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Bloqueio

Muitas folhas de papel amachucadas pelo chão contariam a sua frustração. Mas num computador o bloqueio não se amachuca. Apaga-se.

À conversa com Julian Barnes

Faz agora quase quatro anos que conversámos num hotel em Lisboa a propósito do romance “Arthur & George”. Hoje o seu nome está entre os candidatos a vencer o Man Booker Prize de 2011, com “The Sense of an Ending”


“Se saio de Inglaterra e venho a Portugal sinto-me na Europa”

Um artigo recente no Daily Telegraph definia-o como o “imperscrutável Sr. Barnes”. É assim tão inacessível?

Depende do entrevistador. Normalmente com os ingleses sou mais fechado do que com os entrevistadores europeus.

Porquê?

Os entrevistadores europeus em geral estão mais interessados no que se escreve e nas ideias. Os ingleses querem falar do livro muito ao de leve e depois gostam mais de futilidades. Não sou naturalmente expansivo, mas há questões que me interessam mais quando não estou no meu próprio país. Quando vou à Europa…

Diz que vai à Europa quando sai de Inglaterra para o continente europeu?

É. Continuamos a pensar assim quando saímos de Inglaterra. Sou pró-europeu e penso em mim como europeu, tanto como pessoa como enquanto escritor. Mas continuo a pensar que venho à Europa quando venho a Portugal. Ou seja, se saio de Inglaterra e venho a Portugal sinto-me na Europa.

E porquê essa sensação?

A resposta a essa pergunta levava uns 45 minutos [risos]… Por causa da água que é preciso atravessar e também porque não se pensa que a Grã-Bretanha esteja ainda realmente na Europa. Somos membros da UE, mas é um compromisso que não é emocional. Emocionalmente o meu país ainda não aderiu à ideia da Europa. Tem a ver com a nossa natureza, com a História, como o facto de sermos muito conservadores e mais pragmáticos ou hipócritas, depende do modo como olhamos para isso.

Nos seus livros reflecte bastante sobre a questão da identidade…

Sim, penso bastante nisso. Quando se é criança não se pensa em identidade. Eu era jovem e pouca gente saía. Aí, pensamos que somos a norma. Ao crescer apercebe-mo-nos de que não há tal coisa como a norma e que a divergência que existe entre todos é que é a norma. Temos de pensar no nosso país como algo divergente.

E como pensa hoje o seu país?

Economicamente é um sucesso, mas ainda não resolveu a sua relação com a Europa e está catastroficamente dependente da América. Ou tem estado, nos últimos dez anos, no que se refere à política externa. A questão do Iraque é o pior desastre que aconteceu durante o meu tempo de vida.

Costuma dizer que França é o seu segundo país…

Sim. Somos capazes de ter várias identidades na cabeça. Quando estou em Inglaterra sou mais europeu, na Europa torno-me mais inglês. Esta manhã sinto-me particularmente inglês. [risos]

Vamos falar do livro?

Não é suposto falar de outra coisa…

No início a sua personagem, Arthur, encara a escrita como um jogo. Para si, escrever também é um jogo?

É quando Arthur é pequeno, está na escola e descobre a relação entre narrativa e recompensa. Ele é um tipo de escritor bastante diferente de mim…

Não é admirador de Conan Doyle escritor?

Não. Era muito bom profissional como escritor comercial, de grande qualidade e fez uma coisa excepcional: inventar Sherlock Holmes, que permanece na cabeça das pessoas há mais de cem anos. Foi um caso em que a personagem ultrapassou o criador. As pessoas esquecem Conan Doyle e só fixam Sherlock Holmes. Esqueceram o nome da pessoa que o criou.

Porque escolheu escrever sobre este homem?

Não o escolhi. Escolhi o caso. Quando li sobre o caso percebi que podia acontecer agora, com pequenas alterações.

Arthur Conan Doyle, não sendo muito conhecido, é um autor estudado. Como foi romanceá-lo?

É mais fácil inventar a psicologia de George

[o outro protagonista] de quem muito pouco se sabe do que tornar Conan Doyle personagem de um romance porque há conhecimento em excesso dessa perspectiva. Li duas ou três biografias, dois ou três dos seus livros autobiográficos e uma vez que se tem demasiados factos, não se pode mudá-los, então é um trabalho muito mais difícil.

Limita a imaginação do romancista?

Sim, e às tantas não se sabe bem que factos são verdadeiramente úteis à narrativa. Foi muito mais fácil escrever sobre George do que sobre Arthur. O que me interessou em Arthur foi a sua vida emocional, que não é muito lembrada.

Onde entra a parte criativa quando escreve sobre um caso real como este?

Houve partes do livro que tive de inventar. Por exemplo, o julgamento, mas o que quero é que o leitor não note que há ficção e realidade e pense que tudo é real.

É a segunda vez que entra enquanto ficcionista na mente de um escritor. Primeiro em O Papagaio de Flaubert, agora neste Arthur & George… A sua relação pessoal com estes escritores é muito diferente.

Adoro Flaubert como leitor. O Papagaio de Flaubert nasce dessa minha obsessão, enquanto este livro surgiu apesar de não ter interesse nenhum em Arthur Conan Doyle do ponto de vista literário.

A sua opinião sobre ele não se alterou depois deste livro?

Alterou-se. Mas neste livro ele é o escritor que está longe da sua secretária; ele não aparece propriamente como escritor; é o escritor homem de acção. Não sabia muito sobre ele antes de começar a pesquisa e acabei por o admirar. Viveu num tempo em que os escritores tinham muita influência directa , por exemplo, na política. Se Arthur Conan Doyle quisesse expressar a sua opinião em Defesa Nacional, iria junto do ministro da guerra e falaria com ele sem problema porque era um escritor muito famoso. Pensemos nos escritores mais famosos agora. (Pausa) Quem é o mais famoso dos escritores britânicos?

Consegue nomear?

Na literatura seria provavelmente McEwan, mas em termos dos mais vendidos, na área do crime, talvez Ruth Rendel. Não sei se algum deles seria recebido pelo ministro da Defesa.

Referiu-se a McEwan… Em Inglaterra fala-se do trio dos grandes escritores de hoje, que inclui ainda Martin Amis e Julian Barnes. Como se vê neste trio?

Se disser “estes são os escritores mais importantes em Inglaterra” e eu estiver entre eles, é simpático, está bem para mim [risos]. Gosto. É melhor estar na lista do que não estar. Sinto-me bem neste grupo. Mas há muito bons escritores em Inglaterra neste momento. Vivemos um excelente momento nessa perspectiva. [Kazuo] Ishiguro é um excelente escritor. Salman [Rushdie], britânico ou não, é fantástico… e há novos escritores a surgir.

Este livro é uma história dramática que tempera com ironia, arma recorrente na sua obra… O humor ajuda o escritor a dizer coisas sérias?

Não é coisa que eu consiga desligar, o humor. Não decido se um livro vai ou não ter ironia. Sou assim, é o que gosto enquanto escritor. A ironia é um sinal de sanidade do escritor.

E acha que há um humor inglês?

Ah, sim. Mas não se percebe o que é a não ser quando vamos a outros países e vemos se eles riem ou não.

Como o definiria?

Uma mistura da correcção de comportamento inglês com um lado de loucura que encontramos nos Monty Python. É uma mistura estranha do racional com o irracional. A primeira vez que fui entrevistado em Paris sobre o humor, o entrevistador disse que eu estava na tradição de Laurence Stern, Lewis Carroll e Monty Python… O que dizer a isso? Eu disse “sim”. Não tinha lido Laurence Stern; Lewis Carrol, sim, é bom; e adoro Monty Python mas não acho que haja muito deles no meu livro. Quem dera houvesse, mas não creio que alguém ao ler este livro encontre Monty Python. Ficaria muito surpreendido.|

Este foi o seu terceiro livro a ser finalista do Booker Prize. Nunca ganhou o prémio. Sente alguma frustração?

Não. Sempre disse sobre o Booker que quando se é escritor o devemos tratar como uma espécie de Bingo, mas se o ganharmos sabemos que foi um julgamento de mérito muito objectivo. Se não o ganharmos, dizemos que é apenas um jogo, uma lotaria.

Não ajuda a vender?

Depende do escritor. Se se for um jovem escritor faz com que o nome dispare. Mas tomemos o exemplo de Ian McEwan. Quando a shortlist deste ano foi anunciada e McEwan apareceu lá, ele já tinha vendido centenas de milhares de cópias e continua a vender. Os outros vendem cinco mil ou seis mil. Neste caso não faz qualquer diferença. Claro que ele continua a querer ganhar. É melhor ganhar do que não ganhar, mas deve ser entediante quando acontece várias vezes [risos]. Mas surpreende-me vir a Portugal e perguntarem-me sobre o Booker.

O Booker tem dimensão internacional…

Mas não entendo. Torna-se uma espécie de monstro. Não entendo que aqui estejam interessados no Booker Prize. Não deveria ser assim. O júri muda todos os anos e muitas vezes os seus membros não são muito literários. Não olho para os livros, olho para o júri. Quando este livro foi para a shortlist, em 2005, havia uma lista do júri nos jornais e a minha mulher leu-me os nomes e disse: esquece!

Pelo meio, escreveu um livro de cozinha…

Sim. Adoro cozinhar. A reputação do meu país é a de ser uma terra sem música e sem comida, mas isso tem-se modificado. Quando se é escritor e se trabalha com o cérebro desde manhã cedo… Gosto da ideia de preparar um jantar. O cérebro liberta-se para algo completamente diferente. Quando vou para o escritório estou muito mais confiante do que quando vou para a cozinha. E fico muito mais embaraçado quando falho na cozinha do que quando falho na página.

Porquê?

Porque é algo de imediato. Está-se diante das pessoas com o resultado do que fazemos, enquanto que no caso dos livros nunca ficamos perante os leitores que nos detestam.|

É verdade que não lê as críticas aos seus livros?

É. Parei de o fazer há uns oito anos.

Porquê?

Acho que não se melhora nada ao ler as más críticas.

E as boas?

As boas é embaraçoso, pedante. Ao fim de tantos anos de escrita, estar a ler as boas críticas para nos olharmos vaidosos é nojento. Não se aprende nada sobre escrita ao ler críticas. Nunca. Há um ou dois críticos ou companheiros de escrita que escrevem sobre os meus livros que talvez leia, mas por princípio digo aos editores: não me mandem nada. Não quer dizer que esteja completamente alheado. Tenho um acordo com a minha mulher. Às vezes pergunto-lhe quem escreveu sobre mim no Times. Se ela não disser nada não pergunto mais. Às vezes ela diz “Ele podia vir cá jantar”, o que significa que foi uma boa crítica; outras vezes diz: “Ele podia cá vir tomar um chá.” Não é tão bom. Quando comecei a escrever, lia as críticas e encontrava certas afirmações, frases que fixava na cabeça e ainda cá estão. Não temos o domínio sobre o que fica na nossa cabeça.

Consegue dizer uma dessas frases?

Houve uma crítica no TLS [Times Literary Supplement] sobre o meu segundo romance que, por ter uma personagem nomeada com uma inicial, acho que M ou T, o crítico dizia que eu estava a tentar fazer um paralelismo com um romance de Graham Greene onde havia uma personagem com uma inicial idêntica e que o meu livro era imensamente pior do que o de Greene. Pensei: “Seu estupor, nunca li esse livro!” Não consegui esquecer aquilo. Ainda me lembro do nome do homem. É um poeta canadiano e cada vez que vejo o nome dele penso: “Seu estupor.”|

in Diário de Notícias, 27 de Setembro de 2007

Da raiva

E de repente tudo faz sentido.
Dois dias a ler “A Ilha de Sukkwan”, é sentir um murro no estômago à moda de Cormac McCarthy ou William Faulkner e tentar perceber o porquê.
Porque ninguém escreve um livro assim sem uma boa razão e aí tem de haver uma dose de verdade.
David Vann, o autor, afinal acredita nisso, que a ficção tem de ser verdade. Isto soa melhor dito pela escritora Grace Page: “Fiction must Allways be true”. É que quando se escreve com a intensidade e a simplicidade de Vann não pode haver mentira. Há sim trocas de personagens, mas isso é outra coisa.
Muita coisa de “A Ilha de Sukkwan” se explica depois de saber um pouco da biografia deste escritor nascido em 1966 no Alasca, que esperou uns bons anos até ver publicada e reconhecida a sua escrita. Tantos anos que ele diz que deixou de se importar muito com ela, ou melhor, com o que dela se poderia dizer. E foi escrevendo e dando aulas até que… concorreu ao prémio de short-stories e ganhou… Foi quando perdeu a vergonha de dizer o motivo da morte do pai: suicídio.
Durante dois anos, a raiva fê-lo dizer que fora de cancro. Um tiro na cabeça, estava no escritório, foi-se a vida ficou um bilhete para a mulher, madrasta de Vann. Amo-te, não consigo viver sem ti.
No caso, nem sem porque antes fora ela a tentar acabar com tudo. Vann tinha 13 anos e não é difícil descobri-lo em Roy, o protagonista de A Ilha de Sukkwan, o rapaz adolescente, de 13 anos como ele, que embarca com o pai, um dentista como o pai de David, para viver uma aventura numa ilha inóspita no Alasca.
Que rapaz não gostaria de uma aventura assim. Pois.
Roy foi, acompanhou o pai e às noites ouvia-lhe o choro e de dia a frustração de ter falhado o casamento com a segunda mulher, a confissão de que não conseguia viver só, a traição à mãe. A primeira, a segunda, tantas infidelidades.
E a tentativa, mais do que uma, de pôr fim à vida, quando caiu de uma falésia. Roy, nas suas saudades de casa, suspeitou que não fora bem assim. Quando viu o pai quase a morrer achou que fora de propósito. Nunca lhe disse, como não disse nada no dia em que o foi encontrar com uma pistola pontada à cabeça ao lado do rádio onde comunicava com Rhoda, a ex-mulher, depois desta lhe ter cortado qualquer possibilidade de uma reconciliação.
O pai de Roy, ao contrário do pai de David não atirou. Na sua eterna cobardia baixou a arma e entregou-a ao filho e então começa quase tudo, uma vida de falhanços, de tiros lado, da derradeira falha.

Ler “A Ilha de Sukkwan” é saber da relação entre homens e mulheres, entre pais e filhos, do egoísmo e da tentativa de emendar um erro com outro erro. Para chegar onde? David Vann agora já diz de que morreu o pai, e como muitos outros escritores fala da escrita como salvadora. Salvou-lhe a vida, o trauma que não o deixara dormir durante 15 anos. Agora escreve e muita gente quer saber disso. Ganhou um prémio com esta história. O Medicis, em França. E continua a escrever.

Em Outubro haverá mais.