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Uma balada de nova iorque

Joe Gould, bohemian artist
Philippe Halsman, USA. NYC. 1943.

Procurei por Joe Gould. Sabia-o morto, mas mesmo assim.

Não era bem eu, era eu feita personagem de um tempo que não foi um meu, de uma história que não foi minha, mas da qual me apossei.

E aquele seria um lugar provável. Mesas de madeira compridas gastas pelas mãos, pelos cotovelos, pela escrita. Procuro-lhe os sinais sem na altura perceber que pensava em alguém baixinho e enfezado, escondido debaixo de uma barba tão desfiada quanto ruiva. Talvez fossem os rostos gastos pela boémia… outros mais pela destruição pura, a que resultou da ausência de qualquer alusão ao prazer. Escrevem ou fingem que escrevem, ou fingem que lêem. Eu também finjo, afinal.
Só volto a mim quando nos olhos perdidos dos outros, aqueles cujo horizonte não vai além das imagens que lhes vão dentro. Só volto quando olho os olhos deles e eles nem pestanejam. Mas continuo sem ver Joe Gould. Vejo gente a aquecer-se numa biblioteca pública, nada mais. Lá fora gela-se. E outros que teclam e estão ali porque não podem pagar um café que lhes daria direito a uma mesa e algum tempo num lugar com vista para uma rua de gente cheirosa. Aqui, onde não está Joe Gould, cheira a pobreza e são os pobres que ali vão. Joe Gould não era de todo pobre. É chocante? O cheiro a suor e roupa suja e descuido? Pode ser, mas só para os que não sabem nada desses sítios, onde os pobres existem entre as lombadas dos livros que como eles, já poucos ou ninguém consulta. Cheiro a abandono. Joe Gould não era assim.

Mas Joe Gould não está. Claro que não, morreu.
Nunca li o obituário. Talvez vá à procura, mas distraio-me.
Sempre os outros, os que estão à volta. Escuto-lhes as conversas como Gould as escutava, seguindo o que li na vida que dele contou Joseph Mitchell, esse homem com tanto saber de jornalismo para contar de gente, e que, como Sorayan, Freeman ou Cummings, estava destinado a encontrar e deixar-se infectar por Joe Gould, o boémio assumido e tímido relutante a quem o álcool limpava a vergonha. O historiador da nossa redundância que vivia com o que tinha num saco de papel e que tantas vezes jantava ketchup antes de adormecer onde a cabeça o tombava.

Li acerca de Joe Gould antes de conhecer Nova Iorque e isso é a mesma coisa. Não é o mesmo saber dele sem saber do Village, do Bowery, do Harlem e das margens do Battery. Adivinhar-lhe os bares, ver outros, esperar encontrá-lo com o seu livro infinito debaixo do braço, pagar-lhe um café escuro sem açúcar, à cowboy, como ele gostava. Como eu gosto, lembrou-me alguém que me conhece melhor do que o Joseph Mitchell conhecia o Joe Gould. Pagar-lhe um café e ficar a ouvi-lo… Fantasia.

Vou outra vez de Nova Iorque sem ver o Joe. Lamento. Claro que continuo a olhar em volta. E no Village, justamente ali numa das ruas por onde andava, lá está ele, mas sem eu saber que ele estaria lá, dentro de um livro numa pequena livraria. “Up in the old Hotel“, uma compilação de textos escritos por Joseph Mitchell para a New Yorker, a preço de saldo. A pechincha vai comigo para casa, pelo preço de um café enfeitado por um barista de segunda. Mas só dias depois descubro, nela, Gould. O “Professor Sea Gull” constantemente a escrever a “sua” “História Oral”, e Mitchell, o maravilhoso contador de histórias verdadeiras que não lhe resiste. Porque é irresistível um homem que desdenha o dinheiro e tudo o que ele pode comprar, que vive nas ruas entre o que pede e o que lhe dão para continuar a coleccionar o que se diz, o que ouve por onde anda naquela Nova Iorque dos anos vinte, de um século que já passou inteiro. Mitchell descobriu-o em 1942 e fez-lhe o perfil, o primeiro de dois, que publicou na The New Yorker. Anos depois tornou a história mais completa e “O Segredo de Joe Gould“, assim lhe chamou, tornou-se um hino ao jornalismo e à literatura. Li-o assim, em Lisboa, há uns anos, uma edição de capa cor de rosa editada pela D. Quixote e tornou-se um dos meus livros e Joe Gould uma das minhas personagens, daquelas com quem de vez em quando dou por mim a trocar ideias. Tantos anos e ele ainda possível fora da literatura, com o seu sotaque de Harvard, onde se formou, e agora escritor de oralidades. E pode lá haver escrita melhor? 20 mil conversas tão desconexas como universais fervorosamente passadas a papel, contou Mitchell. Gould nem sempre dizia, calava mais e foi calando cada vez mais. Às vezes fingia que falava para dizer só o que queria.

No Village. Há uma toada que guia os passos. Frio, muito frio. Abro a boca para apanhar um floco de neve. Não vejo Joe Gould, alguns parecidos, mas não me lembram Joe; para falar a verdade, ninguem se compara a esse imitador de gaivotas que, como eu, gostava do rio e do grandes corpos de água, abraçadores de alma.

E estou quase a ir embora. Longe de Gould, longe do nosso Village — apropriei-me –, para longe de uma cidade que partilhamos por razões tão opostas, em tempos tão distantes em circunstancias tão diferentes.

Uma voz embala-me. Conta-me a história que Mitchell escreveu, e eu oiço, sem saber que seria um dia um embalo, uma história para eu adormecer. Mas enquanto langueio no meu embalo, vou despertando. Porque reconheço a figura de Gould, estão lá os traços, a rebeldia, mas parece que não era bem bem assim, mas também não deixava de ser assim. Era possível que fosse. Embalo, pois. A voz tem o timbre do Village, podia ser Gould. Quem sabe se não seria. Contava e contou, e no fim o título “Professor Sea Gull”… Emoção da grande.

Encontrei Gould, de facto, fora do Village, não na biblioteca. O Gould antes de eu o conhecer, graças a uma voz, e Gould tornou-se ainda mais uma das minhas baladas de Nova Iorque.

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Não, não passei o ano em Time Square

A mão no bolso trouxe areia da praia. Havia meses que não a pisava.

O cachecol ficara em casa e, encolhida, voltava às luvas com o verão a sair-me da algibeira. Em West Village, subo a Broadway e empurro a porta na esquina com a 12. Último dia de um ano que todos parecem querer ver pelas costas, mesmo na certeza de que o que aí vem será talvez pior. Mas se é para vir, que venha logo. De cor, fazem-se balanços. Estão por todo o lado para quem quer estas coisas em self-service e cada um veste o balanço que lhe serve.
Penso nos meus. Nos rostos, sobretudo. Ganhos e perdas. Quem chegou e quem foi. Onde estive, onde quis ir e não fui, onde falhei, o que ganhei. Os pensamentos andam soltos como as emoções e entro assim na Strand.

O frio do nariz derrete naquele calor feito de 18 milhas de livros. É a maior colecção de livros usados, antigos, o maior fundo de catálogo de uma livraria, a perdição dos viciados em papel impresso. Gula diante do banquete. Os novos, os velhos, os sucessos, os best-off, os malditos, os alternativos… A certeza de que vai faltar sempre tempo é física e arrepia mais do que a temperatura lá fora. Vários pisos de lombadas que mais parecem um depósito de velha biblioteca do que uma livraria contemporânea. Só o merchandizing e as primeiras ilhas tentam os espíritos mais consumistas. O resto são livros arrumados mais ou menos por géneros, segundo uma lógica que ficou do seu fundador, Ben Bass, em 1927, e que os seus sucessores conservaram mais de oito décadas depois.

Uma rapariga abre um livro e cheira. Chama o pai e partilham o aroma de uma velha edição de “Proud and Prejudice” no escaparate dos clássicos e há quem se perca na “Americana”, estreitas alamedas de prateleiras dedicadas à ficção nacional. Parece uma caminhada rumo a uma decadência desejada que se acentua no piso de baixo, piso de betão cru onde o amarelo das folhas guarda fórmulas matemáticas e teorias sociais novas ou em desuso.
E há gente por todo o lado, atropelos por uma descoberta, uma pechincha.

Volto às escadas, agora para subir até ao princípio de tudo, à entrada. E no princípio lá está uma perda, recente, ainda muito viva, raiva que já tinha serenado. A da impotência perante a mais cobarde das doenças. Sorrateira, leva-nos alguns dos melhores. Christopher Hitchens, o jornalista que quase todos os jornalistas viam como referência, fora vítima dela aos 62 anos, o momento em que o seu faro e a sua qualidade de escrita estavam no ponto. Ali está Hitchens na sua ausência. Agora memória em quase todos os seus livros editados ou reeditados. Pego em alguns na esperança de algum contágio de talento.

Como era ser Hitchens? O escritor, o repórter de guerra, o apaixonado narrador de uma actualidade sobre a qual não abdicava de ter uma posição. Polémico, arguto, activista contra as religiões que um dia escreveu que “Deus não é Grande”, romance best-seller, alguém que desde que soube que tinha um cancro passou a falar da morte nos seus artigos na “Vanity Fair”, onde escrevia desde 1992 depois de ter chamado “sexy” à rainha de Inglaterra e ter escolhido a América para viver. O menino de Oxford e Cambridge que achava que não tinha jeito para nada acabou por ser uma estrela das palavras. Não das palavras vazias, mas das que geram reacções apaixonadas. A mãe ensinara-lhe que não havia nada pior do que ser aborrecido,a mãe que um dia aparecera morta. Esse aborrecimento era o maior medo deste boémio, conversador, fumador e bebedor convicto.

Sigo de um livro para o outro. Ponho todos num monte. Abro o de citações, recomendado pelo seu melhor amigo, o escritor britânico Martin Amis. Decido-me por “Hitch-22: a Memoir”, um jogo de palavras entre o seu nome e o romance de Joseph Heller, “Catch-22”. Foi o seu último livro, uma autobiografia que estava a escrever quando soube da doença. Foi editado em 2010, na Primavera. A tempo de ser comentando e promovido pelo próprio jornalista; a tempo de terem sido publicadas críticas e recensões em vida do autor. Trouxe-o comigo. Hitchens por Hitchens. Interessa-me.

É uma das minhas memórias de 2011. Está por abrir. Espero o momento, o sofá, a companhia para uma conversa. Sei que vou encontrar lá dentro alguns grãos de areia que tinha nas mãos quando o folheei. Areia de um dia de sol em 2011. Vou encontrar também o cheiro a papel da Strand e aquele outro dia desse mesmo ano em que subi a Broadway de mãos dadas.

A vida e a morte de um livro

O fim de um livro não é o momento que sucede a última palavra. Quando será, então?
Na Biblioteca Nacional, quando um livro deixa de ir à leitura é acondicionado numa caixa de cartão, espécie de urna sagrada,
e colocado no lugar que sempre ocupou na estante. Continua a partilhar a existência ao lado dos livros vivos e a ser o guardião de todas as vozes que o habitaram.

“Sei de uma bárbara região cujos bibliotecários repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-los nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão… Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é casual e que os livros em si nada significam. Essa opinião, como veremos, não é totalmente falaciosa.”

Jorge Luís Borges, in «Biblioteca de Babel»

Joaquina olha a sua mão aberta através da transparência da água.
Faz pressão sobre a folha de papel e, vistos entre os dedos, os caracteres perdem o sentido que lhes conferiu a combinação atribuída pelo escritor. São sinais a ser pressionados para que o papel que os suporta fique limpo das marcas nocivas deixadas pelo tempo e pelo manuseio. Um tempo que sai numa nuvem amarela que tinge a água do recipiente branco à medida que a mão passa pelo papel num movimento preciso, firme. É um livro a ser lavado.

Não há lombada, capa, cor que o identifique, como quando ocupava o seu lugar entre os 30 quilómetros de prateleiras já preenchidas do Depósito da Biblioteca Nacional.
Cinco quilómetros mais do que há 20 anos, quando Luísa Cabral, directora do Depósito Legal e dos serviços de preservação, começou ali a trabalhar. Nessas prateleiras sim, os livros revelam-se pelos títulos, autores, tamanhos.
É a primeira revelação, a forma a lançar pistas sobre um conteúdo que Teresa tenta descobrir, abrindo uma página, ao calhas, no caminho que vai entre o pedido de um leitor até à sua satisfação.
São 24 anos a percorrer cerca de cinco quilómetros por dia à cata de livros. O ritmo, mais ou menos acelerado, é imposto pela maior ou menor afluência de pessoas à sala de leitura. Nunca conheceu o que é estar do outro lado, deixar os olhos demorarem-se nas frases, passar as páginas uma a uma sem a pressa de quem está a cometer uma espécie de pecado, intrometendo-se numa leitura que outro escolheu. Dizia alguém que não é crime roubar um livro. Muito menor será, então, a culpa voyeurista de Teresa. «Quando tenho tempo folheio. Deixa cá ver o que é que este leitor vai ler… Gosto de perceber porque é que escolhe um livro e não outro.» Sim, porque a escolha é feita de exclusões, por mais que doa a Teresa que, entre todas aquelas prateleiras que compõem o 3º piso da torre, dedicado à Literatura, também tem as suas estimações.
Joaquina, Luísa e Teresa são apenas três personagens nos bastidores de milhões de livros. Rostos que não chegaram aos cerca de 334 mil leitores que, em 2004, requisitaram 177 mil volumes nas salas de leitura da Biblioteca Nacional (BN).

A grande invasão

O conceito de obra inútil não faz parte da gramática de quem trabalha neste edifício do Campo Grande, projecto arquitectónico de Pardal Monteiro, inaugurado em 1969. Ali chegam todos os documentos impressos no país, cumprindo as normas impostas pela Lei do Depósito Legal que muitos acusam de excesso de zelo por obrigar a essa recolha total e em duplicado. Excepções? «Cartões de visita, cartas e sobrescritos timbrados; facturas comerciais, títulos de valores financeiros, etiquetas, rótulos e calendários; álbuns para colorir, cupões e outros equivalentes, modelos de impressos comerciais e outros similares.» Esses ficam de fora. «Recebemos 11 exemplares de cada documento. Dois ficam na BN – um para leitura e outro para preservação. Os restantes nove seguem para as bibliotecas beneficiárias: a Municipal e a Universitária de Coimbra; a Municipal do Porto; a Pública de Braga; a Municipal de Lisboa; Évora, Açores, Madeira e Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro», diz Gina Guedes Rafael, responsável daquele serviço, e em jeito de justificação das pilhas de caixotes que já invadiram todos os cantos do espaço reservado ao Depósito Legal e ameaçam transformar em armazém os corredores contíguos, sítios de passagem onde os passos se iluminam em estranhos jogos de luz e sombra, sublinhados por janelas de vidros baços que não deixam ver, mas permitem adivinhar o que está por detrás, naqueles gabinetes, vultos, de pessoas, de plantas, de estantes apinhadas.

O trabalho, ali, é físico. Carregar caixotes num empilhador, transportá-los até à sala onde é feita a separação, e aí proceder à triagem… Há um rosto por detrás de uma montanha de livros, entre uma janela e outra. Três funcionários fazem pilhas de onze títulos iguais que vão distribuindo por nove caixas de cartão e pelas prateleiras de uma estante, destino dos que ficam na BN, como atesta o carimbo de posse na página de abertura, nº do Depósito Legal e data de entrada. Um de cada para cada uma das bibliotecas e de olhos postos numa lista que ajuda a conferir que nenhuma irá ficar em falta ou receberá um exemplar a mais.
Os livros repetem-se, os gestos também. Todo o dia, todos os meses, mecânicos, em série, sem tempo para espreitar as páginas e lendo o título como um separador de espécie. É essa, afinal, a função. E não se ouve uma voz. O homem por detrás dos livros não ouve e por isso não fala. Não é preciso. Basta entender a linguagem das letras e dos números. Sabe ler lombadas e lábios e isso basta-lhe para ajudar a nascer os livros para esta biblioteca. Regista esse momento no papel com o dia, o mês e o ano, mas sem ligar aos ponteiros do relógio de parede parados numa eterna verticalidade e já sem exercer pressão sobre quem trabalha contra o tempo. Há muitos anos que marcam seis horas, ninguém sabe se de uma tarde ou de uma qualquer madrugada deserta destes movimentos que têm continuidade na catalogação e que há-de registar a existência de livros neste lugar bem como a sua disponibilidade para quem os quiser ler. Isso apesar dos meses que ainda vão passar até encontrarem lugar definitivo na estante e piso que lhes foi destinado no depósito.

Da entrada à arrumação no respectivo piso há um hiato de cerca de um ano, como atestam os caixotes com registo mais recente no Depósito Legal, assinalados com um certo dia de Março. A separação está abrir os pacotes com entrada relativa a Outubro de 2004 e a catalogação trata o mês de Maio, também de 2004. A escassez de funcionários explica o atraso, que já chegou a ser maior mas que, com a ajuda da informática e alguma reorganização de serviços, se tenta minimizar. Livros infantis, manuais escolares, teses de doutoramento e mestrado, romances de escritores mediáticos amontoam-se em cima das estantes à espera da atenção de alguém que lhes irá atribuir uma cota e duas cores – uma relativa ao género e que corresponde a um piso, e outra referente ao tamanho e que remeterá para uma prateleira. É uma espécie de bilhete de identidade entre uma população variada e arrumada também por classes, com a raridade a dar direito a estatuto especial e lugar no depósito de reservados, cofre-forte de acesso muito restrito.
Essa fidalguia entra, normalmente, por outra porta. A das doações ou compras. «A BN gere um orçamento anual que ronda os 60 mil euros para a aquisição de obras», informa Luísa Cabral. Pouco. Mas foi isso que lhe permitiu, por exemplo, adquirir aquele que é considerado um dos maiores tesouros do acervo: a «Bíblia de Cervera», um iluminado hebraico do séc. XIII, a «jóia dos alvores da invenção de Gutenberg», a Bíblia de 42 linhas (1454-55). Ou ainda, gastar 40 mil euros, em 2004, na compra dos manuscritos de Eça de Queiroz, um investimento que emagreceu a hipótese de muitas mais aquisições, mas considerado prioritário por quem tem a seu cargo a decisão de comprar. Seja a partir de sugestões dos leitores, como em resultado de uma pesquisa de autores portugueses editados no estrangeiro ou de autores estrangeiros que falem sobre Portugal, privilegiando as humanísticas e a literatura portuguesa, além dos chamados utilitários – dicionários, enciclopédias. Peritos da BN vão a leilões, percorrem sites, esmiuçam catálogos das editoras, assinalam o que interessa e decidem o que comprar em função do orçamento. O critério é sempre o do enriquecimento de uma colecção tornada pública em 1796, na então Real Biblioteca Pública da Corte, e que tinha como função «facilitar o acesso aos seus acervos, em grande parte já existentes, a todos os interessados».

A cápsula ou a essência dos livros

No piso 3, Teresa nunca teve de dar resposta a um pedido «absurdo» de um leitor, como aquele que o general Stumm von Borwehr fez a um bibliotecário no livro de Robert Musil, «O Homem sem Qualidades». Mais ou menos assim, numa tradução um pouco imprecisa: «Pois é, já agora importava-se de me dar uma perspectiva geral do mundo dos livros? Gostaria que me explicasse o que eu quero e o que me interessa. E depois podia dar-me o livro que contivesse o pensamento que para mim fosse o mais precioso.” Estranho ou não, e para surpresa do próprio general, o certo é que o bibliotecário em causa, funcionário da biblioteca nacional, pega no escadote e retira da prateleira de uma estante o livro que, no seu entender, continha a essência da biblioteca: uma bibliografia de bibliografias, ou seja, um índice de índices de livros. Mas Teresa não tem a mesma função desse bibliotecário ficcionado por Musil. As requisições chegam-lha na forma impessoal de uma cápsula de plástico transparente enviada da sala de leitura geral através de um sistema de vácuo. Cada cápsula contém a solicitação de um leitor. Na gíria interna recebe a designação de ‘bala’. Sempre que uma bala chega, faz-se anunciar através de um sinal luminoso. Teresa abre, lê a cota, e já pouco se demora no nome do autor ou no título. Conhece de cor os cem metros de comprido de corredor cheio de estantes de um lado e de outro, os comboios. Em cada um, a sinalética indica o número de cota e a cor, preto ou vermelho, conforme o formato do livro. Preto para pequeno, vermelho para grande, uma distinção que, além de facilitar a arrumação, acelera a resposta ao pedido. Há ainda o azul, para obras de grande formato.

Quando se lhe pergunta se conhece o lugar de cada livro, não diz que não. Ri e põe mãos à obra. «Cota 956, preto. Este, por exemplo, é aqui pertinho». Continua: «Cota 599. É o Alexandre Dumas.» A numeração é sequencial. Quanto mais baixa é a cota, mais antigo é o livro. E percorre, ligeira, os corredores à procura dos livros correspondentes às cotas que tem na mão. Passa indiferente por «A Vida e as Aventuras», de Robinson Crosoe, os «Problemas da Linguagem», de Cândido de Figueiredo, «Fables Choisis», de Esopo, «O Medo», de Stefan Sweig, «Eurico, o Presbítero», de Alexandre Herculano. Segue a sua própria lista e quando tem todos, mando-os para baixo, num elevador, ou monta-cargas, que chega à sala de leitura e aí é distribuído pelas respectivas mesas. Entre o pedido e a entrega do livro passam, mais ou menos 20 minutos, tempo que pode ser encurtado quando, em vez de preencher um papelinho, for possível fazer a requisição por via informática. Teresa tem dúvidas. Desconfia da fiabilidade dos computadores, mas não contesta. Muda de assunto. Prossegue nas suas considerações e satisfazendo curiosidades muito pessoais. «Gosta do Lobo Antunes? Eu não conhecia até que um dia disse para mim: Deixa cá ver porque é que este escritor ganha tanto dinheiro. E li o “Auto dos Danados”. Percebi que só vindo de um psiquiatra.» Conversa sobre «A Balada da Praia dos Cães», de José Cardoso Pires, mas tudo leva a Miguel Torga. «Ah, o meu Torga! Deve ser por ser lá de cima. Sou transmontana, como ele.» Nisto, dirige-se a uma das estantes da entrada. Retira um livro. Diz que o mostra sempre que tem visitas e sabe exactamente onde está, graças a uma memória visual que facilita o seu trabalho. «É uma preciosidade», assegura. Está todo picado dos bichos, amarelo escuro, com as folhas a partirem-se, a lombada quase desfeita, páginas soltas, envolto numa fita branca atada por um laço. «Já não pode ir à leitura, mas também tem direito à vida», sentencia, continuando a operação de manuseamento, numa ladainha que reproduz os longos diálogos que mantém com os livros, companhia de tantos anos naquele espaço onde só entra uma nesga de luz do dia em nome da preservação dos livros. «E o restauro, sôtora? Também não acredito.» Uma pergunta que já inclui resposta e não espera pelas palavras da directora do sector, Aurora Machado. Atira: «Este é vedeta de televisão.» Mesmo assim, Aurora Machado explica o estado vegetativo do volume: «Aqui está o exemplo de um livro em que já não há muito a fazer. Não é possível restaurar porque já está com a mancha de texto roída. É de mil setecentos e tal, nem sequer é muito velho, mas as condições em que esteve antes de vir para aqui não foram as melhores. Podia ser microfilmado, mas os buracos feitos pelos bichinhos não iriam permitir a leitura…»

Evitar fantasmas

Com a extinção das Ordens Religiosas, em 1834, houve a apreensão das obras das bibliotecas dos conventos e dos mosteiros. Muitos dos livros em pior estado vieram daí. É o caso do livro de que se fala. Está limitado à prateleira e aos mimos esporádicos da guardiã do piso. Moribundo e sem estatuto especial, não integra a lista dos livros a recuperar na campanha «Salvem o Livro II», uma iniciativa da BN que pretende atrair mecenas para ajudar a recuperar obras. As «Rimas», de Lope de Vega, numa edição de 1605, aguardam vez e a vontade de um investidor para seguirem até à sala de restauro. O diagnóstico está feito: «Encadernação em pergaminho em mau estado de conservação. Apresenta sujidade superficial, deformação do suporte, ataque de insectos e intervenções anteriores de má qualidade.» Quanto ao corpo do livro, está com sujidade superficial, acidez do suporte, manchas de diversas origens e ataques de insectos. A proposta de intervenção aponta para uma nova encadernação, tratamento integral do corpo do livro, acondicionamento em caixa de cartão isento de acidez e microfilme. Preço: 480 euros.

Mais do que a passagem do tempo, o mau manuseamento é uma das principais causas da degradação de uma obra e deixam marcas visíveis, sobretudo no canto superior direito do livro. Mais tarde ou mais cedo, essa parte acabará por partir e perde-se parte do texto. «É muito este nosso gesto de molhar a ponta do dedo para folhear», exemplifica” Aurora Machado. O restauro, a digitalização ou a microfilmagem são soluções que, em conjugação ou isoladamente, permitem prolongar a vida de um livro que, de outra forma, não teria outra solução senão a de ficar na prateleira, sem poder ser consultado ou, pior ainda, sem que o seu conteúdo estivesse acessível à leitura, como num cemitério de livros.

Esta ideia foi explorada há pouco tempo pelo escritor catalão Carlos Ruiz Zafón no romance «A Sombra do Vento» (D. Quixote), editado em Portugal no ano passado e que se desenrola à volta do «feitiço dos livros». A trama arranca com uma visita inesperada, proposta por um pai ao seu filho. O de o levar, no dia do aniversário, nada mais que ao Cemitério dos Livros Esquecidos. «Cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar pelas suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se forte. (…) Quando uma biblioteca desaparece, quando uma livraria fecha as suas portas, quando um livro se perde no esquecimento, os que conhecemos este lugar, os guardiães, asseguramo-nos de que chegue aqui. Neste lugar, os livros de que já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar um dia às mãos de um novo leitor, de um novo espírito.» Não é esta a função da BN. Apesar de todas as vozes que encerra, a última coisa que se pretende é que um livro adquira o estatuto de fantasma. Nessa polifonia – cada vez maior à medida que o uso aumenta – o livro deve ser aberto, manuseado e, quando, por imperativos de preservação, tal não for mais possível, que seja então lido noutros suportes: digital ou microfilme. Mas lido, interpolando os leitores e outros livros. A morte de um livro está na impossibilidade da sua leitura.

A decisão sobre o que mandar para digitalizar, microfilmar e restaurar é estudada caso a caso. Se a microfilmagem de uma obra pode partir do pedido de um leitor, já a digitalização e, sobretudo, o restauro estão dependentes de um parecer técnico.

Desde o verão de 2004 foram feitas cerca de um milhão de imagens graças a uma campanha de digitalização. Cada uma das secções elaborou listas das obras mais consultadas, das que se revestiam de maior importância para a colecção e das que, por motivos de preservação, tivesse leituras restritas. Neste momento, a campanha vai a meio e prevê-se que até ao fim, se consiga ultrapassar os dois milhões de imagens. De iconografias ou de palavras. No caso do texto, cada imagem corresponde, grosso modo, a uma página. «Fazemos, em média, 1500 imagens por dia. O objectivo é, sobretudo, o de preservar obras. Ao contrário da fotocópia – tida como o pior inimigo de um livro –, a digitalização é considerada o método de reprodução menos invasivo para a segurança da obra. Existem máquinas especiais para obras encadernadas e o tempo de iluminação da imagem a digitalizar não chega a um segundo.

O trabalho começou pelos reservados, daí todos os cuidados para minimizar os efeitos da intervenção. Um técnico munido de luva brancas vai manuseando as estampas que estão a ser digitalizadas. «Por vezes há obras em muito mau estado… Já temos digitalizado algumas que parece que se vão desfazer nas nossas mãos», diz, sem tirar os olhos do que está a fazer. A máquina em causa é híbrida, tanto funciona para a digitalização como permite filmar. Dá para grandes formatos, como para livros considerados normais. Actualmente, está apenas a digitalizar para dar um pouco de vazão às solicitações para aumentar a colecção da Biblioteca Nacional Digital (BND). «Muitos leitores, ao consultar a BND (www.bnd.pt) ficam impressionados com o acto de mostrarmos obras em tão mau estado. Houve uma altura em que se tentou esconder isso do público. Mas é a realidade e acho que ganhamos mais em mostrar e sensibilizar as pessoas para a necessidade de haver cuidados acrescidos no manuseio das obras», refere Isabel Roque, do Gabinete de Edições Electrónicas da BN.

Por aqui já passou, por exemplo, toda a camoniana, as obras de Eça de Queiroz, Almeida Garrett, a correspondência entre António Feliciano de Castilho e Camilo Castelo Branco, a «História Trágico-Marítima», de Bernardo Gomes de Brito, ou «Confissão de Lúcio», de Mário de Sá-Carneiro. «Estas obras estão disponíveis na BND e podem ficar agora preservadas. Devido à qualidade da digitalização é possível usá-las mesmo para um estudo sobre a textura do papel usado nos originais», esclarece Isabel Roque.

O tempo e o espaço

Uma solução perto do óptimo, não fosse a incógnita que persiste quanto à validade de um suporte digital. É uma interrogação para a qual continua a não existir resposta. Talvez por isso a microfilmagem seja encarada como um dos formatos mais fiáveis para preservar uma obra que esteja em risco, ainda que a leitura de um microfilme seja a mais desconfortável. «O microfilme dura centenas de anos, sofrendo apenas algum desgaste com a visualização. O digital além de nos pôr o problema do arquivamento – que implica servidores muito potentes – tem uma durabilidade que ainda não se conhece. Nós mantemos as duas linhas de consulta», sintetiza Aurora Machado
.
Na microfilmagem, cada bobina corresponde a um livro. São resultado de duas solicitações distintas: obras que a BN considerou de interesse em transferir para outro suporte, por estarem em mau estado, em risco de se perderem, ou então ainda documentos que os leitores pediram para microfilmar.

Numa sala escura, um homem executa em silêncio o trabalho solitário da passagem de uma obra a microfilme. É surdo-mudo e um dos muitos deficientes que a BN emprega ao abrigo de um protocolo com a Segurança Social. Pacientemente, abre o livro, acerta as margens, verifica se a intensidade da luz é adequada à cor do papel e só depois a deixa actuar para que a cópia se faça. São escassos segundos. De duas em duas páginas a obra vai-se replicando em filmes de polyester de 35 mm que, quando saírem dali, seguem para a revelação. Sempre três de cada documento.

Todas as obras anteriores a 1900 são microfilmadas antes de serem sujeitas a qualquer outro tipo de reprodução. Depois, a obra é arrumada e, em princípio, não será mais mexida, excepto se for decidido sujeitá-la a digitalização. Mas não são raros os casos de documentos em tal estado que nem a microfilmagem é possível.

Se no microfilme o livro é lido em planos de duas páginas, na digitalização o livro recupera a fórmula original do rolo de papiro. O texto vai-se desenrolando à frente do leitor à medida que a leitura avança. O computador adopta, assim, a técnica ancestral de um suporte feito de hastes secas fendidas de uma espécie de junco arranjado em rolos e que, na altura, veio substituir as placas de argila originárias da Mesopotâmia. Conta Plínio, o Velho, que o rei Ptolomeu do Egipto, receoso de que lhe fugisse o controlo sobre o segredo da produção nacional de papiro, e para proteger a Biblioteca de Alexandria, proibiu a sua exportação. Isso levou a que Eumenes, o soberano rival de Pérgamo, descobrisse um novo material para os livros da sua biblioteca: o pergaminho. Foi no século II a.C., embora se conhecessem brochuras de pergaminho do século anterior. Havia rolos de pergaminho e códices de papiro. No século IV, e até ao aparecimento do papel em Itália, oito séculos depois, o pergaminho era o material preferido na Europa para o fabrico de livros. Não só por ser mais resistente e macio do que o papiro, como barato. Este facto é recuperado por Alberto Manguel, em «Uma História da Literatura», (Presença, 1998). «Mais transportável, os dois lados da folha podiam conter texto, as quatro margens de um códice possibilitavam a introdução de glosas e comentários permite a participação do leitor na história.» Hábito eterno que persiste, vício maldito para os que têm a seu cargo a manutenção de um espólio nacional e a que nem obras guardados nos reservados escapam. Como uma edição d’«Os Lusíadas» da casa de António Gonçalves datada de 1572, cuja digitalização, além de notas referenciadas, revela ou ou outro sinal de um leitor que deixou ali a sua marca.

Limpar o tempo

Da história e das qualidades do papel, como dos arranjos ou desarranjos que vai sofrendo, sabem, mais do que ninguém, os técnicos que trabalham na área de restauro e preservação. Aplicam-nas diariamente nas decisões sobre o modo de actuar nos vários tipos de papel sobre os quais têm de intervir. É uma espécie de unidade que se divide entre os socorros primários e os cuidados intensivos, consoante o estado de saúde da obra. «A área de manutenção de colecções e de acondicionamento, tal como o nome indica, acondiciona e faz pequenas intervenções de conservação e restauro a que chamamos a “remendagem”, como a colagem de um rasgão, no caso de uma folha que se solta… É uma bancada SOS e tem a seu cargo todos os programas de conservação preventiva: controlo de pestes, higienização de pisos, controlo ambiental, o plano de emergência», esclarece Teresa Lança, responsável por aquele serviço onde se inclui ainda a área de conservação e restauro que intervém sobre os fundos mais antigos da biblioteca, aqueles que requerem um maior “cuidado”, obras de valor documental único, normalmente anteriores ao século XVIII.

É ali que Joaquina continua a lavar o seu livro. Chama-o seu porque é com ele que vai passar os próximos dias, semanas, talvez, e nesse percurso o sentimento de posse instala-se. «É o meu incunábulo, o meu reservado, o meu manuscrito… Reflecte uma atitude carinhosa e afectiva para com as obras. Nunca é só mais um livro, ou mais um documento», assegura Teresa Lança.

Sem nunca tocar directamente no papel, que se encontra protegido por uma espécie de mata-borrão muito fino, Joaquina adiciona à água um bocadinho de hidróxido de cálcio que permite remover parte dos produtos de deterioração. Este trabalho de limpeza húmida só é possível porque a obra em causa – um livro de medicina legal – não tem tintas solúveis. Mas antes deste ‘mergulho’, o livro é sujeito a um teste de PH para medir o grau de acidez do papel – com o tempo o papel vai-se tornando ácido – e alvo de uma limpeza mecânica que tem a função de remover a sujidade superficial. A água destes banhos sucessivos a que cada fólio (conjunto de folhas de papel dobradas) é sujeito começa por ser fria, mas vai aquecendo gradualmente até um máximo de 37 graus. Ao mesmo tempo Joaquina fará a alcalinização. Consiste é dotar a obra de uma reserva alcalina, ou seja, dar-lhe armas para se defender da possível deterioração que se segue ao longo dos anos. E, por fim, repõe parte da substância colante perdida durante o processo de lavagem e que serve para manter juntas as fibras e as cargas que compõem o papel. Feita a limpeza, a técnica coloca o fólio a secar numa espécie de grelha que mantém as folhas direitas e permite a passagem do ar. Normalmente basta um dia para que o papel perca a humidade deixada por um banho que tem a função de lhe restituir saúde e que só pode ser feito por mãos experientes. Mesmo assim, os sustos acontecem: «Era uma gravura que parecia óptima. Quando foi para dentro de água e desfez-se de repente. Foi um horror. Passei 15 dias quase sem dormir e quando fechava os olhos e via o papel, o puzzle, sabia perfeitamente onde é que cada parte encaixava na outra. Um pesadelo», lembra Teresa Lança, e acrescenta uma moral a esta história: «Por muito que pensemos que estamos seguros, existe sempre um factor de risco muito grande, mesmo sem estarmos à espera.»

Joaquina acompanha todo o processo de restauro da obra. Quer mecanicamente, quer manualmente. Pega num documento e segue-o até à encadernação. Já fez com esta obra o mesmo que Cátia está a fazer agora com uma outra na área de acondicionamento e manutenção de colecções. Alguns livros com margens partidas e capas a desfazerem-se, aguardam intervenção. Vêm da sala de leitura com lombadas partida, folhas descoladas… «para cada um, fazemos uma proposta de intervenção. Quando estão mesmo muito mal e muito ácidos recorremos à passagem para suporte alternativo, no caso a microfilmagem. A partir daí, fisicamente a obra morre. É acondicionada e vive o tempo que puder viver, mas não será mais acessível ao leitor», sentencia Teresa Lança, apontando para uma caixa com tampa de plástico cheia de livros em «tão mau estado em termos químicos que já não há nada a fazer. É a caixa dos que vão ser microfilmados. São os que vivem no limbo.»

Sem levantar a cabeça, Cátia prossegue o seu trabalho de desmontagem do livro, marcando numa folha o esquema de ordenamento dos cadernos – grupo de fólios – para que, mais tarde, o seu colega da encadernação siga o esquema original. A obra em causa está a ser recuperada ao abrigo da campanha «Salvem um Livro». Parte dos preços são suportados pela BN e outra parte pelos mecenas. O custo é calculado em função das horas necessárias para tratar o livro e do preço das matérias-primas… Este livro levará mais ou menos três semanas a um mês de trabalho. Vai ser limpo mecanicamente com a trincha, bisturi e borracha e, como as tintas são insolúveis, será sujeito a uma limpeza húmida, passando depois para o restauro manual. Como não está muito danificado, precisará da colagem de um rasgão e, sobretudo, de um intervenção ao nível do festo (zona imediatamente a seguir à costura ou à colagem do bifólio, onde se exerce mais pressão na altura da costura). Tem de estar reforçado para aguentar o processo de costura. O resto será mantido. Originalmente a obra não foi aparada e vai continuar como tal, com folhas amarelas e as margens incertas.

Não exibe, no entanto, buracos feitos por bichos como a que Cecília – uma outra técnica de restauro – está a tratar. Sempre que tal acontece é preciso escolher uma metodologia. Ir pelo restauro tradicional — desenho da lacuna sobre um papel de características semelhantes ao do original em termos de cor, textura, espessura; ou pelo restauro manual em que há um depósito de fibras de polpa de papel em meio aquoso, feito com um gota a gota e sonda de dentista para chegar aos orifícios. Foi esta a escolha. Em cima da mesa, há um frasco cheio de polpa de papel. Um conta-gotas suga a pasta que é depositada no buraco e depois trabalhado com a sonda de dentista em suporte de nylon até que o papel fique refeito. Teresa Lança mostra uma outra folha alvo de procedimento semelhante e que exibe agora uma série de efeitos que se assemelham a minhocas brancas. São as partes de papel reconstituídas.

O culto

Sentado num estirador, Vasco devolve a forma original aos livros que os colegas trataram. É a etapa final deste processo. Especializou-se em encadernação de restauro e restauro de encadernação. Tem agora em mãos uma capa nova para a qual aproveitou a original. Está praticamente concluída após duas semanas de um trabalho que envolveu ainda a costura dos cadernos num pequeno tear. «O restauro tem de bater certo com a costura de modo a que esta lombada volte a ficar com as mesmas dimensões. Como a encadernação original é de pele, escolheu-se uma pele mais ou menos semelhante. Aqui, colocou-se só a lombada e a charneira em papel para tapar uma zona que já estava partida», explica sem pressa nas palavras e desembrulhando um outro livro envolto em ligaduras e exibindo uma capa irrepreensível. E há ainda outra, a réplica de uma encadernação islâmica para um manuscrito que está a ser restaurado. Faz silêncio como quem espera uma reacção. E percebe-se mais do que nunca o culto a estes objectos.
Estão quase prontos a voltar a ocupar o seu lugar nas estantes. A voltar à vida. E nesse momento recuperamos as palavras que um dia Franz Kafka terá dito ao filho de um amigo que ficou extasiado diante da montra de uma livraria de Praga: «Um livro não pode tomar o lugar do mundo. Tal é impossível. Na vida, tudo tem o seu próprio sentido e a sua própria finalidade, para os quais não pode haver nenhum substituto permanente. Um homem não pode, por exemplo, dominar a sua própria experiência por meio de outra personalidade. Assim é o mundo em relação aos livros. Tenta-se aprisionar a vida num livro, como um pássaro canoro numa gaiola, mas não vale a pena.» Ou ainda, como escreveu um dia Borges, o mesmo bibliófilo com quem começámos: “… a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.»

Publicado no suplemento dna em 2005