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Nada de muito sério

O frio do mármore na mão acordou-a da leitura.

Há quanto tempo está naquela realidade paralela? O necessário para o arrepio na pele. Um arrepio nada literário, real, que a fez pedir um chá e uma torrada com pouca manteiga, se fizesse favor. Lembrou-se do poeta dos cafés, de um café em particular, o Central, em Viena, de Altenberg, a quem chamavam “o poeta sem casa”, estava espectadora de um livro num palco real que a gelara.

Nada de muito sério. O que lia mesmo? De repente esqueceu. Olhou à volta.

Havia quem rabiscasse num caderno, quem retardasse o acender de um cigarro. Já foi tempo em que estar num café era morar numa espécie de penumbra que matava cerimónias para grandes demoras. Ficar horas, ler, pensar e só pagar um café era um luxo reservado a poucos lugares.

A mão fria no mármore da mesa fazia-a crer que por ali ainda era possível perder-se, sair para fora de si, experimentar os outros, olhando para eles, imaginando-lhes existências, lendo-os por quem os sabe escrever como se fossem realmente. E quem nos diz que não são.

Veio o chá. Um gole e o frio a diluir-se e com ele o sentimento de ausência. Na rua, para lá das vidraças, andavam mulheres de gorro e saltos altos, homens de mãos nos sobretudos. Olhos no chão, apressados. À sua frente, o livro esperava, aberto, um lápis entre as páginas para sublinhados, não se fosse esquecer.

Esquecia. Fazia parte do jogo de tentar andar por várias existências, mas ficava sempre algo, ela sabia. Um ambiente, uma cor, a marca de um dedo na papel, uma mensagem… porque quando o poeta de Viena existia e falava da ‘encenação do colectivo’ ainda não existiam redes sociais, mundos virtuais a baralhar ainda mais o que somos, a imagem que temos de nós, a que têm de nós. Nós e os outros e tantas coisas pelo meio, a filtrar, a mediar.

A torrada tem manteiga a mais. Esse paladar era só dela. Não partilhado a não através de um ligeiro esgar de enjoo. Podia reclamar e intervir na realidade de outro. Não o fez. Comeu e calou.

A mão já estava quente. O homem da mesa ao lado saiu para finalmente acender o cigarro. Na sua mesa sentou-se um rapaz com um iPad. Pediu um café e um copo de água. Ela resistu a pedir a conta. Foi na boleia dele e enfiou os olhos no seu livro. Ia ter companhia naquela ausência de si.

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Os cafés, a Europa e um dia a morrer de frio

Salvaram-me os cafés de Viena.

Os mesmos agora classificados como Património da Humanidade pela Unesco, e onde além de mim num dia de gelo, se sentaram Sigmund Freud, Thomas Bernhard ou Romy Shneider, a alemã que fixou no cinema o rosto da Imperatriz Sissi.

Calhou-me fazer uma reportagem de rua num dia de vinte graus negativos e a cada meia hora lá estava eu a pedir um ‘brauner’, que é como quem diz um café com leite, e a sentir o degelo no nariz, nos pés, em tudo o que era osso. Bastavam dez minutos. Saboreava cada gole, distraída com as conversas dos outros de que não entendia metade, folheando os jornais presos naquelas molas de madeira como quase já não há, via passar o carrinho dos bolos que pela primeira vez ultrapassavam a minha imaginação que vinha dos livros ilustrados de infância. Aquela madeira, o tinir da campainha na entrada, o cheiro a mocha, as mulheres de longas luvas que mesmo no frio não perdiam a elegância… Sentia-me num romance do início de século. Mesmo por dez minutos que repeti as vezes que pude com a desculpa de não congelar. Sobrevivi graças aos cafés de Viena que procuro em cada cidade europeia ou não, que fiquei feliz de descobrir em Nova Iorque, onde vou sempre que posso em Lisboa. Mas só em Viena são como os de Viena. Mais de mil pequenos territórios a preservar contra a onda do snack que foi praga em Lisboa ou as pastelarias de néons.

Pensei nesse dia e num livro, pequena preciosidade, editada em Portugal em 2005, pela Gradiva. Nele George Steiner discute a ideia de Europa. Uma recorrência cada vez mais urgente de definir como a identidade europeia num momento em que muitos dos seus valores parecem estar em agonia. O desafio é dar respostas, recorrendo o menos possível à abstracção. E George Steiner começou pelas cafetarias e cafés. Onde se incluem as de Viena, as de Lisboa, as de Paris.

É isso que George Steiner faz em A Ideia de Europa, livro que recupera o texto – e o título – de uma palestra que o escritor proferiu no Nexus instituut de Amesterdão, durante a presidência holandesa da União Europeia, em 2004. “Enquanto existirem cafetarias, a ‘ideia de Europa’ terá conteúdo”, escreve um dos homens que mais têm reflectido sobre a cultura europeia e que aponta o café como o primeiro substantivo a associar à ideia de Europa.

A cafetaria com todo o seu peso literário é início de um ensaio que faz a exaltação da cultura e da memória enquanto legado. “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo (…). Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da ‘Ideia de Europa'”.

É o primeiro dos cinco axiomas apresentados por Steiner para definir a “ideia de Europa”. “Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino”.

O segundo é a relação entre os europeus e a geografia que habitam, uma relação que encontra nas figuras do pedinte ou do peregrino a sua materialização, metáforas da caminhada que confere uma cadência propícia à teorização. “A Europa foi e é percorrida a pé”, escreve Steiner, aludindo às longas marchas de que é feita a História da Europa e acrescentando “As belezas da Europa são inextricavelmente inseparáveis da pátina do tempo humanizado”. Um “tempo” que remete para a lembrança, terceiro axioma europeu. O passado tornado sempre presente e gravado nas pedras que dão nomes de pessoas a ruas e praças.

Mas é na síntese de duas culturas, a de Atenas e a de Jerusalém, que Steiner encontra a singularidade da cultura europeia. “Muito frequentemente, o humanismo europeu, de Erasmo a Hegel, procura diversas formas de compromisso entre ideais áticos e hebraicos.” E conclui “A ‘ideia de Europa’ é (…) um ‘conto de duas cidades’.”

Há, por fim, a “consciência escatológica” – o “pânico do ano mil” -, que, no entender de Steiner, é exclusiva do modo de ser europeu, “como se a Europa (..) tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da riqueza e complexidade sem par da sua História”.

Doseando um desencanto actual com algum optimismo futuro, George Steiner – judeu nascido em Paris em 1938- revela, por vezes, algum ressentimento face ao cristianismo. Um azedume pontual, antes de indicar um caminho para a Europa o do “humanismo secular”.

E tudo isto a propósito de uma memória de um dia em que eu ia morrendo de frio, não fossem os cafés de Viena.

Esquecer um café em Manhattan

Eu só queria um café.

De chávena pequena, com uma ligeira espuma por cima. Bebi-o em dois três goles até ficar com aquele amargo na boca por uns bons minutos. E isso seria bom. Mas onde?
E não queria só isso. Queria as cadeiras e as mesas onde pousasse a tralha, abrisse um livro, folheasse o jornal ou olhasse em volta, com a cabeça segura na mão. Mas onde?

Manhãs de arranha-céus são manhãs de sombra ou então de jogo de cabra-cega com o sol que quando aparece encandeia. Era de uma esplanada que eu falava. Como as da Europa, sempre postas. Chuva ou sol.

Naquela manhã de luz a magoar os olhos, fiz disso missão. Um café à europeia. Boa?
Corria seca e meca nesta teimosia. Carregava livros, computador, casaco, encontrões a joggers irritantes com a mania da saúde a inspirar tubos de escape, quando tudo ainda vai baixo, e não me refiro só à luz.
Mais veloz passa um rapaz equilibrado num skate. Não havia T-shirt nem calções.
E eu estanquei no passeio largo, a ser lavado por mexicanos de esfregona na mão. E ele no meio da avenida larga, indiferente e mais rápido do que o trânsito que àquela hora da manhã começava a encher a Lexington. Bip-bip, penso escutar. Passa por mim e por todos os carros. E eu sigo-o, atenção já desviada do café, centrada naquele ponto cada vez mais pequeno e negro que ora se agacha ora levanta como numa prancha de surf, num movimento para cortar o vento, ganhar velocidade até se perder, lá ao fundo. Ia na faixa dele, não o vi parar em semáforos, mas presumo que o tenha feito. Até porque parecia ser um ‘passageiro’ frequente daquele skate numa Manhattan em hora de ponta, fato e gravata, mala a tiracolo. Um executivo sem paciência para o metro e com um copo de café na mão para beber com uma palhinha.

Do que é que eu estava mesmo à procura?