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Ironia segundo Farrell

 

Porventura não será o romance que apetece. Assistir ao limite da sobrevivência numa civilização em fim de linha. Estão lá os limites do humano, mesmo que a pose mande esquecer que se só há baratas para comer e se continue a beber o chá às cinco.

Estamos em 1857, no período pós-victoriano, um momento em que os indianos se revoltam contra os ingleses numa cidade literariamente imaginada para narrar a queda de um império, o britânico, na Índia. “Qualquer pessoa que nunca tenha visitado Krishnapur, e que se aproxime vinda de leste, deve pensar que terá chegado ao fim da sua viagem alguns quilómetros mais cedo do que esperava. Estando ainda a alguma distância de Krishnapur, começa a subir uma cordilheira baixa. Daqui avistará ao longe o que parece ser uma cidade distorcida pelo calor. Verá o brilho o brilho branco das paredes e dos telhados e um generoso arvoredo, até porventura a cúpula do que poderia ser um templo. A toda a volta, há a interminável quietude da planície, exactamente como tinha sido ao logo de muitos quilómetros; um sórdido oceano de terra agreste, na imensidão do qual se perde um esporádico campo de cana-de-açúcar e ou de mostarda.”

São as primeiras linhas de “O Cerco de Krishnapur“, o melhor teste aos resistentes a entrar no romance. A capacidade de sedução da escrita do seu autor, J. G. Farrell, a elegância com que ao longo desta narrativa vai intercalando cenas do mais absoluto horror com uma ironia tudo menos incómoda, ou metida a ferros, fez deste livro de 1973 um dos finalistas ao melhor Booker dos Bookers, prémio conquistado por Salman Rushdie, com “Filhos da Meia Noite”. Ficou em segundo lugar e é o sinal do crescente reconhecimento que existe á volta de um escritor que desapareceu cedo de mais, aos 44 anos, mas mesmo assim conseguiu o feito de ser, com Peter Carey e J.M. Coetze, um dos três autores a vencer duas vezes o mais cobiçado prémio literário de língua inglesa. A primeira vez, com este romance, há 39 anos, e a segunda com “Hotel Majestic”, no original “Troubles”, que acontece ter sido publicado três aos antes e é o primeiro volume da trilogia do Império a que pertence “O Cerco de Krishnapur”.

Confuso? talvez para quem não tenham andado a par das peripécias do Booker que não foi entregue em 1970, justamente o ano de publicação de “Troubles”. A organização do Booker quis repor a falha e mais de 40 anos depois eleger o Booker de 1970. E o prémio foi para “Troubles”, publicado pela Porto Editora no ano passado. A mesma editora que agora traz para português um livro em falta, o segundo de uma trilogia que terminou com “The Singapore Grip” (1978).

Reparada a falha, não há desculpas para não conhecer melhor a obra do escritor natural de Liverpool que um dia, no início de 1979, decidiu comprar uma casa na costa da Irlanda e descobrir que havia coisas que o estavam a distrair da escrita. Nesse mesmo ano, a 11 de Agosto, morria derrubado por uma onda enquanto pescava, o seu corpo esteve desaparecido durante um mês

Uma comédia social

De onde vem aquela voz? “Neste momento acho que a Inglaterra está muito contente por não fazer parte da zona euro.” O tom aristocrata, o sotaque cerrado, colocação teatral, timbre de tenor, o silenciar das vogais a remeter para outro tempo, para um cenário vitoriano, precisamente aquele que começa por retratar e questionar no seu mais recente romance, “O Filho do Desconhecido” (D. Quixote) candidato a muitos prémios, entre eles, o Booker, vencedor de uns quantos, aplaudido pela crítica, celebrado pela imprensa mundial. Um livro que tem quase a duração do século XX, vai de antes da I Guerra à década de oitenta. “Se tivesse de o classificar diria que é uma comédia social feita a partir da hipocrisia e da afectação das classes mais altas.”

Alan Hollinghurst , 57 anos, escritor lento, de quatro romances em duas décadas, considerado um dos mais exímios manipuladores da língua inglesa, homem cheio de referências literárias que transporta para os seus romances, alguém que gosta de pegar numa certa realidade e ser cínico com ela, já pôs Margaret Thatcher a dançar numa das suas ficções, justamente em “A Linha da Beleza” com o qual conquistou o Booker em 2004. Aí havia o retrato de uma época de excessos. Agora, em “O Filho do Desconhecido”, há um fresco sobre o escondido, o jogo de segredos em que vive essa mesma aristocracia.

O livro está pousado em cima da mesa ao lado do bule com o chá da tarde. Não o dispensa. E os olhos distraem-se por momentos nos ecrãs de televisão colocados na parede. Interroga-se sobre se é verdadeiro o bigode do entrevistado num dos canais. É José Mário Branco na RTP Memória. Não se fixa no futebol, volta à economia. “Nós não estamos bem, mas vejo uma Europa ainda mais aflita”, comenta este observador de costumes, com a tal voz que parece um ensaio, retirada de uma das personagens dos seus romances. “Como é que os portugueses estão a viver tudo isto?”. Ele é um espectador. Está na posse da informação, mas não do quotidiano, e enquanto escritor é o detalhe que lhe interessa. Descreve-o como poucos. Tanto o detalhe de carácter como o pormenor da arquitectura. Acredita que os ambientes determinam os comportamentos e não foi por acaso que escolheu uma casa e uma família da aristocracia rural dos arredores de Londres para escrever sobre como se derrubam e recuperam costumes, para falar da ambiguidade e questionar o difícil que é saber a verdade sobre uma pessoa. “Se no início do século XX ninguém estava interessado na vida sexual de alguém, no final do século é só isso que se quer saber, e ao mínimo detalhe”.

É a última entrevista em três dias em Lisboa. Dentro de pouco tempo irá apanhar o avião de regresso a Londres. Já perdeu conta às vezes em que falou sobre o que quis quando escolheu para personagem central do livro Cecil Valance, um poeta que vive no ambiente de Cambridge, herdeiro rico, fisicamente perfeito, adorado por homens e mulheres, sedutor, sexualmente ambíguo, que morre na I Guerra aos 25 anos e deixou uma lenda. Matéria para a interrogação que se segue e percorre o resto do livro: “Quem é Cecil?”, o homem que está na capela da casa de família, num túmulo com a sua figura esculpida. “Interessava-me ver o que acontece ao longo do tempo com a reputação de alguém que morre cedo”. Acontece que ela se altera, não apenas no tempo, mas nas interrogações individuais acerca dela. Cada um está na posse de uma verdade. Um monstro ou o homem perfeito? Um ‘gay’ que parece ser um bi-sexual, um artista com poucos princípios. Nenhuma personagem tem a informação toda. Nem o leitor.

Hollinghurst gostou de jogar esse jogo. Por isso fechou portas, conteve-se nas cenas de sexo que eram comuns e bastante explícitas nos livros anteriores. “Se calhar deixei muita gente frustrada, mas não tinha a ver com este livro, nem quis correr o risco de me repetir”, declara o escritor que parece ter-se libertado de vez do rótulo de autor ‘gay’. Não é só isso. É muito mais do que isso. Quanto mais? “Nada de muito interessante”, ri. Se alguém um dia quiser fazer a sua biografia irá aborrecer-se de morte, avisa. “Não há nada de muito excitante.” Segredos? A dificuldade que é sempre reconstituir a vida de alguém, porque há sempre coisas que se calam, como calaram os que conheciam e se envolveram, com Cecil, quando interrogados pelo seu biógrafo. A mentira, a perda da memória, a memória que se reconstrói, a si própria, o ego, os silêncios, o passa-a-palavra. É mais o que se cala do que o que se diz em relação a Cecil. E Hollighurst? Ele que gosta de espreitar os ‘ateliers’ de escrita dos outros escritores nunca revelou o seu. “É um lugar sagrado. Uma espécie de superstição”, ri. Dá um bombom: há uma pilha de CDs, mas quando escreve exige silêncio total. “Jamais conseguiria escrever algo a ouvir REM”.

Passaram sete anos desde que venceu o Booker e sabia que os olhos estavam postos nele. A expectativa era alta. Havia apostas no mundo literário em como ele iria bisar, mas garante que o fantasma do Booker anterior nunca interferiu na escrita deste “O Filho do Desconhecido”. No início, o prémio serviu como estímulo, depois esqueceu-o. O objectivo não deixou de ser o de sempre: escrever um bom livro. Quando saiu houve barulho, foi seleccionado, mas não chegou à ‘shortlist’. Garante que não se incomodou com isso, mas o ponto final da frase é um riso irónico. Leu o romance do vencedor, “O Sentido do Fim” (agora publicado em Portugal pela Quetzal) e gostou. “Merecia estar na ‘shortlist'”. E o seu? “Não vou dizer isso, mas vou dizer que o livro de Edward St. Aubin, ‘At Last’, deveria lá estar, como o de Ali Smith, ‘There but for The’. “E diz também que este ano a ideia era premiar uma literatura mais popular. “A presidente do júri não era propriamente conhecida pelas suas capacidades literárias”. Ponto final parágrafo com uma gargalhada.

Publicado no Diário Económico de 18/10

Na linha de Hollinghurst

 

Comecei hoje bem pela fresca a ler o último romance do britânico Alan Hollinghurst, “O Filho do Desconhecido“. Apontado como um dos favoritos a vencer o Booker Prize, acabaria por perder para outro grande da literatura inglesa, Julian Barnes. Se acontecesse vencer, seria a segunda vez para Hollinghurst. Já o tinha ganho em 2004 com “A Linha da Beleza“. Uns meses depois conversei com ele e parte dessa conversa foi publicada num texto no DN. Recupero-o agora enquanto já estou agarrada a este novo livro

Aventuras no país do luxo e da extravagância
10 Julho 2005

“- Primeira-ministra, quer dar-me a honra de uma dança? – Sabe, aí está uma coisa de que eu gostaria muito – disse a primeira-ministra, com os seus tons de peito, o contralto da convicção. À volta dela, os homens trocavam risinhos desdenhosos e horrorizavam-se perante uma audácia que os ultrapassara. Nick ouvia todo o episódio acumulando já o seu comentário, a sua história, enquanto saía da sala com ela no meio de esgares de surpresa, da súbita mudança do centro de gravidade, um efeito que nenhum deles poderia ter causado e a que nenhum deles era capaz de resistir. Quanto à reacção dele, traduzia-se por um sorriso, a cabeça um nada baixa, um nada de lado; ignorava todos os presentes, intimamente preso ao que a primeira-ministra lhe dizia e à brilhante ousadia das suas réplicas. (…) Não é todos os dias que se é convidado para dançar por um professor universitário – disse a primeira-ministra.”
Nick Guest é o protagonista do romance, um jovem homossexual movido pela ambição e influenciado pelo ambiente londrino onde se instala. A primeira-ministra é Margaret Thatcher, a imagem da Inglaterra dos anos 80 que Alan Hollinghurst não resistiu em transpor para a ficção. São eles o par desta dança improvável, metáfora irónica da década que glorificou o dinheiro, o poder e a ambição e fez dos excessos um modelo de vida. Excesso de droga, de sexo, de ostentação. Um país das maravilhas do luxo e da extravagância, ou da “desimportância”, para usar uma expressão de um outro país com outras aventuras de outras maravilhas, o de Alice inventado por Lewis Carrol e que serve de epígrafe a este romance.
Feito na perspectiva dos ricos e dos poderosos, A Linha da Beleza (Asa) reconstitui a atmosfera e os comportamentos de um tempo marcado pelo money-making. “Não pretendi que o livro fosse um retrato compreensivo ou profundo desses anos, mas que desse o background ou a atmosfera através da qual um jovem, Nick Guest, chegou à maioridade”, declarou ao DN, Alan Hollinghurst. Disse ainda que, tal como a maioria das pessoas que o viveram, também ele pensou que esse momento da história fosse apenas simbólico. Haveria, no entanto, de revelar-se um tempo marcante. “Esses anos prolongam-se até hoje”, afirmou a propósito, remetendo para uma tirada de Catherine, a rapariga problemática do romance, filha de Gerald, o deputado tory em casa de quem Nick se aloja nos seus primeiros anos de Londres, e irmã de Toby, a grande paixão do protagonista. É ela quem diz que os anos 80 vão durar para sempre.
Não há aqui análise sociológica, moralidade ou julgamentos de qualquer espécie. Nesse retrato feito de impressões – falas, comportamentos, gostos, paisagens – o autor revela a sua intenção “mostrar a aceleração da ganância e que havia um preço a pagar por isso. Não quis escrever um livro que fosse povoado de estereótipos, mas que revelasse um pouco da complexidade do ser humano.” São esses os aspectos centrais do livro, trabalhados durante quase seis anos, de forma regular, numa rotina diária “das oito às seis, com uma interrupção de duas horas para sesta”. “Acho que a disciplina estimula a imaginação”, justifica. “Quero mergulhar no hábito de produzir até a escrita se tornar mais fácil. Gosto de emergir no universo do livro e estar continuamente a pensar nele.”
Daí o isolamento que escolhe para a escrita. Desde o primeiro romance, The Swimming-Pool Library (1988). Então, ainda editor no Times Literary Supplement. Com The Folding Star (1993), esteve na shortlist do Prémio Booker . O terceiro, The Spell (1998), foi mal recebido pelo maioria dos críticos britânicos. A Linha da Beleza (2004) encerra este quarteto de romances sobre a experiência da homossexualidade e foi um dos mais polémicos vencedores do Booker, mesmo que a crítica o tivesse aplaudido alguns meses antes.
Quatro romances em 15 anos é um score que dá a Alan Hollinghurst o estatuto de escritor lento. Ele assume esse olhar demora- do para a escrita, a dificuldade em avançar para o texto sem um guião traçado e a paragem após A Linha da Beleza. O que se segue? Não sabe. “Talvez um livro de contos.”

Os finalistas do Booker

Foram há pouco divulgados os finalistas para o Man Booker Prize de 2011. Julian Barnes, com “The Sense of an Ending”; Carol Birch e “Jamrach’s Menagerie”; Patrick deWitt com “Sisters Brothers”; Esi Edugyan, com “Pigeon English”; A D Miller e “Snowdrops”. Dentro de um mês sai o nome do vencedor