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Sina de Natal

Um, dois, três, pé direito.

Não vá o diabo tecê-las nem as bruxas se distraírem na sua roda de chuva. Se houvesse madeira, lá ia o lagarto lagarto lagarto. Não há. E agora? Que seja o que Deus quiser, então. Só que parece que Deus não gosta de ser colocado nestas coisas da superstição.

Ela prefere chamar-lhe cautelas e caldos de galinha, já se sabe que nunca fizeram mal a ninguém a não ser às pobres das galinhas. Mas senão fosse para o caldo iam para a cabidela, por isso… Estava ela aqui a cogitar enquanto os pingos grossos batiam na vidraça e veio o trovão. Despertou-a do torpor, da lengalenga irracional, da imagem de uma bruxa vestida de cigana à porta de um banco, mesmo com a caixa para pôr cartão e sair o dinheiro que paga a sina. Há umas mais caras que outras e parece que o preço depende mais da aparência do cliente do que do tamanho do mau olhado por desfazer. “Alguém lhe quer fazer muito mal”, disse-lhe. Pois. Ela de mão direita estendida e a esquerda a segurar o jornal de um dia já com cheiro a castanhas e músicas de Natal a sair não sabe bem de onde. “Há um amor que vem de longe e não a querem deixar vivê-lo.” Hummm. A coisa a compôr-se nos seus perigos. Uma a olhar nos olhos da outra e a mão aberta. Há mais. “É um mal muito grande o que lhe querem fazer”. Ai… teria sido tão mais fácil dizer não à camisola de marca que a mulher de preto trazia nos braços. Era a camisola ou a sina. A ela calhou-lhe a sina e a merda da dificuldade em dizer “não quero nada. Importa-se de me deixar seguir para uma esplanada e pedir um café com leite e ver quem passa sempre que levanto a atenção das páginas de gente que também não parece querer-me muito bem e por acaso também me manda para o multibanco sempre que tem um pretexto.”

“Se a menina quiser eu posso curar-lhe esse mal que nunca a vai deixar ser feliz.” Apre, está a ficar aflitivo. “Dá-me agora 50 euros e eu vou fazer uma reza. Segunda passa por cá e dá-me o resto, mais 50, Estou aqui à mesma hora e tenho uma coisa para lhe entregar que vai protegê-la.” É pegar ou largar, faltou dizer. E ela quase a pegar porque deixar ir era um risco demasiado arriscado. Pagar ou não ser feliz. Afinal, teria sido tão mais fácil levar a camisola de marca. Fazia-lhe um embrulho e pronto. Estava resolvida uma prenda. Por menos de 50 euros e sem desafios à sorte.

E agora? A mão continuava aberta e já ninguém a lia. A cigana esperava, que não estava ali para a enganar que Deus a castigasse se fizesse uma coisa delas ainda mais a uma menina que via-se que sofria.” Oh como a cigana sabia de psicologia humana. Estava num canto da rua, numa esquina que escolheu para as proteger do mundo, multibanco ao lado não fosse dar-se o caso de ser preciso levantar os 50 euros. Bom serviço. Cinco estrelas. A cliente não teria de se maçar muito. Marcar código e já está. Dinheiro na mão.

E ela pensava nas palavras da cigana, no enguiço que seria não haver reza. Quem não sofre? Quem não tem um amor gostava de ter? E a inveja já se sabe, anda por aí. Bruxaria de cordel e ela a cair. Ou isso ou a carteira ‘luis viton’, dizia a cigana mais nova sem o dizer, apenas abanando a mercadoria à escolha do freguês que passava. E a mais velha num murmúrio que ela já não ouvia. “É pagar ou não ser feliz”, atirava-lhe o cérebro em jeito de pregão de rua. Como passar em frente? Ó pregãozinho eficaz. E as contas de cabeça. 50 euros era dinheiro, mas não era assim tanto, e depois faz de conta que não os tinha. E já não precisava da carteira da outra. Podia também fazer de conta que não tinha ouvido nada do que lhe fora dito. “É pagar e ser feliz. Só 50 euros”, voltava a ladainha, cérebro traiçoeiro, aliado de bruxas que se vestem de boas para desfazer o mal. E outro trovão. reparou que o jornal de sábado ainda estava enrolado. Não houve esplanada nem café com leite. Pagou pela sorte e agora parece à espera que ela venha em forma de amuleto. Amanhã na mesma esquina, a salvo do mundo. “Just in case”, justifica-se, também não haveria de ser por 50 euros. Pois não?

Claro, agora só faltam os outros 50 euros.

Esquecer um café em Manhattan

Eu só queria um café.

De chávena pequena, com uma ligeira espuma por cima. Bebi-o em dois três goles até ficar com aquele amargo na boca por uns bons minutos. E isso seria bom. Mas onde?
E não queria só isso. Queria as cadeiras e as mesas onde pousasse a tralha, abrisse um livro, folheasse o jornal ou olhasse em volta, com a cabeça segura na mão. Mas onde?

Manhãs de arranha-céus são manhãs de sombra ou então de jogo de cabra-cega com o sol que quando aparece encandeia. Era de uma esplanada que eu falava. Como as da Europa, sempre postas. Chuva ou sol.

Naquela manhã de luz a magoar os olhos, fiz disso missão. Um café à europeia. Boa?
Corria seca e meca nesta teimosia. Carregava livros, computador, casaco, encontrões a joggers irritantes com a mania da saúde a inspirar tubos de escape, quando tudo ainda vai baixo, e não me refiro só à luz.
Mais veloz passa um rapaz equilibrado num skate. Não havia T-shirt nem calções.
E eu estanquei no passeio largo, a ser lavado por mexicanos de esfregona na mão. E ele no meio da avenida larga, indiferente e mais rápido do que o trânsito que àquela hora da manhã começava a encher a Lexington. Bip-bip, penso escutar. Passa por mim e por todos os carros. E eu sigo-o, atenção já desviada do café, centrada naquele ponto cada vez mais pequeno e negro que ora se agacha ora levanta como numa prancha de surf, num movimento para cortar o vento, ganhar velocidade até se perder, lá ao fundo. Ia na faixa dele, não o vi parar em semáforos, mas presumo que o tenha feito. Até porque parecia ser um ‘passageiro’ frequente daquele skate numa Manhattan em hora de ponta, fato e gravata, mala a tiracolo. Um executivo sem paciência para o metro e com um copo de café na mão para beber com uma palhinha.

Do que é que eu estava mesmo à procura?

Namoro

“Costumas contar aos teus namorados que tens herpes?”
Estavam em frente um do outro. Ele e ela fumavam cada um um cigarro tirado do mesmo maço, em cima da mesa.
Ele de óculos escuros e T-shirt amarela. Ela de óculos um pouco menos escuros e um top castanho que revelava dias e dias de sol e praia.
A pergunta foi feita assim, directa. A resposta veio do mesmo modo, sem  demonstrar o mínimo incómodo, mal-estar ou outros desconcertos.
“Claro que digo, tás parvo!” Ele pareceu esclarecido e calou-se enquanto a ouvia explicar a sintomatologia e os meios de propagação daquele “vírus”, dizia ela, que já a mãe tinha, e muitas das suas amigas e que não era assim tão mau, apenas chato e “dava bué mau aspecto”. Não era sem orgulho que afirmava nunca ter contagiado ninguém. Ele ouvia.
Um e outro, ele e ela, estavam de férias à espera que a universidade revelasse o seu grau de clausura para que um e outro, ele e ela, ficassem a saber se este seria um ano diferente. Ja era, de facto.
Falavam de uma nova fase nas suas vidas. Tinham vindo de férias. Ela, sempre a gesticular, contava da dificuldade do pai em fazer caber a prancha de surf no carro.
Ele mostrava-lhe moedas. “Quanto vale?”, perguntava ela. “5oo rupias são aí uns dez cêntimos. Guarda como recordação.” Ela virava a moeda na mão. “Ih, ih, ih, estou rica. Sabes que agora tenho a mania de rir assim, ih, ih, ih. Até escrevo nas mensagens. Estou farta do lol. Ih, ih, ih. E ele já ia noutras conversas.
Contava que estava no aeroporto a ouvir a histeria sobre o Irene. “Não me f……, aquilo foi bullshit.” Ela acendia outro cigarro e, revelando o azul claro das unhas, replicava que tinha tido alguma  gravidade, afinal morreram pessoas e sabes que lá “as casas deles são feitas de madeira ou lá o que é; não são como as nossas, de cimento e tijolo.” Ele não se deixou comover com o abalo. Nem com o dela nem com o da Irene que afinal nem foi uma tempestade mas um furacão; não foi uma ela, mas um ele mariquinhas, até que ela, a rapariga em frente, se queixou do sol que queimava naquela esplanada à beira-rio e pediu para mudarem de mesa.

À sombra, ela sentou-se ao lado dele. Pôs-lhe a mão na perna, por debaixo da mesa; com outro cigarro na mão, assegurou-lhe que o herpes só era contagioso numa determinada fase e não deixando que se fizesse algum silêncio constrangedor, começou a beijá-lo, primeiro na orelha e segundos depois já estava na boca. Ele não negou o beijo e também não deixou que houvesse silêncio.

Agora era o telemóvel dela que tinha desaparecido. Sim “aquele vermelho, o último que saiu.
Mais um beijo, mais um cigarro, mais conversa até que ela: “e se fossemos pagar e dar uma volta?” Ele não pareceu perceber à primeira aquela retórica, mas momentos depois já a acompanhava ao balcão, pagaram e ela seguiu à frente dele, a rolar a rupia na mão.