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O Outubro de Cardoso Pires

José Cardoso Pires nasceu há 88 anos e este texto tem cinco.

O escritor nasceu faz hoje 83 anos. Cultivou a palavra de forma lenta, como quem dança a valsa do adeus.

Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morreu, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.

A conversa foi em Dezembro. Demorada, no tom rouco da voz. Dezembro, numa tarde fria com a pouca luz do Inverno a entrar pela janela que dava para a igreja de Alvalade. Vestia uma camisola amarela, de um amarelo desmaiado que contrastava com o amarelo dourado do copo de whisky misturado com água que ia levando à boca. Acabara de editar Lisboa, Livro de Bordo, dedicado à cidade onde só não nasceu por acaso porque, como dizia, a sua mãe tinha qualquer coisa de salmão “e ia desovar a norte”. E só por isso foi nascer a Peso, na Beira, a 2 de Outubro de 1925. Cardoso Pires conversava e falava dos seus ódios e amores. De como detestava o Natal e o campo, do politicamente incorrecto confessar que não achava Torga assim um tão grande escritor; de como embirrava com o adjectivo; da sua paixão por Lisboa e por uma boa briga; por longas conversas em bares; por se isolar na casa da Costa da Caparica, virada para o mar, onde ia desenhando na parede as movimentações das personagens, numa espécie de mapa narrativo em que se perdia como quem perde a identidade para dar identidades às personagens.

Cardoso Pires conversava, mas temia o modo como essa palavra falada podia aparecer escrita. É que para ele, a palavra escrita tinha outro ritmo. Tinha de ser escolhida. Não era ao acaso. Dizia e emendava, como quem escreve outra versão de um romance. Dizia e rescrevia o dito com um letra miudinha, pensada, limpando adjectivos, substantivando. E aquilo lido parecia rápido. Veloz como os seus romances. Engano. Cardoso Pires era lento, muito lento na escrita e fazia ironia com os escritores rápidos. Em 50 anos, publicou 18 títulos. O Delfim, Alexandra Alpha, A Balada da Praia dos Cães ficarão como textos maiores da literatura. Saíram lentos, com tantas versões até sair a certa. Cada palavra tinha de ser certeira. Nem a mais, nem a menos. E nesse medir de palavras disse: “Estou convencido de que um dia parto uma unha do pé e morro.”

Nem mais uma palavra.

Tantas histórias para contar

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Fotografia de Ângela Camila Castelo-Branco

Escolheu aquela livraria porque tinha mesas como as de café e se podia beber qualquer coisa além de água. E tinha de ser à tarde, mas não tão tarde que o seu fim de tarde, como todos os seus fins de tarde, estavam reservados para o Gambrinus, o sítio de há muito tempo onde se demorava nos cigarros, nas conversas, nas bebidas.

Chegou de casaco de bombazina cor de mel e aquele rosto sempre de sorriso desenhado de bonomia, mas era a voz que eu fixava atrás do olhar curioso, de cineasta, lembro-me de ter pensado. Ele pertencia áquele grupo de pessoas que me intimidava, à cabeça das quais eu colocava José Cardoso Pires. Acho que era a pose de uma sabedoria sincera, feita de experiência, de rua, onde entravam longas conversas, discussões, livros e um tipo de boémia que parecia estar em declínio. Íamos falar de livros. Gostos, manias, leituras, casas de venda e consulta de livros, viagens com livros, os de estima e aqueles que depois de muito tempo perderam a glória e se escondem em prateleiras cheias, atrás de outros. Quis saber de mim e eu com quase nada para dizer, enquanto brincava com um cigarro. Não recordo se se podia fumar ali. Foi há muito tempo e talvez sim porque acho que o vejo também de cigarro na boca a dizer poemas de cor. Voz rouca, lenta, um grandioso pano de fundo para as histórias que lhe saiam. Tantas. Grande contador de histórias, quem dera aos ecrãs que as pudesse filmar a todas.

Quando se levantou foi para procurar um livro. Não me disse qual e apareceu com um volume de poemas de W.H. Auden. Abriu numa página ao calhas e começou a ler aquele poeta que nunca mais esqueci e que conheci ali, de que aprendi a gostar ali. Quem bem que a poesia de Auden soava na voz de Fernando Lopes.
A conversa só acabou quando chegou a hora de ele ir até ao Rossio. Apanhamos o metro em Entrecampos e na carruagem as histórias continuaram a sair daqueles olhos risonhos.
Foi depois “Belarminho”, da adaptação de “Uma Abelha na Chuva”, de Carlos de Oliveira, e antes de “O Delfim”, aquele que eu elegeria o melhor filme de Fernando Lopes. Não sei se pelo facto de ser a adaptação de outro grande livro de José Cardoso Pires, se pela sugestão daquela conversa antes tida com o realizador.
Naquele dia ele saiu no Rossio, directo para o Gambrinus.

Voltámos a falar quando estreou “O Delfim”. Mas tínhamos antes falado dele. Em casa, quando fui falar com Maria João Seixas, a mulher. Ele segredou que já escolhera o elenco, que seria uma surpresa enorme. Pediu segredo. Guardei.

A última vez que o vi foi quando entrou no metro, na estação de Roma, a mais próxima de sua casa. Eu vinha a ler e ele sentou-se ao meu lado sem olhar para mim. Vinha de olho no jornal, com o mesmo casaco cor de mel, e seguia para o Rossio. Antes de sair, olhou para o lado e viu-me: “Tá boa?Então não me disse que estava aqui?” Tinha mais umas histórias para me contar, avisou.