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Suspensa.

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Os pés pisavam a geometria do passeio. Tinham de caber no quadrado da lage ou perdiam, como no jogo da macaca.

O corpo que transportavam era uma ausência. Sem tempo nem lugar.
Cabeça a digerir informação e totalmente entregue aos pés. Eles que guiem porque transporto, fresca, uma personagem que anda e não me quero afastar dela. Mahler soa. O homem que o escritor inventou gostava de andar e de música e de pássaros e queria saber dos outros.
Vou com Julius e ausento-me. O truque é deixar-se levar e ser como um voo.

Sigo os pés que pisam o passeio com o olhar, como sigo os rostos. Desvio-me do rapaz de corpo imenso, mais um corpo que não cabe em si. Procuro-lhe expressão. É igual à de outros corpos, como se na sua desmesura perdessem a capacidade de revelar outra coisa além de um enorme “estou aqui”. Tudo é excesso excepto a expressão. Olhos encovados, lábios salientes e um olhar para a frente que não é em frente. Vão rua acima, atravessando a ilha, e eu sempre a desviar-me daquele compacto. Encontro outro rapaz de skate a descer a Maddison, e outros skateboards com rapazes e algumas raparigas em Union Square. Nevou, mas não chega. Uns turistas com sotaque russo perguntam-me que edifício é aquele e fico muda por segundos. Não era eu a estranha? Central Station, digo. Ahhhhs e ohhhhhs e o flash a disparar e eu a desviar-me do frio. Um desvio para nada.

Os pés andam, mas não sinto o resto e a dormência ajuda a seguir. Ainda tenho fresca a conversa com o escritor que falava de Pessoa, que dizia que queria andar na cidade de Pessoa para saber mais do escritor. A geografia nunca é alheia, penso na minha dormência. Esta ajuda ao passo, instiga ideias. Deambular é criar. Pelo menos para mim, aqui, como no mar. E agora era andar até me perder… talvez me encontre ou alguém me procure. Não é bem isso. É voltar a ter de saber onde pertenço. Que expressão levo eu, agora de café na mão, a aquecer o passo perdido mas que sabe o caminho? Olho-me nas montras, mas vejo uma imagem distorcida. Não me reconheço mas sei que sou eu e alguém me sorri lá de dentro. Sorrio. Uma rapariga de leggings e ténis de corrida, corre. Não me vê. Olha o chão. Olho-o também. O mimetismo sempre a intrometer-se.

Não sei há quantas horas ando. Deixei de olhar para o relógio e essa é outra perdição. Boa. Não me apetece encontrar-me nas horas, que alguém me alerte para elas. Estou suspensa. E por agora é onde me apetece estar. A terra está cheia de vontade de nos expulsar.

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O Outubro de Cardoso Pires

José Cardoso Pires nasceu há 88 anos e este texto tem cinco.

O escritor nasceu faz hoje 83 anos. Cultivou a palavra de forma lenta, como quem dança a valsa do adeus.

Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morreu, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.

A conversa foi em Dezembro. Demorada, no tom rouco da voz. Dezembro, numa tarde fria com a pouca luz do Inverno a entrar pela janela que dava para a igreja de Alvalade. Vestia uma camisola amarela, de um amarelo desmaiado que contrastava com o amarelo dourado do copo de whisky misturado com água que ia levando à boca. Acabara de editar Lisboa, Livro de Bordo, dedicado à cidade onde só não nasceu por acaso porque, como dizia, a sua mãe tinha qualquer coisa de salmão “e ia desovar a norte”. E só por isso foi nascer a Peso, na Beira, a 2 de Outubro de 1925. Cardoso Pires conversava e falava dos seus ódios e amores. De como detestava o Natal e o campo, do politicamente incorrecto confessar que não achava Torga assim um tão grande escritor; de como embirrava com o adjectivo; da sua paixão por Lisboa e por uma boa briga; por longas conversas em bares; por se isolar na casa da Costa da Caparica, virada para o mar, onde ia desenhando na parede as movimentações das personagens, numa espécie de mapa narrativo em que se perdia como quem perde a identidade para dar identidades às personagens.

Cardoso Pires conversava, mas temia o modo como essa palavra falada podia aparecer escrita. É que para ele, a palavra escrita tinha outro ritmo. Tinha de ser escolhida. Não era ao acaso. Dizia e emendava, como quem escreve outra versão de um romance. Dizia e rescrevia o dito com um letra miudinha, pensada, limpando adjectivos, substantivando. E aquilo lido parecia rápido. Veloz como os seus romances. Engano. Cardoso Pires era lento, muito lento na escrita e fazia ironia com os escritores rápidos. Em 50 anos, publicou 18 títulos. O Delfim, Alexandra Alpha, A Balada da Praia dos Cães ficarão como textos maiores da literatura. Saíram lentos, com tantas versões até sair a certa. Cada palavra tinha de ser certeira. Nem a mais, nem a menos. E nesse medir de palavras disse: “Estou convencido de que um dia parto uma unha do pé e morro.”

Nem mais uma palavra.

“Às vezes o real mata a ficção”

Entrevista com Laurent Gaudé, escritor. Uma conversa em janeiro de 2008 que recordo quando me rendo ao seu mais recente livro publicado em Portugal, “Furacão” (Porto Editora) e antes que o autor chegue a Lisboa para mais uma ronda de conversas.

Como foi voltar a escrever após ter ganho o Prémio Goncourt aos 32 anos? Sentiu pressão ou alguma espécie de angústia?
No início confesso que foi um pouco difícil arrancar, mas quando comecei a escrever não voltei a pensar no assunto. O “fantasma” do Goncourt não me acompanhou no processo criativo. Depois sim, regressou quando o livro ficou impresso e chegou às livrarias. Houve o receio da comparação, uma certa angústia, mas durou pouco. Digamos que foi uma insegurança natural. Mas Eldorado acabou por ser bem recebido e não pensei mais no assunto.

Estava a falar do processo criativo. Tem uma rotina de trabalho?
Escrevo todos os dias, durante várias horas seguidas e sempre à mão. Só uso o computador no fim, para passar a limpo.

Porquê à mão?
Não sei. Acho que preciso da lentidão da caneta no papel. O computador é muito rápido. Não dá para digerir as palavras. Escreve-se, apaga-se, volta-se atrás… Não dá para maturar, para deixar repousar o pensamento. É uma questão de ritmo que se tornou um hábito. Não sei escrever de outra maneira.

Passa a computador no fim do dia de trabalho?
Não. Só quando o livro está terminado, na chamada hora da revisão. Sou eu quem executa essa tarefa. Não a dou a ninguém. Aí emendo, corrijo. O computador é muito bom para fazer copy/paste.

Depois de O Sol dos Scorta, romance com que ganhou o Gouncourt, volta a Itália para escrever um livro sobre imigração clandestina. Visitou os lugares de que fala?
Não. Pensei em fazê-lo, mas achei que depois seria “comido” por esses lugares. Eles iriam marcar-me de mais para que eu pudesse fazer uma ficção. Não teria saído um romance, mas outra coisa qualquer, mais próxima da reportagem talvez. Às vezes, a realidade mata a ficção. Eu não queria que isso acontecesse. Não queria deixar-me contagiar.

Como é que veio a ideia para este livro?
Há uns anos comecei a recolher artigos de jornais. Recortava tudo o que via sobre essa nova forma de esclavagismo que é a imigração clandestina, o tráfico de pessoas. Quando dei por mim tinha uma enorme dose de material, guardei-o durante alguns tempos sem saber o que queria fazer com ele, até que me surgiu a história de Eldorado.

Foram esses artigos que o ajudaram a reconstituir os lugares na narrativa?
Sim. Devo isso aos jornalistas, às peças que vi sobre o tema na televisão.

A experiência como dramaturgo (foi por aí que começou na escrita) ajudou na encenação desses locais?
Sim, talvez. Não pensei muito nisso, mas o cenário é importante, o lugar onde decorre a acção é determinante para narrar uma história que, como esta, tem de fazer sentido nesse ponto de vista. Aqui falo de lugares que existem e onde acontecem determinadas coisas. Não posso inventar muito nessa matéria. Aí, é preciso que a ficção case com a realidade.

Entre todos esses artigos que coleccionou houve algum que o tivesse marcado especialmente ou influenciado de forma determinante a narrativa?
Sim (pausa). Houve um em que se faziam contas e se chegava a uma conclusão arrepiante. O tráfico humano era muito mais rentável, por exemplo, que o tráfico de armas. É assustador, impressionante.

Este não é um livro-tese, mas quer passar uma mensagem…
Este é um livro sobre a viagem, no sentido mais lato do termo. Se o tivesse de resumir numa frase diria isso: é um livro sobre viagem. No caso, uma viagem para o desconhecido. O movimento entre um lugar e outro feito no meio de uma incerteza que pode ser a diferença entre a vida e a morte. O que é que leva alguém a abandonar tudo e a ir para um lugar que não conhece. No caso vai à procura do Eldorado, o que não é bem a mesma coisa que ir em busca da Terra Prometida. Essa tem uma carga religiosa, a outra uma carga onírica. É o sonho. E o sonho pode ser simplesmente a fuga à miséria, como os dois irmãos sudaneses que apostam tudo – e tudo é a vida – para chegar à Europa, o lugar do sonho.

Mas há também outra procura, a de um amor perdido por parte do comandante do navio que tem a missão de prender os clandestinos que encontrar, mas que por vezes os salva. Em quem se inspirou quando criou a personagem Salvatori Piracci, o guardião de Catânia onde chegam os chamados barcos da morte?
No homem e na sua ambivalência. Por isso também lhe poderia dizer que este é um livro sobre a condição humana. Procurei dar o retrato dos dois lados. O do desespero de quem sai de um lugar, sabendo que muitas vezes não irá encontrar absolutamente nada, mas que mesmo assim vai, como se na Europa estivesse a solução, uma qualquer solução. E levam filhos e deixam filhos e adoecem e morrem, sabendo que do outro lado do mar não há nada mais do que outro tipo de miséria. Piracci está desse lado, mas no conforto. Representa o Eldorado, mas ele mesmo tem a sua busca, a sua viagem. Ele consegue ver a dor de uma mãe que perde o filho e protege-a das autoridades e a autoridade ali é ele. O Homem é ambivalente. É a sua condição. Miseráveis ou não, todos, naqueles barcos, são homens à procura de se salvarem numa viagem, e quis dar voz a ambos: àquele que tem a obrigação de salvaguardar a fronteira mas que por vezes traem a sua função e aos que a tentam transpor. São vozes diferentes, mas só aparentemente.

29 Janeiro 2008

Arrumado

O escritor deixou de fazer sentido. Leio-o e encontro malabarismos, piruetas, emoções a martelo. Um bocejo. Escrita à medida de uma expectativa fabricada pelos fabricantes de livros, cada título uma encomenda. É preciso fazer chorar, fazer rir, fazer bonito, mostrar que se sabe, citar… O escritor deixou de olhar para dentro, de observar cá fora, para se ver a ele num espelho gigante, corpo inteiro de sucesso, músculo ganho à conta de vendas. Nada contra as vendas, bem entendido, mas… Continuo a olhar as páginas como para encontrar a razão da perda do tal sentido. Achar nelas o talento de fazer diferente com as mesmas palavras sem trair a essência da escrita: o tal espelho onde cada um é capaz de se ver e não apenas encontrar o reflexo do escritor musculado. O meu escritor tornou-se banal, papagaio sem penas nem fado. Fecho o livro e arrumo-o na prateleira, ao lado dos outros livros dele que me fizeram segui-lo, e passo à letra seguinte.

Bloqueio

Muitas folhas de papel amachucadas pelo chão contariam a sua frustração. Mas num computador o bloqueio não se amachuca. Apaga-se.

Luiz Pacheco, um ser ficcional


Por fim, pego na biografia de Luiz Pacheco. Folheei páginas ao acaso, parei em vários parágrafos, escolhi citações do escritor, um longo namoro que só agora passou a uma relação mais profunda.  Abri o livro na primeira página. “Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade”, escreve, a abrir, João Pedro George, o biógrafo de “Puta que os Pariu“, título retirado da uma entrevista que Pacheco deu à revista Ler, em 1995, conforme se explica na contracapa desta edição da Tinta da China. Talvez seja esse desarme que mais me seduza em Luiz Pacheco, uma capacidade invulgar de surpreender e que fez dele uma das figuras mais ricas da literatura portuguesa do século XX. Tive o prazer de o conhecer, um privilégio que na altura me intimidou. Por detrás das lentes de fundo de garrafa os olhos de Luiz Pacheco não escondiam o lado mordaz e altivo. Foi esse olhar que recordei mais uma vez no dia em que tive de escrever sobre a sua morte, um texto feito com a ajuda de João Pedro George que já então trabalhava nesta biografia. Foi em Janeiro de 2008.

Via-se como um ser ficcional

Um homem avançava pelo corredor de uma redacção. Passos incertos. Expressão imperceptível por detrás dos óculos de aros grossos. Atrás, outro homem, mais novo, saco de plástico na mão e o ar de quem está ali por acréscimo. Luiz Pacheco e um dos seus oito filhos, Paulo Pacheco, chegavam para uma entrevista. Era em meados dos anos 90 e as dificuldades financeiras que sempre marcaram a existência deste escritor que nunca escreveu um romance – dizia ele que por falta de disciplina – eram as de sempre. Luiz Pacheco falou, o gravador gravou e no fim da conversa, sem que houvesse nenhum acordo tácito, o estender, pelo jornalista, de uma nota de cinco contos logo conduzida pelo olhar de Pacheco para as mãos do filho Paulo. “Ele tinha uma moral muito própria, ou não tinha mesmo moral nenhuma”, refere o crítico João Pedro George.

Para quem conviveu de perto com Luiz Pacheco esta é uma história banal na vida de um homem invulgar cujo percurso e personalidade são impossíveis de comprimir num artigo de jornal. “Ele era tudo menos o lugar-comum”, diz João Pedro George, professor universitário a terminar uma tese de doutoramento sobre Luiz Pacheco. “Não será uma biografia tradicional. É uma tese de sociologia literária. Interessa-me partir da trajectória do escritor maldito para desconstruir a ideia de que isso tem uma carga negativa.” É uma reprodução de um meio literário a partir do percurso individual de um homem que foi o seu principal biógrafo, alguém que dizia que primeiro se vive e depois se escreve sobre o que se vive: um escritor que nunca escreveu um romance e se fez a si mesmo personagem romanesca. Ele via-se assim. Os outros viam-no assim: um ser ficcional.

João Pedro George conheceu-o de perto. Trabalhou directamente com ele nos últimos dois anos e é ele quem o descreve como a personagem do romance que foi a sua própria vida. A última vez que o viu foi no dia 26 de Dezembro, no lar onde estava, no Montijo. Queria ouvir dele o nome da rapariga para colocar na dedicatória de “O Crocodilo que Voa”, uma antologia de entrevistas de Luiz Pacheco organizada por João Pedro George, e a editar este mês pela Tinta da China. Encontrou um homem “bastante debilitado, numa cadeira de rodas”, com uma voz inaudível. Não conseguiu saber o nome da rapariga, mas sabe a história que a acompanha e a fez ser motivo de homenagem do homem que morreu na noite do passado sábado aos 82 anos de idade. A dedicatória será “A …, açoriana, poetisa, excelente.” Uma espécie de agradecimento na sequência de uma confissão polémica numa entrevista a Baptista Bastos. Pacheco afirmava ter tido relações sexuais com uma cadela. A seguir, a única voz de compreensão a essa frase “maldita” foi a de uma mulher que o visitou no lar e lhe terá dito que tal atitude revelava uma enorme solidão.

Era assim Luiz Pacheco. Desarmante, de “alguém que nunca perdeu a sua pureza artística, desconfiava das pessoas e tinha uma visão um pouco cristã do mundo no sentido em que achava que todos somos culpados até prova em contrário.” Palavras de João Pedro George, mais uma vez, sobre alguém que não correspondia a um tipo convencional.

Por isso, na hora da sua morte, evitem-se palavras de circunstância. Luiz Pacheco, escritor excêntrico, maldito, bem-amado pelo crítica, morreu e deixou mais obra por publicar do que aquela que foi publicada. Sobretudo diários e cartas, uma correspondência que em quantidade se assemelhará à deixada por Camilo Castelo Branco. “Todos os dias escrevia cartas”, sublinha Pedro George.

Natural de Lisboa, onde nasceu na Rua da Estefânea, a 7 de Maio de 1925, Luiz José Gomes Machado Guerreiro foi o melhor aluno do seu ano no Liceu Camões. Média de 18 que o levou a cursar Filologia Românica na Faculdade de Letras. Desistiu devido a dificuldades financeiras que o acompanharam ao longo da vida. Ainda foi funcionário público, mas preferiu a liberdade da condição de desempregado à segurança da rotina como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.

Escreveu artigos em vários jornais e revistas, dedicando-se, sobretudo, à crítica literária. Em 1950 fundou a editora Contraponto, que publicou principalmente obras de autores surrealistas, autores como Mário Cesariny, Herberto Helder ou António Maria Lisboa. Faliu. Como autor, destacou–se em 1964 com o conto Comunidade, que valeu o elogio da crítica (ver caixa). Mas seria a sua condição de crítico irreverente e a vida de libertino “com regras” a darem-no a conhecer às autoridades do Estado Novo. Esteve preso, viveu de esmolas, andou por albergues e quartos alugados. Dizia que tinha sete filhos e meio. Teve, de facto, oito, de várias relações, e a literatura sempre como projecto de vida.

Janeiro 2008 in Diário de Noticias

“Eu tenho pudor em inventar situações”

Foram para guardar todas as conversas que tive com Ruy Duarte de Carvalho, o poeta, dramaturgo, prosador, antropólogo, fotógrafo, fazedor de filmes que escolheu África para terra e lá morreu, cedo, de mais, em 2010. Não faz hoje anos, mas não fico à espera de efemérides para lembrar e partilhar esta. O pretexto é ele, o autor. 

Entrevista com Ruy Duarte de Carvalho a respeito de Lavra

Na introdução apresenta Lavra como um livro de memórias. Não é comum associar a poesia à memória.
Este livro corresponde a experiências situadas no tempo, remete–me a memórias, a várias fases da vida e da escrita; a várias atitudes em relação à própria experiência. São muitos anos de Angola, desde antes da independência. Isso marca vários tempos de uma experiência de Angola através da minha expressão. Chegou a altura de publicar o conjunto. Não pensei que efeito poderia ter sobre o leitor. Acho que não vou fazer mais uma coisa assim.

É uma despedida da poesia?
Acabou, acho. Continuam a acontecer-me coisas que poderiam conduzir a poemas, mas meto-os nos outros escritos.

Porquê?
Não sei explicar muito bem.

Não foi uma decisão?
Não. A última recolha são extractos de um diário e cada vez mais se parece menos com a configuração da poesia, dos poemas às escadinhas. Também a articulação da linguagem foi sendo cada vez menos isso. Mas a substância poética acho que está lá, é a mesma. Como livro de poesia acho que é o último.

Reviu alguns poemas. Com que intenção?Dei uns toques a alguns, mas não para os transformar mais em poesia ou modificar a substância. Foi para os tornar mais iguais a eles mesmos, mesmo nos defeitos. A gente acaba por saber como lhes dar a volta.

Quanto mais nos aproximamos no tempo mais visível é o cuidado com o poema do ponto de vista plástico.A expressão plástica sempre me interessou. Nunca a pratiquei muito porque a vida não apontou para aí. Mesmo no que escrevo há muito que se revela através de imagens. O que faço é traduzir as imagens para outra linguagem. Mesmo na prosa. A imagem faz parte da minha maneira de me situar: apreender as imagens. Fiz bastante cinema e ele gera uma maneira de compensar a necessidade de expressão plástica.

Isso revela-se na forma do poema.
É. A organização do texto na página conduz a uma maneira de leitura, as cisões dos versos, as deslocações… É para funcionar um pouco como uma pauta de música.

E o desenho do poema é feito à mão?
Depende. Tiro muitas notas. A fase final é organizá-las. O modo como o poema surge corresponde logo à sua organização no espaço do papel. Mesmo em relação à escrita continuada, à prosa, acontece ter de quebrar uma linha. É uma questão de respiração. A poesia escrita é para ler. Funciona quase sempre mal a dicção pública de poemas. Procuro induzir o leitor na cadência que acho que traz mais rendimento à palavra.

Em Da Lavra Alheia (1977-80), o quinto livro deste volume, passa para poema testemunhos da expressão oral africana. O poeta aproveita o trabalho do antropólogo?
Esse livro foi feito antes da formação de antropólogo. Fiz-me antropólogo para saber com o que estava a lidar. Havia um património de expressão africana que não estava disponível para o consumo da literatura porque a recolha era feita por especialistas, por antropólogos que traduziam tendo em conta o interesse da informação e sem extrair rendimento de uma carga poética que para mim era evidente e que estava aniquilada. É um património de sabedoria universal. Decidi dar a volta a esse património de sabedoria universal. Pus notas no fim para não perturbar a leitura e porque me parecia abusivo recorrer a fontes e não as referir, mas os poemas são da minha inteira autoria. Decorrem da experiência de contacto.

Lavra é uma palavra recorrente na sua obra poética.
Fui sempre fazendo lavras. A Lavra Paralela (1983-86) nasceu no fim da minha tese sobre pescadores em Luanda. Quando arrumei os papéis tinha bué de poemas. Estava cansado da ciência e fui descobrindo que havia imensas coisas à margem do texto. Lavra é o labor da terra, uma expressão da condição humana! Remete para coisas lá de Angola. No tempo do entusiasmo revolucionário e da Aliança Operária Camponesa foi necessário dar nome a um jornal literário da União de Escritores. Tinha de ter a alusão a operários e camponeses. Alguém lembrou ‘oficina’. Eu lembrei-me de ‘lavra’. A partir daí comecei a usar a palavra. É a minha lavra poética. A palavra funda e a poesia atribui sentidos novos às palavras. Há ideias que só se apreendem com a palavra certa. Quando não a encontramos, a ideia não se agarra.

É esse o seu objectivo enquanto escritor?
É. Mais do que veicular ideias, é configurar expressões que às vezes são ideias. A ideia não precede, necessariamente, a palavra. Na poesia é a palavra que dá acesso à ideia e não a palavra que vem dar cobertura à ideia. É a palavra que desencadeia a ideia. Há-de haver filósofos que sabem disto muito mais do que eu, porque analista de literatura não sou.

Mas tem reflectido sobre isso.
Como antropólogo o meu ofício é a análise.

Diz que não é um ficcionista.
Sim, digo isso porque comecei pela poesia. A minha acção de escrita visa a síntese, não a análise. No fim, todos andamos atrás do mesmo: fundar percepções e apreensões novas. É aí que funciona a poesia. Desde que se reconheça que se passa num determinado tempo e que as marcas do lugar lhe confiram substantividade… Tem de se conseguir alguma substantividade. A palavra é que é; esse é que é o ofício do escritor. Não é o conceito. Isso é do filósofo. Isto é imagem e metáfora. Não sai disso, senão é outra coisa. Mas cada um escreve na sua onda. Eu tenho pudor em inventar situações.

É o pé na realidade do antropólogo?
Pode ser. Talvez por isso me tornei antropólogo com tanta facilidade. Posso buscar as situações que me convêm. Nada é inocente. Quando se está no terreno vamos à procura do que se sabe que é provável encontrar. Agora sentar-me a inventar implicações, não. Não sou capaz, tenho vergonha. Mas aproveitar situações e depois deixá-las ir sozinhas, isso acontece. Cada vez mais escrevo nesta meia ficção, meia viagem, meia poesia.

_16-05-2006 Diário de Notícias

Uma comédia social

De onde vem aquela voz? “Neste momento acho que a Inglaterra está muito contente por não fazer parte da zona euro.” O tom aristocrata, o sotaque cerrado, colocação teatral, timbre de tenor, o silenciar das vogais a remeter para outro tempo, para um cenário vitoriano, precisamente aquele que começa por retratar e questionar no seu mais recente romance, “O Filho do Desconhecido” (D. Quixote) candidato a muitos prémios, entre eles, o Booker, vencedor de uns quantos, aplaudido pela crítica, celebrado pela imprensa mundial. Um livro que tem quase a duração do século XX, vai de antes da I Guerra à década de oitenta. “Se tivesse de o classificar diria que é uma comédia social feita a partir da hipocrisia e da afectação das classes mais altas.”

Alan Hollinghurst , 57 anos, escritor lento, de quatro romances em duas décadas, considerado um dos mais exímios manipuladores da língua inglesa, homem cheio de referências literárias que transporta para os seus romances, alguém que gosta de pegar numa certa realidade e ser cínico com ela, já pôs Margaret Thatcher a dançar numa das suas ficções, justamente em “A Linha da Beleza” com o qual conquistou o Booker em 2004. Aí havia o retrato de uma época de excessos. Agora, em “O Filho do Desconhecido”, há um fresco sobre o escondido, o jogo de segredos em que vive essa mesma aristocracia.

O livro está pousado em cima da mesa ao lado do bule com o chá da tarde. Não o dispensa. E os olhos distraem-se por momentos nos ecrãs de televisão colocados na parede. Interroga-se sobre se é verdadeiro o bigode do entrevistado num dos canais. É José Mário Branco na RTP Memória. Não se fixa no futebol, volta à economia. “Nós não estamos bem, mas vejo uma Europa ainda mais aflita”, comenta este observador de costumes, com a tal voz que parece um ensaio, retirada de uma das personagens dos seus romances. “Como é que os portugueses estão a viver tudo isto?”. Ele é um espectador. Está na posse da informação, mas não do quotidiano, e enquanto escritor é o detalhe que lhe interessa. Descreve-o como poucos. Tanto o detalhe de carácter como o pormenor da arquitectura. Acredita que os ambientes determinam os comportamentos e não foi por acaso que escolheu uma casa e uma família da aristocracia rural dos arredores de Londres para escrever sobre como se derrubam e recuperam costumes, para falar da ambiguidade e questionar o difícil que é saber a verdade sobre uma pessoa. “Se no início do século XX ninguém estava interessado na vida sexual de alguém, no final do século é só isso que se quer saber, e ao mínimo detalhe”.

É a última entrevista em três dias em Lisboa. Dentro de pouco tempo irá apanhar o avião de regresso a Londres. Já perdeu conta às vezes em que falou sobre o que quis quando escolheu para personagem central do livro Cecil Valance, um poeta que vive no ambiente de Cambridge, herdeiro rico, fisicamente perfeito, adorado por homens e mulheres, sedutor, sexualmente ambíguo, que morre na I Guerra aos 25 anos e deixou uma lenda. Matéria para a interrogação que se segue e percorre o resto do livro: “Quem é Cecil?”, o homem que está na capela da casa de família, num túmulo com a sua figura esculpida. “Interessava-me ver o que acontece ao longo do tempo com a reputação de alguém que morre cedo”. Acontece que ela se altera, não apenas no tempo, mas nas interrogações individuais acerca dela. Cada um está na posse de uma verdade. Um monstro ou o homem perfeito? Um ‘gay’ que parece ser um bi-sexual, um artista com poucos princípios. Nenhuma personagem tem a informação toda. Nem o leitor.

Hollinghurst gostou de jogar esse jogo. Por isso fechou portas, conteve-se nas cenas de sexo que eram comuns e bastante explícitas nos livros anteriores. “Se calhar deixei muita gente frustrada, mas não tinha a ver com este livro, nem quis correr o risco de me repetir”, declara o escritor que parece ter-se libertado de vez do rótulo de autor ‘gay’. Não é só isso. É muito mais do que isso. Quanto mais? “Nada de muito interessante”, ri. Se alguém um dia quiser fazer a sua biografia irá aborrecer-se de morte, avisa. “Não há nada de muito excitante.” Segredos? A dificuldade que é sempre reconstituir a vida de alguém, porque há sempre coisas que se calam, como calaram os que conheciam e se envolveram, com Cecil, quando interrogados pelo seu biógrafo. A mentira, a perda da memória, a memória que se reconstrói, a si própria, o ego, os silêncios, o passa-a-palavra. É mais o que se cala do que o que se diz em relação a Cecil. E Hollighurst? Ele que gosta de espreitar os ‘ateliers’ de escrita dos outros escritores nunca revelou o seu. “É um lugar sagrado. Uma espécie de superstição”, ri. Dá um bombom: há uma pilha de CDs, mas quando escreve exige silêncio total. “Jamais conseguiria escrever algo a ouvir REM”.

Passaram sete anos desde que venceu o Booker e sabia que os olhos estavam postos nele. A expectativa era alta. Havia apostas no mundo literário em como ele iria bisar, mas garante que o fantasma do Booker anterior nunca interferiu na escrita deste “O Filho do Desconhecido”. No início, o prémio serviu como estímulo, depois esqueceu-o. O objectivo não deixou de ser o de sempre: escrever um bom livro. Quando saiu houve barulho, foi seleccionado, mas não chegou à ‘shortlist’. Garante que não se incomodou com isso, mas o ponto final da frase é um riso irónico. Leu o romance do vencedor, “O Sentido do Fim” (agora publicado em Portugal pela Quetzal) e gostou. “Merecia estar na ‘shortlist'”. E o seu? “Não vou dizer isso, mas vou dizer que o livro de Edward St. Aubin, ‘At Last’, deveria lá estar, como o de Ali Smith, ‘There but for The’. “E diz também que este ano a ideia era premiar uma literatura mais popular. “A presidente do júri não era propriamente conhecida pelas suas capacidades literárias”. Ponto final parágrafo com uma gargalhada.

Publicado no Diário Económico de 18/10

Na linha de Hollinghurst

 

Comecei hoje bem pela fresca a ler o último romance do britânico Alan Hollinghurst, “O Filho do Desconhecido“. Apontado como um dos favoritos a vencer o Booker Prize, acabaria por perder para outro grande da literatura inglesa, Julian Barnes. Se acontecesse vencer, seria a segunda vez para Hollinghurst. Já o tinha ganho em 2004 com “A Linha da Beleza“. Uns meses depois conversei com ele e parte dessa conversa foi publicada num texto no DN. Recupero-o agora enquanto já estou agarrada a este novo livro

Aventuras no país do luxo e da extravagância
10 Julho 2005

“- Primeira-ministra, quer dar-me a honra de uma dança? – Sabe, aí está uma coisa de que eu gostaria muito – disse a primeira-ministra, com os seus tons de peito, o contralto da convicção. À volta dela, os homens trocavam risinhos desdenhosos e horrorizavam-se perante uma audácia que os ultrapassara. Nick ouvia todo o episódio acumulando já o seu comentário, a sua história, enquanto saía da sala com ela no meio de esgares de surpresa, da súbita mudança do centro de gravidade, um efeito que nenhum deles poderia ter causado e a que nenhum deles era capaz de resistir. Quanto à reacção dele, traduzia-se por um sorriso, a cabeça um nada baixa, um nada de lado; ignorava todos os presentes, intimamente preso ao que a primeira-ministra lhe dizia e à brilhante ousadia das suas réplicas. (…) Não é todos os dias que se é convidado para dançar por um professor universitário – disse a primeira-ministra.”
Nick Guest é o protagonista do romance, um jovem homossexual movido pela ambição e influenciado pelo ambiente londrino onde se instala. A primeira-ministra é Margaret Thatcher, a imagem da Inglaterra dos anos 80 que Alan Hollinghurst não resistiu em transpor para a ficção. São eles o par desta dança improvável, metáfora irónica da década que glorificou o dinheiro, o poder e a ambição e fez dos excessos um modelo de vida. Excesso de droga, de sexo, de ostentação. Um país das maravilhas do luxo e da extravagância, ou da “desimportância”, para usar uma expressão de um outro país com outras aventuras de outras maravilhas, o de Alice inventado por Lewis Carrol e que serve de epígrafe a este romance.
Feito na perspectiva dos ricos e dos poderosos, A Linha da Beleza (Asa) reconstitui a atmosfera e os comportamentos de um tempo marcado pelo money-making. “Não pretendi que o livro fosse um retrato compreensivo ou profundo desses anos, mas que desse o background ou a atmosfera através da qual um jovem, Nick Guest, chegou à maioridade”, declarou ao DN, Alan Hollinghurst. Disse ainda que, tal como a maioria das pessoas que o viveram, também ele pensou que esse momento da história fosse apenas simbólico. Haveria, no entanto, de revelar-se um tempo marcante. “Esses anos prolongam-se até hoje”, afirmou a propósito, remetendo para uma tirada de Catherine, a rapariga problemática do romance, filha de Gerald, o deputado tory em casa de quem Nick se aloja nos seus primeiros anos de Londres, e irmã de Toby, a grande paixão do protagonista. É ela quem diz que os anos 80 vão durar para sempre.
Não há aqui análise sociológica, moralidade ou julgamentos de qualquer espécie. Nesse retrato feito de impressões – falas, comportamentos, gostos, paisagens – o autor revela a sua intenção “mostrar a aceleração da ganância e que havia um preço a pagar por isso. Não quis escrever um livro que fosse povoado de estereótipos, mas que revelasse um pouco da complexidade do ser humano.” São esses os aspectos centrais do livro, trabalhados durante quase seis anos, de forma regular, numa rotina diária “das oito às seis, com uma interrupção de duas horas para sesta”. “Acho que a disciplina estimula a imaginação”, justifica. “Quero mergulhar no hábito de produzir até a escrita se tornar mais fácil. Gosto de emergir no universo do livro e estar continuamente a pensar nele.”
Daí o isolamento que escolhe para a escrita. Desde o primeiro romance, The Swimming-Pool Library (1988). Então, ainda editor no Times Literary Supplement. Com The Folding Star (1993), esteve na shortlist do Prémio Booker . O terceiro, The Spell (1998), foi mal recebido pelo maioria dos críticos britânicos. A Linha da Beleza (2004) encerra este quarteto de romances sobre a experiência da homossexualidade e foi um dos mais polémicos vencedores do Booker, mesmo que a crítica o tivesse aplaudido alguns meses antes.
Quatro romances em 15 anos é um score que dá a Alan Hollinghurst o estatuto de escritor lento. Ele assume esse olhar demora- do para a escrita, a dificuldade em avançar para o texto sem um guião traçado e a paragem após A Linha da Beleza. O que se segue? Não sabe. “Talvez um livro de contos.”

Do Belo

A ventoinha zumbia por cima da cabeça e era o único barulho além de uma ou outra buzinadela de um trânsito impaciente naquela rua de um bairro de putas e chulos e gente solitária. Estava num bar escuro e esperava um escritor.

Sabia da mesa onde se sentava, sempre com um scotch à frente. Acendia um cigarro e deixava que ele queimasse, logo após a primeira baforada, entre o polegar e o indicador tão amarelos quanto papel pardo. Despejava o copo e só depois, houvesse humor ou raiva ou os dois juntos, tirava um bloco gasto e uma caneta. Tinha de ser de tinta preta. Era o único requisito. Dizia que não conseguia escrever sem raiva e ria a bom rir da inspiração. Talvez a culpa fosse do scotch que lhe dava aquele torpor próximo do lado de lá das coisas.

Inspirado ou tocado pelo álcool, escrevia e isso era um alívio. Um amigo psiquiatra dizia-lhe que era a sua salvação, que de outra forma já teria dado um tiro na cabeça. Na dele ou na de alguém.  Ele, o escritor, via-se mais ao soco do que aos tiros, mas enfim… a psicanálise dá para estas explicações e por respeito ao amigo ele dava-lhe algum crédito, ainda que mínimo. Se era para doer que fosse lento e partilhado, dizia em defesa do soco.

Pedia um segundo copo e a caneta ainda estava pousada no papel. A ventoinha zumbia; no balcão nem um cliente. Só o homem do costume, de camisa branca e colete preto às riscas a passar o pano pelo mármore. Horas nisto. Coisa de loucos, de gente só. E eu quis ver. Pedi uma imperial com medo de não aguentar o escocês, na esperança de passar despercebida. Tola. Ele só fingiu não me ver e o outro fingiu ser normal atender uma rapariga de franja e ar de universitária armada aos cágados. Ela queria ser escritora e aquele cheiro a tabaco velho impregnado nas paredes, na alcatifa era só mais um chamariz. Queria ser como aquele homem, duro na escrita, limpo de adjectivos, direito ao assunto, sem pieguices gramaticais. Ela queria ser escritora como ele mas ela não sabia da tal dor. Ouvira falar dela, lera muitas vezes sobre ela, talvez já a pressentisse. Queria saber mais. Será que estaria visível nele, essa dor? Um gesto, uma expressão e lá estava ela? Procurava por ele, o escritor, nos livros que ele escrevia. Um dia ganhou coragem, perguntou-lhe como era, o que era preciso. Ele acendeu mais um cigarro e deixou-o queimar. Acho que a olhou. E foi a vez dele perguntar se já sentira o peso de um punho. No estômago, num olho que arroxeava na hora, de uma costela partida contra um degrau. Não esperou resposta nem ela a deu. Escrever é uma violência assim, escrever é assim físico. Pôs o discurso bem directo: “bebo para aguentar o reviver dessa dor; bebo para a tornar ficção e ficar mais suportável e às vezes parece que sei escrever sobre coisas belas, o belo, e o que dizem… Da dor pode nascer o belo.” E ria uma gargalhada rouca. Deve ser da loucura desta ventoinha por cima da cabeça, do álcool a tomar conta do meu sangue, porque do belo eu não sei nada.