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O tempo e um rebuçado de mentol

“Sabes, uma vez passei três dias em cima de uma árvore e a boca sabia-me a sangue.”

Ele não tinha ideia de quantas vezes já me contara aquela história. Nem eu. Os anos passavam e escutava-a como se fosse nova. Falava e não desviava os olhos da televisão, mas duvido que soubesse quem marcara o golo pelo Sporting. Festejou, claro, mas essa alegria merecia castigo. Ele não podia ter a futilidade dos que vibram com a bola. Não ele que sabia o que era ter a boca a saber a sangue. Não pela fome, mas pela sede. Estar num equilíbrio difícil, silencioso, agarrado a uma arma como à vida, se se poder deixar vencer pelo sono, estômago dormente com falta de comida, força nos limites mínimos, concentração a raiar a loucura … “mas se tu soubesses o que é não ter água para beber… Morre-se mais depressa de sede do que de fome.”

Lá estava ele e uma das primeiras verdades que me ensinou quando eu ainda não tinha idade para perceber o que era morrer, quanto mais morrer de sede. Nem ele, quando estava em cima da árvore, uns vinte anos e a levarem-no de casa para o mato, quase uma criança na sua ingenuidade rural. Era assim que falava: do mato.

E era Natal por esses dias, mas nem a lembrança das filhoses da mãe, do perú que ele aprendera a embebedar antes de ser caçado para o forno. Se ao menos pudesse ele, ali em cima daquela árvore, embebedar-se com o whisky de quinta categoria que lhe ia chegando sempre, contrabandeado, para esquecer a sede e o amargo de boca. Quantas vezes despejara garrafas só para esquecer onde estava, o que fazia? Mas era com água que sonhava. Podia vir em latrinas sujas, podia vir dos rios infectados com doenças de que ele mesmo antes de saber o nome já perdera o medo. Medo de quê quando pode vir um tiro de qualquer lado e acabar com tudo? Ele não tinha medo mas precisava de whisky. Afinal não ter medo pode ser assustador e agora o que precisava era de água porque um soldado não pode simplesmente acabar caído de uma árvore que nem um tordo. Também nunca quis tanto uma caneta e aquele bloco de folhas de carta. Não há melhor maneira de escrever sobre uma alucinação a não ser no momento em que ela está ali a alucinar. Sabia que não iria esquecer aquela sede enquanto fosse vivo, mas tudo o que contasse ou lembrasse depois seria pouco diante daquela presença.

E talvez por isso contasse tanto, logo que desceu da árvore, não fosse aquela memória diluir-se. Há coisas que matam que não queremos matar.

Contraditório? Seja, mas é assim. E lá estava ele, tantos anos depois, comando da televisão na mão, pés cruzados no conforto do sofá, a não deixar apagar. E sempre a mesma interlocutora. Ela havia de reter essa guerra onde ele ainda vivia, apesar das rugas que vieram, dos cabelos que foram, do álcool que se acumulou e quase lhe tirou o fígado, apesar do medo que voltou porque o mato estava longe e já não havia tiros, mas a vida escoava, rotineira, sem história. O medo da sem-aventura é o pior por não ter razão de ser.

É o medo dos poucochinhos, esse lume brando em que só um cancro pode aparecer como grande papão. E apareceu e a guerra perdeu valor. Por isso lamenta-se: se ao menos pudesse ter escrito essa sede nas mesmas folhas que usava para mentir para casa sobre uma guerra que ele ficcionava e onde tudo corria bem e a boca não amargava. É que agora, depois do cancro, isso não tinha a mesma importância. Daí a repetição. Era preciso repetir para fixar. Tinha o comando na mão, mas mudou de canal e calou-se. Hão-de vir outros golos a pedir lágrimas para o ilibar da alegria e desviá-lo do facto desses dias de sede estarem a perder importância na sua biografia. Mesmo que ele não queira, mesmo que o passar do tempo se assemelhe a um rebuçado de mentol a matar maus hálitos.

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O baú

Lá estava ele. 21 anos, a mesma cara, o mesmo sorriso, uma pose ensaiada para a foto. Roupa de soldado raso. Podia ser modelo para fotografia, num corpo inteiro de fazer inveja.

Lá está ela. Olha-o e reconhece-lhe o ar a que as velhas da terra chamam de “malandro”. Malandro de aldeia, daqueles que as mães temem para as filhas porque gosta da boa vida.
Ele diz que gosta do bom da vida. E lá está, soldado, na foto, como um manequim a posar. Ela, a namorada, ficou lá, entre as velhas e as outras raparigas à espera não sabe bem de quê.

Ele há-de vir se não morrer. Mesmo estropiado. E então hão-de casar e ter filhos e ir para a cidade como ela sempre sonhou. O resto é o que tem de ser. Será assim.

Não lhe ensinaram a duvidar do que tem de ser, mesmo que ela não goste muito desse ter de ser. Acomoda-se. Só não ouve o pai que, como as velhas, a avisa contra o “malandro”. Ele é bonito, que há ela fazer? E depois tem aquele sorriso… É uma foto sem cor, mas ela pinta-a com a memória.
E trocam frases que nunca ninguém sabe em cartas que sabe-se lá se chegam.

Não há outra maneira e dois anos depois ele vem.
Ela vê-o. Quase cem quilos, uma barba que lhe tapa as feições de menino, os olhar cheio de um ódio que ela não sabe o que é, e aquele sorriso, ainda sedutor, mas sem esconder a tristeza do que fez, do que viu, do que não quis fazer e que por isso foi castigado. Ela tentou ver nele o rapaz da foto, o mesmo de quem se despediu um dia, há muito tempo, num cais de Lisboa de que não lembra o nome porque estava mais atenta ao adeus.

E agora?

Ela não o vê a ele. Nem ao da foto a preto e branco que guarda entre outras numa caixa de cartão que já foi a dos sapatos que estreou para a despedida dele. Deixou-as estar ali mesmo depois da tia lhe ter oferecido um baú pequenino de madeira para guardar a sua colecção de namorada de soldado no ultramar. Uma condição de espera que o enxoval ia ajudando a atenuar. Por isso bordava, fazia rendas para lençóis. Deu para encher outro baú, o que havia de levar com ela quando fosse com ele, mesmo contra a vontade do pai.
E agora ele ali estava e ela não sabia o que fazer com ele.

Parece que o gostar se tinha ido. Que lhe chegara outro homem que a assustava e em quem não pensara quando bordara as folhas para a toalha de mesa.
Sim, ela parece que já não gostava. E disse à tia e a tia disse-lhe que agora tinha de ser. O que haveriam de dizer. E depois isso era dar razão ao pai e depois… Ela já só pensava no sonho. Na cidade. Em dar aulas a crianças, ensinar-lhes as primeiras letras. Era a sua vocação como todos lhe diziam. Menos ele. Que a queria só para ele. E agora?

E tudo o que se disse nas cartas parece já não fazer sentido. Ele trouxe as dela. Ela guarda as dele. Só eles sabem e eles não dizem.
Ele olha para ela como para uma salvação. Ela olha para ele com resignação.
Pode ser que o sorriso volte, o mesmo, o malandro. E a barba corta-se. Já o ódio… Isso ela não sabe. Nem ele.

Resta o que está na caixa de sapatos e há-de ser transferido para o tal baú quando as cartas de um e outro se juntarem. Porque elas vão juntar-se. O tal “ter de ser”. E ela há-de voltar a gostar dele quando lhe passar a surpresa dos olhos que não escondem a guerra. E o que se escreveu há-de testemunhar o antes. Porque aqui há um antes e um depois e o depois é muito maior. Trouxe uma filha. É ela quem está agora em frente ao tal baú. A filha, a tal que só conheceu o depois, tem ordem para saber o antes. Ajoelha-se diante de um baú que ninguém abriu desde que foi fechado pela primeira vez. Há mais de 40 anos. O pai e mãe estão ali, quase crianças, numa caixa fechada, em tudo o que foram e que está no que disseram, que escreveram.
E ela olha o baú sem conseguir rodar a chave.