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Szymborska, uma poeta no “céu”

 

Morreu hoje, tinha 88 anos, a poeta polaca, Wislawa Szymborska, nobel da literatura em 1996. Fico aqui com o céu que ela deixou (tradução para português do Brasil) Procurem-na lá. Ela deixa os sinais

Céu
Era preciso comecar daí: céu.
Janela sem encosto, sem moldura, sem vidraça.
Abertura e nada mais, porém muito bem aberta.
Não preciso aguardar a noite amena:
nem levantar a cabeça
para perscrutar o céu.
Tenho céu atrás de mim, sob as mãos
e debaixo das pálpebras.
Estou enredada de céu
e isto me exalta.
Nem as montanhas mais altas
Estão mais próximas do céu
que os vales mais profundos.
Nao há mais céu num lugar
do que em outro.
A nuvem está atada ao céu
indiferente como o túmulo.
A toupeira é tão feliz
quanto a coruja que abre as asas.
O objeto que cai no precipício
cai do céu no céu.
Partes poeirentas, léquidas, montanhosas,
passageiras e queimadas do céu, migalhas do céu,
brisas de céu e montes.
O céu é onipresente
até nas trevas sob a pele.
Devoro o céu, rejeito o céu.
Estou com armadilhas na armadilha,
com o habitante instalado,
com o abraço abraçado,
com a pergunta presente na resposta.
A divisão entre céu e terra
não foi pensada de forma adequada
a respeito desta unidade.
Permite até que se sobreviva
no endereço mais exato,
que pode ser achado mais depressa
se me procurarem.
Os meus sinais característicos são
o arrebatamento e o desespero.

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A vertigem

Equilíbrio imperfeito, uma escorregadela e mãos ao chão.

Subia a montanha de olhos no céu como não recomendam as regras de um bom caminhante. A cada passo uma viagem, as que fiz e não contei. Momentos como postais, flashes de fotografias na memória e a esperança e um dia saber passar a mesma emoção a alguém. Sempre a adiar. Talvez um dia consigas a conjugação certa para dizer que o abismo é a única coisa que me segura. Ou então como explicar aquele grito que grito sai mudo? A hora era do êxtase das cores. O amarelo nunca foi tão bem definido, nem o verde tão incandescente e lá estavam todos os seres nunca vistos a passavam por baixo sem que eu lhes fizesse sombra. Eu deitada no maior aquário do mundo. O oxigénio a entrar nos pulmões, mas a respiração a atrofiar diante daquele sem fim, sem fundo, sobre o que segurava o meu corpo indiferente às gotas de uma chuvada tropical. Calor e um arrepio.

É o paraíso, convencia-me. México e um dos maiores recifes do mundo e eu nele. Qual quê? Maior que tudo era vertigem e as cores que se misturavam num turbilhão fluorescente, espiral com uma só saída.

Barco à vista, mãos no ar. Que me salvem senão eu vou-me… Onde? Ao fundo? Claro. Pra quê falar dessa humilhação de ficar três horas num barco à espera que os outros se divertissem naquele sem fundo, que o experimentassem descendo mais? Nada para contar a não ser o medo e a conversa presa com o aventureiro que levava turistas ao mar sem saber do medo do abismo. Um suíço que conhecia os Açores ao lado de um mexicano que queria lá saber. Que o acordassem quando tudo acabasse. Claro ombre! Era igual aos que vi passearem-se com metralhadoras em Guanajuato, cidade na rota da prata, onde universitários e descendentes de mineiros partilhavam a mesma música em ruas garridas, como no mar, mais a sul.

Porque é que me veio agora o México? Logo quando escorreguei a subir uma montanha na humidade do Outono na Madeira, talvez meses, talvez anos depois.

Foi outra vertigem, eu no fundo, a olhar o céu e a tontura de tanto azul. Talvez seja assim com as viagens, umas nas outras, coladas por sensações como selos com cuspo em postais ilustrados. Andam pelas gavetas.

Será por isso que parece que conheço o Chile onde nunca estive? Uma vez deram-me uma igreja em barro, branca e azul, e parece que vejo as mãos que a esculpiram. A ilusão. Fui ao Chile naquela igreja que me trouxeram de lá. Fui a Buenos Aires com Borges. E depois? Entrei numa ermida nos Açores de olhos molhados e nunca mais de lá saí. Nem nos Capelinhos. Aí fui à lua, mas foi trágico o arrepio. Não sei bem por onde andei.

Vou andado, olhando arranha-céus de Tóquio e Nova Iorque, parando na tasca para comida gordurosa. Gosto de apanhar aviões, mas uma carroça também serve.

Tomo notas de emoções em contas de restaurantes, bilhetes de eléctrico. Depois perco-as. Talvez um dia aprenda como se faz isto de contar lugares.

No baloiço

Havia violetas debaixo do baloiço. Um tapete enorme e fofo. Vi-as ir e vir na minha viagem pelo ar agarrada às cordas presas na nogueira.

Lembrei-me delas hoje por causa da Maria Gabriela Llansol. Aquele verde pontuado de lilás com um poço branco à frente e uma roldana que rangia sempre que o balde ia ao fundo.

Não lembro se tinham o cheiro das malvas gigantes naquela humidade junto da pedra. Eu ia e vinha e nunca lhes tocava, nas violetas. Esticava os pés o mais que podia, até sentir a tábua a escorregar de mim e voltava ao sítio. Ganhava confiança e focava o céu entre as folhas da árvore. Acho que estava dias naquilo até ouvir o meu nome ao longe.

Havia sempre um cão a guardar-me. Parece que se revezam entre eles, acordo tácito nunca revelado mas infalível. Sempre um. E todos tinham nomes de coisas ou lugares, às vezes um cão era uma frase inteira, imperativa. “Não se mexe!” E eu repetia-a e ele olhava até se cansar da minha brincadeira parva. Era só para ver se ele tinha cara para aquelas palavras. Às vezes ganhavam feições de rio ou de um continente. O que é que têm os cães a ver com a geografia? O Tejo, o Guadiana, o Ribatejo, todos animais de alerta. Aos gatos davam quase sempre nome de gente, ou então diminutivos. Mas não havia gatos por ali, os cães não permitiam. Via gatos nos quintais vizinhos mas desconfiava deles por não se deixarem agarrar.

E ia e vinha no baloiço e inventava. Deixava que tudo se misturasse na minha cabeça e aquele vaivém ajudava ao delírio infinito.
Tudo parecia possível do alto daquele baloiço. Eu tinha a certeza de que era possível.
Um dia.
Um dia tudo seria possível. Não sei se era do chão de violetas, do perfume das malvas, do ladrar do cão já farto de tanto tomar conta. Havia um chão, uma confiança transmitida pela terra, a paisagem mimava-me e eu deixava-me ir, embalada em mim. Feliz.

Um dia caí do baloiço de tanto olhar para o céu em voos cada vez mais arriscados e o cão lá estava, veio lamber-me o joelho. “Deixa estar que faz bem”, avisou-me já não sei bem quem. E eu deixei o quente da língua daquele cão que se chama uma frase, limpar-me o esfolão. Não sei se foi a saliva ou o milagre das palavras do seu nome, mas nunca uma ferida sarou tão rápido. O cão chamava-se “já passou”.

E foi, um dia, como todos. Entre o legado que deixavam, o nome era precioso. Eu costumava nomeá-los a todos. Aos que conhecia e aos que tinha conhecido. Já nem se contavam pelos dedos.  Até que veio mais um. Chamei-lhe “há pedras debaixo das violetas”.

Quando voltar a Brooklyn

O homem da lavandaria cobiçou-me o saco da roupa. Não o conteúdo. Era o mesmo o saco que eu arrastava naqueles cem metros entre casa e a casa das máquinas onde com moedas e espera os pacientes como santos lavavam e secavam o que não podiam lavar em casa, espaços exíguos onde há que escolher entre uma cómoda para guardar a roupa ou uma máquina para a lavar.

Eram mais ou menos assim os meus 40 metros quadrados a dividir por duas existências cada uma com as suas roupas. Um quartos onde cabia uma cama e a tal cómoda, um fogão encostado à porta da entrada, um frigorífico onde garrafas e latas viviam num equilíbrio precário. Era ali, na enorme mesa da sala, com um enorme sofá, as duas peças desmesuradas, passava a maior parte das minhas horas. Tirava um curso de mim. Estava onde queria, com quem queria, a fazer o que queria.

O pior era a roupa.  Multiplicava-se, ganhava vida própria, tomava conta do espaço e a minha maneira de a domesticar era carregá-la até à lavandaria do chinês que não sabia pronunciar o meu nome. Carregava-a mas não esperava. Luxo dos luxos. Por mais uns trocos eu não ficava a olhar para uma roleta de roupa molhada. Escolhia ir até ao café da esquina, um lugar com vontade de ar europeu, enfeitado com scones acabados de fazer, peças de mobiliário sem par recolhidas de algum armazém de velharias, louça de fim de fábrica, tudo num conjunto harmonioso que me acolhia da minha ligeira claustrofobia dos 40 metros quadrados de casa. Lavar a roupa era só o pretexto para umas boas horas de leitura a ver a chuva a cair e os pingos a escorregar pelas vidraças largas. A chuva decidira cair toda naquele mês.

Brooklyn à chuva. Pensei pôr uma cadeira na varanda que abanava a cada passo, um mini-terraço de onde se avistava o Chrysler, o mais bonito edifício de Nova Iorque, mas a chuva não dava tréguas. Gostava de ir lá à noite, com um capuz que o João me punha na cabeça enquanto ele fumava um cigarro. Fumar com vista para as luzes de Manhattan… Cada vez mais quando penso em Nova Iorque, quando digo que gosto de Nova Iorque, penso em Brooklyn como o meu sítio. De lá vê-se o céu, ainda que quase nunca as estrelas. Mesmo da varanda que abana, mesmo quando os 40 metros são claustrofóbicos, mesmo que não goste de carregar o saco de roupa para a lavandaria. Sei também que o chinês o vai guardar bem guardado, escondido de outros olhares que cobiçam não a roupa mas o saco que a carrega.
Subo as escadas, saco às costas, pouso-o no lugar mais próximo da janela e mesmo na hora de sair de Brooklyn penso que será hora de voltar.

Olho o relógio de um sítio bem longe e vejo o quanto estou atrasada.