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Ilíada, a cabeleireira

Era nova no bairro e arriscou entrar no cabeleireiro com a angústia feminina de entregar o cabelo a mãos desconhecidas. Perguntou se havia vaga para agora. “Tem preferência?” Não tinha. Preferia não estar ali. Atrás do balcão a mulher de óculos, inexpressiva, passou o dedo pelo bloco que tinha à frente.

“A Ilíada está disponível, pode ser?” A naturalidade com que aquele nome foi dito só permitia uma resposta. Claro que podia. A Ilíada.

Numa rua de um bairro de Lisboa, Ilíada era uma cabeleireira sem nada de homérico. A sua odisseia era a dos cabelos, metro à porta, metro de volta para o autocarro e depois para um apartamento em Famões. Cabelo escadeado, preto retinto, asa de corvo, falso ou verdadeiro, pouco importa que masque pastilha e use uns jeans alguns números abaixo do tamanho, rapariga a puxar para o gordinho, figura pouco épica que arrumava a história do seu nome na história da família.

“Nome raro o seu”.

“É, nem fala, minha avó chamava assim e meus pais quiseram homenagear ela.” E já está de bata na mão, ajudando-a a vestir, gingona, ar feliz, sem tragédia que se adivinhe. Claro que se entregou a Ilíada, a imigrante brasileira, que já ouvira falar que havia um livro com o nome dela. “Dizem que é muito bom, mas eu me canso a ler, sei lá.” Falava e lavava a cabeça da outra que queria parecer menos espantada, menos curiosa, menos uma série de coisas.

“As pessoas sempre estranham.” E sem mais curiosidade, Ilíada, a cabeleireira, perguntava pelo corte, desaconselhava a franja, ensaiava penteados.”Não é para si, seu rosto não pede”. Que sim, tudo bem, Ilíada.

Sabedoria não lhe faltava, nem balanço. A Grécia tão longe dela e tão perto de nós. E havia um livro por abri que ficou fechado, no colo. Só havia olhos para as mãos de Ilíada ainda cheia de Carnaval, mesmo sendo Quaresma. Falou que era baiana e baiana  samba. Ilíada falava e ela tomava notas mentalmente. Percorria o clássico com a memória e regressava sempre ao espelho onde estava a baiana que sambava e gostava de Carnaval e… Ela queria saber mais

Onde é que estava a angústia? Aquela que desassossega em cada corte como se nele fosse algo de muito dentro e viesse algo que não se sabe bem como é, como fica. Não se via essa inquietação. Haveria ainda? Ela só sabia nunca vira uma Ilíada, essa era a história. Há livros que nos mudam, dizem. A Ilíada terá mudado muita gente. E esta? Quem terá mudado por ela? Ainda se fosse Eneida… Eneidas há muitas. Virgílio nisso conseguiu ser mais popular que Homero. Ilíada já estava de tesoura na mão e foi aí que se deu o golpe na narrativa. Cada uma das duas saberá do silêncio que guardou até a cadeira ficar vazia, a mulher do balcão fazer a conta, o bom dia já e até um dia destes, Ilíada.

Talvez volte para saber mais da história, talvez volte na ilusão de algo ainda mais épico do que o puro acaso de ter conhecido Ilíada, a cabeleireira, que todos os dias apanha o metro e depois o autocarro e volta à noite para Famões e lhe deu um rosto novo e mudou o seu dia.

Um hora antes, ela vira o nevoeiro a desfazer-se no fim da rua e entrou no cabeleireiro.

Passageiro do fim do dia

Pedro apanha o autocarro ao fim do dia e vai do centro da cidade para a periferia, um bairro chamado Tirol, visitar a namorada, Rosane. É hora de ponta e a viagem demora. Há tempo para ler um dos livros de Charles Darwin sobre as suas viagens ao Brasil e também tempo para deixar correr os pensamentos, entrar em reflexões . Resumindo, esta é a trama que valeu ao brasileiro Rubens Figueiredo o Prémio Portugal Telecom de Literatura com o livro “Passageiro do Fim do Dia”, editado no Brasil pela Companhia das Letras, e já vencedor do Prémio São Paulo de Literatura que elege o melhor livro do ano publicado no Brasil. O português Gonçalo M. Tavares ficou em segundo lugar com o romance “Uma Viagem à Índia”, que lhe valeu cerca de 14 mil euros.
Rubens Figueiredo, professor de português e de tradução na PUC do Rio de Janeiro, sucede ao mediático Chico Buarque que em 2010 ganhou os cem mil reais do prémio (41,7mil euros) não sem alguma polémica. Então, não faltou em considerasse que a decisão tinha sido puramente mediática e não teve em com a qualidade literária dos outros concorrentes. Desta vez, quando foi anunciada a lista dos dez finalistas de um total de 380 concorrentes, os mais ortodoxos não se manifestaram quanto à qualidade das obras a concurso onde estavam dois livros de dois autores portugueses: “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M.Tavares; “As Três Vidas”, de João Tordo.
“Fico muito feliz e só consigo dizer isso. Me desculpem o mau jeito”, disse o autor na cerimónia de entrega do prémio, no passado dia 8, em São Paulo, na Casa Fassano. Mais tarde, ao jornal ‘Público’, o escritor foi mais longe e falou do processo criativo que o levou ao que muitos críticos consideram ser o romance que o afirma como uma das vozes mais sólidas da altura literatura brasileira: “como acontece em muitos casos a ideia deste livro partiu de uma experiência pessoal. Essa experiência é minha porque sempre andei de ‘ônibus’, especialmente nos 25 anos em que dei aulas num colégio e tinha de pegar dois ‘ônibus’ para ir e dois ‘ônibus’ para voltar. Embora seja pessoal na origem, ela não é pessoal na própria experiência, que é muito abrangente, muito presente no nosso quotidiano”.

A negação da banalidade
A atenção ao pormenor, aos pequenos detalhes que ocorrem em situações rotineiras são o ponto alto de um narrativa que vive disso mesmo: da negação da banalização do quotidiano, mesmo que ele seja opressivo, como é qualquer viagem de autocarro de uma centralidade onde tudo acontece para uma periferia onde acontece o que “não deve” ou o que é varrido desse centro. São histórias de violência, de exclusão nas quais Rubens pega com conhecimento de causa. Ou seja, enquanto passageiro frequente de autocarros entre o centro e a periferia. Mas como ele sublinha, esta não é a sua história, nem de um lugar concreto. É a história de Pedro, um rapaz ficcionado, e das suas cogitações e recordações e preocupações. Do ambiente que o envolve enquanto viaja num autocarro. “No quotidiano se concentram os processos mais importantes da dominação social. É onde as relações sociais se produzem, se reproduzem, se justificam e são esquecidas. E também é onde eles mais se empenham em se manter ocultos”, declarou numa entrevista recente, ainda antes de saber que viria a ganha o prémio PT.

O Booker português?
Bastante popular no Brasil, onde tem um prestígio que ainda não atingiu em Portugal, o Prémio PTde Literatura, distingues livros em português publicados no Brasil. E vale quase tudo: poesia, ficção, biografia, dramaturgia ou crónica.
Criado em 2003 com o objectivo de contribuir para a promoção da língua portuguesa, “ainda não é o Man Booker ou o Pulitzer ou o Goncourt português. Mas um dia será. Não desistimos dessa ambição”, disse Henrique Granadeiro, o presidente da PT, durante a cerimónia de entrega de um galardão que tem a ambição de estimular e encorajar “os melhores talentos”. Ao fim de nove edições já premiou nomes como Bernado de Carvalho, Milton Hatoum ou português Gonçalo M. Tavares (em 2007, com “Jerusalém”). Desta vez foi para um romance que pretende ser uma crítica às desiguladades sociais na cidade do Rio de Janeiro onde Rubens Figueiredo nasceu em 1956 e onde vive. Foi lá também que se formou em letras e é lá que ensina.

Duplo Jabuti
Escritor nas horas vagas, como se define, escreveu o seu primeiro livro há 23 anos. Em 1998 venceu o prémio Jabuti, um dos mais prestigiados para autores brasileiros, com o livro de contos “As Palavras Secretas”. Repete o feito em 2002, desta vez com um romance, “Barco a Seco”. Nesseano, fazia um balanço sobre a sua obra: “Os três primeiros romances que escrevi são francamente humorísticos e debochados consigo mesmos. Os três livros seguintes têm outro tom. A mudança não se limita ao desvio do humor. Cada pessoa escreve como pode, à luz do que consegue pensar no momento. O humor, aliás, costuma ser uma defesa que se faz passar por um ataque. Um floreio da mão direita, que desvia nossa atenção daquilo que a mão esquerda está fazendo ou deixando de fazer.”
Não se deslumbrava com a consagração. Perguntava pelos livros esquecidos depois de lidos e premiados. E aí colocava os seus. Quem se lembrava deles? Talvez por isso tenha abandonado o trabalho de tradutor. A qualidade e a profundidade da escrita de Rubens Figueiredo não é decerto alheia ao modo como pratica a tradução. Envolve-se o mais que pode com os autores, do ponto de vista criativo. Quer perceber o processo e a sua perspectiva é a de que o tradutor é também um autor quando passa uma obra de uma língua para a outra. “Traduzir é escrever – em termos concretos, mecânicos e intelectuais, pois transpomos ideias e sentimentos de um idioma para o outro. Mas também vale o oposto: escrever é traduzir, pois transpomos”, diria sobre o assunto depois de ter traduzido Anna Karenina.
O seu percurso conta com mais de 40 livros traduzidos, com destaque para a literatura russa, e concilia isso com as aulas de português. Daí a escrita pertencer às horas vagas e ter começado em 1986. E logo com um romance: “O Mistério da Samambaia Bailarina”. Não demorou até ao segundo título, “Essa Maldita Farinha. Foi no anos seguinte, em 1987. Em 1990 publica “A Festa do Milênio” e em 1999, “O Livro dos Lobos”, que relançaria quase dez anos depois, totalmente reescrito. Pelo meio ficou “Contos de Pedro” e com o mais recente livro foi o que se viu. “Pensei que seria possível questionar, investigar e conhecer aspectos importantes do quadro histórico atual por meio dos recursos oferecidos por um romance. Tomei o cuidado de não mencionar datas nem nomes de lugares reais. Não porque eu pretendesse conferir um cunho universal ao livro. Ao contrário: eu queria que os aspectos concretos e particulares pudessem ser percebidos como partes de uma experiência familiar, vivida e bastante generalizada, mas não universal, nem fora de um tempo. A saber: a experiência de estarmos submetidos a um processo social que precisa a todo custo manter-se oculto.”

Artigo publicado na edição de 11.11.11 do Diário Económico