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O Chapéu

O chapéu de palha girava-lhe nos dedos. Como se chamava o modelo? Fez um esforço, mas não sabia nada de chapéus. Ele é que sabia dos fedoras, dos panamás e de todos os outros.

O chapéu girava nos dedos e ela pensava na falta que ele lhe fazia. E não lhe venham dizer que falta é o mesmo que vazio. Isso é o que a ponta do cigarro aceso faz no guardanapo de papel. Um buraco que alastra e consome até não restar nada. Foi ele quem usou a metáfora para lhe dizer do perigo do desgaste, do que o tempo e o não dito e mal dito podem fazer entre duas pessoas que se amam.

A falta dele não era o vazio. Era uma enorme ausência. Quase tudo e não quase nada. O chapéu que lhe girava nos dedos, de palha amarela, diz que tecida à mão, aumentava essa ausência. Lá fora, a tarde era de inverno, mas o tempo igual ao de verão, como no dia em que aquele chapéu fazia todo o sentido e não lhe girava nos dedos.

Nada de muito sério

O frio do mármore na mão acordou-a da leitura.

Há quanto tempo está naquela realidade paralela? O necessário para o arrepio na pele. Um arrepio nada literário, real, que a fez pedir um chá e uma torrada com pouca manteiga, se fizesse favor. Lembrou-se do poeta dos cafés, de um café em particular, o Central, em Viena, de Altenberg, a quem chamavam “o poeta sem casa”, estava espectadora de um livro num palco real que a gelara.

Nada de muito sério. O que lia mesmo? De repente esqueceu. Olhou à volta.

Havia quem rabiscasse num caderno, quem retardasse o acender de um cigarro. Já foi tempo em que estar num café era morar numa espécie de penumbra que matava cerimónias para grandes demoras. Ficar horas, ler, pensar e só pagar um café era um luxo reservado a poucos lugares.

A mão fria no mármore da mesa fazia-a crer que por ali ainda era possível perder-se, sair para fora de si, experimentar os outros, olhando para eles, imaginando-lhes existências, lendo-os por quem os sabe escrever como se fossem realmente. E quem nos diz que não são.

Veio o chá. Um gole e o frio a diluir-se e com ele o sentimento de ausência. Na rua, para lá das vidraças, andavam mulheres de gorro e saltos altos, homens de mãos nos sobretudos. Olhos no chão, apressados. À sua frente, o livro esperava, aberto, um lápis entre as páginas para sublinhados, não se fosse esquecer.

Esquecia. Fazia parte do jogo de tentar andar por várias existências, mas ficava sempre algo, ela sabia. Um ambiente, uma cor, a marca de um dedo na papel, uma mensagem… porque quando o poeta de Viena existia e falava da ‘encenação do colectivo’ ainda não existiam redes sociais, mundos virtuais a baralhar ainda mais o que somos, a imagem que temos de nós, a que têm de nós. Nós e os outros e tantas coisas pelo meio, a filtrar, a mediar.

A torrada tem manteiga a mais. Esse paladar era só dela. Não partilhado a não através de um ligeiro esgar de enjoo. Podia reclamar e intervir na realidade de outro. Não o fez. Comeu e calou.

A mão já estava quente. O homem da mesa ao lado saiu para finalmente acender o cigarro. Na sua mesa sentou-se um rapaz com um iPad. Pediu um café e um copo de água. Ela resistu a pedir a conta. Foi na boleia dele e enfiou os olhos no seu livro. Ia ter companhia naquela ausência de si.

Cozinha do forno

“És um pisco”, dizia-lhe de passagem entre a mesa e a chaminé.

Mais uns passos num chão de terra que de tão pisado estava polido, direito. Podia ser varrido, quase lavado. Não saia um grão daquele pó com séculos de pisadelas. E não era só entre a chaminé e a mesa. Era à volta da mesa, entre a mesa e o louceiro, debaixo da mesa quando a mesa era arredada. Chamavam-lhe a cozinha do forno e tinha um entrada independente da casa. Era lá que ele se sentava a comer as batatas com bacalhau, almoço de todos os dias. Não gostava de variar na ementa. À noite haveria de ser uma sopa de feijão com hortaliça. E comia lento, como uma mão a segurar o rosto não fosse ele cair de tédio. Não havia entusiasmo no mastigar. Tinha de ser e era mais um pretexto para o cigarro e mais um pisar, agora entre a mesa e a porta para mandar baforadas lentas no pátio.

Ele era o único que só entrava para se sentar à mesa e quase nunca para falar. Todos os outros, pequenos e grandes, eles e elas, faziam daquele espaço o mais partilhado da casa. Ouvia as conversas, assistia sem interesse ao amassar do pão, ao tender da massa, às netas com os cadernos das cópias que se faziam distraídas naquele vaivém. Com a minha letra desalinhada, aproveitava para assinar com o meu nome todos os livros e ainda desenhava casinhas com fumo a sair da chaminé nas costas da capa. Também calhava copiar receitas, sempre que uma velha — e velha para mim era qualquer uma — pedia. E passa a limpo as novas, que chegavam em papel pardo, sobras de papeluços de colorau, e andavam soltas na terrina da entrada. A cozinha era o lugar onde tudo acontecia.

O centro da casa e quando mais velha e gasta, melhor, menos a cerimónia e maior a correria e as línguas das outras a soltarem-se. Havia bancos encostados às paredes se houvesse dúvidas de que aquele era um lugar para estar. E se nada havia para dizer velava-se o forno como se velava um morto. Era o que me parecia. Diziam-me que não, que isso não se dizia, que o pão era uma dádiva e lá benziam as minhas palavras aziagas até que havia pão quente acabado de sair do forno, temperado com azeite e alho ou açúcar para os mais pequenos. Era antes de ir para a arca na cozinha de dentro, a melhor, onde se entrava nos almoços e jantares de família, com a comida a chegar da outra em tachos e panelas mascarradas, que o fogão a gás só era usado numa emergência. E lá dentro era outra coisa. Tudo novo, uma cozinha equipada, mas as mãos e os sentidos queriam a outra, onde tudo se podia sujar já que o velho de velho não passa. E ele passava de uma à outra conforme lhe diziam, samarra pelos ombros, cigarro na boca, quase uma esfinge.

À sala nunca ia, nem no natal quando os cristais saiam dos armários e o serviço de porcelana ia à mesa. Não esperava pela ceia. Dizia que era tarde. Comia o bacalhau com batatas à noite e tirava uma filhós para festejar. Depois ia para a cama. Um beijo em cada neto que disputavam o melhor lugar no sofá, distraídos da televisão que tocava sozinha na cozinha, lá dentro. O que eles queriam eram sentir o cheiro da sala nunca aberta, olhar o armário grande de parede, o quadro da senhora que não sabiam se ria ou chorava. Isso apagava qualquer desenho animado, punha-os nervosos. E ele, na cama, no quarto ouvia-os, aninhado. Sozinho, não tinha pudor em deixar cair uma lágrima de contentamento na almofada enquanto a mulher não lhe levava uma caneca de chá, adivinhando-lhe as horas do sono que vinha pesado.

Do Belo

A ventoinha zumbia por cima da cabeça e era o único barulho além de uma ou outra buzinadela de um trânsito impaciente naquela rua de um bairro de putas e chulos e gente solitária. Estava num bar escuro e esperava um escritor.

Sabia da mesa onde se sentava, sempre com um scotch à frente. Acendia um cigarro e deixava que ele queimasse, logo após a primeira baforada, entre o polegar e o indicador tão amarelos quanto papel pardo. Despejava o copo e só depois, houvesse humor ou raiva ou os dois juntos, tirava um bloco gasto e uma caneta. Tinha de ser de tinta preta. Era o único requisito. Dizia que não conseguia escrever sem raiva e ria a bom rir da inspiração. Talvez a culpa fosse do scotch que lhe dava aquele torpor próximo do lado de lá das coisas.

Inspirado ou tocado pelo álcool, escrevia e isso era um alívio. Um amigo psiquiatra dizia-lhe que era a sua salvação, que de outra forma já teria dado um tiro na cabeça. Na dele ou na de alguém.  Ele, o escritor, via-se mais ao soco do que aos tiros, mas enfim… a psicanálise dá para estas explicações e por respeito ao amigo ele dava-lhe algum crédito, ainda que mínimo. Se era para doer que fosse lento e partilhado, dizia em defesa do soco.

Pedia um segundo copo e a caneta ainda estava pousada no papel. A ventoinha zumbia; no balcão nem um cliente. Só o homem do costume, de camisa branca e colete preto às riscas a passar o pano pelo mármore. Horas nisto. Coisa de loucos, de gente só. E eu quis ver. Pedi uma imperial com medo de não aguentar o escocês, na esperança de passar despercebida. Tola. Ele só fingiu não me ver e o outro fingiu ser normal atender uma rapariga de franja e ar de universitária armada aos cágados. Ela queria ser escritora e aquele cheiro a tabaco velho impregnado nas paredes, na alcatifa era só mais um chamariz. Queria ser como aquele homem, duro na escrita, limpo de adjectivos, direito ao assunto, sem pieguices gramaticais. Ela queria ser escritora como ele mas ela não sabia da tal dor. Ouvira falar dela, lera muitas vezes sobre ela, talvez já a pressentisse. Queria saber mais. Será que estaria visível nele, essa dor? Um gesto, uma expressão e lá estava ela? Procurava por ele, o escritor, nos livros que ele escrevia. Um dia ganhou coragem, perguntou-lhe como era, o que era preciso. Ele acendeu mais um cigarro e deixou-o queimar. Acho que a olhou. E foi a vez dele perguntar se já sentira o peso de um punho. No estômago, num olho que arroxeava na hora, de uma costela partida contra um degrau. Não esperou resposta nem ela a deu. Escrever é uma violência assim, escrever é assim físico. Pôs o discurso bem directo: “bebo para aguentar o reviver dessa dor; bebo para a tornar ficção e ficar mais suportável e às vezes parece que sei escrever sobre coisas belas, o belo, e o que dizem… Da dor pode nascer o belo.” E ria uma gargalhada rouca. Deve ser da loucura desta ventoinha por cima da cabeça, do álcool a tomar conta do meu sangue, porque do belo eu não sei nada.

Namoro

“Costumas contar aos teus namorados que tens herpes?”
Estavam em frente um do outro. Ele e ela fumavam cada um um cigarro tirado do mesmo maço, em cima da mesa.
Ele de óculos escuros e T-shirt amarela. Ela de óculos um pouco menos escuros e um top castanho que revelava dias e dias de sol e praia.
A pergunta foi feita assim, directa. A resposta veio do mesmo modo, sem  demonstrar o mínimo incómodo, mal-estar ou outros desconcertos.
“Claro que digo, tás parvo!” Ele pareceu esclarecido e calou-se enquanto a ouvia explicar a sintomatologia e os meios de propagação daquele “vírus”, dizia ela, que já a mãe tinha, e muitas das suas amigas e que não era assim tão mau, apenas chato e “dava bué mau aspecto”. Não era sem orgulho que afirmava nunca ter contagiado ninguém. Ele ouvia.
Um e outro, ele e ela, estavam de férias à espera que a universidade revelasse o seu grau de clausura para que um e outro, ele e ela, ficassem a saber se este seria um ano diferente. Ja era, de facto.
Falavam de uma nova fase nas suas vidas. Tinham vindo de férias. Ela, sempre a gesticular, contava da dificuldade do pai em fazer caber a prancha de surf no carro.
Ele mostrava-lhe moedas. “Quanto vale?”, perguntava ela. “5oo rupias são aí uns dez cêntimos. Guarda como recordação.” Ela virava a moeda na mão. “Ih, ih, ih, estou rica. Sabes que agora tenho a mania de rir assim, ih, ih, ih. Até escrevo nas mensagens. Estou farta do lol. Ih, ih, ih. E ele já ia noutras conversas.
Contava que estava no aeroporto a ouvir a histeria sobre o Irene. “Não me f……, aquilo foi bullshit.” Ela acendia outro cigarro e, revelando o azul claro das unhas, replicava que tinha tido alguma  gravidade, afinal morreram pessoas e sabes que lá “as casas deles são feitas de madeira ou lá o que é; não são como as nossas, de cimento e tijolo.” Ele não se deixou comover com o abalo. Nem com o dela nem com o da Irene que afinal nem foi uma tempestade mas um furacão; não foi uma ela, mas um ele mariquinhas, até que ela, a rapariga em frente, se queixou do sol que queimava naquela esplanada à beira-rio e pediu para mudarem de mesa.

À sombra, ela sentou-se ao lado dele. Pôs-lhe a mão na perna, por debaixo da mesa; com outro cigarro na mão, assegurou-lhe que o herpes só era contagioso numa determinada fase e não deixando que se fizesse algum silêncio constrangedor, começou a beijá-lo, primeiro na orelha e segundos depois já estava na boca. Ele não negou o beijo e também não deixou que houvesse silêncio.

Agora era o telemóvel dela que tinha desaparecido. Sim “aquele vermelho, o último que saiu.
Mais um beijo, mais um cigarro, mais conversa até que ela: “e se fossemos pagar e dar uma volta?” Ele não pareceu perceber à primeira aquela retórica, mas momentos depois já a acompanhava ao balcão, pagaram e ela seguiu à frente dele, a rolar a rupia na mão.