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Um homem e uma mulher

Um homem e uma mulher refugiam-se numa praia depois de terem perdido a sua mulher e o seu homem. Um e outro não se conhecem. Um e outro têm filhos e encontram-se num areal, pontualmente, primeiro, regularmente, depois. Ela era para ir embora antes, mas o imprevisto fê-la ficar no único sítio possível. Em casa dele, por uma noite. Ele e ela atraíram-se. Ela culpou-se no fim… Um filme que ficou para a história do cinema Um Homem e uma Mulher, de Claude Lelouch, com Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée e uma banda sonora com Vinicius de Moraes, Francis Lai e Baden Powell. Ganhou mais de 40 prémios em festivais de cinema, entre eles Cannes.  Não sou muito destas coisas, mas gostei de ter pisado o chão que eles pisaram, em Deauville. Isso e uma vontade enorme de rever o filme e ouvir esta “un homme et une femme

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o canto do mundo

Na jarra, flores de plástico amareleciam e a televisão estava coberta com um daqueles filtros que azulava qualquer imagem. Diziam que era para proteger os olhos de quem passava muito tempo a olhar o ecrã. Ela acreditava nisso e deixava-se recostar no sofá de napa que fazia barulho cada vez que ajeitava nele o corpo pesado.

A máquina de costura, ao lado, há muito que não tinha pés nos pedais. Só os das netas num equilibrismo pouco costureiro.
E a luz entrava pela janela de cortinas brancas, arredadas para melhor deixar entrar a luz do jardim que dava para o poço.
Levantava-se para aquecer a sopa, fazer o café ou quando uma vizinha chamava, da porta sempre aberta. Tirando isso, só desviava a atenção do aparelho colocado num dos cantos da sala para enxotar uma mosca ou quando o sono a vencia. Dizia que aquilo lhe trouxera o mundo a casa. Pena que só depois de velha, lamentava-se enquanto limpava as lentes dos óculos à bata que trazia sempre vestida por cima de uma saia e de uma blusa sem história.

Ela não sabia ler e por isso não havia nem um livro lá em casa. Era o seu maior desgosto. Nas prateleiras, cristais velhos cristalizava-se. Nas mesas, molduras de quando era nova ou dos novos que eram cada vez mais. O pai não a deixara aprender porque não a queria na “macholice”, dizia sempre como que para justificar uma ignorância de que se envergonhava mas da qual não se sentia culpada. Eram outros tempos, adiantava. Mas garantia que entendia tudo de um filme “estrangeiro”. Não precisava das legendas para nada. Não acreditam? Então que lhe peçam para contar a história do último que viu! Nunca lhe pediram, mas mesmo assim ela contava a quem se sentava ao lado para dois dedos de conversa. Este era sobre um rapaz que perdeu os pais e foi correr mundo à procura de fortuna. Encontrou uma rapariga rica, mas a família dela não o aceitou. Ela fugiu com ele, a pobre, e agora está a saber o que custa a vida.” Para ela as histórias não acabavam quando as letras “The End” surgiam no ecrã. Ela sabia o que queriam dizer tantas vezes as vira, mas depois continuava a pensar nas personagens que conhecera. “Que seria delas agora?” Calhava a ser uma neta a ouvir isto e encolhia os ombros não se atrevendo a questionar a avó. Elas sabiam que era assim, que não valia a pena cortar a fantasia àquela mulher. Era a ela que recorriam sempre que se queriam refugiar do mundo real.

A avó sabia dar a ficção necessária para que a realidade fizesse sentido, e tudo sem nunca ter lido um livro. Às vezes pedia que lhe lessem e punha um ar solene, uma mão a segurar o queixo enquanto o polegar massajava o rosto e o olhar se perdia lá para longe, para o mesmo sítio onde estava a televisão. Era daquele canto que lhe vinha o mundo.