O Outubro de Cardoso Pires

José Cardoso Pires nasceu há 88 anos e este texto tem cinco.

O escritor nasceu faz hoje 83 anos. Cultivou a palavra de forma lenta, como quem dança a valsa do adeus.

Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morreu, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.

A conversa foi em Dezembro. Demorada, no tom rouco da voz. Dezembro, numa tarde fria com a pouca luz do Inverno a entrar pela janela que dava para a igreja de Alvalade. Vestia uma camisola amarela, de um amarelo desmaiado que contrastava com o amarelo dourado do copo de whisky misturado com água que ia levando à boca. Acabara de editar Lisboa, Livro de Bordo, dedicado à cidade onde só não nasceu por acaso porque, como dizia, a sua mãe tinha qualquer coisa de salmão “e ia desovar a norte”. E só por isso foi nascer a Peso, na Beira, a 2 de Outubro de 1925. Cardoso Pires conversava e falava dos seus ódios e amores. De como detestava o Natal e o campo, do politicamente incorrecto confessar que não achava Torga assim um tão grande escritor; de como embirrava com o adjectivo; da sua paixão por Lisboa e por uma boa briga; por longas conversas em bares; por se isolar na casa da Costa da Caparica, virada para o mar, onde ia desenhando na parede as movimentações das personagens, numa espécie de mapa narrativo em que se perdia como quem perde a identidade para dar identidades às personagens.

Cardoso Pires conversava, mas temia o modo como essa palavra falada podia aparecer escrita. É que para ele, a palavra escrita tinha outro ritmo. Tinha de ser escolhida. Não era ao acaso. Dizia e emendava, como quem escreve outra versão de um romance. Dizia e rescrevia o dito com um letra miudinha, pensada, limpando adjectivos, substantivando. E aquilo lido parecia rápido. Veloz como os seus romances. Engano. Cardoso Pires era lento, muito lento na escrita e fazia ironia com os escritores rápidos. Em 50 anos, publicou 18 títulos. O Delfim, Alexandra Alpha, A Balada da Praia dos Cães ficarão como textos maiores da literatura. Saíram lentos, com tantas versões até sair a certa. Cada palavra tinha de ser certeira. Nem a mais, nem a menos. E nesse medir de palavras disse: “Estou convencido de que um dia parto uma unha do pé e morro.”

Nem mais uma palavra.

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o peso do não dito

Falta sempre dizer tanta coisa… Ou se calhar não. Mas na hora de arrumar os livros, passar a página, mudar de assunto, o não dito pesa. Assunto arrumado, ponto final, mas faltou dizer que ele acha que Lisboa é a cidade mais bonita do mundo. Ou não sei se é ele quem diz, se é ficção. Mas ele escreveu isso e tratando-se de um escritor é o que interessa. O texto. Disse também que a Lello, no Porto, é a mais linda das livrarias. E eu não disse que ele disse. Falta sempre tempo, espaço, lembrança, oportunidade perdida numa forma que não se compadece com tanto conteúdo. Não terá ficado o melhor por dizer? Lá fica o não dito a pesar. Apesar de tudo o que foi dito. Maldigo deadlines tanto quanto preciso deles. O bom do não dito é que continua sempre a haver um motivo para voltar ao assunto, pretexto para mais escrita. É no texto como na vida. Ainda posso falar da Madeira em “A Viagem Vertical” e isso é um alívio. Abro um parêntesis para ir a México, entrar mais dentro de Barcelona, ir ao Farol de Cascais. E Nova Iorque, o que não foi dito! É hora de exclamar. Ponto final no texto, sem rodapés, a pensar no incompleto que tudo é. Inconformismo. Ter tudo no texto como ter tudo na vida parece a suprema ambição. Tudo o que vale a pena, emenda-se, para que fique claro que há a escolha, esquisitice. Mas e o que de bom ficou por dizer?! Nunca cabe. Nunca caberá. Reticências, pois, para esta sofreguidão de tudo querer ter e tudo querer dizer, com a escrita a imitar a vida, ou o contrário. No entanto… é só um texto e pode-se sempre ir dizendo, ou lendo. Voltar ao assunto. Aos livros, às frases, às emoções. O que tá dito tá dito, mas não arrumo os livros.

Os remorsos de Urbano

26 de Agosto de 2007, Urbano Tavares Rodrigues surge-me sentado numa cadeira, a uma janela de Lisboa, a brincar com o seu filho António. Estava a recuperar de um susto cardíaco. Não sabia se iria continuar a escrever. A vida provou que sim e António já deve saber ler a escrita do pai. Fica a entrevista que então publiquei, resultado de uma conversa sobre memórias.

Sempre fui um predador

Vai sair em Outubro um romance seu sobre D. António, prior do Crato, um homem que foi rei dois dias e lutou para manter a coroa portuguesa independente de Castela. O livro sai pouco depois de outro escritor, seu camarada de partido, o PCP, ter declarado que Portugal e Espanha vão ser, mais cedo ou mais tarde, um único país. Partilha esta ideia com José Saramago? 
Não. Não concordo de maneira nenhuma. Há muito que o meu herói era o prior do Crato e também tenho simpatia por Aljubarrota. Tenho um grande apreço pela cultura espanhola, mas não aceito a invasão espanhola. Não aceito ver Portugal transformado numa região de Espanha.

Em Ao Contrário das Ondas (Dom Quixote, 2006)traça um retrato negro do País. O que pensa do momento que Portugal atravessa actualmente?
Olho para Portugal com tristeza. O capitalismo neoliberal está a ser aplicado com características autoritárias pelo Governo que se diz socialista e que não tem nada uma política socialista. Tudo isso me entristece profundamente.

Este ano comemoram-se os 80 anos da Revolução Russa. Que sentido faz ser comunista hoje?
Ser comunista é, antes de mais, apreciar e admirar a atitude do Partido Comunista, a que pertenço em Portugal: defender os direitos dos trabalhadores até ao limite do possível. Essa é a missão de um partido comunista neste momento.

Continua a definir-se como um comunista?
Sim, continuo a definir-me como um homem comunista, mas não sei o que o futuro me reserva, que tipo de democracias haverá. O capitalismo neoliberal irá explodir, porque cada vez há mais bolsas de miséria, formas diversas de escravatura e há pessoas de direita que começam a sentir, com um desejo reformista, que isto possa transformar-se…

No seu entender, em quê?
Pois, não é a minha ideia. Mas não é possível fazer voltar a social-democracia.

E é possível fazer regressar o comunismo?
O comunismo da União Soviética nunca mais regressará.

Que comunismo então?
Terá de ser qualquer coisa nova. Não sou futurólogo, mas penso que haverá caminhos diversos, consoante os continentes, as condições e a vontade dos próprios povos; consoante as suas experiências. Quando falo em democracias, não falo em falsas democracias, como acho que neste momento é a nossa, mas numa democracia, por exemplo, como a que foi praticada em Porto Alegre quando houve a união do PT e do Partido Comunista dos Trabalhadores. Era uma experiência nova de democracia socialista.

É um modelo, para si?
Foi uma hipótese. Há muitas hipóteses. Não sei como vão surgir. Mas penso absolutamente que vão surgir. Há muito descontentamento.

A sua obra literária foi prejudicada pelo facto de sempre ter manifestado abertamente a sua ideologia, de ser um comunista?
Sim. Durante muito tempo o meu nome foi afastado dos meios de comunicação, até que a idade, o prestígio, o facto de nós deixarmos de ser perigosos… Tudo isso fez com que me dessem atenção.

Já não é um homem perigoso?
Os comunistas não são considerados, neste momento, homens perigosos.
Apesar da luta política, sempre disse que o amor foi o seu grande tema…
De facto. Os meus grandes temas foram o amor, a morte e o tempo.

Como é que o homem Urbano Tavares Rodrigues lida com cada um desses temas?
O tempo é o grande inimigo. Corrompe os sentimentos, degrada-os, especialmente o amor. O tempo faz apodrecer o amor. Mas o tempo também traz sabedoria, um conhecimento cada vez mais aprofundado dos seres humanos e das té-cnicas literárias, das formas de contar, o virtuosismo da narração.

E a relação com a morte, ou com o tempo que dura a vida?
Estamos sempre morrendo, mas, a certa altura, há uma revolta contra essa sombra… Normalmente na adolescência, quando a existência parece prometer-nos tudo. O Albert Camus dá muito bem isso na obra dele; esse sentimento de que a vida nos promete tudo e o que nos dá realmente é a condenação à morte.

Depois, há uma aceitação progressiva e que leva a olhar a morte com serenidade.
Tem medo de não ter tempo para fazer tudo o que lhe apetece, ou isso não o angustia?

Não me angustia, embora gostasse de deixar cá fora mais coisas. O que me angustia mais é deixar a minha mulher e os meus filhos, que precisam de mim. Tanto o António Urbano como a Isabel precisam do apoio material que lhes dou.

Para já, vai sair com um novo romance sobre o seu herói, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato. O que tem este homem de tão especial para lhe chamar herói?
Um patriota que num país vendido a Castela levanta um exército popular, pega no que resta da cavalaria de Alcácer Quibir, um exército vestido e armado à pressa que, mesmo assim, obriga os castelhanos a recuar. Mais tarde, a força numérica impõe-se e é uma derrota. Ele é um homem de múltiplas dimensões. É uma figura apaixonante. E este é o meu romance de que mais gosto. O prior do Crato é um homem erótico que teve muitas mulheres, dez filhos. É um homem religioso, que mantém sempre um diálogo com Deus, embora aos 16 anos ele tenha recusado as ordens de castidade. É também um intelectual. Fui escrevendo, escrevendo e vi surgir ali a História de Portugal, até a história da Europa, e vendo aparecer esta figura fantástica em todas as dimensões. Ele é o patriota puro, que se opõe à traição e que é ferido por um português traidor. É um homem também religioso no sentido da paixão quase panteística pela terra. Quanto terminei e reli as provas achei que tinha conseguido escrever um grande romance e um romance em que, neste momento em que há novamente uma invasão de Castela, sobretudo económica .

Acha que há paralelismo entre os dois momentos da História?
É evidente. Portugal está numa decadência extrema. Perdemos o orgulho, o sentimento patriótico. O prior do Crato levanta tudo isso.

Revê-se nesse homem?
O meu irmão Miguel [Urbano Rodrigues], quando leu o livro, disse-me: “Este é um grande livro, mas este prior do Crato tem muito de Urbano Tavares Rodrigues.”

Porquê?
Tive sempre qualquer coisa de cavaleiro andante, desde a adolescência. Antes de tomar o rumo, de querer transformar o mundo e transformar a vida e pôr a minha acção ao serviço disso, tive quase o amor do risco pelo risco. Era um homem de aventura em todos os sentidos, do acto gratuito, quase quixotesco. Há muita coisa que conduz ao grande perdedor.

Considera-se um grande perdedor?
Eu fui um grande perdedor. Em muitas coisas. Fui preso, fui torturado…

É como perdedor que se vê hoje?
(Silêncio) Sou alguém com uma obra que fica depois de mim.

Falava dos remorsos que o prior do Crato teve em relação a certas mulheres. Esse remorso também existe em si?
Sim. Sim. A minha relação com o sexo feminino limita-se hoje à milha mulher (risos). Mas eu olho e olhei sempre com encantamento para a mulher. A mulher como amiga, como namorada, como amante. A mulher foi sempre, para mim, uma forma de compreender melhor o mundo, de ir às raízes da vida. A experiência da mulher é, para mim, uma experiência erótica ou foi muito uma experiência erótica, mas algumas vezes pensei que estava a usar mulheres um pouco como instrumentos.

Instrumentos de quê?
A sugar tudo o que elas me podiam trazer de compreensão mais ampla do mundo.

Foi egoísta?
Sim, fui e acusei-me disso a mim próprio. Mas, por outro lado, desculpava-me. Era a altura do make love not war. Havia uma grande liberdade e nem sempre era eu que me aproximava das mulheres. Eram elas que se aproximavam de mim também.

E era difícil resistir?
Era. (risos)

Lembra-se de todas as mulheres que passaram pela sua vida?
Não, não me lembro. (Silêncio) Às vezes penso nisso. É a memória. Não me lembro de coisas muito fugazes. Às mais importantes, com quem tive um envolvimento afectivo e erótico, não se pode fugir. Nem com a memória. |

Os últimos dois anos foram especialmente ricos para si. Traduziu Decameron, escreveu um romance, lançou as suas obras completas, teve um filho e vem aí outro romance…
Exacto, mas em relação ao filho passamos ao de cima que não gosto de sensacionalismo. Isso é uma coisa que atrai muito as revistas de moda… Mas adoro o menino. É um encantamento.

É verdade que já quase não sai de casa?
Por causa destes andares. São dois, quase três.

Nem para férias?
Pensei nisso por causa deles. Tinha pensado ir para o pé do mar…

Nadava todos os dias…
Sim, gostava imenso de nadar, mas agora não posso por causa da insuficiência cardíaca que me detectaram. Nadei toda a vida.

O que planeia ainda escrever?
Tenho um livro de contos pronto. Não sei quando será publicado. Chama-se A Última Colina e uma coisa que se chama O Cornetim Encarnado, onde tenho reflexões, bocados de diário, poemas, pequenos contos, memórias até. Está para aí.

Não vai publicar?
Não sei.

O que ocupa mais espaço nessas memórias?
O lembrar-me… Por exemplo, uma evocação dos meus encontros com Vinícius de Moraes. Eu era professor na Sorbonne, muito jovem, e encarregado de curso, e o Vinícius era secretário da embaixada. Comecei a falar com ele numa festa de Carnaval em que ele esteve a tocar violão. Lembro-me de amigos que tive e evoluíram diferentemente na vida e foram figuras marcantes na minha obra. Estão no princípio e, quem souber ler, vê que continuam lá. Albert Camus, Jean-Paul Sartre, André Malraux. Fui amigo do Camus, conheci um pouco Sartre, dei-me com ele, estivemos juntos num congresso para a liberdade da cultura em Florença. Com o Malraux dei-me pouco mas é como se me tivesse dado sempre. Livros como A Esperança ou A Condição Humana marcaram para sempre a minha personalidade e a minha obra

O que lê, agora?
Continuo a ler muito. Li recentemente um livro muito interessante que recomendo, do Santiago Gamboa, A Síndrome de Ulisses

A sua escrita tem um sítio…
O Alentejo, Lisboa, Paris…

Mantém uma rotina diária de escrita?
Não consigo. Escrevo de vez em quando num caderno.

Escreve nesta secretária?
Muitas vezes. Mas não tenho sítio fixo. Quando a luz é boa venho para aqui, outras vezes escrevo lá dentro… Temos um living e tenho lá o meu cantinho com o candeeiro.

É um homem de hábitos?
Nunca fui um homem de hábitos. Agora tenho alguns. Deve ser por estar em casa.

santa gula

Se há um motivo. Ter crescido na cozinha com várias mulheres que faziam da cozinha a sua vida. A comida era o centro de tudo, até o meu centro, pelas piores razões. Aos três anos uma hepatite exilou-me em paladares que eu rejeitava quase sensorialmente e faziam-me fugir do prato. A consequência imediata foi a de estimular a criatividade da minha mãe que inventava mil maneiras para me seduzir com a dieta médica. Quase consigo ver o meu ar enfastiado a comer um puré de cenoura enquanto os outros, os crescidos, se debruçavam sobre um arroz de peito feito pela minha avó. Era um prato que se confeccionava pela matança do bicho, preparado a partir da carne mais tenra e suculenta do peito do porco, um arroz muito malandro temperado a cravinho e hortelã, que se comia com colher e cheirava a jardim. Branco, com lascas de carne desfiada, e um ramo de verde. Salivava de olhar para eles enquanto era acusada de não gostar de comer. Não gostava da minha comida, isso sim, e adivinhava naquela o prazer que via em toda a expressão dos que tinha a sorte de a poder comer sem hepatites.

Era magra, niquenta, como me chamavam, e tinha na minha avó, beata, mas de uma bondade extrema, a cumplicidade na satisfação pontual do pecado da minha gula. Deixava-me ir à talha das azeitonas e tirar um punhado delas que eu saboreava como se nunca mais fosse comer uma azeitona; provava uma fatia transparente de toucinho retirado do lombo do porco mais gordo que acompanhava com uma fatia bem robusta do pão que ela amassava e cozia no forno.

A metafísica dos chocolates dizia-me pouco. Eu queria a comida que via fazer com demora, esmero, pôr a mão na massa dos rissóis que se recheavam de um creme feito de pescada que eu ajudava a desfiar; na massa dos bolos que pediam descanso para crescer, espécie de milagre a que queria assistir, levantando o pano de linho que a cobria durante algumas horas, como quem quer ver uma flor a abrir. Espreitava com o medo de violar uma intimidade.

Não gostava muito do soco na nuca do coelho, confesso, mas a partir do momento em que ele morria, ia-se a piedade e voluntariava-me para o ajudar na esfola. Não via a faca a passar pelo pescoço da galinha, mas gostava de olhar o sangue a escorrer para a taça de onde haveria de sair uma cabidela. A minha avó abria a ave e tirava-lhe pedaços de gordura amarela, a que chamava enxúdias, e que usava para temperar arrozes, enriquecer guisados e assados de carne. Dividia-a em pequenas porções e guardava-as do frigorífico. Eu ia-me deliciando com as canjas com ovos pequeninos, moelas cortadas e patas a que roía a cartilagem com toda a demora de quem não pensa no tempo. Niquenta, continuava a ouvir por causa do pouco despacho. Mas elas, as avós, as tias velhas, gostavam de me ver comer como quem debica e gostavam de me ter a ajudar. A perguntar como se fazia o queijo enquanto via a Tia Lucinda espremer as tetas das vacas. Era esse leite que eu bebia em casa. A minha mãe pedia-me para tomar conta enquanto fervia, e eu ficava vigilante e feliz com a responsabilidade que me era dada; uma mão no botão do fogão, a outra a deixar o branco chegar até ao cimo do fervedouro para só então apagar o lume, no limite de entornar. E quando entornava, a nata queimada tinha o mesmo cheiro do ferro a queimar o leite creme. Depois era esperar que arrefecesse, pegar numa colher de chá, e para a nata agarrada ao alumínio. Como eu gostava daquela gordura amarela que comia como se um pudim. Lembro-me de estar de joelhos, num banco de madeira, debruçada sobre a mesa, e de chegar o meu primo na hora exacta em que eu comia a nata e ele ter uma espécie de espasmo. Quase nenhuma criança gostava de nata. Eu adorava.

Como adorava descascar favas e ervilhas à sombra da parreira nos primeiros dias quentes do ano e ouvir alguém chamar-me para lanchar. Os olhos viajavam então pelos pacotes de alimentos. Foi neles que aprendi as letras, que li as primeiras palavras, que muitas vezes ia depois descobrir nos meus livros de gente pequena, encontrando paralelos entre os dois mundos. Escrevia ‘acucar’ até me falarem de cedilhas e de acentos. A minha mãe explicava. Eu ouvia, chupando o dedo cheio da mousse de chocolate que ela deitava na taça.
Não havia doces só em dias de festa. Se as galinhas tinham muitos ovos, havia pão-de-ló. Se as maçâs começavam a amadurecer, faziam-se tartes; no fim da vindima, a uvada que a outra minha avó mexia com uma colher de pão gigante numa espécie de banheira de cobre, sobre um lume de lenha, no quintal. Não havia cozinha para aquilo. E a fruta ia alourando até ficar de um castanho escuro, tinto, com que depois se barraria o pão, de um agridoce como não há.

Era na mesma altura da tomatada. Muitos alguidares de tomate cortado, a fermentar até serem passados pelo passe-vite, temperados com muito sal e postos em sacas de pano a escorrer água vermelha, vários dias, nas sombras do pátio. De lá, saía uma parta bem vermelha e consistente que era deitada em frascos, acondicionados com uma folga de papel vegetal e tapados de formar a que o ar não entrasse. haveria tomatada para o ano todo.

Foi por causa de tudo isto. De ver os caçadores chegarem da caça e ajudar a depenar perdizes depois de escaldadas em água a ferver. De fugir do guincho do porco na altura de lhe ser espetada a faca, para voltar logo depois para junto de homens e mulheres, cada um com tarefa bem definida, e gostar do cheiro da pele chamuscada, de gostar de ver deitar o vinagre no sangue para que não coagulasse, de ver cada corte como uma cirurgia, certeiro a separar peças e provar as primeiras febras assadas ali, pouco tempo depois. No dia seguinte haveria a grande iguaria: sarrabulho feito pela minha avó. Sem arroz, sem batatas. E não lhe chamassem papa que ela “ia-se aos arames”, ia avisando o meu avó. O dela era feito com o sangue, os fígados e o baço e quadradinhos de broa de milho. Tudo acompanhado de fatias de broas de milho fritas. Confesso que por essa altura, tinha eu menos de um metro, não me aventurava no sangue, ficava-me pelo pão naquela molho bem temperado.
Deve ter sido por tudo isto que não se consegue contar com a fidelidade ao cheiro da sopa de ervilhas acabadas de apanhar, das favas com entrecosto. Nem do sabor de uma lasca de bacalhau tirada de uma posta a demolhar. Poderia ficar aqui o resto do tempo, mas deu-me vontade de um arroz doce a sair do tacho…

choque

O choque deu-se, frontal, lateral, mas em vez de sangue saltou comida de gato.
A vida tem acessos de humor negro

‘M’ de meus livros


Ao fim de uma hora de arrumação, a pilha dos “M” não se aguentou e desmoronou-se. Um desastre doméstico que me faz concluir acerca da importância literária de ter um apelido que comece pela mesma letra de Musil. O “B”, de Bessa-Luís, segue-lhe o rasto, mas a uns bons três palmos de distância, logo seguido do “C” de Camões. É mais uma viagem pelos meus livros, em mais uma mudança de lugar. Na estante e na geografia da cidade.

no fio da navalha

A lâmina passava na pele e eu ficava suspensa no movimento. Era certeiro. Sem falhas nem hesitações, mão esquerda firme a segurar-lhe o pescoço e a outra a deslizar suave no rosto, ela fazia-lhe a barba. Se estivesse sol era no pátio, ao pé das rosas, do jasmim, à sombra das telhas onde crescia arroz de jardim, rasteiro, florido. Ele sentava-se num banco e ficava quieto, obediente às instruções que eram sempre as mesmas, havia anos, mas que nem assim deixavam de ser repetidas e acatadas como da primeira vez.

Com uma toalha ao ombro, que contrastava com o luto eterno de três filhos perdidos, ela colocava-se atrás, bacia de esmalte branco com água ao lado. Ounha-lhe outra toalha brança à volta do pescoço e desfazia o conteúdo de uma bisnaga, também branca, numa taça de porcelana. Um pincel e muita prática faziam o resto. Verificava se a navalha estava bem afiada fazendo passar o fio pela pele dos seus dedos e eu não sabia onde ela ia buscar mãos para tudo, nem como não se cortava. Agarrava-me àquele ritual como a um filme de suspense. Primeiro sentava-me a um canto, como ela, a minha avó, me instruía, para não apanhar sol, mas a impaciência e a curiosidade pelo detalhe faziam-me aproximar e dava por mim quase ao colo do meu avô, o dócil avô de poucas palavras, ali mais parado do que nunca, pernas cruzadas, boca fechada até para o cigarro sempre a queimar. À volta tudo era sereno. Os gatos deitavam-se e o silêncio tomava conta do cenário com o meu avô ao centro, sem pestanejar.
Então, o creme da taça era-lhe passado no rosto e transformava-o num homem de cara branca e lábios cor-de-rosa, como um palhaço triste. Era o que me parecia.

O meu avô perdia a identidade por uns tempos até a lâmina a devolver, cada vez mais limpa em cada passagem pelo queixo, pelo pescoço, pelas maças do rosto. Ninguém olhava para mim. A minha avó concentrava-se no gesto, o meu avô entregava-se ao prazer de ser cuidado e a um ensimesmar tão dele que ninguém sabia. E por cada passagem da navalha, o limpar da espuma na toalha, os dedos a dirigirem a cabeça na direcção certa, o corte sempre, sempre ameaçador que nunca acontecia, que nunca vi acontecer. Eu ficava entre o encantamento e a aflição. Onde aprendera ela a fazer a barba sem cortes? Nunca perguntei e ela nunca me contou. Ele entregava-se. Ela cuidava. Foi sempre assim.

saiu-me a lotaria

A bandeira é a do cartão verde para a emigração num país de sucesso.

– Sabe quantos milhões de candidatos temos por ano para entrar nos EUA?”
– Pois.
– Muitos. Da China, Índia, Brasil, Inglaterra, mas este ano estamos a dar preferência a portugueses e a pessoas com elevado grau de qualificações como é o seu caso.”
A conversa corre solta. Houve um email que foi enviado e um contra-relógio para uma oportunidade que se podia perder. Como não houve resposta houve telefonema. Um telefonema que tentava confirmar informações e dizer que estavam reunidas todas as condições para receber um green card por quatro anos. Para isso só tinha de pagar 650 dólares, assim ditos como quem tosse um número, e no segundo seguinte já perguntava o nome completo, se usava mais visa ou mastercard…?
Quando disse a profissão houve um pequeno silêncio quase imperceptível, mas a conversa prosseguiu, com a voz do outro lado a sublinhar todas as vantagens de trabalhar e coleccionar conhecimentos nos EUA.
– Anote a password. Vai ser contactada pela embaixada dos EUA em Lisboa para um teste de inglês, ‘business level’. Já agora o número do cartão de crédito e o código.
– Para quê?
– Pagamento.
– De quê?
– Dos nossos serviços?
– Que serviços, o cartão verde?
– Não, não damos o cartão verde, apenas damos apoio.
– A quê?
– A todos os problemas que possam ocorrer durante o processo.
– Mas não fui sorteada?
– Sim, para ter os nossos serviços que lhe dão melhor acesso a esse cartão. Já agora o código…
– Não pode ligar mais tarde?
– Para quê?”
– Porque sim.
– E vai perder esta oportunidade?
– Ai vou?!
– Espere que vou chamar a minha gerente.
E ela veio, falinhas mansas, simpatia a jorros, piadas sobre fraudes e a tirada de que não brincam em serviço e que isso dá cadeia nos EUA.
– Pois.
– Então, vai dar-me o código e ter os nossos serviços?
– Que serviços?
– Ser nossa cliente.
– Para quê?
Do outro lado a mulher impacientava-se, insistia. Tinha eu um computador à frente? Não, menti.
– Quando vai ter?
– Não sei, mais tarde. Não posso pagar na embaixada”, atirei.
– Não, eles só a vão chamar para um exame de inglês.
– Pois.
– Quer que ligue mais tarde, quando tiver um computador à frente? Se não tiver o dinheiro no banco nós facilitamos…
Silêncio.
– Permite-me que ligue mais tarde?
– Ok.
Desliguei o telefone, liguei para a embaixada dos EUA em Lisboa que já tinha os serviços fechados, mas havia alguém para urgências. Nunca tinha ouvido falar da USAFIS, assim se chama esta organização que se anuncia como promotora de uma espécie de lotaria de cartões verdes. Está on-line, com o site usafis.org. Facilita cartões verdes a troco de umas centenas de dólares, mas não garante. É um jogo que muitos estão dispostos a jogar e onde Portugal parece estar bem cotado, ou seja, com boas entradas.
Fui ver e não faltavam avisos sobre uma fraude com este nome usafis. Não é de agora. Tem a idade da massificação da internet. Porque é que ainda existem, pergunto eu, assim de repente?

inimigos íntimos

A edição espanhola da revista Esquire de Maio traz um especial a que chamou “inimigos íntimos”. Na capa está um Gabriel García Márquez jovem, de olho negro, resultado de um soco histórico que levou do seu amigo íntimo, o também escritor Mario Vargas Llosa. Os dois Nobel da Literatura eram inseparáveis até aquele dia, num cineclube da cidade do México. Recordei a história dessa zanga a propósito da edição comemorativa do livro “Cem Anos de Solidão”, em Janeiro de 2007, e agora recupero-a a propósito deste artigo onde a foto conta mais que as palavras. Outros inimizades íntimas ali recordadas: Ronald Reagan vs Mijaíl Gorbachov; Paul Simon vs Art Garfunkel; Fidel Castro vs Che Guevara; John McEnroe vs Bjorn Borg; Noel vs Liam Gallagher

Tão amigos que afinal eles não voltaram a ser

A história veio na edição de quarta-feira, dia 10, do jornal britânico The Guardian. Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa iriam estar juntos, num só livro – uma edição comemorativa dos 40 anos do romance Cem Anos de Solidão a sair no próximo mês de Março. O título falava em “sinais de degelo” numa “contenda” com três décadas. Era o anúncio do fim de uma zanga mítica que terminou com aquela que foi apelidada a mais famosa das amizades da literatura.
Segundo o jornal, o peruano Mario Vargas Llosa assinaria o prólogo de uma edição especial do mais famoso romance do colombiano Gabriel García Márquez. E citava um porta-voz da Real Academia Espanhola – entidade que irá publicar a edição – segundo o qual os dois escritores tinham chegado a acordo sobre o assunto. Um acordo alcançado apesar de ambos não se falarem desde o dia em que Llosa deu um soco a Márquez num cinema na cidade do México.
A introdução seria um excerto de História de um Deicídio, livro elogioso que Vargas Llosa escreveu em 1971 e que tinha por tema o seu então amigo. O mesmo que Llosa impediu de ser reeditado após a zanga, em 1976, e que se transformaria em raridade literária com preços a atingir os 500 euros. No ano passado, Llosa surpreendeu ao incluir o título nas suas obras completas (Alfaguara) e explicou as razões numa entrevista publicada na edição de 6/10 do suplemento 6ª(ver excerto na pág. 37).
A notícia desta suposta edição conjunta apanhou de surpresa Plínio Apuleyo de Mendonça, embaixador da Colômbia em Portugal, amigo pessoal dos dois escritores zangados e autor do livro O Aroma da Goiaba (uma conversa com García Márquez publicada em 2005 pela Dom Quixote). “Não pode ser, é impossível. Eu saberia disso se fosse verdade”, declarou ao DN o homem a quem Gabo – diminutivo pelo qual o autor de Cem Anos de Solidão é conhecido entre os mais próximos – chama de a sua “memória”. A novidade que Plínio Apuleyo tinha para revelar era outra. García Márquez acabava de lhe comunicar a decisão de avançar com a escrita do segundo volume de memórias Viver para Contá-la (o primeiro foi editado em 2002) para o qual conta com a colaboração do embaixador e amigo pessoal, por se tratar de um período da vida que ambos partilharam e que inclui precisamante o momento da zanga com Vargas Llosa.
O 2.º volume de memórias
A decisão foi tomada após alguma resistência do escritor, que chegou mesmo a ponderar não continuar as memórias. E especulou-se que um dos motivos era a necessidade de revelar as razões de uma zanga que permanece um mistério. Foi a 12 de Fevereiro de 1976. Num cinema na cidade do México, após a exibição de um filme que não ficaria para a História – Sobreviventes dos Andes, de René Cardona – Mario Vargas Llosa agrediu Gabriel García Márquez depois deste o tentar abraçar. As razões da agressão nunca foram divulgadas, nem pelo peruano nem pelo colombiano. Falou-se de motivos sentimentais, falou-se de divergências políticas que o futuro viria a vincar. O colombiano sempre se manteve próximo de Fidel Castro, enquanto Llosa seria alguns anos mais tarde candidato de direita à presidência do Peru. Os jornais publicaram a frase que acompanhou o soco, dita por Llosa: “Como te atreves a abraçar- -me depois do que fizeste a Patrícia em Barcelona?”
Era o culminar de oito anos de tertúlias literárias, de partilha de ideias sobre o papel da literatura latino-americana, de viagens em conjunto, do projecto de escrever um romance a quatro mãos. Uma amizade tão forte que Márquez é padrinho do filho de Llosa.
Amigo de um e de outro, Plínio Apuleyo de Mendonza acompanhou o silêncio entre ambos durante os últimos 30 anos e estranhou, por isso, o inusitado fim da zanga. Após consultar a agente literária de García Márquez e de Vargas Llosa – que acontece ser a mesma – e de falar com o “amigo Gabo”, disse ao DN tratar-se da “invenção de um jornalista de Barcelona”.
A verdade da história é que a Real Academia Espanhola vai de facto editar uma edição comemorativa de Cem Anos de Solidão e um volume que reúne textos de vários escritores sobre o mais famoso dos livros de García Márquez. Entre eles está Mario Vargas Llosa. “Nada mais”, declarou o embaixador, que acrescentou ainda que “Gabo está a ser questionado por jornalistas de todo o mundo que querem saber o que se passa. Uma confusão. De tal maneira, que me confessou: ‘Estou tão irritado com isto que tenho vontade de falar com Llosa e fazer as pazes'”.
E o que pode haver de verdade nessa frase, dita, como afirmou Plinio Apuleyo , “em desespero”? O embaixador arrisca uma resposta: “Gabo gosta muito de brincar.”

artigo publicado no DN, a 12 de Janeiro de 2007

Azul com nuvens

O homem saiu do hotel de calções e escorregou ao por o pé na chuva. Lisboa estava vazia naquele domingo de manhã. O céu de fundo azul tinha todas as tonalidades de cinza e a água caia quando queria surpreendendo quem olha apenas em frente quando quer saber do tempo, distraído sobre a importância de olhar para cima.

A manhã era nova mas já vira muito. O mendigo encolhia-se cada no vão de escadas da Rodrigo da Fonseca sem se emocionar com o cheiro a terra molhada que fizera um casal aos beijos demorar-se na varanda.

Ao som dos Tindersticks na Radar, a voz de Stuart Staples em “Slippin’ Shoes”, um carro avança na estrada e aquele melancolia tem tudo a ver. A música sabe como tirar as palavras a quem tem muito para dizer e resumir tudo num olhar.

Lá em cima, os aviões já voam sem saber que cá em baixo há um homem novo que segura uma criança no colo enquanto a outra se lhe agarra às calças. Uma mulher olha. Fortaleza que controla emoções. O homem tem os olhos a brilhar, as crianças o riso de quem ainda não sabe. Está assim o aeroporto, cheio dos novos emigrantes portugueses. Homens que vão sozinhos escondendo a vergonha e o embaraço de quem não sabia destas lágrimas. Ele é um desses, camisa de ganga fora das calças, emoções engolidas em seco. Só se desmancha quando dá um beijo na mulher. Despedida de mãos vazias. A mala já foi. Tem bilhete de ida e perde na fila da segurança.

Há mais como ele. Histórias que imagino esquecendo-me da minha e fingindo-me repórter num sítio onde não sou. E o carro corre devagar pelas ruas desertas. Sabia bem café com leite e torradas. Talvez um ramo de flores frescas. Há um avião que sobe e emudece o som da rádio.