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Quem disse que a música não nos pode salvar?


Esta alegrou o meu dia.

Livros com música IV

A Pista de Gelo
de Roberto Bolaño
Quetzal

“A música que se ouvia era o Dança do Gogo, de Manuel de Falla, e ao ritmo dessa música pude ver o busto da patinadora com os braços erguidos, mimando muito mal (embora algo houvesse por dentro daquela falta de jeito) o ato de dar uma oferenda a uma divindade minúscula e invisível.”

Vou

Eu ia mergulhar na água gelada de Santa Cruz e sentir o cheiro a iodo.

Ia, mesmo sem saber se voltava. Apanhava o barco ao fundo, no horizonte, e ia para onde ele fosse. Ia, mesmo arrepiada, sem sol na pele, roupa molhada. Um café haveria de me aquecer e ia. Sem ver terra, só azul e cinzento e um e outro encontrando-se ali, céus e terra ou a água da terra. Eu ia e queria uma música de fundo. Não um requiem. Ia melhor com um allegro, vento na cara, sal nos lábios.
Ia deslizando. Balançando, onda atrás de onda como se aquele fosse o meu território. Não era partir. Era ir. Ia e queria pôr o pé numa praia do outro hemisfério, calor e água de coco. Ia comer lagosta e picanha, beber cachaça com lima, ter calor e algodão branco a filtrar o sol, chapéu de palha na cabeça. Olá se ia. E não ficava por ali. Continuava a ir. À boleia numa estrada, para junto de arranha-céus, perder-me nas ruas, não acertar com portas, entrar em livrarias e não ter horas, apenas fome e comer. E então ia mais uma vez, à descoberta do que deve haver. Tascas, palácios, cinco estrelas e estrelas nenhumas. No escuro também se pode ir sem apalpadelas. Os teus olhos, ir por eles, no seu reflexo. Dar-te a mão e atravessar pontes, fugindo da vertigem do lá em baixo. Água, carros, fixar os cadeados de uniões eternas. Gelar outra vez e esperar por vinho quente. Então se houver especiarias…

Entrar e sair, procurar, correr mundo, sabendo que se volta sempre ao mesmo lugar, não importa quando. Depois do filme, pode ser? Passámos à porta e estava mesmo a começar. São horas. Pipocas, que me perdoem. E vou e saio e continuo a ir.

Continuamos a ir. Ir a dois não é o mesmo, mas é ir na mesma. Subir a quinta, descer a sétima, tropeçar no metro, falhar o degrau e cair mesmo no meio da praça afugentado os pombos mutilados pela poluição. Eles continuam a debicar não sei o quê. Limpo as calças. Rio sozinha. Também rio quando sou eu a cair. Dou gargalhadas contigo e escrevo o que não posso esquecer: ir. Bora?

Livros com música II

Deixa o Grande Mundo Girar
Colum McCann
Civilização

“Joshua gostava dos Beatles, costumava ouvi-los no seu quarto, conseguia ouvir-se o ruído mesmo através dos grandes auscultadores de que ele gostava tanto. Let it Be. Uma canção idiota, de facto. Se deixares andar as coisas, elas voltam. Essa é a verdade. Se deixares andar as coisas és arrastado para o chão. Se deixares arrastaras coisas, elas trepam pelas tuas paredes.”

Livros com música I

Errata
George Steiner
Relógio d’Água

“A minha incapacidade de cantar ou tocar um instrumento é humilhante. Mas é frequente a música pôr-me ‘fora de mim’, ou mais exactamente, numa companhia muito melhor do que a minha. Materializa o oxinoro do amor, essa fusão de dois indivíduos na unicidade, sendo que cada um deles, mesmo no momento do uníssono espiritual e sexual, conserva e enriquece a sua identidade. Ouvir música com o ser amado é estar numa condição simultaneamente privada, quase autista, e todavia estranhamente envolvida com o outro (a leitura a dois em voz alta não atinge o mesmo nível de fusão).”

A reflexão daquele que é um dos mais brilhantes pensadores da actualidade, George Steiner no livro autobiográfico “Errata: revisões de uma vida), surge na sequência do relato de um facto:, terá sido a música a salvar o filósofo Wittgenstein do suicídio. E que música? “o lento movimento do terceiro quarteto de Brahms.

Um homem e uma mulher

Um homem e uma mulher refugiam-se numa praia depois de terem perdido a sua mulher e o seu homem. Um e outro não se conhecem. Um e outro têm filhos e encontram-se num areal, pontualmente, primeiro, regularmente, depois. Ela era para ir embora antes, mas o imprevisto fê-la ficar no único sítio possível. Em casa dele, por uma noite. Ele e ela atraíram-se. Ela culpou-se no fim… Um filme que ficou para a história do cinema Um Homem e uma Mulher, de Claude Lelouch, com Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e uma banda sonora com Vinicius de Moraes, Francis Lai e Baden Powell. Ganhou mais de 40 prémios em festivais de cinema, entre eles Cannes.  Não sou muito destas coisas, mas gostei de ter pisado o chão que eles pisaram, em Deauville. Isso e uma vontade enorme de rever o filme e ouvir esta “un homme et une femme

Schubertiana


Tomas Tranströmer nasceu no mesmo dia que eu, uns anos antes de mim. Escreve numa língua que não entendo e quando leio os seus poemas, quase sempre em inglês, sinto que não os sinto como ele os sentiu quando os pôs ali, em letras.Mesmo assim emociono-me. Função da poesia que parece cumprir-se. E se eu soubesse sueco? Não sei. Por isso aqui fica um dos seus poemas da forma como eu o entendo. Schubertiana