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Berço de Ferro

crib

Havia um berço de ferro para onde iam todos os bebés que nasciam naquela casa em várias gerações.

Nasciam na cama dos pais e era ali que passavam a dormir, ao lado. Era branco, de ferro, com rosáceas na cabeceira e os pés em baloiço. Alguns desses bebés nunca chegaram a ter outra cama. O luto dessa morte era feito com a chegada de outro bebé.

E a vida continuava até que uma geração já não quis usar o berço usado e o berço foi para a casa onde se guardavam as batatas. cheguei a embalar-me nele aí, no fresco das telhas vãs,na brincadeira e uma penumbra que ficava bem com aquela cama. Eu pertenço à geração que já não foi para esse berço.

Até que um dia a adega deixou de receber batatas, a telha vã foi substituída por uma placa e a geração a que pertenço deixou de plantar batatas. A mesma geração que parece morrer de medo da penumbra.

O berço? Deve estar num sítio onde ninguém sabe a história dele nem os nomes de todos os que lá nasceram.

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PuroAcaso


1931, Luiz Brandão, São Paulo, Brasil

Naquele dia, ele ganhou coragem e encostou-a à parede. Surpreendida, ela correspondeu e deitou-lhe a mão. Este beijo tem 82 anos, é brasileiro, mas ninguém lhe reconhece sotaque nem lhe dá essa idade.

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o peso do não dito

Falta sempre dizer tanta coisa… Ou se calhar não. Mas na hora de arrumar os livros, passar a página, mudar de assunto, o não dito pesa. Assunto arrumado, ponto final, mas faltou dizer que ele acha que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo. Ou não sei se é ele quem diz, se é ficção. Mas ele escreveu isso e tratando-se de um escritor é o que interessa. O texto. Disse também que a Lello, no Porto, é a mais linda das livrarias. E eu não disse que ele disse. Falta sempre tempo, espaço, lembrança, oportunidade perdida numa forma que não se compadece com tanto conteúdo. Não terá ficado o melhor por dizer? Lá fica o não dito a pesar. Apesar de tudo o que foi dito. Maldigo deadlines tanto quanto preciso deles. O bom do não dito é que continua sempre a haver um motivo para voltar ao assunto, pretexto para mais escrita. É no texto como na vida. Ainda posso falar da Madeira em “A Viagem Vertical” e isso é um alívio. Abro um parêntesis para ir a México, entrar mais dentro de Barcelona, ir ao Farol de Cascais. E Nova Iorque, o que não foi dito! É hora de exclamar. Ponto final no texto, sem rodapés, a pensar no incompleto que tudo é. Inconformismo. Ter tudo no texto como ter tudo na vida parece a suprema ambição. Tudo o que vale a pena, emenda-se, para que fique claro que há a escolha, esquisitice. Mas e o que de bom ficou por dizer?! Nunca cabe. Nunca caberá. Reticências, pois, para esta sofreguidão de tudo querer ter e tudo querer dizer, com a escrita a imitar a vida, ou o contrário. No entanto… é só um texto e pode-se sempre ir dizendo, ou lendo. Voltar ao assunto. Aos livros, às frases, às emoções. O que tá dito tá dito, mas não arrumo os livros.

saiu-me a lotaria

A bandeira é a do cartão verde para a emigração num país de sucesso.

– Sabe quantos milhões de candidatos temos por ano para entrar nos EUA?”
– Pois.
– Muitos. Da China, Índia, Brasil, Inglaterra, mas este ano estamos a dar preferência a portugueses e a pessoas com elevado grau de qualificações como é o seu caso.”
A conversa corre solta. Houve um email que foi enviado e um contra-relógio para uma oportunidade que se podia perder. Como não houve resposta houve telefonema. Um telefonema que tentava confirmar informações e dizer que estavam reunidas todas as condições para receber um green card por quatro anos. Para isso só tinha de pagar 650 dólares, assim ditos como quem tosse um número, e no segundo seguinte já perguntava o nome completo, se usava mais visa ou mastercard…?
Quando disse a profissão houve um pequeno silêncio quase imperceptível, mas a conversa prosseguiu, com a voz do outro lado a sublinhar todas as vantagens de trabalhar e coleccionar conhecimentos nos EUA.
– Anote a password. Vai ser contactada pela embaixada dos EUA em Lisboa para um teste de inglês, ‘business level’. Já agora o número do cartão de crédito e o código.
– Para quê?
– Pagamento.
– De quê?
– Dos nossos serviços?
– Que serviços, o cartão verde?
– Não, não damos o cartão verde, apenas damos apoio.
– A quê?
– A todos os problemas que possam ocorrer durante o processo.
– Mas não fui sorteada?
– Sim, para ter os nossos serviços que lhe dão melhor acesso a esse cartão. Já agora o código…
– Não pode ligar mais tarde?
– Para quê?”
– Porque sim.
– E vai perder esta oportunidade?
– Ai vou?!
– Espere que vou chamar a minha gerente.
E ela veio, falinhas mansas, simpatia a jorros, piadas sobre fraudes e a tirada de que não brincam em serviço e que isso dá cadeia nos EUA.
– Pois.
– Então, vai dar-me o código e ter os nossos serviços?
– Que serviços?
– Ser nossa cliente.
– Para quê?
Do outro lado a mulher impacientava-se, insistia. Tinha eu um computador à frente? Não, menti.
– Quando vai ter?
– Não sei, mais tarde. Não posso pagar na embaixada”, atirei.
– Não, eles só a vão chamar para um exame de inglês.
– Pois.
– Quer que ligue mais tarde, quando tiver um computador à frente? Se não tiver o dinheiro no banco nós facilitamos…
Silêncio.
– Permite-me que ligue mais tarde?
– Ok.
Desliguei o telefone, liguei para a embaixada dos EUA em Lisboa que já tinha os serviços fechados, mas havia alguém para urgências. Nunca tinha ouvido falar da USAFIS, assim se chama esta organização que se anuncia como promotora de uma espécie de lotaria de cartões verdes. Está on-line, com o site usafis.org. Facilita cartões verdes a troco de umas centenas de dólares, mas não garante. É um jogo que muitos estão dispostos a jogar e onde Portugal parece estar bem cotado, ou seja, com boas entradas.
Fui ver e não faltavam avisos sobre uma fraude com este nome usafis. Não é de agora. Tem a idade da massificação da internet. Porque é que ainda existem, pergunto eu, assim de repente?

o João

Estou a despedir-me dele e talvez por isso lhe sorria mais. Ele retribui com um aceno e um semicerrar dos olhos ainda muito azuis. Tem ar de rufia, do menino bonito que foi. Cabelo louro, ainda aos caracóis que corta quando o dinheiro sobra ou um vizinho manda. É o anjo da rua, guarda que lá mora, sabe de quem chega, desconfia dos estranhos, finge ignorar quem passa com a pose de um snob que nunca perde a não ser quando cumprimenta o doutor que vai beber sumo de laranja à pastelaria da esquina com a mulher, uma loira sabe-se lá há quanto tempo, pelo na gola do casaco.
O João vive numa das caves e tem as chaves de quase todos os prédios. Entra neles como em casa. Por uns trocos, leva e traz os caixotes do lixo, quase sempre de mini na mão e cigarro na boca, a franzir o sobrolho, mangas da camisa polo RL arregaçadas, um malandro com a malandragem dos sobreviventes. “Menina, quer ajuda?” Para os sacos, para arrumar o carro, para o que for que ele está ali é para isso.
Ainda há pouco lhe conquistei a simpatia e já me estou a despedir dele, do João dos olhos azuis, gingão como só os alfacinhas. Magro, seco. Ali não há droga. Há ilusões que se foram e que o álcool ajuda a esquecer entre gente boa que por vezes se esquece que o é e trata o João como um empregado. Ele deixa. O doutor que se afaste e vai ver a praga. Eu sei, já ouvi. Mas ele sabe viver. Quem foi bonito não perde o jeito. Há qualquer coisa de confiante que fica ainda que quase tudo se vá.
Não lhe vou dizer que vou embora. Vou sorrir mais nesse dia. Talvez ele pergunte se notar o movimento, mas vou escapulir-me. Quero que ele continue a olhar para a minha janela como quem guarda e se interrogue acerca do dia em que irei regressar. E para onde for vou imaginar o João a guardar-me, com uma mini na mão.

Escuto Nocturno

As pedras estão molhadas pela cacimba de uma noite quente. Há um candeeiro a projectar sombras, a sublinhar um efeito de água que é pouco mais do que o brilho do alcatrão da estrada. O silêncio tomou conta da cidade, mesmo quando já é dia. Sassetti morreu. Não é fácil repetir a frase até a assimilar, tomar-lhe o sentido brutal. Ouço “Nocturno” apesar do sol, do bafo quente quando abro a janela. Penso no riso dele, nos olhos dele quando fixavam o piano e o piano era tudo, ainda nas mãos dele ontem, quando ouvi dizer que morreu sem ouvir no ecrã da televisão de um restaurante. Havia demasiado barulho, mas a notícia estava escrita no telejornal. Bernardo Sassetti morreu aos 41 anos. Li aquilo enquanto lhe via as mãos, adivinhando um som.

A morte enquanto impossibilidade e logo real. O embate. E a música dele que tantas vezes me acompanhou lágrimas, sorrisos. Que levei, que guardo. E as palavras, as primeiras que lhe ouvi já lá vão anos numa entrevista de rádio. As palavras depois do nome, depois da música.

Anos depois tomámos café numa casa de chá ao Carmo. Ouvi-lhe projectos com o entusiasmo dos inquietos, os que querem sempre fazer e para os quais a vida nunca tem tamanho que chegue. Nem que vivesse cem anos Sassetti conseguiria fazer tudo. Viveu 41. E é impossível não escutar no silêncio da sua música genial toda a possibilidade do génio que não chegou a acontecer por falta de tempo. E foi tanto o que aconteceu.

Escuto Nocturno enquanto o sol entra pela casa.

Tantas histórias para contar

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Escolheu aquela livraria porque tinha mesas como as de café e se podia beber qualquer coisa além de água. E tinha de ser à tarde, mas não tão tarde que o seu fim de tarde, como todos os seus fins de tarde, estavam reservados para o Gambrinus, o sítio de há muito tempo onde se demorava nos cigarros, nas conversas, nas bebidas.

Chegou de casaco de bombazina cor de mel e aquele rosto sempre de sorriso desenhado de bonomia, mas era a voz que eu fixava atrás do olhar curioso, de cineasta, lembro-me de ter pensado. Ele pertencia áquele grupo de pessoas que me intimidava, à cabeça das quais eu colocava José Cardoso Pires. Acho que era a pose de uma sabedoria sincera, feita de experiência, de rua, onde entravam longas conversas, discussões, livros e um tipo de boémia que parecia estar em declínio. Íamos falar de livros. Gostos, manias, leituras, casas de venda e consulta de livros, viagens com livros, os de estima e aqueles que depois de muito tempo perderam a glória e se escondem em prateleiras cheias, atrás de outros. Quis saber de mim e eu com quase nada para dizer, enquanto brincava com um cigarro. Não recordo se se podia fumar ali. Foi há muito tempo e talvez sim porque acho que o vejo também de cigarro na boca a dizer poemas de cor. Voz rouca, lenta, um grandioso pano de fundo para as histórias que lhe saiam. Tantas. Grande contador de histórias, quem dera aos ecrãs que as pudesse filmar a todas.

Quando se levantou foi para procurar um livro. Não me disse qual e apareceu com um volume de poemas de W.H. Auden. Abriu numa página ao calhas e começou a ler aquele poeta que nunca mais esqueci e que conheci ali, de que aprendi a gostar ali. Quem bem que a poesia de Auden soava na voz de Fernando Lopes.
A conversa só acabou quando chegou a hora de ele ir até ao Rossio. Apanhamos o metro em Entrecampos e na carruagem as histórias continuaram a sair daqueles olhos risonhos.
Foi depois “Belarminho”, da adaptação de “Uma Abelha na Chuva”, de Carlos de Oliveira, e antes de “O Delfim”, aquele que eu elegeria o melhor filme de Fernando Lopes. Não sei se pelo facto de ser a adaptação de outro grande livro de José Cardoso Pires, se pela sugestão daquela conversa antes tida com o realizador.
Naquele dia ele saiu no Rossio, directo para o Gambrinus.

Voltámos a falar quando estreou “O Delfim”. Mas tínhamos antes falado dele. Em casa, quando fui falar com Maria João Seixas, a mulher. Ele segredou que já escolhera o elenco, que seria uma surpresa enorme. Pediu segredo. Guardei.

A última vez que o vi foi quando entrou no metro, na estação de Roma, a mais próxima de sua casa. Eu vinha a ler e ele sentou-se ao meu lado sem olhar para mim. Vinha de olho no jornal, com o mesmo casaco cor de mel, e seguia para o Rossio. Antes de sair, olhou para o lado e viu-me: “Tá boa?Então não me disse que estava aqui?” Tinha mais umas histórias para me contar, avisou.

A gota de água

A gota era grande e refletia a rua. Caia iluminada pelo sol e com a lentidão do sonho. Pairava, como se de ar e não de água. Era uma gota espelho, mas não havia Alice do outro lado. Era toda um núcleo e nele estava eu. Tive tempo para me ver lá dentro, inteira, à distância, tridimensional. Eu, outra, aquela que caia suspensa pelo repentino silêncio dos minutos que pareciam não passar. Não havia pressa. Eu e a gota e eu na gota com a rua. E eu estranhei-me, como se estranha o som da própria voz quando gravada.

Não nos vemos como somos, tal como não nos ouvimos como soamos. Aquela imagem de mim não tinha nada a ver com a imagem de uma foto, de um filme. Era eu recortada. Eu para mim. “Vês-te? É assim que te veem? É assim que queres que te vejam? É esta a imagem que achas que passas ou queres fazer passar?”
A gota interpelava, desafiante. E eu só tinha o choque porque não me revia naquele núcleo apesar de me ter reconhecido de imediato. Era eu. Seria eu agora, eu daqui a uns tempos? Será que eu já fui assim? A gota caia sustendo-se à minha frente num momento em que eu queria saber mais de mim e devolveu-me como eu achava que não era. Não sabia se gostava ou não. Só o espanto e algum desconforto, claro. Se fosse uma bola de sabão eu rebentava-a e seguia em frente. Mas era de uma solidez líquida indiferente à gravidade.
Não sei quanto tempo esteve ali. O suficiente para eu ver o filme da minha vida e projectar nela, na gota, um futuro. E a minha imagem sempre lá, como uma boneca numa caixa de líquido, daquelas onde há neve ou brilhantes a cair e se vendem nas feiras ou agora nas lojas dos museus onde o kitsch virou trendy. Mas eu estava só, na rua, com as casas de sempre, eu na tal da minha circunstância.
Sei que a gota me queria provocar não sei mandada por quem. Terá chovido para mim, só para haver aquela gota? Ela interpelava-me e eu procurava respostas.
Dei-lhe tempo para cair. Havia uma mala para fazer, decidi. E agora tinha pressa. Eu. E foi como se a deixasse cair. Quando ela caiu olhei para o relógio e vi então que foi ela quem me deu tempo a mim. Aquele filme todo e não passou um segundo até a gota cair, como sempre, como com todas as gotas. Só que aquela fez o tempo parar até eu me decidir.

canita e os livros

Em casa havia três livros. Verdes, de capa dura, muitas páginas, da mesma colecção. Uma série sobre medicina natural, escrita em português do Brasil, com receitas de mezinhas e vendendo a ideia de que tudo se cura com plantas. Tantos anos depois, recorda apenas uma excepção, tão clara. À frente da palavra “câncer” estava: “limão. Procurar médico”. Perdeu inocência, ilusão. Não havia milagres e não era possível um mundo sem médicos.
Não tinha mais de seis, sete anos. Leu os três livros de uma ponta à outra, como as crianças que repetem leituras, filmes até os saberem de cor. Ela também decorou tudo, até as ilustrações das plantas. Naquelas páginas não havia fotos. Só desenhos a preto e branco e isso agradava-lhe, talvez cansada dos livros infantis que lhe enchiam o quarto e também sabia de cor. Mas fora do quarto, aqueles eram os únicos três livros. Havia revistas, jornais que se acumulavam, mas livros de gente grande só aqueles e ela queria saber o que liam os grandes. Achava que devia ser mais do que aquilo, mas era aquilo o que lhe chegava.
A carrinha da Gulbenkian que ia à aldeia não lhe dava isso e por isso não a recebia com o mesmo entusiasmo das outras crianças. Ela tinha livros infantis e juvenis e gostava que fossem seus, gostava de os visitar de vez em quando, abri-los, voltar às páginas, às frases, e ter de entregar depois de ler era quase como se lhe levassem a cadelinha rafeira que a seguia por todo lado lá em casa. A Canita. Por isso não pedia livros. Não era orgulho. Era afecto. E na falta de mais lá ia para a enciclopédia medicinal, a sua iniciação à leitura de gente grande, onde aprendeu a gostar do cheiro do papel, da textura das páginas, do equilíbrio que a capa dura permitia na estante vazia.
Olhava para as prateleiras e o seu sonho era um dia enchê-las. Perguntava à mãe se era possível e sempre teve um sim como resposta. Hoje olha para os três livros de capa verde. Estão no centro. Lugar de destaque de uma imensa parede forrada a lombadas para gente grande.

A prazo

Não é preciso olhar para os ponteiros para saber que se consegue.

Talvez no início. E quanto mais se olhava maior o stress, tempo perdido sem saber dessa perda. Depois vem o hábito, a rotina. Sim, a perfeição é o limite determinado pelo prazo. É uma lição de humildade. Saber que é provável o erro, a falha, a gralha. Tudo porque, depressa e bem… Não somos máquinas, temos dias, horas e um minuto pode deitar tudo a perder, matar o resto, que foi tanto e acabou em nada. Dói. Tanta angústia ao deitar sem saber como vai sair a página amanhã. E sempre mais um telefonema, mais uma declaração, a tentativa de apanhar o que ninguém apanhou, e mais uma penteadela ao texto, uma corrida, uma demora a escutar quem não sabe desta pressa, da urgência.

Dead-line, linha da morte. Em português tem outro peso. É ir, esquecer o tempo e saber que na vertigem se é capaz. Afinal, nunca saiu uma página em branco, ouvimos dos mais velhos, repetimos aos mais novos. Nunca. Comprimido que acalma. Isso ou: “esse texto é para o Pulitzer?” que acaba com a pretensão. Uma vida a obedecer a um relógio sem o ver. Prazos a cumprir nem que isso custe o sono, o almoço, uma sandes ao jantar, a família que não se vê. E tudo porque… às vezes nem se sabe bem. Porque se gosta da adrenalina, da história, de a contar, de fazer chegar aos outros algo que temos a pretensão que seja importante para eles. Se é para nós… E continuamos, às vezes robots, às vezes demasiado gente com lágrimas que tentamos esconder.

Olheiras, sorrisos, acontece um êxtase. Pode ser apenas por uma missão cumprida. Fechar uma página, fechar 40. Escrever a breve das nossas vidas. Ir a todas, ou ser capaz de ir. Na vida, na morte, o livro, a música, na rua, com os pobres e os ricos e os outros todos em quase todos os lugares. Ver rir, ouvir o choro, provar o bom, saber do amargo. Viver e contar. Uma vida a trabalhar para um prazo, há quem diga que é uma missão. Às vezes queremos acreditar que sim, mas há sempre quem nos tente, como a Judas. E quem nos tire o relógio, e então, mesmo sem olhar para ele há tanto tempo, é como se faltasse tudo e o que era o sonho do alívio do tempo, de não haver a linha da morte, acaba num desasar.

Com todo o tempo, sem prazo, a quem  culpar pelo erro, pela gralha e pela angústia que ela dá? Sem cruzar os braços, sou uma espécie de Bartleby, “preferia não” e a grande dúvida volta nessa passagem do rápido ao longo. Não pior, não melhor. Outro ritmo. Serei capaz de esquecer que não há relógio e uma hora pode durar um ano?