorificou o dinheiro, o poder e a ambição e fez dos excessos um modelo de vida. Excesso de droga, de sexo, de ostentação. Um país das maravilhas do luxo e da extravagância, ou da “desimportância”, para usar uma expressão de um outro país com outras aventuras de outras maravilhas, o de Alice inventado por Lewis Carrol e que serve de epígrafe a este romance.
Feito na perspectiva dos ricos e dos poderosos, A Linha da Beleza (Asa) reconstitui a atmosfera e os comportamentos de um tempo marcado pelo money-making. “Não pretendi que o livro fosse um retrato compreensivo ou profundo desses anos, mas que desse o background ou a atmosfera através da qual um jovem, Nick Guest, chegou à maioridade”, declarou ao DN, Alan Hollinghurst. Disse ainda que, tal como a maioria das pessoas que o viveram, também ele pensou que esse momento da história fosse apenas simbólico. Haveria, no entanto, de revelar-se um tempo marcante. “Esses anos prolongam-se até hoje”, afirmou a propósito, remetendo para uma tirada de Catherine, a rapariga problemática do romance, filha de Gerald, o deputado tory em casa de quem Nick se aloja nos seus primeiros anos de Londres, e irmã de Toby, a grande paixão do protagonista. É ela quem diz que os anos 80 vão durar para sempre.
Não há aqui análise sociológica, moralidade ou julgamentos de qualquer espécie. Nesse retrato feito de impressões – falas, comportamentos, gostos, paisagens – o autor revela a sua intenção “mostrar a aceleração da ganância e que havia um preço a pagar por isso. Não quis escrever um livro que fosse povoado de estereótipos, mas que revelasse um pouco da complexidade do ser humano.” São esses os aspectos centrais do livro, trabalhados durante quase seis anos, de forma regular, numa rotina diária “das oito às seis, com uma interrupção de duas horas para sesta”. “Acho que a disciplina estimula a imaginação”, justifica. “Quero mergulhar no hábito de produzir até a escrita se tornar mais fácil. Gosto de emergir no universo do livro e estar continuamente a pensar nele.”
Daí o isolamento que escolhe para a escrita. Desde o primeiro romance, The Swimming-Pool Library (1988). Então, ainda editor no Times Literary Supplement. Com The Folding Star (1993), esteve na shortlist do Prémio Booker . O terceiro, The Spell (1998), foi mal recebido pelo maioria dos críticos britânicos. A Linha da Beleza (2004) encerra este quarteto de romances sobre a experiência da homossexualidade e foi um dos mais polémicos vencedores do Booker, mesmo que a crítica o tivesse aplaudido alguns meses antes.
Quatro romances em 15 anos é um score que dá a Alan Hollinghurst o estatuto de escritor lento. Ele assume esse olhar demora- do para a escrita, a dificuldade em avançar para o texto sem um guião traçado e a paragem após A Linha da Beleza. O que se segue? Não sabe. “Talvez um livro de contos.”

“O Brasil é um país vira-lata”

Foi há um ano que conversei pela segunda vez com Laurentino Gomes, o escritor que acaba de vencer o Prémio Jabuti para a categoria de reportagem com o livro 1822. Fica um resumo dessa conversa, publicada em Setembro de 2010 no Diário Económico.

APÓS O SUCESSO QUE FOI “1808”, LAURENTINO GOMES VOLTA À HISTÓRIA DO BRASIL COM UM LIVRO QUE É UMA PROVOCAÇÃO PARA A IDENTIDADE BRASILEIRA. CHAMA-SE ” 1822 ” E É UMA REPORTAGEM SOBRE A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Laurentino Gomes não esconde a ansiedade. Depois do sucesso que foi “1808”, o livro onde o ex-jornalista da Abril narra a ida da família real portuguesa para o Brasil, espera o que poderá acontecer com este recentíssimo ” 1822 “, outra reportagem, como gosta de lhe chamar, desta vez sobre a independência da ex-colónia. “É uma ansiedade que vem da responsabilidade”, refere numa conversa com vista para o Douro, uma paisagem que compara com aquela onde se refugia para escrever. Desta vez foram seis meses de solidão no interior de S. Paulo. Uma rotina de um capítulo por semana, depois de três anos de pesquisa, de viagens, de leituras, muitas das quais vindas de uma bibliografia já usada no livro anterior. “O primeiro livro foi uma surpresa para todo o mundo. Agora, ao segundo, o autor fica mais exigente, o leitor tem expectativas altas, quer que a leitura continue prazeirosa”, continua, insistindo que este livro assenta numa pesquisa profunda. “É assim que me protejo”. Desta vez, escritor a tempo inteiro, teve todo o tempo para perceber os sítios, as motivações, chegar a revelações. Como esta, a de que “o Brasil é uma construção completa de Portugal”.

Assume que para muitos brasileiros isso pode soar a provocação. Mesmo assim insiste em dizer que ao contrário da maioria dos estados americanos, onde houve heróis nacionais da independência, no Brasil eles não existiram. “O grande responsável pela independência do Brasil foi D. Pedro, um português. Se a corte portuguesa não estivesse naquele momento instalada no Brasil, hoje o Brasil estaria desintegrado em vários estados. Ele foi o responsável, pelo seu carisma, pela unidade do Brasil enquanto nação. Impôs a integridade nacional sempre q ela esteve ameaçada.” E essa falta de heróis gerou uma identidade e uma condição com a qual o povo brasileiro não convive bem. Para Laurentino Gomes , explica também aquilo que considera ser o problema de auto-estima que existe”. Porquê? Porque ser “um país vira-lata com uma história vira-lata”.

Provocação ou não o facto é que duas semanas após estar à venda no Brasil, o livro já está em primeiro lugar nos tops de vendas e chaga a Portugal com a herança do anterior. Cerca de 600 mil unidades vendidas nos dois países, em várias edições. Um número pouco comum, mas que 1822 quer ultrapassar. Como o anterior sairá em vários suportes. Papel e e-book (este já disponível no Brasil). Falta um terceiro para completar o que pretende ser a narrativa das três datas mais emblemáticas da independência e consolidação do Estado Brasileiro. Será outro número, “1889”, a data da implementação da República no Brasil.

Consenso francês

O parisiense David Foenkinos viu o seu romance “A Delicadeza” ser nomeado para todos os grandes prémios literários do seu país Renaudot, Femina, Interallié e Goncourt. Está na capa. Já agora aproveito para dizer que não era preciso e embirro que estas parangonas promocionais venham logo ali, na capa. Adiante. Foenkinos conseguiu um feito com o livro. De desconfiar tanto consenso? Lets read it.

Então começa assim:

 “Natalie era sobretudo discreta (uma espécie de feminilidade suíça). Tinha atravessado a adolescência sem incidentes, respeitando as passagens de peões. Aos vinte anos, via o futuro como uma promessa. Gostava de rir, gostava de ler. Duas ocupações raramente simultâneas, porque preferia histórias tristes. Não sendo a via literária suficientemente concreta para o seu gosto, tinha decidido seguir economia. Sob os seus ares de sonhadora, pouco lugar deixava à imprecisão. Passava horas a observar as curvas da evolução do PIB na Estónia, com um sorriso enigmático nos lábios. No momento em que se anunciava a vida adulta, acontecia-lhe por vezes relembrar a infância. Instantes de felicidade colhidos numa mão-cheia de episódios, que eram sempre os mesmos. Ela a correr na praia, a subir para um avião, a dormir nos braços do pai. Mas não sentia a mais pálida nostalgia, nunca. Coisa rara numa Natalie.”