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O Outubro de Cardoso Pires

José Cardoso Pires nasceu há 88 anos e este texto tem cinco.

O escritor nasceu faz hoje 83 anos. Cultivou a palavra de forma lenta, como quem dança a valsa do adeus.

Outubro, sempre Outubro. Nasceu em Outubro, faz hoje 83 anos. Morreu em Outubro está quase a fazer dez anos. Em Dezembro de 1997, pouco depois de ser o primeiro romancista a vencer o Prémio Pessoa, anunciava-me numa entrevista um novo romance para o Outubro seguinte. Foi nesse Outubro seguinte, o Outubro de 1998, que morreu, após quatro meses de coma, às duas e meia da madrugada do dia 26, sem que nenhum romance novo tivesse saído.

A conversa foi em Dezembro. Demorada, no tom rouco da voz. Dezembro, numa tarde fria com a pouca luz do Inverno a entrar pela janela que dava para a igreja de Alvalade. Vestia uma camisola amarela, de um amarelo desmaiado que contrastava com o amarelo dourado do copo de whisky misturado com água que ia levando à boca. Acabara de editar Lisboa, Livro de Bordo, dedicado à cidade onde só não nasceu por acaso porque, como dizia, a sua mãe tinha qualquer coisa de salmão “e ia desovar a norte”. E só por isso foi nascer a Peso, na Beira, a 2 de Outubro de 1925. Cardoso Pires conversava e falava dos seus ódios e amores. De como detestava o Natal e o campo, do politicamente incorrecto confessar que não achava Torga assim um tão grande escritor; de como embirrava com o adjectivo; da sua paixão por Lisboa e por uma boa briga; por longas conversas em bares; por se isolar na casa da Costa da Caparica, virada para o mar, onde ia desenhando na parede as movimentações das personagens, numa espécie de mapa narrativo em que se perdia como quem perde a identidade para dar identidades às personagens.

Cardoso Pires conversava, mas temia o modo como essa palavra falada podia aparecer escrita. É que para ele, a palavra escrita tinha outro ritmo. Tinha de ser escolhida. Não era ao acaso. Dizia e emendava, como quem escreve outra versão de um romance. Dizia e rescrevia o dito com um letra miudinha, pensada, limpando adjectivos, substantivando. E aquilo lido parecia rápido. Veloz como os seus romances. Engano. Cardoso Pires era lento, muito lento na escrita e fazia ironia com os escritores rápidos. Em 50 anos, publicou 18 títulos. O Delfim, Alexandra Alpha, A Balada da Praia dos Cães ficarão como textos maiores da literatura. Saíram lentos, com tantas versões até sair a certa. Cada palavra tinha de ser certeira. Nem a mais, nem a menos. E nesse medir de palavras disse: “Estou convencido de que um dia parto uma unha do pé e morro.”

Nem mais uma palavra.

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Os remorsos de Urbano

26 de Agosto de 2007, Urbano Tavares Rodrigues surge-me sentado numa cadeira, a uma janela de Lisboa, a brincar com o seu filho António. Estava a recuperar de um susto cardíaco. Não sabia se iria continuar a escrever. A vida provou que sim e António já deve saber ler a escrita do pai. Fica a entrevista que então publiquei, resultado de uma conversa sobre memórias.

Sempre fui um predador

Vai sair em Outubro um romance seu sobre D. António, prior do Crato, um homem que foi rei dois dias e lutou para manter a coroa portuguesa independente de Castela. O livro sai pouco depois de outro escritor, seu camarada de partido, o PCP, ter declarado que Portugal e Espanha vão ser, mais cedo ou mais tarde, um único país. Partilha esta ideia com José Saramago? 
Não. Não concordo de maneira nenhuma. Há muito que o meu herói era o prior do Crato e também tenho simpatia por Aljubarrota. Tenho um grande apreço pela cultura espanhola, mas não aceito a invasão espanhola. Não aceito ver Portugal transformado numa região de Espanha.

Em Ao Contrário das Ondas (Dom Quixote, 2006)traça um retrato negro do País. O que pensa do momento que Portugal atravessa actualmente?
Olho para Portugal com tristeza. O capitalismo neoliberal está a ser aplicado com características autoritárias pelo Governo que se diz socialista e que não tem nada uma política socialista. Tudo isso me entristece profundamente.

Este ano comemoram-se os 80 anos da Revolução Russa. Que sentido faz ser comunista hoje?
Ser comunista é, antes de mais, apreciar e admirar a atitude do Partido Comunista, a que pertenço em Portugal: defender os direitos dos trabalhadores até ao limite do possível. Essa é a missão de um partido comunista neste momento.

Continua a definir-se como um comunista?
Sim, continuo a definir-me como um homem comunista, mas não sei o que o futuro me reserva, que tipo de democracias haverá. O capitalismo neoliberal irá explodir, porque cada vez há mais bolsas de miséria, formas diversas de escravatura e há pessoas de direita que começam a sentir, com um desejo reformista, que isto possa transformar-se…

No seu entender, em quê?
Pois, não é a minha ideia. Mas não é possível fazer voltar a social-democracia.

E é possível fazer regressar o comunismo?
O comunismo da União Soviética nunca mais regressará.

Que comunismo então?
Terá de ser qualquer coisa nova. Não sou futurólogo, mas penso que haverá caminhos diversos, consoante os continentes, as condições e a vontade dos próprios povos; consoante as suas experiências. Quando falo em democracias, não falo em falsas democracias, como acho que neste momento é a nossa, mas numa democracia, por exemplo, como a que foi praticada em Porto Alegre quando houve a união do PT e do Partido Comunista dos Trabalhadores. Era uma experiência nova de democracia socialista.

É um modelo, para si?
Foi uma hipótese. Há muitas hipóteses. Não sei como vão surgir. Mas penso absolutamente que vão surgir. Há muito descontentamento.

A sua obra literária foi prejudicada pelo facto de sempre ter manifestado abertamente a sua ideologia, de ser um comunista?
Sim. Durante muito tempo o meu nome foi afastado dos meios de comunicação, até que a idade, o prestígio, o facto de nós deixarmos de ser perigosos… Tudo isso fez com que me dessem atenção.

Já não é um homem perigoso?
Os comunistas não são considerados, neste momento, homens perigosos.
Apesar da luta política, sempre disse que o amor foi o seu grande tema…
De facto. Os meus grandes temas foram o amor, a morte e o tempo.

Como é que o homem Urbano Tavares Rodrigues lida com cada um desses temas?
O tempo é o grande inimigo. Corrompe os sentimentos, degrada-os, especialmente o amor. O tempo faz apodrecer o amor. Mas o tempo também traz sabedoria, um conhecimento cada vez mais aprofundado dos seres humanos e das té-cnicas literárias, das formas de contar, o virtuosismo da narração.

E a relação com a morte, ou com o tempo que dura a vida?
Estamos sempre morrendo, mas, a certa altura, há uma revolta contra essa sombra… Normalmente na adolescência, quando a existência parece prometer-nos tudo. O Albert Camus dá muito bem isso na obra dele; esse sentimento de que a vida nos promete tudo e o que nos dá realmente é a condenação à morte.

Depois, há uma aceitação progressiva e que leva a olhar a morte com serenidade.
Tem medo de não ter tempo para fazer tudo o que lhe apetece, ou isso não o angustia?

Não me angustia, embora gostasse de deixar cá fora mais coisas. O que me angustia mais é deixar a minha mulher e os meus filhos, que precisam de mim. Tanto o António Urbano como a Isabel precisam do apoio material que lhes dou.

Para já, vai sair com um novo romance sobre o seu herói, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato. O que tem este homem de tão especial para lhe chamar herói?
Um patriota que num país vendido a Castela levanta um exército popular, pega no que resta da cavalaria de Alcácer Quibir, um exército vestido e armado à pressa que, mesmo assim, obriga os castelhanos a recuar. Mais tarde, a força numérica impõe-se e é uma derrota. Ele é um homem de múltiplas dimensões. É uma figura apaixonante. E este é o meu romance de que mais gosto. O prior do Crato é um homem erótico que teve muitas mulheres, dez filhos. É um homem religioso, que mantém sempre um diálogo com Deus, embora aos 16 anos ele tenha recusado as ordens de castidade. É também um intelectual. Fui escrevendo, escrevendo e vi surgir ali a História de Portugal, até a história da Europa, e vendo aparecer esta figura fantástica em todas as dimensões. Ele é o patriota puro, que se opõe à traição e que é ferido por um português traidor. É um homem também religioso no sentido da paixão quase panteística pela terra. Quanto terminei e reli as provas achei que tinha conseguido escrever um grande romance e um romance em que, neste momento em que há novamente uma invasão de Castela, sobretudo económica .

Acha que há paralelismo entre os dois momentos da História?
É evidente. Portugal está numa decadência extrema. Perdemos o orgulho, o sentimento patriótico. O prior do Crato levanta tudo isso.

Revê-se nesse homem?
O meu irmão Miguel [Urbano Rodrigues], quando leu o livro, disse-me: “Este é um grande livro, mas este prior do Crato tem muito de Urbano Tavares Rodrigues.”

Porquê?
Tive sempre qualquer coisa de cavaleiro andante, desde a adolescência. Antes de tomar o rumo, de querer transformar o mundo e transformar a vida e pôr a minha acção ao serviço disso, tive quase o amor do risco pelo risco. Era um homem de aventura em todos os sentidos, do acto gratuito, quase quixotesco. Há muita coisa que conduz ao grande perdedor.

Considera-se um grande perdedor?
Eu fui um grande perdedor. Em muitas coisas. Fui preso, fui torturado…

É como perdedor que se vê hoje?
(Silêncio) Sou alguém com uma obra que fica depois de mim.

Falava dos remorsos que o prior do Crato teve em relação a certas mulheres. Esse remorso também existe em si?
Sim. Sim. A minha relação com o sexo feminino limita-se hoje à milha mulher (risos). Mas eu olho e olhei sempre com encantamento para a mulher. A mulher como amiga, como namorada, como amante. A mulher foi sempre, para mim, uma forma de compreender melhor o mundo, de ir às raízes da vida. A experiência da mulher é, para mim, uma experiência erótica ou foi muito uma experiência erótica, mas algumas vezes pensei que estava a usar mulheres um pouco como instrumentos.

Instrumentos de quê?
A sugar tudo o que elas me podiam trazer de compreensão mais ampla do mundo.

Foi egoísta?
Sim, fui e acusei-me disso a mim próprio. Mas, por outro lado, desculpava-me. Era a altura do make love not war. Havia uma grande liberdade e nem sempre era eu que me aproximava das mulheres. Eram elas que se aproximavam de mim também.

E era difícil resistir?
Era. (risos)

Lembra-se de todas as mulheres que passaram pela sua vida?
Não, não me lembro. (Silêncio) Às vezes penso nisso. É a memória. Não me lembro de coisas muito fugazes. Às mais importantes, com quem tive um envolvimento afectivo e erótico, não se pode fugir. Nem com a memória. |

Os últimos dois anos foram especialmente ricos para si. Traduziu Decameron, escreveu um romance, lançou as suas obras completas, teve um filho e vem aí outro romance…
Exacto, mas em relação ao filho passamos ao de cima que não gosto de sensacionalismo. Isso é uma coisa que atrai muito as revistas de moda… Mas adoro o menino. É um encantamento.

É verdade que já quase não sai de casa?
Por causa destes andares. São dois, quase três.

Nem para férias?
Pensei nisso por causa deles. Tinha pensado ir para o pé do mar…

Nadava todos os dias…
Sim, gostava imenso de nadar, mas agora não posso por causa da insuficiência cardíaca que me detectaram. Nadei toda a vida.

O que planeia ainda escrever?
Tenho um livro de contos pronto. Não sei quando será publicado. Chama-se A Última Colina e uma coisa que se chama O Cornetim Encarnado, onde tenho reflexões, bocados de diário, poemas, pequenos contos, memórias até. Está para aí.

Não vai publicar?
Não sei.

O que ocupa mais espaço nessas memórias?
O lembrar-me… Por exemplo, uma evocação dos meus encontros com Vinícius de Moraes. Eu era professor na Sorbonne, muito jovem, e encarregado de curso, e o Vinícius era secretário da embaixada. Comecei a falar com ele numa festa de Carnaval em que ele esteve a tocar violão. Lembro-me de amigos que tive e evoluíram diferentemente na vida e foram figuras marcantes na minha obra. Estão no princípio e, quem souber ler, vê que continuam lá. Albert Camus, Jean-Paul Sartre, André Malraux. Fui amigo do Camus, conheci um pouco Sartre, dei-me com ele, estivemos juntos num congresso para a liberdade da cultura em Florença. Com o Malraux dei-me pouco mas é como se me tivesse dado sempre. Livros como A Esperança ou A Condição Humana marcaram para sempre a minha personalidade e a minha obra

O que lê, agora?
Continuo a ler muito. Li recentemente um livro muito interessante que recomendo, do Santiago Gamboa, A Síndrome de Ulisses

A sua escrita tem um sítio…
O Alentejo, Lisboa, Paris…

Mantém uma rotina diária de escrita?
Não consigo. Escrevo de vez em quando num caderno.

Escreve nesta secretária?
Muitas vezes. Mas não tenho sítio fixo. Quando a luz é boa venho para aqui, outras vezes escrevo lá dentro… Temos um living e tenho lá o meu cantinho com o candeeiro.

É um homem de hábitos?
Nunca fui um homem de hábitos. Agora tenho alguns. Deve ser por estar em casa.

Azul com nuvens

O homem saiu do hotel de calções e escorregou ao por o pé na chuva. Lisboa estava vazia naquele domingo de manhã. O céu de fundo azul tinha todas as tonalidades de cinza e a água caia quando queria surpreendendo quem olha apenas em frente quando quer saber do tempo, distraído sobre a importância de olhar para cima.

A manhã era nova mas já vira muito. O mendigo encolhia-se cada no vão de escadas da Rodrigo da Fonseca sem se emocionar com o cheiro a terra molhada que fizera um casal aos beijos demorar-se na varanda.

Ao som dos Tindersticks na Radar, a voz de Stuart Staples em “Slippin’ Shoes”, um carro avança na estrada e aquele melancolia tem tudo a ver. A música sabe como tirar as palavras a quem tem muito para dizer e resumir tudo num olhar.

Lá em cima, os aviões já voam sem saber que cá em baixo há um homem novo que segura uma criança no colo enquanto a outra se lhe agarra às calças. Uma mulher olha. Fortaleza que controla emoções. O homem tem os olhos a brilhar, as crianças o riso de quem ainda não sabe. Está assim o aeroporto, cheio dos novos emigrantes portugueses. Homens que vão sozinhos escondendo a vergonha e o embaraço de quem não sabia destas lágrimas. Ele é um desses, camisa de ganga fora das calças, emoções engolidas em seco. Só se desmancha quando dá um beijo na mulher. Despedida de mãos vazias. A mala já foi. Tem bilhete de ida e perde na fila da segurança.

Há mais como ele. Histórias que imagino esquecendo-me da minha e fingindo-me repórter num sítio onde não sou. E o carro corre devagar pelas ruas desertas. Sabia bem café com leite e torradas. Talvez um ramo de flores frescas. Há um avião que sobe e emudece o som da rádio.

O pastor

Camille Pissarro, Shepherd and Sheep, 1888

Camille Pissarro, pastor e ovelhas, 1888

Ele estava por tudo, até ser pastor. Há uns dias chamaram-no do centro de emprego. Era para ser pastor, pastar ovelhas numa serra do distrito de Faro. Ele, que vive em Lisboa, passou por Nova Iorque, parou uns tempos em Berlim e nasceu na Roménia. Foi à entrevista. Mas 250 euros por mês era pouco para enlouquecer no pasto e a senhora da repartição disse-lhe que era como quisesse, mas achava que ele tinha qualificações a mais para a tarefa. Ficou de voltar, para o emprego, ou desemprego.

Ilíada, a cabeleireira

Era nova no bairro e arriscou entrar no cabeleireiro com a angústia feminina de entregar o cabelo a mãos desconhecidas. Perguntou se havia vaga para agora. “Tem preferência?” Não tinha. Preferia não estar ali. Atrás do balcão a mulher de óculos, inexpressiva, passou o dedo pelo bloco que tinha à frente.

“A Ilíada está disponível, pode ser?” A naturalidade com que aquele nome foi dito só permitia uma resposta. Claro que podia. A Ilíada.

Numa rua de um bairro de Lisboa, Ilíada era uma cabeleireira sem nada de homérico. A sua odisseia era a dos cabelos, metro à porta, metro de volta para o autocarro e depois para um apartamento em Famões. Cabelo escadeado, preto retinto, asa de corvo, falso ou verdadeiro, pouco importa que masque pastilha e use uns jeans alguns números abaixo do tamanho, rapariga a puxar para o gordinho, figura pouco épica que arrumava a história do seu nome na história da família.

“Nome raro o seu”.

“É, nem fala, minha avó chamava assim e meus pais quiseram homenagear ela.” E já está de bata na mão, ajudando-a a vestir, gingona, ar feliz, sem tragédia que se adivinhe. Claro que se entregou a Ilíada, a imigrante brasileira, que já ouvira falar que havia um livro com o nome dela. “Dizem que é muito bom, mas eu me canso a ler, sei lá.” Falava e lavava a cabeça da outra que queria parecer menos espantada, menos curiosa, menos uma série de coisas.

“As pessoas sempre estranham.” E sem mais curiosidade, Ilíada, a cabeleireira, perguntava pelo corte, desaconselhava a franja, ensaiava penteados.”Não é para si, seu rosto não pede”. Que sim, tudo bem, Ilíada.

Sabedoria não lhe faltava, nem balanço. A Grécia tão longe dela e tão perto de nós. E havia um livro por abri que ficou fechado, no colo. Só havia olhos para as mãos de Ilíada ainda cheia de Carnaval, mesmo sendo Quaresma. Falou que era baiana e baiana  samba. Ilíada falava e ela tomava notas mentalmente. Percorria o clássico com a memória e regressava sempre ao espelho onde estava a baiana que sambava e gostava de Carnaval e… Ela queria saber mais

Onde é que estava a angústia? Aquela que desassossega em cada corte como se nele fosse algo de muito dentro e viesse algo que não se sabe bem como é, como fica. Não se via essa inquietação. Haveria ainda? Ela só sabia nunca vira uma Ilíada, essa era a história. Há livros que nos mudam, dizem. A Ilíada terá mudado muita gente. E esta? Quem terá mudado por ela? Ainda se fosse Eneida… Eneidas há muitas. Virgílio nisso conseguiu ser mais popular que Homero. Ilíada já estava de tesoura na mão e foi aí que se deu o golpe na narrativa. Cada uma das duas saberá do silêncio que guardou até a cadeira ficar vazia, a mulher do balcão fazer a conta, o bom dia já e até um dia destes, Ilíada.

Talvez volte para saber mais da história, talvez volte na ilusão de algo ainda mais épico do que o puro acaso de ter conhecido Ilíada, a cabeleireira, que todos os dias apanha o metro e depois o autocarro e volta à noite para Famões e lhe deu um rosto novo e mudou o seu dia.

Um hora antes, ela vira o nevoeiro a desfazer-se no fim da rua e entrou no cabeleireiro.

O senhor do 2º frente

O senhor do segundo andar da frente hoje não se ouviu. Costuma gritar aos domingos.

Da janela, só o recorte de chaminés em fundo azul. Sorte de viver por cima e puder escolher onde olhar.
Ele costuma arrastar-se na escuridão, a sua janela com os vidros amarelos de tanto pó e tempo. À noite as cortinas rasgadas só deixam passar a iluminação da vela. E ele como um espetro pelo casarão. Cabelos da cor das cortinas, barbas que não sei onde acabam. Penso em Charles Dickens e nos seus andrajosos, quem sabe se induzida pela leitura recente. São Tempos Difíceis que não parecem coisa deste tempo.

Às vezes vejo-o num cadeirão roto, a cabeça apoiada numa mesa onde parece haver uma jarra com flores caídas. Não sei se secas se de plástico, mas ali há anos. Ele esqueceu-se delas e alguém se esqueceu dele, o louco, o doido, o que é maluco, que um dia se passou. É o que dizem. A vizinha do lado, por exemplo, tão curiosa da loucura que a espreita de lado como se olhasse sem querer.
A loucura atrai os aborrecidos. Parece vertigem. Um passo em falso e … Ainda se a sua loucura pudesse ser subtraída ao mundo! Isso era o que queria o de baixo, aquele a quem o de cima incomoda o sossego da menina que dorme durante as tardes.

E eu à espreita, refugiada na minha janela indiscreta, numa conversa muda e surda.

Será que o louco é mesmo doido? Quem lhe leva a garrafa que tem sempre na mão? Vejo tudo menos a porta da frente. Será que sai? Terei alguma vez cruzado os meus passos com os dele? Não o sei fora das sombras e a vizinha não tem espelhos nos olhos quando tira a roupa da máquina e a sacode com a cabeça virada num torcicolo coscuvilheiro. O Estendal para um lado, os olhos para o outro. Habilidades de comadre treinada no jogo do por detrás das cortinas. Por isso sombra é tudo o que sei dele e a comadre lá prende a toalha ao arame, uma mola na mão outra na boca e toda ela é cor e espalhafato.

Mas hoje nem ele nem ela. Só o céu azul e as chaminés. De vez em quando um avião na autoestrada aérea.

Nem o homem do rés-do-chão aproveitou para se bronzear na espreguiçadeira. Verão ou inverno, haja sol. Só se levanta quando o tal do louco grita e incomoda a menina. Nunca a vi, mas é o que ele costuma dizer: “Cale-se que a menina está a dormir.” Uma vez subiu as escadas de serviço e foi bater à janela das sombras. Que chamava a polícia, que haveriam de o levar para o Júlio de Matos, que não se podia com o cheiro. E lá veio a do lado, mãos nos bolsos na bata de andar por casa, cabelo louro de raízes pretas. Que o levem, pois, “já não se pode”.

O que se pode? Será que o levaram? Não se ouve. Um grito, um protesto, vidros a partirem contra sabe-se lá o quê. A casa continua amarela e há roupa ao vento nos quintais. Nunca no estendal do maluco que tem os arames caídos. Será que uma mãe o deixou por ali, a mulher fugiu? O abandono feminino às vezes dá em loucura. A literatura está cheia disso. E esses quintais? Os turistas pintam-nos dos miradouros mas não vêm as esfinges nem ouvem os seus lamentos. Se eu pintasse e fosse turista e estivesse num miradouro… Mas não sou nada disso, apenas tenho a janela e a proximidade e tento inventar vidas para aquele vulto tão perto de mim. A sombra que me põe a pensar que talvez ele não seja afinal doido, ou nem sempre louco. Sei lá.

O sol vai doirando o fim de tarde e na penumbra a normalidade confunde-se com o resto.
Pode ser que ele esteja lá e apenas não tenha uma vela para acender e me veja como uma sombra a quem me chame louca.

A dúvida

Ela nunca acreditou. Ficava em silêncio, a mão no queixo com o olhar longe, os dedos inquietos. De vez em quando uma pergunta. “Como é se pode tirar uma costela a um homem e daí fazer uma mulher?”, e os olhos continuavam a ver se viam esse momento que lhe tinham dito estar no princípio de tudo.  Só depois olhava para mim. Esperava uma resposta. Eu olhava para cima, pescoço o mais para trás que podia, pequena demais para responder a alguém que me ensinava quase tudo. Dela eu não esperava perguntas, não a mim. Mas ela não tinha medo daquela exposição. Não se via sábia. Como podia? Não sabia uma letra a não ser o seu A do nome que aprendeu a assinar há muito tempo quando era baby-sitter numa família rica de judeus que fugiram da II Guerra. Trocaram Paris por Lisboa quando as meninas das aldeias iam para a cidade “servir”.

Era assim que dizia. Que tinha “servido”. Filha única de um pai que tinha sido menino rico e a quem uma madrasta má tirara tudo. Contava numa sequência que eu conhecia de cor. Vinha então a história da mãe que não a tinha deixado ir à escola porque uma menina não andava sozinha na rua, na macholice com os rapazes e então a menina em vez de aprender a ler foi para Lisboa tomar conta de crianças mais pequenas do que ela e foi uma dessas crianças, a Mané, quem a ensinou a “assinar”. Ela aprendeu a desenhar essas letras e a falar francês. Duas ou três frases que repetia para mostrar que era verdade o que dizia.

Mas estava a servir e não esquecia essa condição de humildade, servil aos que não se cansavam de lhe elogiar a beleza, a elegância, os modos e a desafiavam para ser mais do que ser mais do que a rapariga de avental branco com folhos. Ela baixava a cabeça. Era aquela que não sabia ler nem escrever e estava ali para “servir” e isso só a a podia fazer baixar os olhos, ela, naturalmente altiva, de uma altivez que se tem ou não se tem. Não se ensina. Baixava os olhos, esperava, recuava, tinha medo de ser gozada e quis alguém da sua condição em vez do oficial da Marinha que lhe propusera casamento. “A mim! Eu que nem sabia ler! Comigo não gozam.” Disse não, mandou-o à vida, sabia qual era o seu lugar. Gostava da cidade mas via no campo a protecção contra o que chamava “a sua ignorância”. Ia voltar ainda que isso a fizesse chorar.

“E dizem que o homem foi à Lua. Inventam cada uma. E depois há quem acredite. Mas também não admira, agora fazem tudo!”, continuava no seu monólogo desafiante. A neta que sabia ler, só tinha de lhe saber explicar. Era essa a sua obrigação ainda que tivesse uma boneca na mão com uns cabelos para pentear. Para ela, a avó, Deus e a Lua estavam no mesmo patamar. Questão de fé. E ela tinha fé e ai de quem duvidasse disso. Tinham-lhe dito que era assim e acreditava. Menos quando estava com a neta. Aí lançava as suas dúvidas à espera de uma explicação mas sem a pedir. E a neta ouvia-a, como a ouvira ensinar-lhe a contar as horas conforme o movimento dos ponteiros do relógio-despertador no quarto do avô, mesmo ao lado do chapeleiro, na mesma mesa de tampo de mármore branco onde apoiava o corpo pequeno, encavalitado numa perna e a outra a abanar no ar, suspensa da cadeira, enquanto a avó lhe ditava cartas para a família em Lisboa.  – “Como estás? Espero que de saúde que nós por cá vamos andando…” Dizia isto com a mesma expressão com que interrogava o mundo, intrigada com o mecanismo que fazia a neta pequena escrever, sem perceber como aquelas letras formavam um sentido numa folha de papel de linhas na letra desalinhada de quem ainda não foi à escola mas já sabe o que ela nunca soube.

“Tu, que sabes ler podes saber tudo”, afirmava. “Diz lá, será possível fazer uma mulher da costela de um homem?” Aí, o olhar já se fixava em mim, inquiridor, impaciente. Afinal, eu que sabia ler não sabia isso? “Toca a aprender”, mandava.  E seguia, com o olhar a duvidar do que afirmava em frente a todos, ser uma certeza. “Como não?”

Menos à neta a quem ensinou o que era a dúvida.

Guiador de comida

A minha mãe passou a enorme fila de clientes e pediu por tudo que a deixassem telefonar. “Se quiser fique com o meu relógio”, disse. Era a única coisa que tinha depois da porta de casa se ter fechado, deixando-a trancada na rua. Do outro lado do balcão, a mulher com ar de sargento perdeu a fúria, adoçou-se depois do silêncio do desconcerto. E quem conhece, sabe que essa doçura não é fácil. “Fica mas é cá a senhora a lavar pratos”, foi o mais açucarado que lhe saiu.

Os frequentadores sabem dos riscos de furar aquela fila, sobretudo aos sábados de manhã. O Espigasol faz parte da minha vida em Lisboa. Comprar os caseirinhos para o lanche, as areias para ir debicando. Todos os dias, paragem obrigatória a caminho de casa. Era assim e agora vejo-a no “Lisboa à Mesa” e é como ver revelado um segredo à cidade, coisa pessoal.

É assim o guia de que se fala, revelador de intimidades urbanas descobertas ao ritmo de passeios a pé.  Restaurantes, tascas, mercearias e mercados, lojas gourmet e uma drogaria como só aquela, lá para Santos. É o essencial guia para foodies. Gente que gosta de comida, de passeios pela cidade e de se rever nas palavras desse caminhante citadino que o Miguel Pires é e que passou agora para o papel. 50 lugares favoritos onde comer, 25 lugares favoritos onde comprar, 280 entradas escolhidas segundo um critério pessoal, sempre que possível com um factor distintivo face ao resto, o tal factor ‘X’, como lhe chama o autor. Lugares únicos onde comer, onde encher o cesto ou fazer o gosto à gula. não, um, mas antes O petisco, ou pitéu… de se comer.

O meu guia já tem uma nódoa. Sorry. Sinal de uso em sítios de comer. Anda comigo pela cozinha. É onde gosto mais de o consultar. E onde está a nódoa? No Espigasol, mesmo ali no factor X: “se tiver dúvidas, faça uma ou outra pergunta, mas não abuse. Em caso de desespero, peça o mesmo que o cliente anterior. Acima de tudo, não quebre o ritmo do atendimento. A gerência agradece.”

Este guia de Lisboa, agora publicado pela Planeta, e assinado pelo Miguel Pires, estava longe de ser editado quando a minha mãe quase hipotecou o relógio por um telefonema. Por essa altura o Miguel andava pelo mundo da publicidade e comia nas horas vagas. Agora é um dos nomes mais respeitados a escrever sobre lugares de comida e um dos três fundadores do blogue Mesa Marcada, com o Duarte Calvão e o Rui Falcão.

Fez um guia de escolhas. Notam-se faltas. É natural. A ideia não era ser exaustivo. Era seleccionar. E não contempla alguns dos espaços que abriram nos últimos dois meses por razões de produção editorial. O “Lisboa à Mesa” é lançado hoje, na Livraria Ler Devagar da LX Factory, mas já está disponível.

Destaque ainda para o trabalho gráfico de Luís Alvoeiro Quaresma e para as ilustrações de Tiago Albuquerque.

Mistérios de Lisboa

“Lisboa é grande?” Ela brincava com as peças do lego e não desviava os olhos da construção que já sabia de cor. Cotovelos apoiados na mesa, pés a balançar no ar. “Muito grande”, e a mãe sem tirar os olhos da revista. “Do tamanho de quê?”, a cabeça de lado, a mirar o já construído. “É grande, é uma cidade, a maior de Portugal, com muita gente a viver lá, e muitos carros, e prédios altos.” A mãe estava determinada a não deixar uma pergunta da filha sem resposta. “Mas grande como, maior que Torres?” E os olhos já não estavam o lego. Olhavam a mulher de quem esperava todas as respostas sobre o mundo. “Sim, muito maior que Torres.” Hmmm… o silêncio não era sinal de desistência, a mãe sabia. Ela sabia que a filha não estava esclarecida. Os pés a balançar, a distracção ensaiada, era sinal disso. “Maior que de Torres até lá?” Há um limite para paciência de mãe ou pelo menos um ponto em que a mãe sabe que não vai mais ter reposta para a filha de três anos que era eu. Ela queria saber da grandeza de uma cidade que aprendera como um sonho das histórias dos adultos, dos filmes, a cidade onde ia muitas vezes para ver um médico de bata branca. Gostava dele mas não gostava do cheiro. Disseram-lhe que era éter e ela passou a odiar éter. E só por chorar por causa do éter, levaram-na ao Jardim Zoológico e para que não pensasse que Lisboa era só feita de éter. Ela já desconfiava. Não devia ser por causa desse cheiro que a mãe queria ir viver lá apesar dos protestos do pai, que a avó dizia ter saudades da terra onde não havia só sirenes que haviam de levar alguém até ao éter. Por isso mostraram-lhe o rio, e as ruas e as pessoas e os cafés onde havia máquinas de davam ovos que davam brinquedos e ele aprendeu a dizer que um dia queria ir para lá. quando fosse grande queria ser de Lisboa. Quando fosse grande como Lisboa. A mãe haveria de gostar, Talvez fosse com ela. O pior era o pai que não queria ir. Um dia ela foi. Já era quase grande e ainda não fazia ideia do tamanho de Lisboa. Sabia só que era a terra da avó e por isso não acreditava quando lhe diziam que quem era de Lisboa não tinha terra. E fez bem. Hoje quando sai tem saudades de Lisboa como quem tem saudades da terra. Dos cheiros, das pessoas, do anonimato, da língua afiada da porteira. Dos becos com histórias expostas, dos bairros que são como aldeias ou dos vizinhos que não se querem falar porque não querem que seja como lá na aldeias de onde muitos vieram. Ela é das que gosta do anonimato, Do “Bom dia e um galão”, isso que poucos confessam mas que não quer dizer mais a não ser “Preservo-me”. Deve ser uma protecção, defesa, qualquer sinónimo associado ao pudor da não exibição da vida. A tal associação ao “cuidado” que lhe recomendaram quando saiu de casa. E depois de Lisboa vieram outras cidades ainda maiores, sempre com Lisboa a servir de escala de grandeza. Havia as mais pequenas, as mais cosmopolitas, as mais feias, as mais caóticas, as mais frias, as mais quentes. Lisboa o termo de comparação. Talvez o dobro do Porto, sem o charme de Paris, um encanto como o de Roma, mínima em relação a Tóquio, muito menos cosmopolita que Nova Iorque, mas nunca a digam menos bonita que… Diferente, é isso. “De que tamanho e Lisboa?” foi a primeira formulação de uma tentativa de entendimento de algo complexo. Seguiram-se outras. Mistérios desfeitos, mas o de Lisboa manteve-se. Apesar do mal que lhe vão fazendo, Lisboa sobrevive revelando uma enorme capacidade de regeneração. Já viram quantas feridas? É coisa viva. E tantos anos depois, adoptando a cidade como terra, posso andar por muitas, viver em tantas, mas continua sem resposta a pergunta feita à mãe, um dia, faz muito tempo. “Lisboa é do tamanho de quê?” Se isto fosse um filme agora entrava o silêncio e talvez o genérico.

Acreditam?

Como é que eu podia convencer o velhote a quem passei uma rasteira sem querer, como é óbvio, de que a rasteira foi sem querer, que por uma coincidência do demo saí da porta e pus o pé no passeio ao mesmo tempo em que ele ia a passar no passeio e ele caiu redondo no chão chamando-me mulher do caralho? Isso, assim, à lisboeta e em bom som para a vizinhança ouvir no eco da manhã das ruas estreitas. Como ia eu convencê-lo, a ele que estava ali, no chão e se negava a que eu o ajudasse a levantar, continuando deitado porque as forças lhe iam todas para a voz, para gritar um nome que nunca me tinham chamado. “O senhor está bem? Como lhe explicar? E já as vizinhas tomavam partido dele, às janelas; as que se abriram porque das outras, onde as cortinas apenas se arredaram, veio a acusação.
Melhor seguir, engolir a vergonha, o segundo embaraço de um dia que começara há pouco mais de uma hora hora. Antes, no metro, foi o pé que me escorregou ao descruzar as pernas e sai disparado indo embater na canela da passageira da frente que deu um tremendo ai. Sim, fui eu quem lhe pós a perna a sangrar, mas não foi de propósito, mesmo. Acreditam?