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Quem disse que a música não nos pode salvar?


Esta alegrou o meu dia.

Vou

Eu ia mergulhar na água gelada de Santa Cruz e sentir o cheiro a iodo.

Ia, mesmo sem saber se voltava. Apanhava o barco ao fundo, no horizonte, e ia para onde ele fosse. Ia, mesmo arrepiada, sem sol na pele, roupa molhada. Um café haveria de me aquecer e ia. Sem ver terra, só azul e cinzento e um e outro encontrando-se ali, céus e terra ou a água da terra. Eu ia e queria uma música de fundo. Não um requiem. Ia melhor com um allegro, vento na cara, sal nos lábios.
Ia deslizando. Balançando, onda atrás de onda como se aquele fosse o meu território. Não era partir. Era ir. Ia e queria pôr o pé numa praia do outro hemisfério, calor e água de coco. Ia comer lagosta e picanha, beber cachaça com lima, ter calor e algodão branco a filtrar o sol, chapéu de palha na cabeça. Olá se ia. E não ficava por ali. Continuava a ir. À boleia numa estrada, para junto de arranha-céus, perder-me nas ruas, não acertar com portas, entrar em livrarias e não ter horas, apenas fome e comer. E então ia mais uma vez, à descoberta do que deve haver. Tascas, palácios, cinco estrelas e estrelas nenhumas. No escuro também se pode ir sem apalpadelas. Os teus olhos, ir por eles, no seu reflexo. Dar-te a mão e atravessar pontes, fugindo da vertigem do lá em baixo. Água, carros, fixar os cadeados de uniões eternas. Gelar outra vez e esperar por vinho quente. Então se houver especiarias…

Entrar e sair, procurar, correr mundo, sabendo que se volta sempre ao mesmo lugar, não importa quando. Depois do filme, pode ser? Passámos à porta e estava mesmo a começar. São horas. Pipocas, que me perdoem. E vou e saio e continuo a ir.

Continuamos a ir. Ir a dois não é o mesmo, mas é ir na mesma. Subir a quinta, descer a sétima, tropeçar no metro, falhar o degrau e cair mesmo no meio da praça afugentado os pombos mutilados pela poluição. Eles continuam a debicar não sei o quê. Limpo as calças. Rio sozinha. Também rio quando sou eu a cair. Dou gargalhadas contigo e escrevo o que não posso esquecer: ir. Bora?

Uma das músicas da minha vida

Já a ouvi triste e já a ouvi alegre, nostálgica, serena, como fundo e sem mais nada. Como vai melhor é mesmo sem acompanhamento, o que não quer dizer sem companhia. Fica bem com o mar, fica bem em viagem, ouve-se como água num dia de chuva. Nunca o ouvi na praia. Nunca consegui que fosse banda sonora de uma leitura. Sempre foi pura, e aparece sempre de improviso como quando Keith Jarrett a gravou em 1975. De longe, de muito longe, alguém me pergunta porque me lembrei dela. Porque é bonita. Porque fica bem com a saudade que sinto, com o silêncio da casa, porque faz parte da minha discoteca mental. Vem, desaparece por uns tempos, mas volta sempre. É uma das músicas da minha vida. É o concerto de Colónia, que às vezes me aborreço de ver tão tocado e ouvido e repetido. Dá raiva. Como um segredo que pensamos só nosso, mas que as comadres já espalharam, No caso que ricas comadres. Um dos discos a solo de piano mais vendidos de sempre. Pois, mas não esquecer que é música gourmet…

quase como em hollywood, mas com supermercado

Gostava de andar de descapotável. Punha um lenço na cabeça, como via nos filmes e lhe ensinavam as revistas de moda que mandava vir de fora. Dizia-se que ao jeito de Hollywood. Depois era deixava-se ver, de óculos escuros e cara sempre fechada porque rico não dá confiança. Ela nunca deu. Filha única de uma família única, ela cultivava a exclusividade, e de tal modo que lhe chamariam  excêntrica, se a maioria das pessoas da pequena cidade assim soubessem chamar. Quando a viam de boquilha na mão, mini-saia e uns decotes que desafiavam a beatice empedernida da mãe e das tias, diziam que ela se iria perder para a vida. Era o melhor que se aproximava daquela rebeldia burguesa, de costas largas, mas apoiada pelo gosto de quem se podia apurar em Biarritz ou na costa brava espanhola. Não havia verão que não fosse. E ia de descapotável. Primeiro com o namorado e a companhia da velha  que lhe dera biberões era paga para lhe aturar os caprichos, pouco depois com o marido que gostava de exibir a mulher como quem mostra um novo diamante. E ele estava habituado a isso. Lidava com ouro, jóias, negócio herdado dos pais, mas do que gostava mesmo era de pintar e por isso um dia levou-a a Itália. Roma, Florença, Veneza. Papou todos os museus, e ela a falar-lhe de Dante e de um “Inferno” literário e sempre com “A Morte em Veneza”, de Mann, na mão. Se lhe desse para outras artes que não as de vestir, seria escritora. Nunca escreveu. Havia uma boa dose de preguiça aliada à falta de ter de… Ela nunca teve de… Ela sempre quis e… Um dia, muitos anos mais tarde, teve de… porque havia um neto que se sentava ao lado da cama e lhe perguntava porque tinha de ir à escola. Então, ela, que sempre se passeara de descapotável e só saia à rua às quatro da tarde quando estava imaculadamente arranjada para ir dar o passeio higiénico pelas montras sem nunca entrar nos cafés onde estavam as que a viam, ela teve de  dizer que tinha de ser porque também ela, afinal, todos os dias tinha de fazer a lista de compras para a Maria e que a vida não era fácil. Nada fácil mesmo.

“Estrelas de giz”


Animal Kingdom “Chalk Stars” Video Oficial