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Vicente Jorge Silva

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“Gostava de cultivar a tal fantasia infantil, a de que vivia num mundo em que a ilha era o único universo real e tudo o que se passava fora dele era imaginário. E que os jornais que traziam as notícias do exterior eram como invenções dos Ficheiros Secretos, com situações produzidas por uma central de informação.”

Assim vão as conversas num livro que chega amanhã às livrarias. O jornalismo, o cinema, a política, os livros, a pintura, as viagens, os muitos interesses, a frontalidade, as paixões e desilusões de Vicente Jorge Silva, fundador do Publico, da Revista do Expresso, do Comércio do Funchal

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falta de memória

Escrevi isto em 2003

“Há dez anos, quando pela primeira vez tive lugar numa redacção, sempre que me entregavam um trabalho, apontavam-me um jornalista capaz de me ajudar a fazer a reconstituição de um acontecimento. À distância de umas secretárias e em poucos minutos, eu tinha o background da minha história e a informação mínima para poder levantar dúvidas e questionar os interlocutores que iria enfrentar (…). Não falo de um passado longínquo. São apenas dez anos. Mas desde então as redacções foram ficando despovoadas de memória, a memória dos jornalistas com anos de profissão que, em nome da produtividade e da contenção de custos, foram sendo dispensados pelos novos conselhos de administração a quem cumpre gerir os meios de comunicação social como empresas que têm de dar lucro sob pena de fecharem. Não questiono isso. Provavelmente não haverá outro modo e os jornais têm de funcionar e existir como empresas. Mas há uma função inerente à existência de jornais e jornalistas: informar. E a informação não é feita apenas do imediato. Não existe notícia sem um passado que a justifique. Com jornalistas cada vez mais novos, com editores sucessivamente menos experientes, informar é cada vez mais dizer o que acabou de acontecer e as notícias surgem a quem as recebe como actos isolados. A investigação quase desapareceu porque tem custos que as administrações consideram incomportáveis. Há excepções. Mas a regra é a da perda da memória. Uma memória que a Internet não preenche, apesar de ser uma ferramenta essencial à actividade dos jornalistas”.

Este artigo foi publicado na revista Jornalismo e Jornalistas em Dezembro de 2003. Chamei-lhe “Falta de memória” Mais de oito anos depois pareceu-me o princípio de qualquer coisa que está a acabar

Um caso de polícia

 

Fim de ciclo. Respirar fundo, rumar a Sul, deixar para trás a cidade mesmo que nos digam que o Verão acabou. Who cares? O telemóvel toca e há inversão de marcha. A carteira perdida fora encontrada. Estava numa das esquadras centrais da PSP de Lisboa e só eu a poderia levantar. Pareceu-me sensato. “A qualquer hora do dia ou da noite”, informou o agente Mestre. “Fique descansada, minha senhora, ela daqui não sai.” Fui na hora.

Esquadra com mais agentes do que queixosos. Apenas um casal de espanhóis vítima de fraude com um cartão de crédito. Chegou a minha vez. O mais graduado, à frente do computador, manda-me entrar na espécie de aquário. Pergunta ao que venho. Explico que apenas levantar uma carteira que tinha sido encontrada sabia lá eu onde. “Apenas”, era o que eu pensava. Santa ingenuidade. “Carteira ou mala?”, pergunta o agente. Chamemos-lhe Mota, porque é bom que a personagem tenha um nome e como são sempre apelidos, cá vai de Mota. Não estive para grandes explicações sobre a diferença entre uma carteira e uma mala. O agente abre uma gaveta. Tira vários modelos de pastas, carteiras,  porta-moedas, malas, maletas. Não, nada disso. “Só me arranjam problemas. Quando é que a avisaram?”; “Há pouco”, respondo com uma paciência que fui buscar ao fundo da mala que ainda tinha naquele final de tarde de sexta-feira, quando só me apetecia era abalar. Ir sem olhar para trás. “Ora esta”. Só visto. Arranjam-me cada uma”, continuava o graduado numa busca que foi dar a um envelope branco com o meu nome escrito em letras que desafiavam as maiores dioptrias. “Não deve ser isto. O que é isto?”: A minha carteira”. Abre então o envelope como mesmo cuidado de quem desactiva uma bomba e pergunta sobre a origem de cada papel, factura, cartão, de cada objecto. Dou por mim a decidir se me vou irritar. Opto por puxar uma cadeira. A conversa ia ser longa e eu estava há muito tempo de pé. Percebi isso ao olhar para o auto que tinha de ser preenchido pelo bronzeado e musculado agente Mota. Ele acabava de me informar que a carteira não me podia entregar a carteira porque a carteira já me tinha sido entregue. Pois. Era o que dizia no computador. Calei o que me ia pela cabeça e só disse: “como vê não foi.” Ele pareceu convencido. “Pois não.” O facto levou-o a um série de telefonemas para não sei quantos agentes a quem ia inquirindo sobre a palavra “entregue” escrita na folha de serviço. Entre chamadas, resmungava: “cambada de lorpas; querem apresentar serviço e depois  está aqui o Mota para fazer o trabalhinho.” E teclava, anotava no computador cada objecto com a respectiva descrição. O cartão de cliente da Fnac é designado como “cartão de cliente da cadeia de lojas denominada Fnac e por aí fora. Depois de escrever o nome do meu pai, da minha mãe, se sou ou não casada, pergunta-me a profissão. “Jornalista”. Levanta os olhos: “No activo?”… E entra um graduado ainda mais graduado e o agente Mota conta-lhe a história como se fosse a mais intrigante da sua semana de polícia. O outro abana a cabeça, incrédulo. Pergunta-me a seguir há quando tempo estou ali. “Há muito”; “Uns três quartos de hora”, quer certificar-se. E já o ouvia sem o escutar até me levantar, já com a carteira da mão e ele me ter interpelado: “Desculpa, falta uma coisa, qual é a marca?”… “da carteira”.

publicada em parte no suplemento Outlook do Diário Economico