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Azul com nuvens

O homem saiu do hotel de calções e escorregou ao por o pé na chuva. Lisboa estava vazia naquele domingo de manhã. O céu de fundo azul tinha todas as tonalidades de cinza e a água caia quando queria surpreendendo quem olha apenas em frente quando quer saber do tempo, distraído sobre a importância de olhar para cima.

A manhã era nova mas já vira muito. O mendigo encolhia-se cada no vão de escadas da Rodrigo da Fonseca sem se emocionar com o cheiro a terra molhada que fizera um casal aos beijos demorar-se na varanda.

Ao som dos Tindersticks na Radar, a voz de Stuart Staples em “Slippin’ Shoes”, um carro avança na estrada e aquele melancolia tem tudo a ver. A música sabe como tirar as palavras a quem tem muito para dizer e resumir tudo num olhar.

Lá em cima, os aviões já voam sem saber que cá em baixo há um homem novo que segura uma criança no colo enquanto a outra se lhe agarra às calças. Uma mulher olha. Fortaleza que controla emoções. O homem tem os olhos a brilhar, as crianças o riso de quem ainda não sabe. Está assim o aeroporto, cheio dos novos emigrantes portugueses. Homens que vão sozinhos escondendo a vergonha e o embaraço de quem não sabia destas lágrimas. Ele é um desses, camisa de ganga fora das calças, emoções engolidas em seco. Só se desmancha quando dá um beijo na mulher. Despedida de mãos vazias. A mala já foi. Tem bilhete de ida e perde na fila da segurança.

Há mais como ele. Histórias que imagino esquecendo-me da minha e fingindo-me repórter num sítio onde não sou. E o carro corre devagar pelas ruas desertas. Sabia bem café com leite e torradas. Talvez um ramo de flores frescas. Há um avião que sobe e emudece o som da rádio.

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Quando voltar a Brooklyn

O homem da lavandaria cobiçou-me o saco da roupa. Não o conteúdo. Era o mesmo o saco que eu arrastava naqueles cem metros entre casa e a casa das máquinas onde com moedas e espera os pacientes como santos lavavam e secavam o que não podiam lavar em casa, espaços exíguos onde há que escolher entre uma cómoda para guardar a roupa ou uma máquina para a lavar.

Eram mais ou menos assim os meus 40 metros quadrados a dividir por duas existências cada uma com as suas roupas. Um quartos onde cabia uma cama e a tal cómoda, um fogão encostado à porta da entrada, um frigorífico onde garrafas e latas viviam num equilíbrio precário. Era ali, na enorme mesa da sala, com um enorme sofá, as duas peças desmesuradas, passava a maior parte das minhas horas. Tirava um curso de mim. Estava onde queria, com quem queria, a fazer o que queria.

O pior era a roupa.  Multiplicava-se, ganhava vida própria, tomava conta do espaço e a minha maneira de a domesticar era carregá-la até à lavandaria do chinês que não sabia pronunciar o meu nome. Carregava-a mas não esperava. Luxo dos luxos. Por mais uns trocos eu não ficava a olhar para uma roleta de roupa molhada. Escolhia ir até ao café da esquina, um lugar com vontade de ar europeu, enfeitado com scones acabados de fazer, peças de mobiliário sem par recolhidas de algum armazém de velharias, louça de fim de fábrica, tudo num conjunto harmonioso que me acolhia da minha ligeira claustrofobia dos 40 metros quadrados de casa. Lavar a roupa era só o pretexto para umas boas horas de leitura a ver a chuva a cair e os pingos a escorregar pelas vidraças largas. A chuva decidira cair toda naquele mês.

Brooklyn à chuva. Pensei pôr uma cadeira na varanda que abanava a cada passo, um mini-terraço de onde se avistava o Chrysler, o mais bonito edifício de Nova Iorque, mas a chuva não dava tréguas. Gostava de ir lá à noite, com um capuz que o João me punha na cabeça enquanto ele fumava um cigarro. Fumar com vista para as luzes de Manhattan… Cada vez mais quando penso em Nova Iorque, quando digo que gosto de Nova Iorque, penso em Brooklyn como o meu sítio. De lá vê-se o céu, ainda que quase nunca as estrelas. Mesmo da varanda que abana, mesmo quando os 40 metros são claustrofóbicos, mesmo que não goste de carregar o saco de roupa para a lavandaria. Sei também que o chinês o vai guardar bem guardado, escondido de outros olhares que cobiçam não a roupa mas o saco que a carrega.
Subo as escadas, saco às costas, pouso-o no lugar mais próximo da janela e mesmo na hora de sair de Brooklyn penso que será hora de voltar.

Olho o relógio de um sítio bem longe e vejo o quanto estou atrasada.

headphones

De auscultadores nos ouvidos, fugia às pingas que caiam dos toldos.
A chuva era miúda mas persistia há horas e chegava para arrepiar as costas quando uma gota entrava por onde não devia.
Não costumava andar assim na rua, de orelhas moucas para o que lhe chegava. Surda dos sons do dia, os sentidos ficavam menos apurados. Acontecia tropeçar, não reparar na cor do sinal para peões.
Coisas não só do ouvir mas também do ver. E parecia também que até os cheiros chegavam mais fracos e àquela hora da manhã havia café e pão quente e waffles ainda sem gordura saturada. Tudo intenso. Mas o que ela gostava mesmo era das conversas que lhe iam chegando aos pedaços, sem um princípio e sem um fim, ou então só com o fim, ou apanhadas num princípio tão bom que então, aí sim, punha os auscultadores e fingia ouvir música quando a atenção se prendia ao desenrolar de uma história que não tinha vergonha de perseguir. Como o descaramento de olhar para o interior de uma casa à noite. As vidas dos outros interessavam-lhe e não era cuscuvelhice. Ou pelo menos ela assim não achava. Era uma maneira de se situar no mundo.
Com as orelhas tapadas pela música sentia-se mais indefesa, menos preparada para enfrentar surpresas, e ouvir ou não ouvir uma conversa podia fazer toda a diferença. Sobretudo naquelas manhãs de minutos contados onde cada coisa, cada acto tinha a sua função precisa. Daí as conversas dos outros terem a função da ficção, mas com o desconcerto do real. E os phones ficam na mala mais a música que era suposto ouvir… Mas não na rua. Só que naquele dia ela estava virada para dentro, ensimesmada, e por isso não ouviu o homem na esquina anunciar o bilhete que tinha a sorte grande. Ele não era um banal vendedor de lotaria. Era o adivinho de Tiziano Terzani, o jornalista italiano que não andava de “headphones” nas orelhas

Casa

A chuva cai miúda, mas implacável. Molha os tolos e os outros, e tola, persigo o objectivo: olhar as ruas, as casas, parar nos cafés mesmo sem esplanadas, ir em busca do bar preferido de Rufus Wainright enquanto mentalmente vou cantando “Cigarrettes and Chocolate Milk”. Quem se cruza comigo agradece, sem o saber, que esse canto seja apenas mental. Assim sou brilhante no meu cantar.

Nos Hamptons dos Kennedy e de todo o sangue antigo da América, entre o desfile de casarões, vou atrás de um canadiano dito alternativo e da sua música, sel ligar aos vestidos certinhos e assertoados das montras, intercaladas com galerias onde se expõem obras mais ou menos convenientes e que não resisto a comparar com outras montras de outros sítios que perseguem ao longe o sonho americano, de muito longe e vendem unhas coloridas e peças novas para carros usados. Como Newark está longe de Long Island! A exclamação é a única pontuação possível.  

E lá vou eu vou na minha perseguição pessoal a referências políticas e literárias e musicais tão longínquas quanto as unhas de gel, quando me deparo com a inusitada familiaridade. Alia estava o sabor a casa, o saber-a-casa da arte de Julião Sarmento.

Lá está ele, o português patrocinado por mecenas americanos ricos e subsidiado nesta sua deslocação artística pela Fundação Gulbenkian e pelo Ministério da Cultura.
Era ele, no Parrish Museum de Southampton.
Julião Sarmento em mais de 40 obras que mostram a relação próxima entre o artista plástico luso e a literatura universal. Obras em papel para falar de uma relação com a escrita. A linguagem que outra linguagem inspirou porque as referências alimentam-se delas mesmas. Para quem não sabia, um famoso escritor local, James Salter, apresentou numa conversa com Julião Sarmento, ali, em Southampton, no dia 16 de Abril, o dia inaugural da exposição a que foi dado o nome “Artists and Writers/Houses and Home”.

E é em casa que me sinto apesar do lamento de não ter sabido e não ter estado a horas de ver e ouvir. Afinal, era a primeira vez que Sarmento tinha direito a uma exposição individual em território americano, desde que esteve em Washington, em 1999,. e eu ali e nºão vi…
Olho o relógio e interrogo acerca da porta fechada. Passa das cinco. Tola, chamo-me, dando razão à chuva, adiando a visita, sentindo-me inusitadamente acompanhada num aconchego à beira-mar, mesmo que ali o Atlântico seja ao contrário do meu. Como se dali visse Lisboa. Lisboa do lado de lá da água, como Alice no espelho. E é a água a devolver-me o rosto, a casa, como na exposição de Sarmento, o autor que Salter sublinhou saber dar essa sensação quando se aproxima da escrita. Agora persigo isso, essa sensação, e cheirou a café.
Entro. Um livro na mão denuncia-me e ouço em bom português: “O que vai ser?” Longe de saber de Julião Sarmento, aquela rapariga loira veio de Lisboa grávida, como me havia de contar, à procura de um sítio onde pudesse criar a filha. Contou-me ainda que trabalha ali e noutro restaurante, longe da Lisboa de onde veio e para onde está virada. Não tem um dia de folga, mas está entre os ricos da América a perseguir mais do que um cantor canadiano.

“Estrelas de giz”


Animal Kingdom “Chalk Stars” Video Oficial