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O Chapéu

O chapéu de palha girava-lhe nos dedos. Como se chamava o modelo? Fez um esforço, mas não sabia nada de chapéus. Ele é que sabia dos fedoras, dos panamás e de todos os outros.

O chapéu girava nos dedos e ela pensava na falta que ele lhe fazia. E não lhe venham dizer que falta é o mesmo que vazio. Isso é o que a ponta do cigarro aceso faz no guardanapo de papel. Um buraco que alastra e consome até não restar nada. Foi ele quem usou a metáfora para lhe dizer do perigo do desgaste, do que o tempo e o não dito e mal dito podem fazer entre duas pessoas que se amam.

A falta dele não era o vazio. Era uma enorme ausência. Quase tudo e não quase nada. O chapéu que lhe girava nos dedos, de palha amarela, diz que tecida à mão, aumentava essa ausência. Lá fora, a tarde era de inverno, mas o tempo igual ao de verão, como no dia em que aquele chapéu fazia todo o sentido e não lhe girava nos dedos.

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Basta

Não fez as malas porque não as tinha. Passou-se.

Um “basta” que a fez aproveitar a porta aberta para descer as escadas sem olhar para trás. Não iria ficar sozinha nem mais um dia. Cansara-se de mãos passadas pelo pêlo, de um “até já e porta-te bem”. Não se lembra do número de vezes em que assistiu à cena de abrir gavetas e portas de armários.
Primeira calava-se. Depois já não conseguia segurar os protestos. Em vão. A mala fechava-se, a correria atrás de chaves e de papéis repetia-se até a porta bater e ficar o silêncio.

Três anos de vida assim. Nunca lhe faltara nada, é certo. Comida e conforto. Chegou a ir. Ficar em casa de família, de amigos, sempre que o tempo de viagem era maior e a solidão podia pesar mais. Escusado dizer que não gostava. A família não era a dela, nem os amigos, embora depois de algum convívio ficasse também o afecto por mais alguém.
Dizem que é demasiado independente, mas só ela sabe que não é tanto assim.
Há uma imagem a preservar e não está disposta a sinais de fraqueza.

Pelo menos que a deixem por casa. Se quiserem que a visitem. Ela não agradece, mas sempre dá para distrair da comida requentada e das vistas que não mudam ainda que as janelas sejam muitas e dêem para vários lados. Nunca pensou em ter esta vida prisioneira. Acha mesmo que nunca tinha pensado. Não foi feita para isso. Se sentir já não é fácil, pensar então… Daí o grito do Ipiranga à enésima mala.

Desceu as escadas decidida. Era vingança. Era ameaça. Eram as duas coisas. Parece que os livros rasgados, as lombadas desfeitas, os fios cortados, a melhor comida irrecuperável, a roupa sem remendo possível, nada disso demovia estas escapadelas sem prazo nem aviso. E isso dava-lhe coragem.

Era agora. Que a agarrasse se pudesse. Ela sabia de fintas, subia paredes se preciso fosse, fugir era fácil. Mas não era bem isso que queria. Era dar o sinal, um basta, e mal sabia que estava quase a conseguir.
A outra olhava o relógio. Tentava seduzi-la, chamá-la à razão. Eram horas.
Ela aprendera a ler os sentimentos da outra, a tal, a que pensava que podia tudo. Via que estava nervosa. Ora bem. E continuava a andar em direcção à rua, à derradeira porta que a afastava de todo o conforto.
Olhou para trás. Não devia.
Ali estava a fraqueza, a dela. Agora sabia que estava nas mãos da todo-poderosa. Mesmo assim não subiu as escadas. Esperou.
Havia de ir ao colo. Sentiu o alívio da outra, a mão pelo pêlo.

Ela lambeu-lhe o rosto e deu-lhe aquele miau de resignação. Haveria de estar à porta quando a chave desse a volta uns dias depois, como sempre.

Sem peso

Num dia de Outubro olhei o céu de frente e vi estrelas. Era noite.

A água da piscina estava morna. Com o corpo sem peso, senti-me uma meia existência, mas nem por isso menos completa. Só atenta ao essencial.

Um som uterino de ouvidos dentro de água, a cabeça a viajar por dentro dela, à aventura.

E acho que tudo por causa desse olhar de frente para o céu que não é natural aos humanos e também dessa perda de massa.

Sem peso parece que não há medo.