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Os meus livros

Não sei quantos livros li em 2011. Já vai o tempo em que contava. Mais do que em 2010, quase de certeza. Sei também que muitos dos livros que li em 2011 não foram publicados em Portugal nesse ano. Sei ainda que fiz poucos sacrifícios de leitura. Só aqueles a que fui obrigada por razões profissionais. Não há muito tempo para que a leitura não seja um prazer. Faço o meu balanço afectivo. Os de 2011 em que mais me envolvi, que foram um imenso prazer ler. Escolhi onze, para ficar com a mesma terminação do ano que acabou.

Dublinesca“, Enrique Villa-Matas, Teorema
O Retorno“, Dulce Maria Cardoso, Tinta da China
O Colosso de Maroussi“, Henry-Miller, Tinta da China
O Quarto de Jack“, Emma Donoghue, Porto Editora
A Ilha de Sukwan“, David Vann, A Ahab
C“, Tom McCarthy, Presença
A Cidade de Ulisses“, Teolinda Gersão, Sextante
Contos dos Subúrbios“, Shaun Tan, Contraponto
A Contradição Humana“, Afonso Cruz, Caminho
O Filho do Desconhecido“, Allan Hollinghurst. D. Quixote
O Homem que Gostava de Cães“, Leonardo Padura, Porto Editora

E para 2012 trouxe 12 livros que não consegui ler em 2011. Hei-de arranjar tempo, pelo menos para estes. Outros virão porque os livros têm a mania de se acumular e há sempre mais olhos que barriga.

As Luzes de Leonor“, Maria Teresa Horta,Dom Quixote
Puta que os Pariu! a biografia de Luiz Pacheco“, João Pedro George, Tinta da China
Vida e Destino“, Vassili Grossman, Dom Quixote
O Museu da Rendição Incondicional“, Dubravka Ugrešić, Cavalo de Ferro
O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente“, João Paulo Cuenca, Caminho
Apenas Miúdos“, Patti Smith, Quetzal
O Livro dos LivrosA.C. Grayling, Lua de Papel
Vieram como Andorinhas“, William Maxwell, Sextante
Macedo – Uma biografia da infâmia“, António Mega Ferreira, Sextante
Contos Completos“, Gabriel García Márquez, D. Quixote
Comissão das Lágrimas“, António Lobo Antunes. D. Quixote
Canções Mexicanas“, Gonçalo M. Tavares. Relógio d’Água

dor no pé

Fiquei à espera com um livro do Afonso Cruz.
Era noite em Lisboa e ele trazia-me coisas de outras terras onde a sabedoria não precisa de cadernos nem canetas e nos é atirada à cara sem cerimónias de bem-parecer. Cresci com essa sem-cerimónia e sei o que ela é, o que ela custa, o que ela desarma.

O livro conta a vida de um pintor descoberto na província com tem direiro a quadro na parede da casa da Figueira da Foz, mesmo por cima da arca. Há sempre uma arca numa casa velha de pronvícia. Toda a gente sabe.
E o quadro ficou por lá com a sua história para ser contada, e como Afonso, o pintor, o ilustrador, o designer, o músico dos Soaked Lamb, não gosta de deixar histórias por contar – “temos de as soltar para que possam correr todas nuas” -, resgatou-a e aqui está ela contado no impulso como deve ser com as histórias para que guardem alma.  Ainda o prato de favinhas com chouriço não tinha chegado à mesa e já eu ia dentro dela, com a mãe dele, a de Sors, o pintor, no dia em que o médico anunciou aos pais, na hora do parto, que aquele bebé tinha um olho em meia-lua, sinal de que iria ser artista. Não de circo, como a mãe ainda sugeriu, mas dos outros, e ela não viu nisso qualquer beleza, qualquer vantagem na liberdade que lhe apregoavam como boa como a de olhar sempre o mundo como da primeira vez.

“É a maior infelicidade. Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições.
Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios.
Quero que os lençóis de ontem, mesmo que os bordados sejam completamente diferentes.
Não quero que os beijos que recebo sejam novos, quero que sejam velhos, quero que sejam os de sempre.
Não me quero sobressaltar como quando era jovem. Uma pessoa só pode ter paz quando está ao pé das mesmas coisas, quando nem repara nelas, porque elas já fazem parte de si, como se as tivesse comido e mastigado e engolido e agora fossem carne da sua carne e sangue do seu sangue.
Só somos felizes quando já não sentimos os sapatos nos pés.”

E é esta frase que resume tudo, todo o incómodo do novo, e apetece citá-la, guardá-la na memória para a ter a jeito, só no caso… O Afonso tem esse olhar capaz de filtar o essencial de uma realidade que muitos não conhecem e tendem a julgar como má. É preciso saber a razão pela qual a mãe de Sors, o pintor, não gostou nada da profecia de que o seu filho iria ser um daqueles sempre a ver o mundo como novo. Na sua sabedoria, sem cadernos nem canetas, ela sabia que isso tinha o incómodo do sapato que magoa o pé, o tal que nos recorda que temos um pé quando era suposto esquecer porque ele está lá é para andar e não para fazer doer.

As favas estavam na mesa. A companhia para o jantar chegou, e o Afonso, com aquela invulgar sensibilidade de quem conta mas não julga e mesmo assim comove – ou só por ser assim comove tanto – tinha-me serenado e posto de bem com o mundo num dia em que parceia que o mundo não queria nada comigo. Foi um dia em que o sapato andou sempre a lembrar-me que eu tinha um pé, a mim que não tenho nada de artista.
Fechei o livro, mas aquele mundo, que era o mesmo em que eu nasci, não me largou na grande cidade onde eu comia agora favas com chouriço sem medo de querer olhar sempre o tal mundo como da primeira vez.

E não é que nunca comi favas assim… Obrigada Afonso por este “O Pintor Debaixo do Lava-Loiças”