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Ele há coisas no cinema…

Era ele. Não me contive e quase gritei enquanto apontava.

Foram cinco anos de uma relação invulgar e quando já tinha esquecido, quando achava que nunca mais o teria à minha frente em toda a sua singularidade, ali estava ele, no mais improvável dos lugares. Eu chegara tarde à ante-estreia. O convite valeu-me um lugar nas escadas. Sala cheia para a festa, para os aplausos ao realizador. Entrei e o escuro cegou-me. Só a luz da tela de uma história que não soube como começou. Lá me fui agarrando a ela, aos poucos, até que o vi. Lembrei de como ele chegara a casa sem escolha. Parecia novo, bem tratado pelo tempo, impecável, só a indumentária destoava, e quando se entra assim, a desafiar os preceitos da moda, por uma casa de cinco universitárias, não há como disfarçar o riso. Vinha com um verde-cortinado, com umas ramagens beges, toques de veludo a atirar para o foleiro.

Tomou posição na sala, central, e depois de uns olhares foi posto à prova. A imagem não era a melhor, mas no resto nada a dizer, nada a apontar na postura digna, nenhuma inconveniência, a indiscrição do aspecto estava nos antípodas da passividade com que aturou todos os excessos e gestos e arrogâncias daquelas miúdas sempre dispostas à festa, a receber mais alguém, a ter casa cheia.

Em tudo isso foi silencioso, pacato, paciência de santo quando tanta coisa lhe era estranha. Vinha de um ambiente oposto, da casa de um casal de meia-idade sem filhos que gostava de o apontar como anfitrião de uma ou outra visita que ia aparecendo. Só que um dia foi posto na rua e nós éramos quem lhe restava. Ganhamos-lhe afecto, apesar de o gozarmos, desapiedadas. A fatiota era de rir. À primeira vista, quem entrava e punha os olhos nele não disfarçava a expressão. Dávamos-lhe uma palmada cúmplice, esquecendo tantas vezes que ele era muito mais velho do que parecia, que merecia respeito- Ainda tentámos arranjá-lo mais de acordo com os tempos. Aqueles veludos e aquele verde não estavam com nada, mas ele mantinha a pose perante elas, os amigos, os namorados.

Já se sabe, os anos não perdoam e foi decaindo, perdendo o brilho. Viveu mais naqueles cinco anos do que nos trinta que passou na casa dos Anjos, resguardado de todos os excessos, cuidado. Ali, vivia ao nosso ritmo, borga interminável, olheiras, ressacas, directas de estudo. Tudo ele apoiava até ao dia em que as cinco acabaram a universidade. Cada uma foi à sua vida e teve de se separar dele. Os risos da despedida escondiam lágrimas no dia em que o deixámos na rua. Ele não era o mesmo, nós também não. E agora ali estava ele na grande tela. Único, o verde já amarelado, mas as mesmas ramagens, e em vez de cinco estudantes, duas actrizes disputavam-no como se de um palco. E eu a apontar, querendo que, como eu, todos os reconhecessem naquela sala e se alegrassem. Não era para menos. Quando o pensava morto vi-o ali, imortalizado. Sei agora que o posso sempre rever, basta pôr o filme.

Não me calei, que mal as luzes acenderam liguei a quem o conheceu tão bem quanto eu. “Sabem o que acabo de ver no cinema?” Ninguém percebia a minha excitação. “O nosso sofá, o das franjas, o verde, aquele… Sim, estava na lixeira e o realizador viu-o e escolheu-para cenário, ali mesmo, no meio do lixo.” Silêncio do outro lado. Ver para crer. E vimos, novamente as cinco sentadas, coladas umas às outras, comando na mão, o velho sofá com molas de fora. Era mesmo ele. Já não havia sofás assim.

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Procura-se

Procuro a casa.

Queria que estivesse agarrada à terra e que quando acordasse de manhã pudesse por os pés na rua sem sair dela.

De preferência com uma cozinha onde se pudessem juntar todos pela manhã, com o cheiro a café e a torradas.

Tinha de ter um fogão grande e um alpendre para as leituras e ver passar.

Pronto, concedo, uma varanda onde pudesse espreguiçar o sono da manhã e com vista para mais que não o vizinho da frente.

Não faz mal se se ouvir um sino. Pode ser na cidade, mas não faz mal se tiver mar à vista. Ou um bosque. Cheiro a jasmim nas noites de verão era bom.

E sítio para o cão correr e para a gata dormir sestas e um baloiço a dar par um poço rodeado de violetas. Ok, exagero talvez. Mas sabia bem ter uma janela grande para as tardes de chuva e uma lareira para aquecer e porque gosto do cheiro a madeira queimada.

Um sótão era bom. Mania de guardar tudo, que se há-de fazer. Já não peço pé direito alto para as estantes. Seria demasiada exigência e também requeria escadotes. Encolhem-se as estantes, curvam-se as costas se for preciso. É o menos.

O facto é que procuro a casa.

Nela tem de caber quem amo ou então não cabe ninguém. Quem souber desta casa que mande dizer.

Uma casa

Queria aquela casa onde cheirava a mar misturado com o barro das telhas e onde sol entrava filtrado pelo vidro do telhado e que dourava tudo.
O leite fervia num fogão de dois bicos. Vinha fresco, em pacotes moles, de plástico, que eu gostava de apertar até sentir que quase rebentavam.
Eu agora queria aquela casa numas águas furtadas num terceiro andar sem elevador e com um terraço onde me inclinava para ver quem passava em baixo. E às vezes dava para dizer adeus.
Bom era aos domingos, quando as camionetas de carreira chegavam cheias de gente com cabazes de comida e eu contava-as a ver se naquele domingo se batiam recordes.
Depois apressava-me para dentro não fosse o leite entornar.
Não me lembro onde poderia estar a minha mãe.
Acho que eu ficava de guardiã ao leite por gostar de ficar a olhar para a sua fervura, meio hipnotizada com aquele crescer, a nata a formar-se e de repente uma espuma que tentava sempre apanhar-me distraída. Como eu gostava de ganhar à avalancha branca. Lembro o cheiro, meio a natas queimadas que se misturava ao resto dos cheiros que tornavam a casa casa. Que é feito dela? Às vezes vejo-a, por fora.
Era o lugar do Verão, onde todos cabiam. E eu gostava daquela gente que entrava e saia, como em festa. Queria aquela casa agora, como ela era então.

Casa

A chuva cai miúda, mas implacável. Molha os tolos e os outros, e tola, persigo o objectivo: olhar as ruas, as casas, parar nos cafés mesmo sem esplanadas, ir em busca do bar preferido de Rufus Wainright enquanto mentalmente vou cantando “Cigarrettes and Chocolate Milk”. Quem se cruza comigo agradece, sem o saber, que esse canto seja apenas mental. Assim sou brilhante no meu cantar.

Nos Hamptons dos Kennedy e de todo o sangue antigo da América, entre o desfile de casarões, vou atrás de um canadiano dito alternativo e da sua música, sel ligar aos vestidos certinhos e assertoados das montras, intercaladas com galerias onde se expõem obras mais ou menos convenientes e que não resisto a comparar com outras montras de outros sítios que perseguem ao longe o sonho americano, de muito longe e vendem unhas coloridas e peças novas para carros usados. Como Newark está longe de Long Island! A exclamação é a única pontuação possível.  

E lá vou eu vou na minha perseguição pessoal a referências políticas e literárias e musicais tão longínquas quanto as unhas de gel, quando me deparo com a inusitada familiaridade. Alia estava o sabor a casa, o saber-a-casa da arte de Julião Sarmento.

Lá está ele, o português patrocinado por mecenas americanos ricos e subsidiado nesta sua deslocação artística pela Fundação Gulbenkian e pelo Ministério da Cultura.
Era ele, no Parrish Museum de Southampton.
Julião Sarmento em mais de 40 obras que mostram a relação próxima entre o artista plástico luso e a literatura universal. Obras em papel para falar de uma relação com a escrita. A linguagem que outra linguagem inspirou porque as referências alimentam-se delas mesmas. Para quem não sabia, um famoso escritor local, James Salter, apresentou numa conversa com Julião Sarmento, ali, em Southampton, no dia 16 de Abril, o dia inaugural da exposição a que foi dado o nome “Artists and Writers/Houses and Home”.

E é em casa que me sinto apesar do lamento de não ter sabido e não ter estado a horas de ver e ouvir. Afinal, era a primeira vez que Sarmento tinha direito a uma exposição individual em território americano, desde que esteve em Washington, em 1999,. e eu ali e nºão vi…
Olho o relógio e interrogo acerca da porta fechada. Passa das cinco. Tola, chamo-me, dando razão à chuva, adiando a visita, sentindo-me inusitadamente acompanhada num aconchego à beira-mar, mesmo que ali o Atlântico seja ao contrário do meu. Como se dali visse Lisboa. Lisboa do lado de lá da água, como Alice no espelho. E é a água a devolver-me o rosto, a casa, como na exposição de Sarmento, o autor que Salter sublinhou saber dar essa sensação quando se aproxima da escrita. Agora persigo isso, essa sensação, e cheirou a café.
Entro. Um livro na mão denuncia-me e ouço em bom português: “O que vai ser?” Longe de saber de Julião Sarmento, aquela rapariga loira veio de Lisboa grávida, como me havia de contar, à procura de um sítio onde pudesse criar a filha. Contou-me ainda que trabalha ali e noutro restaurante, longe da Lisboa de onde veio e para onde está virada. Não tem um dia de folga, mas está entre os ricos da América a perseguir mais do que um cantor canadiano.

O ensaio

Não estava ali.
O mar não se ouvia.
O dia era um daqueles em que a chuva e as nuvens abafam qualquer som, apenas o piar das gaivotas à cata de caraguejo na maré quase vazia.
Mais nada. Nem os cães nem as crianças, nem a música que sabia sair de um carro parado a pouca distância.
A paisagem parecia dentro de um capacete naquele Atlântico ao contrário, do outro lado daquele onde me habituei a ir buscar o cheiro e assistir ao fim dourado dos dias de verão e início de outono, o mar da minha praia virada a oeste.
Aqui, eu, como a gaivota a ensaiar o voo de aproximação.
Pensei em Joseph Conrad, o lobo do mar que não perde o Norte no mar.
Eu estava a Leste.
Virada para a praia que não via, inspirando o ar a querer resíduos de iodo longínquo. Achei. Vestígios de um cheiro familiar que me devolveu a tranquilidade só possível em casa. Parece que estava a começar a ganhar outra, um lugar também meu. Por amor, por adopção, porque sim, porque me adapto e sou ali aquele bocadinho feliz que os inconformados às vezes conseguem ser. “Lucky me”, pensei e olhei para os céus, cinza escuros, a fazer figas não vá algum mau olhado tirar aquele pedacinho de alegria, passar-lhe uma rasteira e atirá-lo à areia.
“Não sabes ser feliz”, dizem alguns que me conhecem ou pensam conhecer. E não é que às vezes dou por mim: “Será?”
E lá está a gaivota a ensaiar o voo como eu a ensaiar a vida. Nova. Por aqui. Por amor, por um sonho, pela realidade.
O mar tem disto, mesmo que ao contrário: os pensamentos andam vagos, parecem contagiados pelo ritmo das ondas, as tais vagas que ali não têm tamanho. Curtas, rasteiras.
Não o mar imenso e a espuma. Boris Vian andou por outro mar. A espuma dos dias não vem daquelas vagas.
E lá estou eu na espuma de outros dias. Outros meus dias por outros mares, enquanto ali não há espuma. Pouca espuma para poucos dias.
Nem som. Só um leve rufar que embala. Embala mesmo. Era só deixar ir… Mas falta essa disponibilidade. Mental. Física. Algo sempre a resistir.
Pena não ser como a gaivota que não se assusta com o meu aproximar tão seduzida que anda com aquela água que lhe dá tudo. Ela embala-se. Não resiste. Vai.
E eu presa a ela, a querer não resistir. Como é? E ela olha e eu disparo o flash e ela não desvia o olhar.
Penso não existir. Eu. Não há som, não há sinais da minha presença, nem sombra de mim na areia tão apagado está o sol, filtrado.
Quase não há som, quase não há cheiro, nem sombra.
Duvido de mim e olho e vejo um vulto ao longe que me devolve a identidade.
Ufa! E de novo o mar.
A gaivota avança para ele. Abre as asas. ganha altitude e mergulha, certeira.
Eu disparo.
Apanhei-a numa objectiva que tenho a ilusão de a tornar eterna.